Parte 3 - Vida Íntima

Era bem cedo do dia quando Usagi abriu a porta de casa e foi correndo até a própria cama. Queria tomar outro banho, apesar de já havê-lo feito no apartamento de Mamoru, mas não valia o risco de sua mãe descobri-la chegando àquela hora. Não que ela precisasse agir assim, fazia bastante sentido ela passar a noite na casa de seu marido. Bem, ainda não oficialmente até o departamento de registro abrir e toda a papelada ser recebida, mas era uma questão de tempo para isso acontecer. E ela já se sentia... dele.

Deitada em sua cama, abriu os olhos irritada. Depois que a pessoa se casava não conseguia mais dormir? Ou a insônia tinha a ver com a experiência da noite anterior?

Escondeu-se por completo com sua coberta. O que houvera com ela para... aceitar? Sugerir? Ela teria sugerido sua própria primeira noite? Não que Mamoru não fosse o maior interessado. E ela? Teria passado naquele test drive que ele lhe fizera?

Bem, ele não parecia estar reclamando, mas também ficara basicamente inconsciente todo o tempo depois. Teria sido decepcionante se Usagi não estivesse nervosa demais com a etiqueta que deveria seguir. Mas ele havia gostado, certo?

E rolou na cama, não apenas por vergonha: seu corpo todo formigava como se houvesse acabado de roubar todos os docinhos de uma festa. E os engolira de uma vez só, a julgar pela energia que a impedia de, ao menos, cochilar.

Empurrou o corpo até a mesinha onde deixara o celular e conferiu as horas. O despertador tocaria em meia hora. Ela acabara de perder mais de trinta minutos rolando na cama e pensando em... nem se lembrava em quê. Havia ainda um aviso de duas chamadas perdidas. E uma mensagem nova.

Sentou-se com um suspiro resignado. A mensagem era de Mamoru, que devia ter acordado e descoberto seu bilhete. Agora lhe perguntava se ela chegara bem. Inspirou fundo e o respondeu bem rápido: sim, estava bem. Mas o desconcerto com que aquela mensagem a deixava pareceu-lhe quase saudoso quando Usagi teve de encarar as chamadas perdidas: Makoto.

Então... ela notou? Que Usagi havia lhe ligado naquela noite?

Esfregou um pouco os olhos, como se agora sim estivesse em um pesadelo. Bem, só estava exagerando. Fora apenas um momento desconfortável e nada além. Perdida dentro do banheiro de Mamoru, Usagi havia ligado para a amiga, pensando em pedir ajuda antes de fazer qualquer coisa. Ao ouvir a voz do outro lado, contudo, Usagi ficara confusa.

- Motoki? – perguntou em resposta automática. Havia ligado errado...? Ótimo, agora precisava de uma explicação para chamá-lo no meio da noite. Ao menos, não saíra vomitando todo o problema como faria normalmente. Bastava fingir que queria marcar de sair ou qualquer coisa assim. Ou que só ligara para fofocar! Normal, eles eram amigos. Amigos podiam dizer essas coisas.

Antes Usagi tivesse deixado para perder os cabelos depois. Isto porque, antes de ela poder inventar uma desculpa, o homem do outro lado da linha desligara. O problema nem fora esse, talvez Usagi houvesse ligado até para uma pessoa completamente desconhecida, achando que seria para Makoto e quem atendera tinha a voz parecida com a de Motoki. Vamos, ela não tinha o melhor reconhecimento de voz. Na verdade, ela era a garota quem, por duas vezes, atendera no telefone da firma a chamada de um superior achando ser seu pai e aí tivera que explicar como o pai estaria ligando para aquele número comercial. O problema era que Usagi conferira o número e ele era o de Makoto.

Seu rosto queimava ao juntar as coisas: ela ligara para Makoto, que devia estar em uma situação muito semelhante à sua, no quarto de outro homem. Era pensar demais talvez, mas sua amiga não tinha irmãos nem morava com o pai. Quem mais poderia ser do outro lado? A menos que estivesse bebendo com Motoki em um bar, e este houvesse atendido o aparelho errado de celular! Não... Makoto, definitivamente, não vinha bebendo, e Motoki não desligaria na sua cara.

