CAPÍTULO XIX

Remus entra correndo quando ouve meu grito.

- Meu Deus, Lily! Que diabos aconteceu agora?

Aperto os braços ao redor do meu corpo e saio o mais depressa possível das vizinhanças da cama. Aponto para a cama, gesticulando como uma louca. Minha boca está paralisada de medo. Não gosto nada das aranhas comuns de jardins, muito menos das que são do tamanho do seu punho fechado e atendem pelo nome de Poppet.

- O quê? Baixou uma anfitriã pombajira em você? Não vejo...

Aponto com o dedo em direção de Poppet até que Remus finalmente entende o recado e olha cautelosamente para o chão.

- JE-SUS! - ele grita e sai correndo para ficar do meu lado no outro canto do quarto. - O que vamos fazer?

- James! - consigo murmurar o nome e saímos correndo pela porta numa confusão de membros, pois parecemos estar com as pernas coladas.

Acredite em mim, eu consigo correr quando quero. E eu quero, quero muito. Quando chegamos ao escritório, James está falando com alguém ao celular. Ele já deve ter falado com tia Flo. Puxo insistentemente sua camisa e ele me olha feio. Puxo o tecido como uma louca durante alguns segundos enquanto ele discute índices da capitalização de benefícios e coisas do gênero.

Meu Deus! Pensar que eu quase pus a mão nela! Quem sabe ela me mordeu e, no calor o momento, eu não percebi. Examino minha mão ansiosamente, procurando marcas de dentada. James me olha preocupado, mas continua com a conversa. Puxo novamente a camisa dele, de modo irritante.

- James, James, James, Jaaaaames - sibilo, dando a impressão de que estou prestes a fazer xixi nas calças. Acho que ele percebeu o tom de urgência na minha voz porque diz para a pessoa do outro lado que vai ter que ligar de volta e desliga.

- O que é?

- É Poppet. Está no quarto do Sr. Fudge.

- Tem certeza?

- Absoluta. Ela quase devorou o meu braço!

- Por que não a apanhou?

Olho para ele como se estivesse falando russo. Este homem está no mesmo planeta que eu?

- Apanhá-la?

- Com um copo ou coisa parecida?

- Um copo? James, ela é do tamanho da minha mão. Que tipo de copo você tem em mente.

- Bom, você não pode ter pegado nela com a mão?

- Eu sou só a humilde Lily. Você deve estar pensando na Incrível Lily, a Domadora de Aranhas. Eu não chego perto daquele bicho.

- Meu Deus! Se você quer que algo seja feito bem... - E sai ventando pelo quarto, resmungando para si mesmo. É um mal-agradecido ou não é?

Remus e eu corremos atrás deles enquanto sobre os degraus de três em três. Conseguimos alcançá-lo no corredor. James bate levemente na porta do quarto do Sr. Fudge e espia lá dentro. Ele olha para nós.

- Eu fico aqui - diz Remus. - Assobio se alguém aparecer.

- Mas eu também sei assobiar - protesto.

- Não tão bem quanto eu - diz Remus, me empurrando com vontade para o quarto de Poppet.

- Talvez nós dois podíamos assobiar? - sugiro, desesperada.

- Não seja tonta, Lily. Vou precisar de ajuda - diz James, agarrando minha mão e me puxando para dentro do quarto. Alguma ajuda? Será que posso ajudar a cinco metros de distância? Espero que sim, porque é a única assistência que acho que posso dar.

Caminhamos pé ante pé no quarto.

- Onde está ela? - sussurra James.

- Perto da cama - sussurro de volta. Andamos cautelosamente em direção à cama. - Uso o plural aqui com uma certa liberdade poética, porque não estou indo nem até o meio do quarto.

- Onde? - ele sussurra, de costas para mim. - Lily! Venha cá! Ela não vai morder você!

- Não é só o verbo morder que está me incomodando. São todos os verbos, o andar, o sentar, o mover, até simplesmente o ser, é isso que está me preocupando. Ando outro centímetro e meio na direção dele e aponto.

- Ela está ali. Ao pé da cama - sussurro, mas de repente ouvimos o som inconfundível de alguém assobiando. De um modo bastante histérico. Nossos olhos se encontram por um momento.

