CAPÍTULO XXI
- Remus, posso falar com você por um instante? - pergunto assim que ponho os olhos nele. Quase toda a família está sentada à mesa da cozinha, jogando cartas, e Harry tem uma pilha enorme de moedas na frente dele. Eles estão usando o conteúdo de um grande pote de geleia, cheio de moedas, que usávamos quando eu era criança. A Sra. Jones está ocupada fazendo alguma coisa. Remus olha para mim com uma série de cartas na mão.
- Pode esperar um segundo, Lil? Só até que eu...
- Não, não posso.
- Achamos Poppet! - Harry diz agitado. Graças a Deus, começava a temer pela vida do gafanhoto que vive na minha chaminé, sem falar na minha própria vida. - Eu a achei no andar de cima! Eles me deram dez libras por isso!
- Isso é maravilhoso, Harry!
Remus me segue escadaria acima, vários corredores compridos e quartos adentro. Viro-me e olho para ele.
- Remus, você podia ter me contado.
Ele parece sem graça e olha para os pés por um segundo.
- Eu ia contar naquela vez no jardim, mas fomos interrompidos. Sabe, vocês têm exatamente a mesma voz ao telefone. Inacreditável.
- Há quanto tempo isso vem acontecendo?
- Certa de um mês e meio.
- Um mês e meio! - As contas batem. - Eu pensei que você estava tentando me contar que era gay!
Ele ergue a cabeça ao ouvir isso.
- Gay? Eu? - Aceno que sim com a cabeça. Ele começa a andar de um lado para o outro que nem um pavão arrogante. - Por que raios você achou que eu era gay?
- Achei que você estava saindo com Edgar! Ele vive perguntando como vai você!
- Bom, Edgar sabia.
- Edgar sabia? Por que você contou para ele e não me contou?
- Eu não contei para ele! Estávamos naquela festa da Lacey-Steele. Lembra?
Tento voltar no tempo.
- Hã, vagamente.
- Você tinha acabado de terminar o namoro com Amus. Você foi pegar algo no escritório e eu estava falando ao celular. Edgar agarrou o celular da minha mão, pensando que era você, e descobriu que não era. A pessoa tinha somente uma voz muito parecida com a sua. Não tive saída a não ser contar.
- Acho que ele também contou para Moody. Os dois andam obcecados com a sua saúde ultimamente.
- Eu não pareço gay, pareço? - Remus pergunta ansioso.
- É que, bem, você saiu com todas aquelas garotas e não dormiu com nenhuma delas!
- Lily, só porque sou um cara legal e não durmo com todo mundo isso não quer dizer que eu seja gay! Além disso, eu dormi com algumas.
- Foi? Quais? - pergunto interessada.
Ele abre a boca para responder, mas, pensando no relacionamento que tenho com sua nova namorada, a fecha novamente.
- Então, você pensou todo esse tempo que eu estava tentando sair do armário, não foi?
- Cecily me disse que você era gay!
- Cecily? - Ele senta na cama.
- Foi. Encontrei com ela em um coquetel.
- Oh, meu Deus! Cecily. Ela me convidou para jantar na casa dela. Era um daqueles encontros horrorosos que minha tia vive arrumando para mim. Em algum momento da noite ela deve ter decidido que estava muito a fim de mim, porque, quando voltei para a sala depois de ir ao banheiro, ela estava sem a blusa!
- O quê? Sem sutiã também?
Ele ri e faz que sim com a cabeça.
- Puxa vida, caramba! Tomei um susto dos diabos! Não sabia o que fazer. Voltei a me sentar e ela começou a se inclinar sobre a mesa, com os peitos dependurados balançando bem em cima da sobremesa, e eu entrei em pânico! Disse que era gay e que estava tentando assumir o fato há anos. Achei que era a única maneira de conseguir sair de lá vivo! Não queria magoar os sentimentos dela, e tudo foi muito embaraçoso, porque ela estava ali fazendo topless. Pedi para não contar para ninguém porque eu não havia assumido oficialmente ainda. Meu Deus, quais as probabilidades que existiam de vocês duas se encontrarem?
