Sua lata já havia terminado e tudo o que sobrara do enrolado de polvo foi o papelão sujo de molho e maionese.
- Seu apetite sempre me surpreenderá, cabecinha de odango - as palavras de Mamoru a surpreenderam enquanto ele esticavas as pernas no banco.
- Você também comeu...
- Um, porque você quase o esfregou na minha boca.
- Mas estava gostoso demais pra ignorar. Se bem que acho que prefiro o de Osaka...
- Arrependida de voltar pra Tóquio? Minha mãe adoraria que a nora dela morasse por lá na região oeste mesmo.
- Não fale essas coisas; nem brincando. E Tóquio é Tóquio, né? Minha mãe também já tava morando aqui com o meu irmão por causa da faculdade.
- Ah, ele não veio sozinho?
- Minha mãe tem algum medo inexplicável de nos deixar sozinhos faz alguns anos... Até parece que o bicho papão vai vir e nos pegar.
Mamoru deu uma risada.
- Todas são assim.
- Não, dona Ikuko é bem pior.
Depois dessas palavras, os dois apenas ficaram sentados olhando em frente ou para cima. A lua estava bastante clara naquela noite e havia bastantes estrelas apesar não mais ser inverno.
O que mais chamava atenção naquela noite era o cheiro. Um aroma diferente que vinha de Mamoru e lhe transmitia alguma sensação de conforto. Ao mesmo tempo, não era o mesmo perfume ou colônia ou o que fosse que fazia aquele cheiro. Era algo típico, apenas de Mamoru, porque ele não era nem seu pai nem Shingo. Aquele pensamento causou-lhe um arrepio e a parte defensiva de sua mente gritou que não podia ser "típico apenas" daquele homem, era apenas alguma marca diferente que muitos outros deviam usar. O sermão terminou com um "sua encalhada que não sabe nada de homens" para depressão de Usagi.
- Bem, já está tarde. – Mamoru foi o primeiro a se levantar. – Que tal eu te levar até sua casa?
- Até a estação de trem já está bom. – Ela também se pôs de pé, arrumando a roupa numa tentativa de pôr ordem na cabeça. Ao mesmo tempo, a noite estava muito mais fria que as roupas que pusera para usar de dia, e aquele era sim seu primeiro encontro. Por que não se aproveitar do fato que tinha um homem cheiroso como companhia?
Com esse pensamento, Usagi impulsionou seu corpo até o braço de Mamoru para agarrá-lo, como os casais que via às vezes na rua. Segurar mão era para os fracos e para os colegiais. Um pensamento perverso a atrapalhou no movimento: e se acabassem em um motel depois de ela dar aquele sinal ambíguo? Em razão dessa confusão, seu corpo não sabia mais o que fazer e, em pleno movimento, ele simplesmente parou no meio do caminho e fez com que ela se desequilibrasse.
Como em todo tombo de sua vida, o mundo passou a agir em câmera lenta só para deixá-la com mais frustração por não conseguir evitar a tragédia. Usagi pôde ver claramente gestos de Mamoru como se ele lhe fosse aparar a queda para em seguida desistir e apenas dar um passo para mais longe.
E lá estava ela, com as palmas no chão da praça. E lá estava ele, gargalhando.
- Isso foi muito malvado! – Ela começou a se erguer. – Você me deixou cair! – Nem conseguia acreditar que tudo fora causada por ela contemplar entregar sua virgindade àquele estúpido. Sentia-se enganada por aquele Clark Kent que agora revelava ser a velha bruxa do oeste.
Mas, antes de maiores xingamentos, Mamoru ajudou que ela voltasse ao equilíbrio, segurando seu corpo bem firmemente. Depois, tirou-lhe todos os sentidos em um beijo suave, tão suave que Usagi apenas percebeu que suas línguas haviam se tocado quando elas se separaram um longo momento depois. Seu corpo inteiro suava e tremia, sem saber se estava com frio ou com febre.
Mamoru a levou até a estação de trem e de lá até bem perto de sua casa. Agora ela não ousava nem segurar sua mão, aquele encontro era real demais, tanto quanto a sensação de algo roçar que permanecia nos seus lábios.
Ela parou enfim. Não podia ir com ele até a porta de onde morava, precisava de alguns passos antes de entrar e ter que se explicar para a mãe. Precisava esfriar a vermelhidão de suas bochechas pelo menos.
- Até aqui já está bom, - disse, forçando-se a olhar para o outro.
Mamoru lhe sorriu com algo de divertimento.
- Foi uma ótima noite.
- É...
- É sério, foi bom me distrair um pouco. – Mamoru tirou do bolso do blazer um celular.
Após trocarem de número, Usagi lhe acenou até que o seu encontro virasse a esquina de volta para a estação. Com isso, Alice estava de volta do breve mundo das maravilhas. Ao menos, era essa a sensação que restou ao dar a volta e andar mais dois minutos até sua casa.
A felicidade era tanta que ela até cumprimentou o gato que sempre via rodeando sua casa, acariciando sua cabeça. Talvez ele estivesse com sede? Não faria mal pôr um pouco de leite para ele... E se sua mãe a estivesse esperando, ter uma tarefa seria uma forma de não ficar pensando no beijo que recebera meia hora antes.
