Parte 2 – Impulsos

Serena virou o pedaço de carne de porco que acabara de pôr na rede metálica à sua frente e suspirou enquanto olhava a cor mudar com o calor, mas seu estômago não se animava nem com o cheiro.

- Não vai acabar queimando assim? – perguntou Motoki, comendo o pedaço que ele acabara de fazer.

Apressada, ela usou os palitinhos e quase conseguiu que seu pedaço caísse por entre as fendas da rede para o lugar onde o carvão queimava.

- Talvez devêssemos ter ido a um bar; você não parece com muito apetite. E Usagi sem apetite pra mim era uma combinação impossível. – Ele sorriu.

- Eu prefiro uma refeição de verdade. – Usagi também forçou um sorriso em retorno. – É só que tem acontecido muito nos últimos dias.

- Aliás, foi por isso que insisti em nos vermos! – Motoki bebeu de seu copo de cerveja. – Eu quase tive um ataque cardíaco quando o Mamoru me falou desse casamento de vocês.

Só o som daquela palavra começada em C já causava arrepios na jovem. Usagi demorou a notar o quão real era, mas conhecer o casal Chiba naquela tarde de sábado tornou o arranjo tão real quanto podia ser. E era um casal simpático, não podia negar. De bastante idade, era verdade. Esperava encontrar um casal na faixa etária de seus pais, mas passara a tarde com duas pessoas que podiam ser seus avós ou mais. Não, não bisavós, mas... Patrões dos seus avós? Por aí.

E eles iam morrer. Com certeza. Os dois não pareciam mais sequer pertencerem a este mundo, o que a deixava ainda mais nervosa. Ela era realmente a última esperança de perpetuar a família? Como o encontro com o casal Chiba a havia deprimido tanto, até sua mãe mandara que parasse de pensar nessas besteiras, mas quem sabia se o senhor Chiba – o mais velho dos dois – viveria até o próximo ano?

Em pensar que pusera o quimono sem qualquer vontade de agradar, contrariada por aqueles velhos só poderem marcar a reunião de família no mesmo horário do goukon que Makoto organizara. Mas um olhar sobre o pobre casal idoso, e Usagi se derretera com a doçura de ambos. Ela sequer se lembrava da presença de Mamoru, a primeira vez em que o via desde aquele beijo.

Ótimo, como fora pensar nisso? Concentração, Usagi! Ela conseguira manter todo o encontro afastado de sua cabeça e agora, bem na frente de Motoki, começava a ficar vermelha.

- Eu sou suspeito em falar, mas o Mamoru é um dos caras mais legais que já conheci – dizia-lhe o outro. Na verdade, ele ainda devia estar falando desde antes, mas só agora sua mente prestava atenção.

- Sabe, não quero pensar nessa loucura... – disse com sinceridade, levantando os olhos até o teto.

- Não é loucura. Bem, é um pouco irônico justo vocês dois serem juntados, mas o Mamoru vai te fazer feliz. Ou eu arranco a cabeça dele!

Usagi gargalhou, voltando a comer o churrasco. Este ficara um tanto chamuscado tal como fora alertada que ficaria.

- E mais uma coisa: por que todo mundo pensa que casamento é um loucura? – Motoki continuava. – É maravilhoso ter alguém do seu lado, alguém que de fato quer estar ali com você. Eu sei que você ainda é nova, só vinte anos e tal...

- Vinte e três – corrigiu.

- É, isso. Só uns vinte anos... mas não é tão incomum assim. Não é o mesmo que casar muito novo. É a idade certa! Uma amiga sua de colégio daqui não casou noutro dia?

Usagi assentiu desanimada.

- Não é como se eu falasse com a Naru, só fui na festa e dei meus parabéns, você lembra disso... Não dá pra ligar e ver o que ela acha de verdade sobre o que fez, né?

- Bem, tem eu aqui. E eu não me arrependo nem um pouco de ter me casado com a Reika assim que terminamos os estudos. Esse é o próximo passo na vida, não há muito mais se não o fizermos. Não me arrependo de haver me casado; eu só preferia que meu emprego facilitasse as coisas. E o da Reika. Quando eu estou livre enfim, surge alguma coisa pra ela; é meio chato isso.

Usagi assentiu. A verdadeira razão para estarem ali era Reika, a esposa de Motoki havia mais de cinco anos, haver tido que viajar para uma palestra. Detalhe: notícia só fora dada quando ela já estava na estação de trem em direção à parte sul do Japão. O motivo da maioria dos encontros de Usagi com Motoki era esse, apesar de ele nunca haver admitido que se sentisse só.

Ao menos, ele não estava procurando garotas aleatórias em um bar, como alguns homens casados da empresa faziam, ou assim Makoto lhe dizia ser comum. Entretanto, era difícil culpar Reika, quando o trabalho de Motoki era bem mais pesado que o dela. Ele saía de casa às seis e pouca da manhã e voltava apenas à meia noite na maior parte das vezes. Aos sábados que ele possuía um horário menos puxado, era a vez de Reika volta e meia cumprir tarefas como correção de trabalhos da faculdade onde ela lecionava e assistia um professor. Domingo era o dia em que os dois pareciam se ver mais certamente, mas não nesse final de semana, e nem nos demais em que a empresa de Motoki pedia que ele fizesse hora extra. Complicado não definia muito bem a situação deles.

- E aí? Vai aceitar o casamento, né? – Motoki havia retornado ao assunto original.

Continuará...

Notas da Autora:

Agradecimentos eteeernos a todos que estão comentando a história aqui na FFN ou em qualquer outro lugar. (coração) (alt+3 aqui não funciona :() Estes capítulos de agora vão ser um pouquinho mais curtos, mas tentarei compensar continuando a atualizar com frequência (que de preferência não seja anual XD). Por outro lado, estamos no meio da fase de publicação do Coculto 8, então eu acabo perdendo um pouco a noção de dia... Este capítulo mesmo era pra ter subido ontem e não hoje... Paciência, por favor.

Aos que estão perguntando, sim! Ainda vai temos muito chão pela frente. Esta aqui é uma fic mais longa que minhas outras de Sailor Moon. :x