- E aquela mania de ficar mostrando os homens que você achava bonitos?
- Estava tentando abrir os seus olhos, completamente obcecados com Amus.
- Mas por que não me disse nada sobre você e Dora?
- Ela é a sua irmã! E eu achei que você iria ter problemas com isso.
- Bem que eu pensava nos motivos pelos quais ela tem me evitado ultimamente.
- Eu queria esperar e ver o quão sério o relacionamento é antes de dizer alguma coisa.
- E é sério?
- Suficientemente sério. E muito confuso. Por que me interessei por ela e não por você?
- Boa pergunta.
Ele parece divertidamente sem jeito.
- Não sei – diz em voz baixa. – Talvez porque nós dois nos conheçamos muito bem? E, além disso, você não está atraída por mim. – A voz dele fica mais forte assim que se sente em um porto seguro.
- Não estou? – pergunto, sem disposição de largar mão deste último ponto.
- Não. Não está.
- Você tem razão, não estou. Como tudo começou?
- Acabamos nos conhecendo muito bem por causa dos fins de semana na casa da tia Winnie. Então, uma noite, quando você havia ido deitar – ele encolhe os ombros e parece ficar envergonhado – estávamos conversando e... não sei... começamos a nos beijar e...
- INFORMAÇÃO DEMAIS! – grito, colocando as mãos sobre os ouvidos.
Ele para de falar e sorri. Afasto devagar as mãos dos ouvidos e vou até a janela. Dora e Rem! Quem diria? Meus olhos se enchem subitamente de lágrimas e eu limpo uma com a mão. Remus nota o movimento e coloca um braço ao meu redor.
- Vamos, não me diga que vai ficar chateada com a novidade.
- Não estou chateada, estou feliz por vocês. – E dou uma abraço nele. – Acho que é adorável. Estranho, mas adorável. Mas por que não me contou?
- Desculpe ter guardado segredo. E sinto muito que você tenha descoberto deste modo. Você já tem um monte de coisas para cuidar neste momento.
Meus ombros caem para a frente.
- Como vai indo a aquisição?
- Não sei quase nada, mas todo mundo está muito abatido. Eu cheguei há apenas uma hora.
Alguém bate à porta.
- Lily, querida! – troveja tia Winnie por trás dela. Vou até lá e deixo tia Winnie e Snuffles entrarem.
- Você contou para ela? – pergunto a Remus.
- Tia Winnie! – ele diz animado. – Não fique muito emocionada, mas acho que vamos ser parentes!
- Droga – diz tia Winnie, fingindo desânimo.
Depois de vários goles do xerez para cozinhar, que eu surrupiei da cozinha quando a Sra. Jones não estava olhando, e várias confirmações repetidas de que se tratava de Remus e Dora e não de Remus e eu (embora eu não tenha muita certeza de que ela não preferia o contrário), conseguimos finalmente tirar nossa velha tia do estado de choque em que ficou e a afastamos da garrafa.
- Precisava de mim para alguma coisa, tia Winnie? – pergunto.
- Ah! Só vim dizer olá e saber se você já falou com seus pais.
- Eles vão retornar a ligação.
- Certifique-se de que vão mesmo. – Ela levanta e vai em direção à porta. – Vou procurar Monty – diz e sai marchando.
- Posso chamar a senhora de sogra? – Remus grita.
Ela se vira e o encontra lá da porta.
- Você pode me chamar de madame, Remus. Como faria ao falar com a rainha da Inglaterra.
Os dias seguintes passam como um raio. Rose e Mary parecem ter se mudado definitivamente para a casa. Enquanto eu luto com o fornecimento de energia elétrica, artistas e garçons rebeldes que, de repente, tiveram a chance da vida deles para irem até a África e dizem "Vocês não se importam, não é?", Remus cuida dos ensaios e convence a empresa de fogos de artifício de que o local que escolheram é realmente muito perto da casa. Não tive a mínima chance de falar com James, que está trabalhando até tarde da noite na aquisição.