O gato se aproximou do pequeno pote e começou a bebê-lo com o olho para cima, atenta aos movimentos no interior da casa à sua frente. Depois que a luz da entrada foi apagada, um segundo gato, desta vez bem branco, surgiu e começou a beber do mesmo leite que o primeiro.
- Você deveria estar de olho no andar de cima - disse o gato preto, empurrando o segundo com a pata.
- Mas, Luna... Pra que precisamos fazer isso? – perguntou, lambendo o lugar onde as unhas passaram por sua pele.
- Beryl e Metallia dizem alguma coisa pra você? Arthemis, se você acha muito chato cuidar das meninas, apenas vá viver sua vida. – Luna se sentou e o olhou seriamente.
- A princesa viveu por anos longe da gente e voltou sã e salva. Ela só aconteceu de voltar para Tóquio, não tem sinal nenhum nisso. Você pode relaxar, sabia? – Ele a olhou e então baixou o olhar. – Desculpa; eu sei o quanto a princesa é importante pra você.
Luna assentiu. Então, levantou a cabeça para onde sabia ser o quarto de Usagi, agora com a luz acesa.
- Eu nunca mais quero vê-la passar por tudo aquilo. Sei que sou pequena e não tenho o poder do cristal de prata, mas tentarei evitar como puder que ela sequer se lembre de todos aqueles eventos terríveis.
Voltando a beber do leite, Arthemis permaneceu calado.
- Diga logo o que está pensando - brigou Luna. Anos de convivência com aquele gato não permitiam que ele lhe escondesse nada.
Após um instante mais, Arthemis miou em relutância e respondeu:
- Você rodeá-la não vai realmente ajudar. Quantas vezes por semana a Usagi não acaba por encontrá-la aqui na porta? Eu não sei o quão forte é o poder do cristal em manter essa amnésia em todos, mas o ideal é sumirmos da vida deles.
- Não me diga que você nunca vai visitar o apartamento da Venus. Eu sei que vai ao menos a cada três dias.
Um silêncio se seguiu enquanto os dois gatos se olhavam.
- Eu também ia vê-la... em Osaka - confessou Luna, olhando para as próprias patas dianteiras.
- Eu sei. Você não ia e voltava na velocidade da luz exatamente. – Arthemis gargalhou.
Passos os assustaram, e os dois gatos fugiram para seus esconderijos no meio das plantas na entrada do vizinho. Era o irmão mais novo de Usagi retornando, mas os dois foram lentos demais e ainda puderam ouvi-lo reclamar com a mãe que a irmã dera leite de novo pros gatos.
Luna miou desconsolada. Até mesmo Shingo havia se esquecido de que um dia aprendera a aceitá-la. Por mais que quisesse mudar isso ao menos, sabia que, pelo bem de todas as cinco meninas e suas vidas pacíficas, pelo último desejo da rainha Serenity, ela precisava resistir até mesmo àquele impulso.
Continuará...
[Fim da primeira parte]
Anita, 07/08/2012
Notas da Autora:
E aí? O que estão achando? Eu realmente gosto dessa cena final com os dois gatos, rs. Adoro escrever sobre Luna e Arthemis, mas não é sempre que tenho oportunidade. Aí decidi que nesta fic tinha que dar!
Muitos agradecimentos a todos os leitores que estão sempre pedindo por novas histórias. Eu nunca me canso de falar sobre este casal. Pensar e repensar sobre eles. Nesta fic, tentarei explorar um pouquinho a vida dos demais personagens, inclusive falar sobre os Shitennou, pra quem gosta. Aliás, agradecimentos à Kurai, que foi uma grande influência na hora de eu escolher esses quatro para participar na fic. Agradeço também à Mari Rodrigues e à MViana pelos reviews aqui no FFN! E agradecimentos especialíssimos à Spooky, quem nunca se esqueceu de me cobrar desde quando falei que escreveria uma fic sobre casamento arranjado.
Sempre me foi um tema menina-dos-olhos e eu até tenho uma ideia jurássica para Sailor Moon que eu nunca pus em prática. Acabou que escrevi esta, uma muito mais recente, rs.
Sobre o título, eu retirei de uma música do Kobukuro, "Ano Taiyou ga, Kono Sekai o Terashitsudzukeru you ni". Espero não soar tão brega quanto estou achando, rs. Mas fiquei muito tempo pensando e pensando e esse foi o com maior impacto que consegui e que tivesse a ver com a história. Aliás, tinha um pior saído direto dessa música também, rs: "minhas mãos para te proteger, meus olhos para te procurar, meu coração para te amar". Mas é fofo, né? :( Tá... só eu que acho. Mas é fofo, sim!
Enfim, tenho que agradecer a todos os que estão lendo. Espero ter a honra de vê-los de novo no próximo capítulo.
Para mais fics minhas, visitem meu site Olho Azul e não deixem de postar seu comentário com sua opinião. Qualquer apoio já vale!
Até mais!
