Ao sair do restaurante café, ela seguiu para a estação de trem na companhia de Mamoru.

- E agora? – quase cuspia aquela pergunta, tanta força tivera que fazer para falar.

Todos os casamentos arranjados deviam ser estranhos, mas, no caso dela, sequer conseguia se decidir se havia uma vontade real de casar. Com certeza, possuía alguma curiosidade sobre vários aspectos. E algum interesse; pois, mesmo se sentindo pouco à vontade perto de seu iminente marido, sabia que estava fazendo um negócio único: boa família, aparentemente bom dinheiro já de começo e uma bela herança por vir. Melhor ainda, os pais dele moravam bem longe; não teria que lidar com sogra. E a dona Chiba era um anjo de sogra, então, não devia ser problema pessoalmente.

Para o pavor de Usagi, eram pensamentos positivos como esses que vinham se multiplicando em sua cabeça ultimamente e enterrando os contra o matrimônio.

- Amanhã entrego o papel e começo a resolver os detalhes no registro de família. Acho que a festa deve demorar, né? Eu estava perguntando a umas mulheres do meu trabalho, e elas disseram que precisávamos de, ao menos, uns três meses para fazer algo decente. Minha mãe tinha razão sobre apressar os papéis. – Mamoru levou a mão para trás da cabeça. – Mas, realmente, não entendo dessas coisas. O que te satisfizer, contará com meu apoio. – E sorriu sem olhar para ela.

Seria proposital que ele se mostrava tão perdido agora? Existiria mesmo algo de humano por baixo daquela pessoa que estava lidando tão calmamente com o próprio casamento? Se fosse realmente algum tipo de embaraço aquilo que Mamoru lhe exibia, Usagi tinha que confessar achar isso fofo. No entanto, e se fosse mero descaso? Ele podia apenas estar com pressa de chegar logo em casa e ver algum programa na televisão.

Após cada um passar seu cartão pela máquina da estação, começaram a se despedir.

- Amanhã eu te ligo para dizer se deu tudo certo – anunciou Mamoru, fazendo sinal para sua pasta, onde estava agora o envelope branco. Era quase um atestado de óbito para Usagi Tsukino.

- Certo... E, com isso... estamos casados? – perguntou, não conseguindo impedir o rubor.

- Algo assim. – Mamoru baixou a cabeça. Lá estava, mais um sinal ambíguo. Estaria entediado e sem o que dizer ou...? – Mas ainda tenho que entregar tudo, né? Então, pensamos na mudança e depois procuramos nosso apartamento mesmo... Como o que minha mãe já disse no sábado. – E lhe mostrou um sorriso.

Usagi assentiu, ela com certeza estava sem jeito.

- Usagi... – Mamoru agora a olhava sério. Era quase parte de outra vida a época em que ele se recusava a pronunciar seu nome, apenas a chamando de apelidos pouco felizes. – Seus pais... eles não estão te obrigando, né?

Ela se assustou com aquela pergunta. Como ele foi falar isso àquela altura do campeonato?

Um alarme tocou alto em sua mente. Claro que era tudo uma péssima ideia, como aqueles dois podiam funcionar como um casal?

Mas os papéis já estavam assinados, e Usagi começava a aceitar a ideia mais que negá-la. Afinal, Mamoru era bonito. Um tanto nerd, fechado demais. Impossível de se conviver se ela fosse levar todos os seus padrões a sério – o que ela nunca faria, mas muitas mulheres sim, o que explicaria seu problema em encontrar alguém. Contudo, tirando todos os defeitos... Usagi começava sim a gostar da ideia de fazer a própria vida e, quiçá, poder fofocar com as mulheres casadas de seu departamento.

Em suma, aquela não era a melhor hora para Mamoru mostrar que até ele estava em dúvida sobre um negócio já fechado. Não mesmo. Até porque, se alguém iria rejeitar, seria ela a ele! Ele era o nerd que ficara encalhado até agora. Usagi estava casando até cedo demais, por opção própria.

- Não são seus pais que estão? – retrucou ela para Mamoru, passado o susto, mas não a indignação.

- Não vou negar que você não estaria no topo da minha lista. – Ele sorriu com alguma afetação.

Usagi fechou os punhos.

- Mas está sendo divertido – prosseguiu ele. – Parece uma ótima ideia. Então, eu realmente quero ir até o fim com isto. – Seus olhos se focaram para longe dela.

Ao olhar para trás, percebeu que Mamoru estudava o painel eletrônico com os horários de saída dos próximos trens.

- O seu trem é o próximo – disse-lhe.

Ela aquiesceu.

Uma recordação viva da última despedida deles formigou-lhe nos lábios. Seu corpo estava consciente demais daquela proximidade, de cada movimento do outro. Será que o rapaz à sua frente também pensava nisso enquanto observava o movimento intenso de pessoas ao redor? Ao menos, Mamoru parecia querer lhe dar outro beijo de despedida. Usagi sorriu, decidindo que era assim que ela pensaria naquele momento e deu um passo para trás.

Era melhor se apressar se não quisesse perder o trem.

- Até am-

O beijo que lhe tapou a boca foi tão rápido que seus lábios continuaram a pronunciar as palavras, apesar de sua mente não processar nada por um momento de apagão total. Quando os pensamentos de Usagi começaram a voltar, sua primeira reação foi olhar ao redor. Ninguém parecia haver visto nada, mas eles poderiam só estar fingindo, né? Ela mesma fingiria isso se visse um casal se beijar em plena estação de trem.