Nós não somos os únicos que estão trabalhando como burros de carga. Fred, o jardineiro, trabalha de sol a sol para que os jardins estejam impecáveis. O plano é, caso o tempo permita, servir um coquetel no gramado dos fundos. A Sra. Delaney continua cozinhando como louca todos os dias, alimentando a família e a equipe de advogados e contadores de James. Acho que o Sr. Jones ainda está hospedado no pub da cidade. Harry e a Sra. Jones escaparam na noite passada para ir vê-lo.
E eu finalmente consigo achar Dora, e tivemos uma longa conversa ao telefone. É um tremendo alívio poder conversar normalmente com ela. Não havia percebido o tamanho da tensão em nosso relacionamento. Ela está tão entusiasmada com o relacionamento com Remus que eu não tenho coragem de diminuir a animação dela com a minha triste história.
Levanto cedo na sexta-feira para supervisionar a entrega dos banheiros químicos. É a única hora em que a empresa pode fazer a entrega e, se são deixados sem supervisão, acabam colocando os banheiros a um quilômetro da tenda. O dia está lindo e frio. Remus nem se mexe enquanto eu me visto. Meg me olha sonolenta e decide ficar com Remus. Nem Monty levantou ainda.
Assim que fazem a entrega, vou para a cozinha, tentando ignorar o chamado tentador dos meus adesivos de nicotina. Encontro James na cozinha, lendo o jornal do dia anterior.
Ele abaixa o jornal quando entro.
- Lily! Que diabos faz de pé a esta hora infeliz?
Levo um susto ao vê-lo. Ele está usando um jeans velho e um suéter com decote em V. Está absolutamente delicioso.
- Nada de muito excitante, lamento. Os banheiros químicos acabaram de chegar. Estava mostrando onde devem ser colocados. O que está fazendo? – pergunto.
Ele encolhe os ombros.
- Nada de especial. Não consegui dormir.
- Preocupado?
- Um pouco. Venha cá, sente-se e me diga como vão os preparativos para o baile. Parece que não vejo você há dias! Algum problema?
Não olho nos olhos dele.
- Não, não. Nada de errado.
- Amanhã é sábado e posso ser todo seu se quiser. Faça o que quiser comigo.
- Isso seria ótimo – digo sonhadora. – Quer dizer, uh, isso será muito útil.
Chega o dia do baile e eu imediatamente corro para a janela e espio através das cortinas. Suspiro aliviada, parece que vai ser um dia lindo. Acordo Remus, me visto, coloco dois adesivos de nicotina, brigo com Remus explicando por que não vou trazer uma xícara de chá na cama para ele e corro escadaria abaixo com a minha prancheta. Estou com a adrenalina a mil por hora. Nada como a agitação de uma grande festa para me deixar animada.
- Então, o que quer que eu faça hoje? - Monty pergunta enquanto tomamos chá na cozinha, depois de eu tê-lo convencido que ensinar Jasper, um dos cachorros, a latir sempre que ouvir a frase "Richard e Judy" não é algo exatamente útil. Sem falar que é extremamente irritante.
Olho para a minha prancheta.
- A equipe de serviço do estacionamento chega ao meio-dia. Poderia mostrar exatamente onde devem estacionar os carros? E colocar as placas de aviso para os convidados?
- Considere já feito. - Olho minha lista e marco os dois itens. - Isso é muito divertido, não é, Lily?
- Humm.
- Sabe-se lá Deus o que Elizabeth teria dito sobre tudo isso.
- Você acha que ela desaprovaria?
- Ela achava que a fazenda deveria ser mantida estritamente particular. Ela teria odiado a ideia de ter pessoas aparecendo e olhando boquiabertas para a casa dela. Mas temos que evoluir com o tempo, não temos?
