CAPÍTULO XXIV

Não tenho a mínima vontade de que Amus me veja, de modo que me movo furtivamente para a frente e sento-me de repente em uma das cadeiras. Remus se junta rapidamente a mim.

- Parece que Amus está em todos os lugares que estou - reclamo.

- Por que ele está aqui?

- Acho que é porque ele é um dos diretores da Wings.

- Mas ele não é um diretor-executivo.

- Sim, mas é o responsável por tudo isso, não é?

- Como é que vamos sair daqui?

Olho para a porta. Não temos como sair sem chamar o máximo de atenção possível e dar a impressão de que estamos fugindo.

- Vamos ter que ficar aqui até o fim e escapar com o resto do pessoal - digo firmemente. Eu posso fazer isso. Sentar quietinha e permanecer fora do ângulo de visão, repito para mim mesma. Na verdade, era exatamente isso o que eu planejava fazer. Esconder-me bem longe de toda esta história horrível, e que alguém me desenterre só daqui a alguns anos.

A conferência começa com um representante da agência de RP apresentando as pessoas à mesa. Abaixo mais na cadeira. Provavelmente não vou chamar a atenção no papel da única anã da sala. James levanta e começa a falar sobre a excelente empresa que ele acha que a Wings pode ser, desde que administrada corretamente, e descreve rápido alguns dos planos que tem para a empresa. Explica que os investidores americanos, que possuem a quantidade decisiva de ações para a negociação se concretizar, desejam uma extensão no prazo para analisarem as opções.

- Então ele não conseguiu convencê-los a vender - Remus murmura para mim. - Ele está absolutamente perdido.

- Pode ser que ele consiga levantar o capital em algum lugar - sussurro de volta. Remus me dá uma olhada. - Bem, ele pode - insisto. As pessoas na nossa frente viram-se e olham para mim com cara feia. É só isso? Nada mais a ser dito? É só mais outra semana. Mas há o problema dos móveis que a tia Winnie precisa devolver hoje, e o banco está de olho na propriedade que nem um urubu. Remus está certo. Ele está perdido.

Encolho-me ainda mais na cadeira e fecho a cara. Penso em todo o trabalho que todos tiveram na propriedade - Monty, Will, a Sra. Jones. Até mesmo a tia Winnie e Remus fizeram a parte deles. Penso no que James tem passado para manter sua casa. Tudo isso para nada. Tudo porque Amus Diggory quer manter seu cargo em uma diretoria. Subitamente meus olhos são atraídos para outra direção. Amus parece muito satisfeito consigo mesmo, olhando para seu reflexo na janela e dando sorrisinhos enquanto o representante do banco americano cita os motivos para o atraso, mencionando indiretamente o artigo do jornal. Ele sabe que ele ganhou. Todo mundo sente isso. Meu Deus, a vida às vezes pode ser tão injusta.

Os jornalistas começam a fazer perguntas. James defende-se de umas perguntas maldosas sobre quantas pessoas serão demitidas com a compra da Wings. Alguém então pergunta quais são os planos para a Wings se a aquisição hostil não for realizada. Amus ergue-se em um salto.

- Acho que posso responder a essa pergunta. Mas deixe-me começar dizendo que todos os membros da diretoria da Wings estão lutando intensamente para evitar que esta tomada hostil se realize. Acreditamos que um futuro com a equipe administrativa atual é preferível a qualquer futuro com a empresa de James Potter. Nós admitimos que os lucros não foram os que os acionistas esperavam, mas esperamos nossos parceiros nos Estados Unidos, que estão conosco desde a formação da Wings, fiquem do nosso lado. Temos grandes planos para a empresa, que já foram descritos para nossos acionistas, e acreditamos que eles garantirão que os lucros da Wings alcancem níveis de retorno aceitáveis. Garantimos que não vamos demitir ninguém. Não estou sozinho em pensar que James Potter garantirá o pior cenário possível para os que se preocupam com a Wings, tanto acionistas como funcionários. os informes da imprensa não foram exagerados. Ele não é um homem de palavra. Ele não é um homem que cumpre suas promessas.