Após notar que nunca saberia e que também não importava, – nem fazia nada errado, aquele era seu marido! – a jovem forçou-se a encarar Mamoru com uma carranca. Forçou-se, porque ainda estava indecisa demais quanto ao que sentir para estar brava.

Ao fazê-lo, a resposta do outro foi no mínimo inesperada. Nenhuma explicação ou pedido de desculpa. Ele simplesmente pegou seu pulso e a puxou para um corredor não tão próximo dentro da estação e que levava a uma lojinha já fechada, um pouco escondida por placas. Antes que o próprio voltasse a beijá-la, Usagi foi quem prosseguiu.

Era surreal. Aquele era seu terceiro beijo em toda a vida e ela o fazia como se os lábios de Mamoru fossem parte de seu território. Todos os movimentos estavam tão sincronizados que, mais que ensaiados, pareciam rotineiros. Mas uma daquelas rotinas que o corpo aprendera muito tempo antes e não pudera seguir um longo período.

Saudade.

Era isso? Como podia ter saudade? Elas já se beijaram antes, mas Usagi mal podia lembrar como o fazer, muito menos sentir saudades. Mais que surreal, havia algo de errado em como beijar aquele homem era o que parecia mais certo.

O perigo. Era isso que a excitava, né? Por mais inconspícuos que estivessem, nada impedia que outra pessoa achasse o lugar. Por isso, ela o queria tanto? Tinha que ser algo assim. Ou talvez houvesse sonhado com aquilo... Ela vinha tendo sonhos estranhos, dos quais não conseguia se lembrar direito quando acordava. Será que era uma pervertida que vinha sonhando em beijar Mamoru todas as noites desde aquele primeiro encontro? Foi isso que a fizera querer casar-se com ele?

Qualquer que fosse a resposta, Usagi queria mais. E a pressão que o corpo do outro exercia sobre o seu era mais que indício de que Mamoru também queria. Mais. Mais. Havia como se beijarem ainda mais grudados? Usagi custou a assumir para si mesma, mas, se houvesse alguma parede à vista, ela se jogaria contra ela para ganhar mais apoio e poder ficar ainda mais perto do outro.

O que estava acontecendo com ela? Era isso? Era isso que significava querer... fazer aquilo com alguém? Ela nem conseguia pensar direito no que era, mas... mas...

- Usagi... – Mamoru, que vinha beijando-lhe o pescoço, subiu a boca à sua orelha e, entre mordiscá-la de leve, começou a sussurrar algo que só em sentir o vapor quente em sua nuca, ela já sabia o que seria.

E ela ia aceitar. Qualquer coisa que pudesse apagar aquele formigamento em seu corpo.


Estava sentada em frente ao fogo sagrado do templo; algo muito ruim estava acontecendo e ela precisava consultá-lo, perguntar quem estava causando todo o desastre. As chamas começaram a arder cada vez mais, faziam seus olhos arderem, mas ela não os fecharia. E uma imagem se revelou bem lá no meio.

Uma pessoa de costas, vestindo roupas de sacerdote xintoísta: uma veste de linho branco por dentro de uma calça larga azul ou verde claro. Agora ela caminhava decidida até ele, não havia mais fogo. E apontava. Incriminava-o, era culpa daquela pessoa.

- Eu já te desmascarei! – gritou para o homem, apontando-lhe o dedo.

Ele se voltou e a jovem sentiu seu corpo ser puxado, sugado para dentro de um buraco negro, para a escuridão.

- Agora que sabe a verdade, terei que eliminá-la!

Mas Rei já não estava mais lá.

Sentou-se em sua cama, mas custou-lhe a afastar o som das risadas de sua mente. Elas continuavam. Era também como se ainda estivesse sendo puxada pelo buraco negro. Rei segurou os lençóis da cama, tentando agarrar parte do colchão junto.

Era um sonho, nada mais que um sonho. E um até cômico! O que Jadeite estaria fazendo com roupas de sacerdote? Estranhamente combinável de uma forma sexy. Mas Rei sequer conseguia se divertir com a lembrança. Sua pele, que ainda estava arrepiada, tremeu ante a imagem dos olhos de gelo que o loiro lhe lançara durando o sonho.

Olhou para o lado onde o original dormia pesado e tentou se aninhar contra seu corpo, mas se sentia repelir o namorado com toda a força.

Foi só um sonho, repetia-se. Um pesadelo, mas nada que fosse real. Jadeite tinha olhos azuis, mas não porque era um demônio capaz de trazer infortúnios. Ele era estrangeiro apenas. Nenhuma explicação paranormal.

Ela se levantou por completo e procurou por suas roupas. Era melhor pegar logo um táxi e voltar para o templo do avô.

Continuará...

[Fim da parte 2]


Notas da Autora:

Mais uma parte finalizada! E a cena final é uma das minhas favoritas na fic toda, rs.

Queria agradecer muuuuito por todos os comentários e reviews que venho recebido, realmente eles me deixam muito feliz de ter decidido levar esta história pra frente, mesmo quando me dava aquela vontadezinha de jogar tudo na lixeira, he he. Agradecimentos especiais pelas reviews da Mari Rodrigues, da MViana e da Maria. Quantos M's... o.O (foi mal pelo comentário aleatório!)

E agora começará a vida de casados do meu casalzinho favorito. :3 No que será que dará?