Bem, Usagi não tinha que encarar as chamadas que Makoto lhe retornara agora. Podia apenas cochilar um pouco... Ah, era mesmo. Ela não conseguia fechar os olhos!


A gata preta correu pelo telhado e subiu na sacada da casa para espreitar o movimento da entrada do vizinho. Um carro de passeio estava com a mala aberta e cheia. Uma mulher mais velha caminhou até ela e se esticou para puxar a porta até fechá-la com força.

- Não é uma coincidência? – perguntou Luna ao sentir que Arthemis havia retornado e estava agora sentado a seu lado. – Que Usagi tenha decidido se casar justamente com aquele homem?

Mas o gato continuou em silêncio, apenas olhando distraído para frente.

- O que houve com você, Arthemis? Comeu demais? Hoje é um dia importante. Eu preciso, ao menos, da sua atenção para me decidir se isto é um final feliz de fato ou a pior das reviravoltas.

- Luna... eu...

- Desembucha logo... Porque eu, realmente, preciso de você bem para conseguirmos nos infiltrar no apartamento pra onde a Usagi vai agora.

- Eu fui ver a Minako.

Luna virou os olhos com tédio.

- Como se eu já não soubesse que você foge para lá sempre que pode. Não precisa se sentir culpado por isso. Eu realmente não posso te censurar. – Ela se deitou no chão e suspirou.

- Não é isso, Luna. Eu estava conferindo o novo emprego dela e... e...

- Não me diga que ela também vai se casar com o Mamoru Chiba.

- Não é hora para brincadeiras. – Arthemis levantou a pata, mostrando as garras em um momento de nervoso. – Ela estava com um general. Não apenas um general, mas o general!

A gata franziu a testa e miou confusa. Então, repentinamente, as palavras do outro passaram a fazer sentido. Ao mesmo tempo em que ela começava a entendê-lo, nada mais se encaixava.

- Como assim? – perguntou, sem mais registrar os movimentos na casa que até então vinha observando com afinco.

- O general do Dark Kingdom, aquele Kunzite – Arthemis falava como se acabasse de proferir palavras amaldiçoadas.

Era difícil formar alguma opinião sobre aquilo. De certo, o casamento arranjado de Usagi com Mamoru soava a algo que passasse por coincidência. Mais que isso: eles estavam vivos. O que dizer dos generais? Eles morreram. Todos foram mortos em algum ponto durante a batalha contra o Dark Kingdom, e Luna mesma havia presenciado a morte daquele que Arthemis mencionara.

- Não foi impressão sua, Arthemis? Minako está trabalhando agora em um tipo de restaurante, certo? O que Kunzite iria fazer num lugar desses...

- Ele estava com uma forma humana, nem cabelos brancos ele tinha. E... agia bastante humano.

- Então... – Apesar da pose altiva que Luna demonstrava no momento, a própria soltava um suspiro. – Você só está exagerando. Vou confessar algo. Um dia, fui dar uma olhada na Rei e quase caí dura quando dei de cara com um rapaz que parecia muito com o Jadeite. Não sei se você se lembraria dele.

O gato entortou o pescoço, mas logo balançou a cabeça.

- Não é importante lembrar, Luna! Se o Kunzite tá com a Minako e o Jadeite tá atrás da Rei...

- Mas a questão é essa, Arthemis. Aquele não era general nenhum. Até parecia, mas era só um estrangeiro. Até sotaque o rapaz tinha; e o Jadeite falava japonês perfeito.

O gato branco miou bem baixo. Claramente, não se havia convencido, mas se resignou em não mais tocar no assunto.

Abaixo, Usagi e sua mãe fechavam a casa. A mudança estava terminada.

Continuará...


Notas da Autora:

Muuuuito obrigada pelas reviews! MViana, Maria, Mari Rodrigues, Carol, Bianca Martins e Vanessa Diaz. Fico muito feliz com o incentivo de vocês, agradeço mesmo! Além de sempre, todos os que me incentivaram a seguir em frente com esta fic, mas não a acompanham aqui pelo FFN. Enfim, a todos os que estão lendo, e só não comentaram ainda (comentem! Juro que não mordo!), obrigada!

Entramos na terceira parte (de dez!) desta história e o que acontecerá agora? Vão ter que esperar porque nem eu sei, rs. Continuem comentando! Repito, eu não mordo :xxx