Usagi abriu a sua bolsa e tirou dela um envelope branco. Após olhá-lo distraída, estendeu-o até a pessoa à sua frente. Quando percebeu as mãos grossas pegarem o papel, seu primeiro impulso foi de puxá-lo de volta e sair correndo. Mas, antes que Mamoru o percebesse, soltou o envelope. Assim que ele o teve em mãos, abriu-o sem cerimônias, como se fosse mais um contrato qualquer de seu trabalho, e conferiu todas as folhas ali dentro.
- Desculpa pela demora! – A garçonete loira, a mesma de que o superior de Usagi parecia tanto gostar, disse enquanto ditava o que fora pedido e o punha na mesa. Ao terminar, o sorriso da moça mudou. Usagi sentiu-se ficando vermelha, como se flagrada fazendo algo indecente. – Que romântico! Nunca tinha visto papéis de casamento por aqui, he he. – A loira parecia francamente extasiada abraçando a bandeja agora vazia. – E vocês são perfeitos, almas gêmeas. Acreditem, eu consigo cheirar essas coisas. – Piscou com afetação. – Sou como a encarnação da deusa do amor!
- Agradeço pelas palavras – respondeu Mamoru calmamente, repondo os documentos no envelope. Então, passou a tomar seu café.
Usagi assentiu quando notou os olhares da loira sobre si.
- E eu te conheço! Já a vi aqui algumas vezes com aquele homem bem alto. Um que vem sempre. Acho que vocês todos trabalham aqui perto, né?
Ela assentiu mais uma vez.
- Eu me chamo Minako. É um prazer conhecê-la, senhorita recém-casada, he he.
Ótimo, até a garçonete parecia mais feliz que a própria.
- Bem, os documentos ainda não foram entregues e... – A voz de Usagi diminuía a cada palavra até sumir. Aquela situação só piorava.
Ela havia se prometido que resolveria tudo. Melhor, ela vinha se prometendo isso. Mas, no final, tudo o que acontecia era se ver arrastada por sua própria incompetência para a corrente do casamento com Mamoru.
No dia anterior, havia ficado até tarde no trabalho, escrevendo uma longa carta à mão para os pais de Mamoru, na qual pedia desculpas por desfazer o trato.
Após consultar Makoto, elas concordaram ser a melhor forma, em se considerando que a ordem atual era arrumar todos os documentos para se casarem o mais rápido possível e que Usagi só vinha adiando o que precisava ser feito.
No papel, deixava claro que achava Mamoru uma boa pessoa, muito bem criada, e que o filho devia encontrar logo, logo uma ótima noiva para lhes dar belos netos. Ainda, que a culpa era dela própria, por se achar imatura demais para o matrimônio.
Para descobrir o endereço de Quioto, bastou uma rápida olhada nos documentos do arranjo. Em poucos dias, tudo estaria oficial e perfeitamente encerrado. Ao terminar a redação, agradeceu Makoto pela ajuda e depositou o envelope selado na caixa de correio a caminho da estação de trem.
Todavia, aquela sensação de dever cumprido durou apenas até sua chegada em casa, quando viu o fatídico envelope branco pela primeira vez na mesinha de entrada. De início, apenas o estranhara, mas nem o tocara, seguindo para sua janta. Esta até podia ter sido chamada de "a última ceia", não de sua vida toda, mas de seus dias de solteira. Foi justo ao terminá-la que sua mãe revelou o conteúdo do envelope: as folhas assinadas de notificação de casamento.
- Mamoru deixou há pouco aqui. Ele achava que você já estaria em casa, mas como demorou... Aí disse que marcaria de buscá-los contigo amanhã perto do seu trabalho. – Ikuko sorriu, virando-se para buscar o carimbo.
Usagi olhou com desespero para as cópias da notificação e segurou a caneta mecanicamente, como se seu corpo não tivesse mais alma.
- Querida, eu sei que está indo tudo muito rápido, mas veja isto apenas como formalidade. Ainda faremos uma linda festa pra vocês dois! Lembra-se da descrição da dona Chiba? – Ikuko mostrou-lhe um sorriso confiante. – Ela disse que você terá a festa que quiser, que eles querem realizar seu sonho de noiva. E depois de amanhã é um ótimo dia para se casar, trará ótima sorte!
Ela assentiu, olhando que o documento estava datado para dois dias depois. A letra de Mamoru era bastante diferente da sua: todos os traços eram bem retos e cada ideograma parecia formar um quadrado. Mamoru provavelmente passaria em uma prova de ideogramas chineses...
- Filha? – chamou Ikuko. – É só você carimbar onde está o adesivo, consegue vê-lo?
Claro. Usagi era burra, não cega. Bufou baixo, os olhos fixos no documento. Precisava avisar à sua mãe que nada aconteceria.
- E quem são estas testemunhas? – perguntou no lugar. – Não era para todo mundo estar vendo a gente carimbar? De preferência, pessoas com quem eu me importe?
- São só pessoas que trabalham com ele. – Ikuko, então se virou para a jovem com o rosto sério. – Usagi, ninguém aqui está te obrigando a se casar com ele, sabia? E sabe de uma coisa... – A mãe pegou as folhas e o envelope de cima da mesa. – Essa decisão é grande demais para hesitações. – E começou a guardar tudo no envelope branco. – Da forma como está agindo, parece algum tipo de vítima sendo entregue a força para o sacrifício. Não é assim que se casa, filha. – Ikuko fechou o envelope e o segurou contra o peito.
E não era o que estavam fazendo? Um furacão para que ela rodasse até ficar tonta e fosse carregada até onde quisessem?
Ikuko pareceu bufar intencionalmente para interromper seus pensamentos:
- Olha aqui, Usagi. Os Chiba são uma ótima família, e o Mamoru é um belo rapaz. O único problema que pode ter aqui é você não querer. E, se não quiser, não haverá mais nada. Não olhe para mim assim como se eu fosse a culpada de alguma coisa. Só tentei te apresentar a alguém, e você não estava preparada. Basta dizer não. Sempre tem boca pra tudo e pra isso não teve? Se te forcei foi apenas a conhecer o rapaz; era o mínimo que podíamos fazer. Não deu certo e pronto.
Usagi assentiu após a pausa da mãe, sentindo as lágrimas lhe irem aos olhos.
Era isso? Era o que sua mãe interpretava de sua atitude? Ela era imatura e não simplesmente nova para casar?
Ela não era! Ela já tinha até um emprego; se quisesse, poderia morar sozinha. Sinceramente, devia fazê-lo.
Era tudo muito mais simples em Osaka na época em que a mãe ficara em Tóquio com o irmão. O pai trabalhava direto e ainda viajava em muitos finais de semana, era liberdade quase total. Sem a mãe para ficar perguntando dos garotos com quem ela saía, ou o irmão para vigiar seu peso enquanto ele virava o aluno brilhante de sua faculdade.
Pois bem, fosse qual fosse o motivo, ela havia tido uma proposta de casamento. Mamoru a conhecia antes de assinar aqueles papéis. E ele os assinou. Ela não era encalhada, alguém a quis. Fosse qual fosse o motivo. Era um mérito seu sim. Ninguém tirava.
Então, viu Ikuko começar a se afastar com o envelope. Usagi nunca saberia explicar o que aconteceu, ou melhor: o que a havia possuído. Era como se pudesse ouvir todas as vezes em que fora chamada de encalhada reverberarem dentro de sua cabeça, fazendo-a perder o controle de seus atos. Quando acordou, o papel já estava com seu carimbo e uma resolução estranha de querer se casar havia nascido nela.
Continuará...