- COMO VOCÊ PODE DIZER ISSO! - grito. Só que achei que disse isso em pensamento, e posso ver perfeitamente, pelo número de rostos girando em minha direção, que não foi bem assim. Também descubro que estou de pé. Tento sentar bem depressa. Tenho certeza de que podemos abafar tudo e que vou distrair as pessoas apontando para fora da janela ou coisa parecida. Mas Remus não me deixa sentar. Bato nele freneticamente.

- Vamos lá, Lily - sussurra Remus -, vá lá na frente. - Ele me dá um empurrão e eu paro no fim da fileira de assentos. Registro vagaente os rostos que me encaram: James com olhos vivamente interessados, Monty e Flo boquiabertos. A equipe de James parece absolutamente pasmada e Victoria corre na minha direção. É muito tarde para desmaiar? Que diabos estou pensando? Nada racional, óbvio.

Dou uma olhada em Amus e fico mais resoluta. Subitamente estou furiosa. Empurro as mãos de Victoria para o lado e marcho decidida para a frente. Antes que alguém possa dizer algo, eu digo para a sala:

- Amus Diggory tentou deliberadamente me usar para conseguir todos os detalhes possíveis sobre a oferta de aquisição de James Potter. Ele sabia que eu estava trabalhando na fazenda e me fez acreditar... - meu lábio treme um pouco e olho para Remus, que faz um sinal encorajador com a cabeça -... que gostava muito de mim. Ele vazou todas as informações, que eu passei inocentemente para a imprensa, para tentar confundir os acionistas. Ele é um homem sem honra e desonesto, e a última pessoa na Terra a manter as suas promessas. Ele é uma víbora. - Víbora, Lily? Víbora? E James Potter é o homem mais honrado que eu já conheci. Ele sempre mantém suas promessas - acrescento para dar um reforço.

Olho para a sala por um segundo, até que o flash de uma câmera me traz de volta à realidade. Dou uma última olhada no rosto maravilhoso de James e tento sair da sala com um pingo de dignidade. Infelizmente, disparo em direção à porta e quase fico com um olho roxo. Quando chego ao hall de entrada, corro em direção à cozinha.

- Lily! - exclama a Sra. Jones. - O que aconteceu...? - Mas eu continuo correndo até chegar ao jardim murado. Caio sentada no chão e olho para minhas mãos, que tremem como loucas com toda a adrenalina que corre pelo meu corpo. Esta deve ter sido a coisa mais embaraçosa que já fiz na vida. Cubro o rosto com as mãos. O que James vai pensar?

Remus chega segundos depois.

- Oh, meu Deus! - ele diz e sorri.

- Eu parecia uma completa lunática? - pergunto perturbada.

- Vamos dizer assim, não acho que a Sra. Jones vai pedir para que você tome conta do Harry algum dia. Mas foi maravilhoso! A melhor coisa que você já fez na vida!

- Meu Deus, Remus. Foi horrível, simplesmente horrível. O que eu estava pensando? Por que não fiquei com a boca fechada?

- Porque você estava certa, Lily. Tudo o que você disse sobre Amus e James estava certo.

- Alguém disse alguma coisa depois que eu saí?

- O teto desabou. Os jornalistas começaram a disparar perguntas, mas eu saí para vir atrás de você. Will, Monty e Flo ainda estão lá. Eles vão nos contar o que aconteceu! - Ele senta no chão, ao meu lado.

- Você tem um cigarro?

- Lily, você não fuma.

- Só me dê um cigarro.

Remus faz um som de reprovação e tira um maço de cigarros do bolso. Eu acendo um cigarro e trago fundo até que a fumaça chegue às minhas botas. É a coisa mais deliciosa do mundo. Justamente o que eu preciso para me livrar do infeliz vício do adesivo de nicotina.

- James disse alguma coisa? - pergunto finalmente. Remus balança a cabeça.

- Você acha que ele vai ficar zangado? Eu estraguei tudo?

- Como poderia? Amus é o vilão da história.

- É justamente o que eu precisava. Um pouco mais de humilhação e vergonha. Podemos ir embora agora, Rem?

- Temos que carregar toda a mobília, e não podemos fazer isso antes que todos saiam.

- Quanto tempo mais? - pergunto suplicante.

- Umas horas.

- Eu vou ficar aqui e morrer devagarzinho de vergonha. Se Deus for misericordioso, Ele acaba comigo neste momento.