- Rápido, alguém está vindo! Para debaixo da cama!

- Debaixo da cama? - Ele ficou louco? Eu não vou ficar no mesmo lugar que a aranha.

O assobio fica mais alto e muda para um cantarolar.

- Ok, dentro do guarda-roupa, então!

Corremos para o guarda-roupa. Me jogo dentro dele perigosamente, e James me segue. Ele aterrissa pesadamente em cima de mim e fecha a porta.

Levo alguns segundos para arrumar meus membros, e outro segundo para perceber que fizemos as coisas de modo errado. Estou deitada com a cabeça em um ângulo torto, minha bochecha apertada contra a madeira e o cheiro de naftalina bem no meu nariz. Não estamos falando de um guarda-roupa excepcionalmente grande aqui, e ele certamente não foi projetado para acomodar dois adultos. Minhas pernas estão enroladas debaixo do meu corpo e meu vestido está enrolado em volta das minhas pernas. Tento respirar silenciosamente e ficar completamente imóvel, mas parece que estou consumindo grandes golfadas de ar e meus pulmões estão com cãibras. Além do mais, sinto que, a cada movimento de mão que faço, encosto em partes de James que não deveria estar encostando.

Rezo para Deus, Buda, Alá e quem mais possa estar ouvindo para que o Sr. Fudge não decida abrir o seu próprio guarda-roupa. Porque o que vamos dizer se ele nos encontra aqui dentro? Olá, tudo bem? Mordo o lábio porque sinto uma onda de risadas histéricas subir pela minha garganta. Mas, quanto mais me esforço para impedi-la, mais forte ela se torna. Deixa disso, Lily! Não se deixe vencer. Não é hora de ser invadida por risadinhas. Consigo localizar minha perna com a mão e enfio as unhas com força. Devo pensar em coisas tristes. Devo pensar em coisas mortas e políticos nus e... A Noviça Rebelde. Puxa, isto não está certo, está? O problema é que não é nada fácil manter as coisas em perspectiva quando seu rosto está achatado contra o fundo de um guarda-roupa. Quero dizer, não é exatamente uma postura meditativa, é? Você não vê gurus de ioga dizendo que o melhor lugar para encontrar a paz interior é dentro de um guarda-roupa.

Começo a respirar pesadamente pelo nariz. Preciso pensar em James, porque aposto que ele não está achando a menor graça nisso tudo. Ele deve estar levando tudo isso muito a sério porque, vamos e venhamos, se formos encontrados dentro deste guarda-roupa, todas as negociações vão por água abaixo. De repente, sinto a perna de James estremecer. E mais uma vez. Um tipo de tremor. Instintivamente, sei do que se trata e a onda de risadas histéricas ameaça tomar completamente conta de mim. Ele está tentando desesperadamente não cair na gargalhada. Absoluta e desesperadamente. Nós dois respiramos fundo juntos, e sinto a mão dele procurando a minha. Ele a agarra e a aperta com força, tentando manter algum controle. Eu aperto de volta e enterro meu rosto em seu peito, rezando por uma saída.

Que surge na forma de Remus, que abre cautelosamente a porta do guarda-roupa e sussurra:

- Lily? James? Vocês estão aí? - Soltamos a respiração e fazemos aqueles estranhos barulhinhos que parecem vir do seu estômago.

James engatinha para fora primeiro, dando sem querer uma joelhada no meu plexo solar e caindo no chão. Eu começo a dar risadinhas histéricas e preciso ser praticamente carregada para fora do armário, pois pareço ter perdido temporariamente o uso das pernas e estou quase sem poder respirar. Remus e James colocam uma mão cada embaixo de minhas axilas e me levantam, calcinhas à mostra, e ambos estão às gargalhadas.

- Era o Sr. Fudge? - James pergunta.

Remus acena que sim com a cabeça.

- Graças a Deus ele entrou e saiu. Não sei o que voc~es fariam se ele decidisse tirar uma soneca ou trocar de roupa.

