Usagi deveria ter simplesmente se esquecido do encontro e aceitado o convite de Motoki para beberem em um bar próximo a seu trabalho.

Agora que os dois eram grandes amigos, ela gostava muito de se divertir com o irmão postiço, mais do que quando ela morara antes em Tóquio. Os dois haviam se reencontrado apenas um ano antes, época em que Motoki passava por alguma fase de mudança de amigos. Isso permitiu com que ela se encaixasse perfeitamente em seu ciclo social. Dissesse aquilo a seu eu de catorze anos, talvez ela não acreditasse, mas Usagi acreditava agora que estava próxima de virar a confidente do moço. Uma vitória, sem dúvidas.

E ela devia ter ido até o bar com Motoki. Não até o restaurante para dar seguimento à história doida de casamento arranjado que sua mãe arrumara. Ainda não podia acreditar que o pai, sempre tão conservador quando o assunto era homem, houvesse concordado. O que um pouco de dinheiro não fazia... Só porque a outra família era rica – uma médica aposentada e um diretor de hospital, – o pai ficara quieto. No último final de semana, até parecera incentivar o encontro daquela noite.

Mas o cúmulo de tudo aquilo estava bem diante dos olhos de Usagi, assim que ela localizou a mesa com seu pretendente, que já a esperava. Era um rapaz alto, usando um blazer preto com uma gravada listrada de prateado e branco, tomava um copo de vinho branco, enquanto admirava as luzes da cidade abaixo. O restaurante ficava em um prédio bastante alto; então, Usagi poderia dizer que era possível ver toda Tóquio desde ali. Mesmo assim, suas mãos tremiam e seus olhos não se decidiam se desviavam ou se olhavam fixamente para Mamoru Chiba.

Era estranho... Ela havia visto seu nome antes nos documentos. Certo, Usagi nunca chamara aquela pessoa pelo nome completo e, desde que fora morar em Osaka no fim do ginásio, não o vira mais. Motoki, que era um amigo em comum, também não o mencionara nas conversas; talvez os dois colegas de faculdade houvessem perdido o contato. Mas como Usagi não o reconhecera? Queria dar-se um tapa na cara. Como pudera ter sido tão superficial em examinar os detalhes sobre o pretendente que deixara passar o fato de já conhecê-lo. E o mais importante: de odiá-lo.

Certo, ódio era um sentimento forte. Mesmo com quatorze, quinze anos, Usagi não odiava Mamoru. Apenas não se entendia com ele. O rapaz não fazia por menos, tinha que dizê-lo em sua defesa. Nunca perdera a oportunidade de dizer que Usagi iria engordar, que sua média de notas era bastante baixa e que não arranjaria namorado. Mas agora que o tempo passara, apenas restara-lhe a sensação de que Usagi não gostava daquela pessoa. E, mesmo assim, lá estava ele no lugar onde seu pretendente a aguardava.

"Valeu, mãe..." Usagi sussurrou, enquanto pegava o celular e armava sua rota de fuga.

Tarde demais. Nesse mesmo momento, Mamoru já se voltava em sua direção. Foi aí que Usagi percebeu um detalhe importante, cuja descoberta a congelara ali: Mamoru estava provavelmente ciente de que era ela desde o início. Bem, ao menos, desde que ouvira o nome de sua pretendente. Diferente dela própria, aquele homem tinha o ar diligente demais para se espantar com algo assim.

Ele lhe acenou, instante em que o garçom que a apontara a mesa reservada reapareceu para terminar de conduzi-la. Fuga impedida. Usagi sentou-se com um sorriso fraco nos lábios. No interior, ela soltava uma gargalhada desesperada.


Já se havia passado uma hora quando Mamoru fez sinal para se levantarem da mesa. Com a sobremesa transformada em mera carcaça e a conta paga sem mesmo que Usagi soubesse o valor, não havia realmente muito mais que fazer ali. De fato, a vista era atraente. Estranho só se lembrar disso agora que se levantava para ir.

- Algum problema? – perguntou-lhe Mamoru.

Mais alto do que ela se recordava, Mamoru tinha como diferença o cabelo um tanto mais arrumado e óculos de armação fina. Agora, Usagi tinha certeza de que seu par possuía consciência de com quem jantaria naquela noite. E isso a enfurecera antes mesmo de chegar a refeição pedida. Não fazia sentido: "se ele sabia, por que não cancelou?" não parava de se perguntar. Mesmo agora, não o compreendia.

- Usagi? Deseja comer mais? – Não era uma gentileza; o tom de voz possuía um sarcasmo que mesmo alguém de inteligência abaixo da média como ela podia perceber.

- Só estava pensando que devia ter pulado daqui quando te vi. – E apontou para a vista.

Mamoru ergueu as sobrancelhas sobre a armação dos óculos.

Aquela reação a fez corar levemente. Então, começou a andar antes que o outro percebesse que a desconcertara.