Há um pequeno silêncio e eu me concentro na lista. Monty interrompe meus pensamentos mais uma vez.
- Lily? Sei que não é da minha conta...
- O quê? - Está na cara que ele precisa desabafar algo.
- Você e James. Há alguma...? Porque, você sabe, se houver, vai ser maravilhoso.
Abro a boca para responder, mas, neste exato momento, a porta da cozinha se abre e a cabeça de Albert, o terrier, aparece a cerca de noventa centímetros do solo. Eu sei que é James porque era algo que fazíamos quando crianças para animar um ao outro.
- Dou um largo sorriso quando ele enfia a cabeça pela porta segundos depois.
- Dia! - ele diz alegremente, colocando Albert no chão. - Como está se sentindo, Lily? Papai?
- Você cedo de novo? - diz Monty.
- Eu disse que iria ajudar, e eu e Albert estamos prontos para a ação!
Não posso evitar, eu adoro tudo nele.
- Obrigada, isso é realmente útil. - Sorrio.
- Bom, você fez tanto para nos ajudar com os visitantes americanos. É um modo limitado de dizer obrigado.
- Mas foi um desastre! - protesto.
- Nada em comparação com o que teria sido. Acho que escapamos bem no castigo.
- Café ou chá? - pergunto, indicando o bule com a cabeça.
- Sim, por favor. Onde está seu porta-copos, Lily? - Ele sorri enquanto observamos o monte de canecas e garrafas de leite.
- Esqueci completamente.
- A anarquia invadiu a cozinha da Sra. Jones. Devem ser os adesivos de nicotina.
- Como vai a tomada hostil? - pergunto enquanto pego uma caneca e despejo o chá.
Uma nuvem cruza seu rosto.
- Os investidores americanos disseram que terão uma resposta para nós na segunda-feira pela manhã.
- Mas não é esse o prazo final?
- Sim. Vai ser tudo ou nada. Eles querem ficar sozinhos para decidir, portanto resolvi tirar o dia de folga em homenagem ao primeiro evento de Hogsmeade. Temos que trabalhar amanhã para nos prepararmos para a coletiva de imprensa na segunda-feira. Mas chega de falar nisso tudo. Quem você vai levar como acompanhante, pai?
Monty pigarreia.
- Na verdade, pensei em convidar Winnie. - Ele me olha ansioso, esperando uma reação minha. - Você não se importa?
Olho radiante para ele.
- Acho que será maravilhoso!
- Sem dúvida alguma - diz James, também sorrindo. - A Sra. Jones vai?
- Não sei, acho que o Sr. Jones ainda anda por perto.
- Ela pode trazê-lo.
- Vou dizer a ela.
- Vamos lá, Lily, vamos pôr a mão na massa. Depois podemos vir tomar café-da-manhã com todo mundo.
Monty permanece na cozinha, enquanto James e eu saímos para o pátio, com Albert e Meg trotando atrás de nós, e vamos até a tenda.
- Então você e Remus também vão estar vestidos a rigor?
- Ah, sim, trouxe algo especial para o baile. É um vestido que sempre uso nessas ocasiões, mais uma doação da fundação Dora Evans. Só espero que Remus tenha mandado lavar a roupa dele da última festa!
- Ele ainda está na cama?
- Eu o acordei e espero que não tenha voltado a dormir. A lista de coisas a fazer que ele tem é tão comprida quanto a minha. - Pensar em Remus me deixa ansiosa. Depois da euforia inicial, agora estou nervosa, e espero que não tenha muito ciúme do novo relacionamento entre Remus e Dora. Remus e eu fomos tão íntimos por tanto tempo que estou me sentindo como se ele estivesse sendo afastado de mim.
- O que há de errado? - pergunta James, olhando para mim.
- Ah, nada! Remus acaba de me contar que ele e Dora estão namorando.
- Remus e Dora? Dora, sua irmã? - Aceno com a cabeça.
- Eu achei que ele estava tentando me contar que era gay!