Todos ficamos sentados no chão e esperamos alguns minutos até nos acalmarmos. Finalmente conseguimos ter forças para levantar, nos arrumamos e voltamos ao perigoso negócio de caçar a aranha.

James olha sem medo para Poppet enquanto Remus e eu ficamos a uns metros de distância. Ele chega cada vez mais perto, até que simplesmente se abaixa e pega a aranha. Meus olhos quase saem das órbitas. Não há fim para a bravura deste homem? Ele é como uma espécie de semideus, sem nenhum medo de homens e feras.

- Lily, o quão perto você chegou dela? - ele agita Poppet para lá e para cá. Não gosto muito dela, e realmente não acho que James deveria estar balançando a aranha daquele modo. Ela pode ficar zangada.

Consigo tirar meus olhos daquela forma balançante.

- James, eu realmente não acho que você devia estar chacoalhando a aranha desse modo. Tia Flo ficaria...

- Você olhou mesmo para isso? Deu uma boa olhada?

- Claro que dei uma boa olhada nela! Ela quase me mordeu!

- Lily, isso é uma peruca. A peruca do Sr. Fudge.

Dou um passinho para a frente e olho para a mão de James. É mesmo um tipo de aplique de cabelo.

- Oh.

Ele coloca a peruca de volta com um suspiro.

- Você não viu que ele usa uma peruca?

Olho para Remus, que está escondendo as risadas com a mão.

- Hã, não.

James sai do quarto com um largo sorriso. E parece que ele está dizendo algo como "burra", "besta" e "fedelha", mas é provável que eu esteja enganada.

- Hora de tomar o remédio, Lily! - Remus diz alegremente e segue atrás de James.

E eu sou a última a sair, muito sem graça. Meu Deus, Remus não vai deixar de falar nisso durante anos. Uma peruca? Eu poderia jurar que ela tinha se mexido. Espero que os outros não se lembrem de que eu disse que a peruca tinha me mordido.

Olho para o meu relógio. Puxa! Já são sete e meia. Espero que alguém esteja tomando conta dos convidados durante minha ausência. James desaparece no quarto para trocar de roupa, e Remus e eu corremos escadaria abaixo para cuidar dos convidados. Felizmente, o resto da equipe de James está com eles, junto com Monty, que despeja bebidas e charme em quantidades iguais.

Deixo Remus ajudando com as bebidas e corro para a cozinha para ver como a Sra. Jones está se virando com o jantar. Ele deve estar absolutamente esgotada, principalmente depois de ter preparado o café-da-manhã, o almoço e o chá da tarde.

- Sra. Jones? A senhora...? Oh. - Fico paralisada quando vejo a cozinha vazia. Ela deve ter dado um pulinho no banheiro no banheiro ou em outro lugar. Dou uma andada pela cozinha e observo os livros de culinária abertos e os pratos semiprontos.

Dez minutos depois estou um pouco preocupada. Ela se afogou no banheiro? Ficou entalada? Dou uma olhadela rápida debaixo da mesa caso ela tenha decidido tirar uma soneca. Estou prestes a ir atrás dela quando James entra. Ele mudou de roupa e está usando uma calça de pregas com uma camisa bem passada e eu sinto um leve aroma de uma fabulosa loção pós-barba. Dou um largo sorriso que desaparece do meu rosto assim que vejo a expressão dele.

- O que foi? O que aconteceu?

- A Sra. Jones acaba de telefonar.

- De onde? Do banheiro? - pergunto, achando graça.

- Não, pior. Ela está no pub.

Eu admiro a audácia da mulher.

- No pub? Caramba, isso é que é ser alcoólatra. Ela foi tomar um golinho? Não entendo por quê, não é que não tenhamos nenhuma bebida aqui...

- O marido dela acaba de aparecer.

- O marido da Sra. Jones?

- Sim.

- O marido da Sra. Jones? - repito, para tentar enfiar a ideia no meu cérebro confuso.

- Sim. O Sr. Jones.

- Não sabia que existia um Sr. Jones.

- Tem que haver um Sr. Jones para que uma Sra. Jones exista.

- Sei disso, mas achei que ele não estava mais por perto.

- Não estava. Ela não o vê desde que saiu de Oxford, anos atrás.