- Fala sério... – respondeu a moça, com o rosto mais à frente de forma a ocultá-lo. – Quem acreditaria em algo assim?

- Ah, - foi tudo o que ele disse.

O silêncio se prolongou até a saída do prédio em um bairro de alta classe de Tóquio. Perceber que o jantar luxuoso terminara fez Usagi arrepender-se mais uma vez de haver se irritado tanto com a companhia. A noite podia ter sido muito melhor para ela.

Makoto já havia lhe advertido que ela não seria obrigada a se casar. Então, por que seria algo ruim se divertir ali? Talvez por essa mesma razão Mamoru não parecesse se importar com quem ela era. Ele apenas a recusaria a seus pais, tal qual Usagi faria quando chegasse em casa. Uma atitude madura. Ela não tinha mais quatorze anos.

Por que não pudera só aproveitar a noite? Era o primeiro encontro de sua vida! E Mamoru era um homem atraente. Um pouco nerd demais e introspectivo também, mas, com um pouco de imaginação, aquele Clark Kent poderia se tornar um super-herói.

- Você estava bastante triste quando disse aquilo, - Mamoru interrompeu sua imaginação de uma capa e máscara misteriosas. Agora ele era apenas o sujeitinho estranho que voltava a cruzar seu caminho. – A coisa de pular. Suicídio é um assunto real, não diga coisas do tipo.

- Eu falo o que quero. – Mas Usagi já estava arrependida daquele revide infantil. E saturada de se arrepender naquela noite. – Desculpa, Mamoru. Foi só o choque todo, você é a última pessoa no mundo que eu esperava estar ali, entende?

- Não é como se eu também não houvesse me surpreendido com os documentos. É exatamente por isso que não entendo.

- Ei, por que eu não retribuo a janta com um lanchinho? – Usagi apontou para uma pequena barraca à frente de enroladinhos de polvo.

- Quer dizer agora?

- Quando mais? – Ela lhe franziu a testa.

- É que acabamos de comer... Não estava bom? Você podia ter pedido mais.

- Mas já faz um tempo que comemos! Até deu para eu comer a sobremesa inteira, né? Vamos; eu divido uma porção contigo.

Ela correu até o moço que virava as bolinhas na máquina com rapidez até ficarem no formato e na cor perfeitos. Após terminar de pagar e receber a pequena caixinha com seis bolotas de salgado de polvo, Usagi começou a pôr molho e maionese.

- Você realmente morou em Osaka, né? – Mamoru comentou quando ela se aproximou com o petisco.

Os dois caminharam até um banco na pequena praça a alguns minutos da barraca e Usagi olhou para o salgadinho.

- Vamos comer? – ela perguntou, com água na boca.

- Não quer que eu vá à loja de conveniência comprar algo para bebermos junto ao menos?

- Cerveja! Uma lata de cerveja, por favor! – Ela levantou os braços em comemoração. – Ih, mas eu é que tô pagando desta vez... Pera! Vou pegar umas moedas.

- Não precisa realmente...

- Precisa sim!

Mamoru sorriu ao receber a moeda de quinhentos ienes.

Continuará...


Notas da Autora:

Muitos agradecimentos a todos que estão lendo aqui pelo FFN, principalmente à Mari Rodrigues e à MViana pelas reviews. Obrigada mesmo!

A Mari perguntou sobre a outra fanfic de Sailor Moon com preview no Olho Azul... Ela é uma fic que comecei no ano passado e que estava muito perto de terminar pra poder publicar quando meu cérebro se distraiu com outras coisas e até hoje nem consegui terminar, muito menos revisá-la pra publicação. Pode deixar que ela não foi abandonada, eu vou sim publicar eventualmente. Aliás, fico muito feliz que a esteja querendo ler, confesso que é uma das fics de Sailor Moon com que mais me diverti fazendo, por isso tenho um carinho super especial com ela (essa pressão aí deve ser o motivo do bloqueio, rs). Aliás, gostei tanto que pra esta fic importei alguns elementos. Então, considere esta aqui também uma preview. XD

A MViana estava indagando sobre os shitennou de que falo no resumo da fic e como vocês não podem ler resposta a review, esclareço aqui. Como quem já me conhece sabe, minha paixão número um é Usagi e Mamoru. Mas nesta fic decidi entrar pro clubinho Shitennou/Senshi (Kurai me conquistou com isso, rs). Então, se vocês vieram por causa da minha promessa de ter esse romance, aguardem um tiquinho que eles vão aparecendo! Como as meninas e os shitennou tão meio espalhados na história, preciso de tempo pra reunir cada um. Garanto que todos os quatro aparecem!

Enfim, espero que todos estejam gostando. Por favor, não deixem de comentar com suas opiniões, ou ao menos com um "li", qualquer coisa já vai ser muito importante pra mim!

E até a próxima! :D