- Remus? Gay? Você deveria ter me perguntado, eu poderia dizer que ele não era gay. Caramba, é genial, não é? Ele passa a ser parte da família. Mas deve ser estranho também, ele foi seu por tanto tempo.
Olho para ele atentamente por causa desse comentário perspicaz. James segura aberta a aba de entrada da tenda e sorri para mim. De repente, percebo que o mesmo poderia ter sido dito sobre mim e James há quinze anos.
Acho que este é o melhor dia pré-evento que já tive. Observar este homem calmo e extremamente competente em ação me fez perceber que adversário fantástico ele deve ser profissionalmente. Tudo parece ser feito em metade do tempo e com metade da confusão. Quando a banda chega, no meio da manhã, e avisa que precisam de eletricidade extra, o que nossos geradores simplesmente não conseguem gerar, James nem pisca. Simplesmente pega o celular e outro gerador chega em meia hora. Ele não banca o durão com ninguém, não levanta o tom de voz (e eu admito que em dias pré-evento já fui vista gritando como uma maluca), apenas negocia calmamente e as pessoas acabam fazendo o que ele quer. Não há dúvidas de que estou observando um homem muito talentoso trabalhar, e isso só az com que o deseje ainda mais. Há algo de muito sexy em um homem que é bom no que faz.
- Qual a próxima coisa na lista, Lily? - ele pergunta depois de convencer uma artista de que esta noite não é realmente a noite ideal para apresentar-se sem rede de segurança.
A grande tenda de circo está absolutamente magnífica e estou entusiasmada com o resultado. Contratamos um verdadeiro mestre-de-cerimônias para a noite, com tudo o que é necessário, incluindo um bigode e enorme e botas de verniz pretas (Rose vai entrar em êxtase). Conseguimos instalar uma corda de equilibrista e um trapézio, onde os artistas se apresentarão em intervalos durante a refeição. As mesas estão colocadas ao redor do picadeiro, que fica no centro da tenda, e, combinando com o tema circense, usamos cores muito fortes nas flores e na decoração.
Enquanto funcionários montam as mesas, tia Winnie, Monty e Harry colocam os brindes em cada uma - maçãs carameladas, bolas de malabarismo e bilhetes de loteria. Olho para eles por um segundo, estão conversando animados e sorrindo.
- Acho que eles nunca ficarão sem ter o que vestir. Os dois devem ter, juntos, metade da metragem de tweed da nação! - James sussurra em meu ouvido e eu caio na risada. - Mas é bonito de ver - ele acrescenta. - Há muito tempo não vejo papai tão contente, mesmo com todos os problemas com a casa. Sua tia Winnie nunca se casou, não foi?
- Não, acho que ela estava muito ocupada cuidando de mim e de Dora. Mas minha mãe me disse que houve alguém no passado dela.
- O que aconteceu?
- Eu não sei. Nunca falamos a respeito. Sempre foi um tipo de assunto proibido.
Um dos garçons informa que as caminhonetes da Table Manners chegaram e vamos ao encontro delas. Acompanhamos os chefs até a tenda de catering e eles começam imediatamente a inspecionar o equipamento. Olho para meu relógio. Já são cinco da tarde.
- Como estamos indo? - James pergunta.
- Bem, eu acho. Só preciso arrumar alguns arranjos de flores, vi que alguns estão com falhas, mas preciso checar esta entrega antes disso.
- Eu faço isso. Você tem uma lista?
- Obrigada, James. Foi simplesmente maravilhoso tê-lo ao meu lado hoje. - Remexo na minha pasta e entrego a lista do que deve ser entregue. - Vou até o jardim buscar um pouco de folhagem. Depois vou trocar de roupa.
- Sem problemas.
Seguimos em direções opostas. Pego uma tesoura de poda e vou para o jardim. Há um enorme loureiro em uma das laterais da casa que pretendo podar. Chegando lá, podo a planta sem dó ou piedade e, se Fred me visse, teria um enfarte na hora.