- E ele acaba de aparecer.

- Sim. Acho que ela ficou um pouco surpresa.

- E ela foi ao pub? - Caramba, agora entendo por que ela ficou com uma sede tão grande que a adega da casa não daria conta.

- Ele a levou ao pub. Acho que ela estava em estado de choque. Ela disse que voltaria para terminar de preparar a janta, mas eu disse que ela devia ficar lá.

- O quê?

- Não acho que ele saiba sobre Harry. Eles se viram pela última vez há nove anos, e Harry tem oito anos, por isso pensei que iriam precisar de um segundo drinque. Seja como for, ela não parecia estar em condições de cozinhar.

- Onde está Harry?

- Dormindo, graças a Deus.

- E que diabos vamos fazer?

Remus aparece.

- Alguma ideia de quando vamos ter alguma coisa? Acho que os nativos estão ficando inquietos. - Ele olha para mim e depois para James. - Onde está a Sra. J.?

- No pub - respondo como uma tonta.

- No pub? - Remus pergunta incrédulo. - Caramba, isso é que é ser viciada, não é?

- Eu explico depois, Rem - respondo depressa. - O que vamos fazer? - pergunto a James.

- Bom, ela me disse que a sobremesa e a tábua de queijos estão prontas na despesa. - Vamos até lá, abrimos a porta e é verdade: a comida está lá. Nas mesas de pedra estão dois enormes pratos de queijos cercados por uvas, aipo e groselhas, junto com três tortas e três tigelas de creme chantilly. Bom, as coisas estão melhorando.

- Entrada e prato principal? - pergunta.

James menciona algo tão complicado que eu quase também saio correndo para o pub.

- Não acho que posso cozinhar isso para vinte pessoas em uma hora - digo devagar. - Consigo dar um jeito na entrada, mas não sei fazer o resto.

James pega as chaves do carro.

- Rem, pegue o meu carro e vá até o supermercado em Bury St. Edmunds. Você sabe onde é? - James olha para o relógio. - Você vai pegá-lo quase fechando. Compre tudo o que encontrar que seja fácil. Quiches, saladas, tudo. Aqui está meu cartão de crédito. Tire algum dinheiro no caixa eletrônico. - Ele escreve a senha.

Remus parece confuso.

- Dinheiro? De onde?

- Do caixa eletrônico.

- Existe um caixa eletrônico?

- Sim.

- No campo?

- Sim! - diz James com uma paciência de Jó. - Do lado de fora da agência bancária.

Remus olha para nós como se estivéssemos gozando com a cara dele, mas entra no espírito da coisa e sai.

- Vamos ter que dizer que o fogão quebrou. - James vai até a porta do quartinho de serviço, pega algo e atira na minha direção. - Aqui está! Um avental. Você não vai querer estragar este lindo vestido. A propósito, você está maravilhosa.

- Estou? - digo com voz fraca. Isso não pode ser verdade. Depois de tudo o que passei esta noite, suspeito que meu desodorante já esteja vencido. Dou uma chacoalhada no avental para abri-lo e o amarro. - Poppet já foi encontrada? - pergunto, pensando que a última coisa de que precisamos é vê-la passeando pela mesa no meio da refeição.

James está remexendo em um armário. Ele dá um largo sorriso quando ouve falar de nosso último desastre e diz:

- Tia Flo e tia Winnie estão procurando por ela. Achei que levantaria suspeitas ter toda a família ausente durante o jantar.

- O que está procurando?

- O xerez para cozinha. A Sra. J. o guarda aqui em algum lugar. Ah! Aqui está! Venha tomar um golinho.

Dou uma gargalhada enquanto ele tira a rolha e toma um gole na garrafa. Tomo um golinho rápido e devolvo a garrafa, observando que ele não se dá ao trabalho de limpar o gargalo antes de tomar outra golada.

- Se eu fosse você, colocaria um daqueles adesivos de nicotina, Lils.

- Já coloquei. - Ergo o vestido para mostrar um bem acima do joelho. - Vou colocar outro quando tiver uma chance. Quer um? - pergunto séria.