Remus dá uma palmadinha no meu joelho e diz:

- OK. Vou pegar um café para você.

- Veja se consegue encontrar algo para comer! - grito para a silhueta que some. Ele ergue a mão para dizer que ouviu.

Sento e olho para o chão, com os braços ao redor dos joelhos, e fico perturbadoramente reconfortada com o cigarro. Quando termino de fumar, sento desajeitada sobre os pés e fico pensando no que estará acontecendo lá dentro. Remus está certo, eu deveria usar sininhos para prevenir as pessoas quando me aproximo ou, pelo menos, fazer um seguro contra terceiros. Olho para o relógio - 11h20. Os americanos ainda têm quarenta minutos para aceitar a oferta e meu pequeno discurso pode ter sido o catalisador de que necessitavam. Ou o mais provável é que queiram se livrar dessa história toda. Estou muito nervosa para ficar parada. Levanto e começo a inspecionar os canteiros. Caminho de planta em planta, pegando folhas, inspecionando flores e até arranco algumas. Descubro uma peônia sendo absolutamente esmagada por uma madressilva e puxo alguns galhos para deixar a peônia pelo menos respirar. Ando um pouco mais e descubro alecrim, sálvia e erva-cidreira. Meu Deus! Onde Remus se meteu? Será assim tão difícil fazer uma porcaria de uma xícara de café? Quanto tempo ele vai me deixar aqui brincando de jardineira antes de vir em meu socorro com um pouco de cafeína?

- Lily? - ouço uma voz chamando ao longe. Não é Remus. - Lily? - Consigo ver o topo da cabeça de tia Winnie procurando por mim, esperançosa.

- Tia Winnie! - segredo. Ela não me vê. - TIA WINNIE! - chamo novamente. Ela olha na minha direção e eu faço acenos furtivos. Desta vez ela me vê, acena de volta e dá uma corridinha cômica nas pontas dos pés, que, eu imagino, seja para dar um ar de segredo ao ato.

- Lily, minha querida! Remus me disse que você estava aqui fora! - ela diz em altos brados, caso os espiões que a seguiam tenham perdido sua pista. Ela chega mais perto e me dá um beijo no rosto. Sentamos.

- O que está acontecendo? - pergunto.

- Bem, aquelas meninas do Repêr...

- Garotas de RP - corrijo.

- Foi o que eu disse.

- Não, você disse meninas Repêr, como se fosse uma palavra. É RP, que quer dizer...

- Lily, você quer ouvir o que tenho a contar ou não?

- Sim, quero. Desculpe.

- Bom - ela me dá uma encarada -, as meninas Repêr estão tentando se livrar dos jornalistas, mas eles estão esperando, desesperados, para descobrirem quem é você.

- Onde está James?

- Ele desapareceu na sala de estar com o resto do grupo. Uma das meninas queria encontrar você para conseguir algum tipo de declaração, ams dissemos que não sabemos onde você está. Ela foi falar com James.

- Como ele pareceu estar? Zangado?

- Não.

- Chateado, então?

- Não.

- Um pouco desapontado?

- Não, acho que mais para perseguido.

- Perseguido?

- Bom, é uma história e tanto para os jornalistas! Diretor de empresa ameaçada por uma aquisição hostil usa a moça do bufê para obter informações.

- Eu não sou a moça do bufê! Sou uma promoter! Espero que aquela desgraçada garota de RP não diga que sou a moça do bufê. Moody vai matá-la! Você acha que vai sair nos jornais?

- Acho que você vai aparecer nos jornais, sem dúvida alguma.

- Será que desta vez Moody me despede? Não vai ficar bem perante os nossos clientes.

- Não! - tia Winnie diz alegremente. - Não vai ficar bem mesmo.

- Eu nunca contei para ele que Amus tentou obter informações comigo. Achei que ele teria um ataque!

- Bom, ele vai ter um agora, com certeza!

Eu me lembro de ter escrito uma lista, anos atrás, sobre o que queria conseguir na vida. Era algo sobre encontrar um homem decente e estar bem-sucedida na minha profissão. Como é que pude fracassar tão monumentalmente nas duas coisas?

- Podemos ir embora agora? - pergunto desesperada para tia Winnie.

- Temos que esperar até que todos tenham saído para retirar a mobília, Lily!