Quando volto para a tenda, James não está em nenhum lugar, de modo que, depois de preencher rapidamente os vazios nos arranjos de flores, dou uma conferida com minha equipe e os chefs e subo correndo para mudar de roupa.
Tiro o vestido do cabide atrás da porta e vejo que o porta-terno de Remus já está vazio. Fico um pouco mais feliz em saber que alguém da empresa está no local do baile. Provavelmente ele está sendo inútil, mas está lá.
Meu vestido é um santo remédio para a auto-estima e agradeço de coração a Dora todas as vezes que o visto. Tem a marca de uma famosa casa de alta-costura, cujo nome eu nem consigo pronunciar, que dirá fazer compras lá, e é maravilhosamente provocante, deliciosamente colado ao corpo. É um vestido de um ombro só, com uma fenda que vai até o alto da minha coxa, e toda a fenda e a barra terminam em uma linda faixa de renda. Acrescento um par de brincos pendentes em forma de gota que comprei especialmente para este vestido e uma pulseira que tia Winnie me deu. Prendo o cabelo no alto da cabeça, com uma mão ligeiramente trêmula delineio os olhos com lápis preto, esfumaço com um cotonete e passo um pouco de batom vermelho.
Quando volto, Rose e Mary já estão na tenda, vestidas a rigor e conversando animadas com Remus.
Trocamos cumprimentos com os "oohs" e "aahs" de praxe sobre a roupa de cada uma de nós e vamos ver a tenda.
- Está simplesmente maravilhoso! - suspira Rose, olhando para a imensidão do lugar.
- Obrigada!
- Está tudo pronto?
- Bem, Remus e eu estamos prestes a fazer a última ronda de verificação. E os convidados devem começar a chegar em meia hora. - Remus me dá o intercomunicador.
Rose e Mary movem-se em direção às bebidas com grande animação, parando no caminho para admirar o mestre-de-cerimônias, que já está pronto para entrar em cena. Remus está em contato com a maior parte da equipe pelo intercomunicador e isto é a melhor coisa da noite para ele. Ele fez questão de que todos os funcionários usassem um nome de código, e eu deixo toda essa história por conta dele. Verifico as mesas, converso rapidamente com os chefs e vou até o gramado dos fundos para me certificar de que as bebidas estão prontas para serem servidas, acompanhadas por canapés, assim que os convidados chegarem.
Estou ocupada checando as provisões debaixo de uma das mesas de serviço quando alguém bate delicadamente no meu ombro. Giro sobre os calcanhares e vejo James inclinando-se para mim e levanto bem depressa. Não tenho a mínima vontade de deixá-lo me ver agachada, com os peitos achatados e a bunda empinada no ar.
- James! - digo feliz. - Nossa, você fica pronto depressa!
- Ninguém tira a roupa mais depressa do que eu, Lily.
- Hã, verdade? - digo languidamente e pisco depressa para tentar afastar as imagens que surgem em minha mente.
- Você deve se lembrar do tempo em que costumávamos nadar no lago!
- Hã, não. Não mesmo. - Sabe, as crianças deviam prestar mais atenção aos que os pais dizem. Eu deveria ter ouvido mais a minha mãe quando ela me dizia para prestar atenção.
- Você está maravilhosa. É um vestido lindo.
- Obrigada - respondo, me sentindo subitamente sem graça. - Você está muito bonito também.
- O resto da família vai descer logo. Você quer que eu faça alguma coisa?
- Não, estamos bem. Divirta-se.
- Você vai trabalhar a noite toda?
- Acho que poderei tirar meia hora de folga mais tarde.
- Vou guardar uma dança para você. Não deixe de comer algo.
- Vou tentar - respondo, me sentindo absolutamente feliz. Há muito tempo que ninguém se importa se eu como ou não.
- Vejo você mais tarde - ele diz, antes de se afastar com as mãos nos bolsos, em direção a Will, que acaba de aparecer do outro lado do gramado.