Ele dá uma estrondosa gargalhada enquanto coloca a rolha de volta na garrafa, como se um não-fumante não pudesse usar um adesivo de nicotina. Ele me dá um beijo na face.

- Obrigado, Lily. Você é maravilhosa. - E sai da cozinha me deixando para trás farejando o ar como um cão faminto, desejando dar outra cheirada naquela loção pós-barba.

A noite não é um grande sucesso. Há um momento desagradável entre a sala de estar e a de jantar, quando os convidados são recebidos por Meg, a westie, recoberta de rolinhos de cabelo de velcro (que são meus, ela tem o desagradável hábito de enterrá-los). Ela está acompanhando com grande interesse a trajetória de um gafanhoto que atravessa, pulando languidamente, o hall de entrada. Para completar a cena, tia Flo e tia Winnie estão de quatro no chão, espiando debaixo do sofá. Tia Winnie está usando luvas de borracha amarelas e agita um cabide nas mãos. Sem dúvida é a maneira antiga de se proteger contra aranhas. Eu me atrevo a dizer que, neste exato momento, há pigmeus na Austrália usando o mesmo método, James aperta o passo dos americanos levando-os para a sala de jantar, explicando que tia Winnie perdeu os óculos. Parece mais que ela perdeu o juízo.

Acho que nossos visitantes estão um pouco chateados com o defeito do fogão (o que não deixa de ser uma verdade, o comportamento da Sra. Jones pode ser descrito como defeituoso), mas eu também ficaria chateada se tivessem me enchido de bebida, recebido a promessa de um banquete dos deuses e descoberto que tudo o que havia para comer era quiche fria. Consegui preparar a entrada, que é um tipo de bouillabaisse do Leste europeu, feita com pimenta, coentro fresco e leite de coco, mas é difícil saber onde foi que a Sra. Jones interrompeu o preparo. Pelo menos o gosto é bom. Um pouco. As sobremesas e a tábua de queijos são muito melhores e, finalmente, o jantar acaba e eu dou um grande suspiro de alívio.

Depois de ter limpado a cozinha, volto para a sala de estar, onde encontro todo mundo caído nos sofás e poltronas com ar exausto. Todos os visitantes foram dormir. Monty trouxe as três garrafas de vinho que sobraram e todos ajudam a acabar com elas. Eu encho um copo, despenco em uma poltrona e imagino de onde será que tia Winnie a pegou.

Os outros estão no meio de uma discussão para decidir que casa na cidade da tia Winnie tem mais bom gosto.

- Sabe, Lily - troveja tia Winnie -, decidi que o vigário precisa de uma esposa. A casa dele é uma confusão de estilos. Também espiei a cozinha e só encontrei latas e latas de feijão cozido. Estou decidida a encontrar uma boa mulher para ele.

Coitado dele. Parece que Deus decidiu mesmo testá-lo.

Nesse instante, a Sra. Jones, muito sem graça, entra na sala de estar. James a recebe com um grande sorriso.

- Como vão as coisas, Sra. Jones? Venha cá e sente-se.

Ela faz a cortesia de parecer muito sem graça e passa um tempão olhando para o chão.

- Está tudo bem. Só vim dizer que sinto muito por hoje à noite. - Apesar dos protestos, ela acaba sentando na ponta de um dos sofás. - Foi um choque enorme vê-lo. Aparentemente, meu nome foi citado em um dos jornais quando houve aquela confusão sobre a aquisição hostil, e ele veio ver se era eu mesma. Não pensei que ele ainda se importasse depois de todo esse tempo.

- E Harry?

- Ele não sabia que eu estava grávida. Foi um grande choque para ele também descobrir um filho que não imaginava existir. - Ela consegue dar um meio sorriso. Sento na ponta da poltrona, muito curiosa. Para começar, não faço ideia de por que ela abandonou o marido, mas não acho que deva perguntar. - Eu sinto muito por ter deixado vocês na mão - ela prossegue, e fico surpresa por ver uma lágrima descer pelo rosto dela. - Depois de tudo o que fizeram por mim, eu abandono todos desse jeito.

James levanta-se, senta-se ao lado dela e oferece o seu lenço. As lágrimas começam a cair num dilúvio.