- Posso esperar por você na sua casa? Acho que não posso ver ninguém.

- Claro! Mas você não quer dizer adeus para a família?

- Eu envio cartões para todos! - digo infeliz. - E flores. E chocolates. Além disso vou ver Monty quando ele for buscar você na semana que vem.

- Lily, eu acho que eles estão prestes a perder Hogsmeade - ela diz suavemente. - Não pode, pelo menos, desejar boa sorte? Você não precisa ver James - ela acrescenta inteligentemente.

Remus aparece por sob o arco, carregando três canecas de café fumegante.

- Desculpe, Lily! As pessoas ficaram me cercando em busca de informações. Mas eu não disse uma palavra. Não soltei um pio. Mesmo quando eles me torturaram! - Ele sorri. - A Sra. Jones mandou isto. - Ele tira alguns biscoitos queimados misturados com fiapos do bolso do paletó.

- Consigo dar um meio sorriso de volta.

- Você não disse onde eu trabalhava, disse? - Ele balança a cabeça. - Talvez eles não descubram e Moody não me mande embora.

- Hum, eu acho que ouvi uma das garotas de RP contando para eles.

Olho para Remus horrorizada. As coisas vão ficar piores ainda? Remus encolhe os ombros.

- Talvez Moody não se importe com isso.

- Confidencialidade é supostamente o alicerce dos nossos negócios.

Olho para os dois, sem fala por um segundo. Para completar a história, vou perder meu emprego e não acho que vá conseguir outro muito depressa. Lágrimas enchem meus olhos e eu as enxugo impacientemente. Já estou cansada de chorar.

- Espero por você na sua casa, tia Winnie.

Os dois percebem que pedir para que fique não vai funcionar em nada e concordam com a cabeça.

Marcho em direção à casa e subo para meu quarto, onde Meg me espera. Bato a porta em um ato de desafio que passa completamente despercebido - os moradores desta casa estão tão acostumados com portas batendo como com gafanhotos. Pego minhas malas e saio cambaleante em direção à porta. Completamente carregada, desço com dificuldade, com Meg atrás de mim. Meu orgulho ofendido e machucado já é uma carga e tanto. Depois de anos de abuso, ele finalmente desistiu de andar sozinho.

Consigo ter sucesso e chego ao carro sem cruzar com nenhum membro da família, e então tento encontrar as chaves sem largar uma das malas.

Finalmente as encontro na bolsa, enfio tudo no porta-malas, abro a porta do passageiro para Meg entrar e sento no banco do motorista. Minha mão treme tanto que mal consigo enfiar a chave no contato, mas acabo conseguindo, engato a primeira marcha e olho para frente. Um homem e uma mulher estão parados na frente do carro. Olhando melhor, percebo que são os meus pais.


Olá! Pois é, sei que não atualizei tão rápido quanto o esperado, mas pelo menos não sumi novamente. Bem, este é o penúltimo capítulo e, em pouco tempo, publicarei o final. Ansiosos? Hihi, eu estou e muito! Como vocês viram, Lily mandou tudo pro espaço e soltou a macaca. Será que isso terá sido bom ou ruim para o James? E quanto aos pais de Lily? Tudo será resolvido no próximo capítulo!

Laah B: Ahh, amor, aqui está! Pois é, o Amus sempre dá um jeito de aparecer assim nos lugares e estragar com tudo. Bem, agora ele se ferrou de vez, ha. Espero que tenha gostado!

Leitora Anonima: Que bom te ver por aqui de novo! Muito obrigada por todos os elogios e desculpe pela (nem tão) pequena demora. Espero que goste!

Lally Sads: Hahaha, que bom que você não sumiu que nem eu, hein. Suas reviews são sempre as mais fofas! Enfim, aqui está mais um capítulo fresquinho para ti, com um pouco mais de Amus para você querer matar (meu bom Deus, será que esse cara não se toca?). Espero que esteja ao seu agrado!

Monkey D. Emi:Que bom que gostou, apesar de já ter chegado na reta final da fanfic. Bem, eu não quero causar desespero em ninguém, por isso vou tentar postar o último capítulo antes das férias começarem, ok? Espero ter ver novamente comentando por aqui!

Beijinhos e até a próxima,
Julie Patootie