Os convidados começam a chegar devagar e eu vejo tia Winnie resplandecente em um vestido de tafetá vinho. Monty, muito orgulhoso, está de pé ao lado dela. Eles acenam para mim. Até mesmo a Sra. Jones e um cavalheiro ruivo de boa aparência, que eu imagino ser o Sr. Jones, parecem estar felizes e se divertindo.
De repente, a maioria dos convidados parece chegar em uma grande onda, e daí para a frente as coisas começam a movimentar-se em assustadora velocidade. Alguém quebra um copo e corta o dedo. O chef executivo tem um ataque porque as pessoas não estão entrando suficientemente depressa na tenda e o primeiro prato vai estragar. Um dos trapezistas sente-se mal e não sabe se vai poder se apresentar ou não. Remus e eu começamos a movimentar o grupo através da tenda antes que o chef tenha um ataque de nervos completo. Não há um plano de lugares - cada mesa é destinada a uma empresa. Os garçons e garçonetes começam a servir o primeiro prato apressadamente, enquanto alguns retardatários vão ocupando seus lugares.
- Estão todos aqui - Remus sussurra para mim.
Olho para a tenda e franzo a testa.
- Quem comprou estes lugares? - pergunto, apontando para duas mesas vazias.
Remus consulta sua prancheta.
- Uma empresa chamada Maida Insurance. Eles devem chegar mais tarde.
Encolho os ombros e vou até a mesa dos Potter. Enquanto caminho pelo labirinto de mesas, girando os quadris para lá e para cá, vejo que eles parecem estar se divertindo muito. Mas, sendo honesta, basta colocar bebida e um pouco de comida decente perto dos Potter e eles irão sempre se divertir. Will está muito bonito, mas não consegue ofuscar seu irmão mais velho.
Acabo, finalmente, conseguindo chegar à mesa deles e James sorri para mim.
- Não acredito que você organizou tudo isto! É simplesmente surpreendente! É melhor que a Festa Nórdica do Gelo de Lady Boswell?
- Definitivamente! - Sorrio de volta. - Obrigada - digo simplesmente.
- Está cansada?
- Meus pés estão me matando!
- Lily?
- Sim?
Ele olha rapidamente para tia Flo, que está de costas para nós, mas com os ouvidos presos à nossa conversa.
- Você sabia que nosso velho amigo Gussie está procurando por um gato? - ele diz displicentemente, sem tirar os olhos de mim.
Meu cérebro se agita vagamente em reconhecimento. Ele está falando comigo em nossa língua secreta, penso devagar comigo mesma. O problema é que não a ouvi por quinze anos e estou absolutamente surpresa de que ele sequer se lembre dela.
Gussie quer dizer nós. Qualquer referência a um gato significa que precisamos conversar (deve ser porque, em francês, gato é chat).
- Quando você vai ver Gussie? - pergunto, querendo dizer quando e onde devemos conversar.
Ele sorri e estica o braço para pegar minha mão. Um pico extra de adrenalina começa a correr pelo meu corpo.
Mas o sorriso dele morre no rosto e ele tira os dedos de repente. Está olhando algo atrás de mim e eu me viro para ver o que é. Engasgo, porque, sentando-se calmamente à mesa que estava vazia, usando um smoking, está Amus Diggory.
Tcharam! Depois de um século eu finalmente consegui encontrar tempo para postar!
Gemeas Potter: Mais um capítulo com apenas mais clima romântico entre James e Lily. Sobre beijos, não posso revelar nada, hehe.
Lally Sads: O passado do James e Lily ainda guarda algumas surpresas e, sim, tem algo a ver com os pais dela (óbvio, mais descarados, impossível). Agora é só aguardar para o nosso casal resolver que já passou da hora de se pegarem; e enquanto isso não acontece, espero que aprecie este capítulo. E é melhor nem comentarmos sobre Sherlock, que só de pensar no hiatus eu já fico triste.
See ya,
Joules
