Usagi olhou confusa para o apartamento que conhecera poucas noites atrás. A sensação era a de que não estava em seu corpo ou mesmo vivendo sua própria vida.

- Filha, não fique parada no meio do caminho com essa mala. – brigou Ikuko, empurrando a própria outra mala gigantesca até o quarto que o casal dividiria.

Um rubor queimou a face de Usagi ao pensar o que fizera ali da última vez e perceber sua mãe. Mães não acreditariam que, após o casamento, as filhas continuavam virgens, né? Alguma chance de fingir que ela continuava?

- O Mamoru vai demorar muito pra voltar, Usagi? – perguntou a mãe, ajudando-a a pôr a segunda mala no quarto. – Não entendo por que não o esperou para fazer isto.

- Ele nem tem carro. Pra que esperar? E nem tem tanta coisa...

- Ainda assim, são duas malas de trinta e dois quilos. E a impressão que tenho é de que cada uma pesa uma tonelada.

- Obrigada, mãe. – Usagi passou a mão na cabeça de Ikuko, com um sorriso brincalhão. – Você fez um bom trabalho!

- Eu não sou cachorro. – E a afastou.

A filha sorriu, mostrando a língua:

- Mas cuida bem do resto das minhas coisas lá no meu quarto, pra quando formos para a minha casa nova.

- É... Deve ser um pouco chato não se mudar para a própria casa. Mas o Mamoru é uma boa pessoa, ele entenderá se quiser mudar isto ou aquilo de lugar. Além do mais, é melhor que escolham tudo com calma. Por falar nisso... – Ikuko correu até a mesinha próxima à porta, onde deixara sua bolsa, e retirou desta um cartão branco. – Esta é a empresa que planeja casamentos de que falei com o Mamoru. Já marquei uma visita para amanhã pra vocês verem o que acham. – E deixou o papel sobre a mesma mesa.

- E por que eu só tô ouvindo disto agora?

- Bem, não é minha culpa se o que eu te falo entra por um ouvido e sai pelo outro.

Usagi começou a imitar o rosto bravo da mãe enquanto esta ainda falava.

- De toda forma, você não é mais minha responsabilidade.

- Mãe! – reclamou, fazendo cara de choro.

- Agora, é melhor corrermos pra fazer uma cópia das chaves para você. Vamos, Usagi. – Ikuko a enxotou após ignorar a última resposta e trancou o apartamento.


Eles haviam acabado de jantar a comida que Mamoru trouxera na volta do serviço e agora, sob sugestão de Usagi, assistiam a um programa de variedades. Claro, ela costumava assistir coisas assim sozinha, mas a sugestão, definitivamente, não viera de um desejo súbito de ver pessoas se batendo ou passando por situações embaraçosas ou apenas gritando coisas sentido. Usagi estava apavorada com aquela primeira noite sozinha com Mamoru e precisava que preenchessem o silêncio por ela.

Os dois vinham se comunicando indiretamente desde que... fizeram aquilo. Era estranho como ela conseguira mandar do trem uma mensagem para ele só avisando que iria mais cedo para deixar suas coisas no apartamento naquela sexta-feira. A mensagem havia saído tão natural que ela se sentira arrependida de havê-la mandado. Mamoru não era sua amiguinha de se usar para matar tempo de casa para o trabalho. Ele ainda lhe respondera com um bom dia e que fosse em segurança. Certo, aquela resposta sim soava algo entre casados. O que eles já até eram!

Sacudiu-se no sofá para não pensar mais. Tudo o que queria era que Mamoru dormisse logo; aí ela fugiria para o quarto e apagaria lá. Até ele perceber, Usagi já estaria na terra do arco-íris. Era um plano tão genial que ela queria até fazer um sinal de vitória. Mas deixou para o dia seguinte, quando já houvesse dado certo.

Olhou para um relógio na parede. Já era quase meia-noite e ela ainda tinha que acordar para o trabalho. Espiou Mamoru por um momento, então voltou a fingir interesse com o programa.