- Depois de tudo o que fizemos por você? E o que você fez por nós? Você trabalha mais do que um plantonista de hospital, não ganha um salário decente e ainda tem de aguentar a todos nós. Você não nos deixou na mão. Além disso, cozinha com mãos de fada.

Passa da meia-noite, o homem tem uma dúzia de problemas para resolver, uma aquisição hostil pendurada por um fio que pode fazer com que ele perca a casa da família e ainda tem tempo para consolar a governanta. Onde está o James nojento que eu conheci?

- Harry está bem? - pergunto.

- Sim, dei uma espiada nele e tia Flo também. Ele está bem. Nem acordou.

- Onde está o Sr. Jones? - pergunta Monty.

- Ele vai passar a noite no pub.

- Por que você não vai dormir? Está com um ar exausto. - James dá uma palmadinha no joelho dela e estica os braços acima da cabeça. - Eu estou com vontade de ir até o lago. Para arejar a cabeça.

Ele levanta e vai em direção à porta. Monty senta no lugar dele no sofá, ao lado da Sra. Jones, e começa a conversar com ela com um tom de voz baixo e reconfortante.

- Que tal dar uma volta, Lily? - James diz casualmente, mal virando a cabeça. Se estou com vontade de dar uma volta? É muito surpreendente, mas acho que sim. Pouso o meu copo e levanto.

- Hã, sim - digo de um jeito despreocupado. - Isso seria ótimo.

Saímos pelo corredor e entramos na cozinha. Pegamos um casaco no armário para cada um, e soltamos Meg e os outros cães do quartinho de serviço, onde ficaram trancados por causa do jantar. James pega uma lanterna e saímos noite adentro, levando Meg conosco.

Já do lado de fora, inalo o ar frio da noite e olho para as estrelas. A lua está brilhante, envolvendo tudo em uma meia-luz fantasmagórica. Uma brisa suave beija gentilmente meu rosto. Meg sai trotando confiante na nossa frente enquanto seguimos em direção ao lago.

Depois de alguns minutos, o silêncio começa a doer um pouco e eu procuro algo para dizer. Pigarreio.

- Têm sido dias estranhos, não?

- Completamente.

- Está preocupado com a aquisição?

- Sim, embora esteja chegando rapidamente ao ponto onde estou tão cansado que não me importa mais. Ela parece ter adotado você - ele diz e aponta para Meg, que está correndo feliz da vida sob o luar, enfiando a cabeça em tocas de coelhos, farejando arbustos e olhando para trás de tempos em tempos para ver se ainda estamos por perto.

- Sim. Vou ficar triste em deixá-la para trás.

- Me conte o que fez depois de sair de Hogsmeade - diz James.

Oh, Deus, ele quer que eu conte a história do desastre com Amus Diggory nos mínimos detalhes.

- Bom, eu voltei para Londres por volta...

- Hã, não. Quis dizer há quinze anos.

- Ah. - Isso me pega de surpresa e por um segundo não consigo fazer a mínima ideia do que andei fazendo nos últimos quinze anos. - Bom, Dora e eu fomos viver com tia Winnie quando mamãe e papai foram para a Itália.

- Eu gosto da tia Winnie. E, hã, você foi para a universidade? - pergunta.

- Sim, fui para Nottinghan. Estudei geografia. - Estou relutante em dizer mais alguma coisa porque não posso lembrar o que Remus e eu colocamos no currículo. Acho melhor mudar de assunto. - Você só estudou economia na universidade? - Ouço a mim mesma e me encolho por dentro. É o tipo de pergunta que se faz nas férias, durante uma festa que seus pais estão dando, quando colocam você ao lado do único homem da sua idade em um raio de oitenta quilômetros.

- Sim, só economia.

- Que, hã... - Estou prestes a dizer algo interessante, mas ele pode pensar que estou debochando descaradamente dele -... útil.

- E o que Dora faz agora?

- Ela trabalha no centro financeiro. E é muito bem-sucedida.

- Ela está namorando?

- Não que eu saiba. Acho que ela anda muito ocupada com a carreira.

- E como você entrou no ramo das festas? - ele pergunta gentilmente.

Falo sem parar por alguns minutos sobre meu trabalho em finanças e o quanto eu o detestava. Enquanto isso, chegamos ao topo da colina e paramos para recuperar o fôlego.

- Nós costumávamos brincar de tobogã nessa colina - comenta James. - Lembra?

- Eu e você contra Dora e Will. Sempre os deixávamos lá atrás.

- Bom, está certo que a gente encerava o tobogã e éramos mais pesados do que eles.

- Não tão pesados - digo indignada.

- É claro que todo o peso era meu.

- Algo a ver com as montanhas de batatas que você devorava. - Sempre que os meninos vinham jantar conosco, no começo, quando James e eu nos gostávamos, minha mãe costumava exagerar muito nas batatas. A quantidade de batatas ingeridas por cada sexo era a definição dela entre meninos (que ela não tinha) e meninas (das quais ela possuía dois exemplares bastante robustos).

- Sua mãe pensava que os meninos precisavam comer um caminhão de batatas em cada refeição para poderem sobreviver. - Ele sorri para mim. Um sorriso amplo e caloroso que ilumina todo o seu rosto e faz com que ele fique lindo. Sorrio de volta e, de repente, a conversa sai fácil enquanto relembramos e rimos. Tomamos cuidado especial em evitar os tempos difíceis que vieram mais tarde. Hoje, ele é muito diferente da última recordação que guardei na memória. Presto mais atenção enquanto ele fala sobre as viagens de pesca que fazíamos, quando todos apostavam para ver quem adivinhava quanto tempo levaria para que eu caísse na água. Acho que se eu tivesse acabado e conhecê-lo gostaria muito dele.

Continuamos a falar sobre a universidade.

- Você manteve contato com alguém de Cambridge? - pergunto.

Ele encolhe os ombros.

- No começo, sim. Os amigos costumavam me visitar, mas depois de um tempo acabamos tendo cada vez menos coisas em comum, com exceção de uns poucos, como o meu melhor amigo, Sirius. Os outros só enchiam a cara e perseguiam mulheres, coisas que, devo acrescentar, eu costumava fazer excepcionalmente bem, mas, de uma hora para outra, eu tinha uma família e uma fazenda gigantesca para cuidar. Isto costuma esfriar as coisas! - Ele sorri novamente e, de repente, percebo a extensão do sacrifício dele. Ele desistiu de tudo, dos dias livres e irresponsáveis na universidade, onde são formadas as amizades de toda uma vida e os corações se partem. Mas ele abriu mão de tudo pelo quê? Para que tudo fosse tirado dele?

Chegamos ao lago e caminhamos pelo deque em silêncio. James senta-se com as pernas cruzadas.

- Venha sentar. - Ele bate nas ripas de madeira ao lado dele. - Converse comigo mais um pouco. Me conte sobre o seu mundo.

Eu tento me ajeitar de um modo elegante com o vestido.

- Meu trabalho?

- Sim, o que é que você faz normalmente? O que estava fazendo antes deste evento aqui?

- Cuidava da Festa Nórdica do Gelo de Lady Boswell.

- Meu Deus, isso parece horrível. Você disse Lady Boswell? Acho que a conheço. Uma mulher muito magra. Assustadora.

- Horrorosa - continuo, e conto sobre Sean e Oliver e nossos ensaios pavorosos. Rimos juntos e Meg vem deitar ao meu lado.

- Como vão os preparativos para o baile? Ainda falta muita coisa? - James pergunta.

- Uma enormidade de coisas. A tenda chega no começo da semana que vem. E o que você tem que fazer no resto da semana? - Eu me encolho, que coisa mais estúpida para se dizer. Oh, nada de mais, Lily. Somente uma aquisição hostil e salvar a casa da família. - Quero dizer, você vai estar por aqui?

- Indo e vindo. Os americanos não vão decidir nada antes do fim da semana. Vamos estar bem no limite do prazo.

- Prazo?