- Já está na hora, né? – Mamoru havia tomado banho e escovado os dentes logo após a janta, momento que Usagi aproveitara para encontrar um canal com bastantes programas divertidos para assistir. Agora que ele se mexia para se levantar, o cheiro de algo fresco e úmido misturado ao sabonete chegou até ela mais uma vez.

Era aquilo que ela sentiria por todas as noites de sua vida? Era tão... atraente. Não sabia nem explicar como, mas também sensual. O cheiro de um homem limpo. O homem dela.

- Usa...gi? – Mamoru estalou os dedos na sua frente. – Já está tarde; vou para o quarto.

- Ah.

Bastou aquilo para suas ilusões de ser a garota mais feliz do mundo sumirem e ela aterrissar com força de volta àquele problema: eles teriam agora sua lua de mel? Ou não?

- Então... Vou te esperar lá.

- Tá, tá, já tô indo! – disse rapidamente, pondo-se de pé em tempo recorde.

Mamoru pareceu assustado por um instante, provavelmente com a reação rápida da outra, mas logo sorriu.

- Então, vamos.

Ela olhou para a mão do agora marido, indicando a direção do quarto e não conseguiu mais sentir as próprias pernas. Após um momento congelado, seu corpo decidiu que atenderia a todos os comandos de fuga ao mesmo tempo. Usagi pulou de volta para o sofá, segurando-se firme ali e derrubando o próprio celular no chão.

- Usagi?

- O Motoki! – gritou ela.

- Motoki?

- Eu preciso ligar pra ele. Aí tava procurando meu celular.

Mamoru abaixou-se e pegou o aparelho lentamente.

- Obrigada – Usagi disse, estendendo a mão para puxá-lo do outro.

- Mas não está meio tarde?

- Você sabe como ele sai tarde do serviço! – Virou os olhos, como se Mamoru houvesse dito uma besteira. De fato era tarde. Ao menos, Motoki costumava estar acordado até uma da manhã nas sextas. Como o homem à sua frente continuava simplesmente parado, Usagi começou a fazer sinal para o quarto. – Eu ligo pra ele e depois ainda tenho que tomar um banho. – Na verdade, ela o havia feito assim que se despedira da mãe, mas era a grande desculpa que vinha guardando.

- Está bem, eu vou na frente, então. É só que você deu a entender que vinha junto, cabeça de odango.

- Não me chame assim, e vai logo pra eu ligar pro Motoki!

- Algum segredo do seu marido? – perguntou Mamoru em tom jocoso.

Usagi mostrou-lhe a língua e respondeu:

- Todos!

Enquanto o sentia sair dizendo algo sobre sonhos não contarem como segredos, Usagi virou os olhos e correu ao telefone. Fazia um tempo que não falava com Motoki, por isso, achou uma boa ideia cumprir com o que dissera, mesmo que o outro não parecesse estar espionando.

- Oi.

- Motoki? – Usagi franziu a testa, ouvindo um som de música entrar bem baixo no plano de fundo da chamada. – Aconteceu alguma coisa?

- Eu preciso ir.

- Você brigou com a Reika? Foi isso? Que tal a gente se ver esses dias?

- Algo assim. Preciso ir mesmo.

E ele já havia desligado. Usagi continuou a encarar o aparelho por um longo momento até decidir por mandar uma mensagem para o amigo, desejando que se sentisse melhor. Debateu sobre cada desenho e emoticon para enfeitar suas palavras até que enfim a enviou. Mas Motoki não respondeu.

Talvez devesse ter seguido o que Mamoru lhe dissera e não haver ligado tão tarde da noite. A música baixa ao fundo, a voz reticente do amigo... Recordando-se desses detalhes, Usagi sentiu-se ruborizar. Sacudiu a cabeça para não pensar nisso. Desde a noite passada com Mamoru, ela vinha achando que todos dispensavam sua chamada por estarem em algum momento íntimo.

Continuará...

Notas da Autora:

Eu me diverti fazendo a Usagi morrendo de vergonha depois de tudo :xxx