- Uma semana, contando a partir de segunda-feira. Ao meio-dia. Todas as ofertas para a Wings expiram. A menos que os americanos concordem com a nossa oferta, tudo começa do zero. Mas com a nossa atual situação financeira não podemos nos dar o luxo de recomeçar as negociações e tudo irá por água abaixo. Em uma semana tudo estará acabado, de um jeito ou de outro.

- Meu Deus. O que acha que vai acontecer?

- É difícil saber. Você vai estar aqui a semana toda?

- Tenho que voltar rapidamente a Londres amanhã para pegar algumas roupas extras, mas depois disso ficarei aqui até a o baile no sábado.

- É neste próximo sábado? - ele pergunta surpreso.

Aceno com a cabeça e mordo o lábio. E, depois disso, sairei de Hogsmeade para sempre.

Começamos a caminhar de volta para casa, falando baixo. James ri, lembrando como eu fiquei olhando escondido para o alto da cabeça do Sr. Fudge a noite toda, achando que eu estava sendo completamente sutil a respeito. Paramos na porta dos fundos e, com a mão na maçaneta, James se vira e me olha.

- Estamos de volta - ele diz suavemente. - Eu realmente gostei do passeio.

Fico surpresa com o fato de concordar profundamente com ele.

- É aqui que nos separamos - ele diz. Então sorri e meu coração dispara, batendo como um louco contra as minhas costelas. Espero que ele não o ouça.

Ele se inclina lentamente na minha direção, olhos nos olhos, e prendo a respiração. Ele vai me beijar? E em seguida me dá um beijinho na testa, revira o alto dos meus cabelos e diz:

- Boa noite, Lils.

Fico olhando ele ir embora. Por que estou desapontada?


Primeiro: capítulo gigante! Eu achei que já estava adiantada, quando na verdade ainda nem tinha terminado de escrever este aqui. Mil desculpas. Ok, segundo: alguém mais lembra de "bouillabaisse" no Cálice de Fogo? Hahaha. Ah, sim, eu fiquei tão feliz com as várias reviews e os novos seguidores que vieram com o último capítulo! Vocês são maravilhosos. Oh, e uma curiosidade: este é, contando o prólogo, o vigésimo capítulo da fanfic! Sim, pois é. Realmente interessante.

just-morningstar13: Uau. É maravilhoso saber que eu estou agradando a alguém, hahah. Aqui vai mais um capítulo para você, até a próxima! c:

Lally Sads: Cara. Cara. A sua review foi, provavelmente, a mais surpreendente de todas até agora. Um: que bom que você está gostando, e eu agradeço um bilhão de vezes por você ter tido o trabalho de deixar a review, eu nem me importo tanto com você vir logada ou não. E dois: caro Sherlock, talvez você queira guardar suas opinião excepcionalmente bem formadas para si mesma e deixar outras pessoas descobrirem sozinhas o rumo da história e de seus personagens; agradecida, Julia. Psh. Não posso falar nada.

LaahB: Oi de novo! Hehe, obrigada por comentar. Apenas um incentivo já é o necessário para me deixar feliz. Sério, não há nada melhor do que abrir o meu email e ver que mais uma review foi deixada para o A Vida É Uma Festa. E não se preocupe, que dessa fanfic eu não vou desistir (já tenho outras duas em uma espécie de hiatus, e é uma droga).

bitemealienboy: E aqui vai mais Jily para você! Oh, eu já estou seguindo você pelo meu tumblr que, teoricamente, é só de Harry Potter (catchingsnitch), mas eu também tenho outros dois tumblrs (estão na minha descrição). Psh. "Sherlock" e "atualizações" não combinam. Aquilo lá é um hiatus que ocasionalmente lança uns episódios.

IBlackI: Ahh, obrigada! Você também não desanime e continue a me mandar reviews, ok?

nathalia-potter: Você não tem a mínima noção de como eu te entendo. Eu já passei tantas noites em claro lendo fanfic - e é sempre "só mais um capítulo e depois eu vou dormir", e no dia seguinte eu acordo me odiando. De qualquer maneira, muito, muito obrigada por passar aqui e deixar sua review. Esse foi um comentário legal. Bem, legal o suficiente para me deixar muito feliz. Espero que goste deste capítulo e comente mais vezes.

94384% agradecida,
Joules