Usagi perdera tempo demais na noite anterior, preocupada com Motoki e com o que uma esposa acharia de uma menina ligar no meio d'aquilo para seu marido. Quando, enfim, estava preparada para enfrentar sua primeira noite de verdade com Mamoru, este havia se cansado de esperar e já dormia pesado.

Ao menos, ele não parecia bravo quando se encontraram na estação próxima à agência de matrimônios indicada por Ikuko no dia seguinte. Estava desacostumada com encontrar homens em plena estação de trem, – à exceção de Motoki, – por isso, exagerou nas palavras costumeiras: "você esperou muito?", perguntou em tom alto agora que encontrava o próprio marido. E um terno com certeza fazia bem a Mamoru.

Mesmo estando familiarizada com sua personalidade pouco simpática, era difícil não se perguntar por que ninguém mais o agarrara antes. Tarde demais, pensou com um sorriso de vitória, enquanto ouvia os cumprimentos das recepcionistas na agência.

Foi uma reunião agradável, mas rápida demais. Usagi preferia continuar ali a tarde toda. Era um prédio em um lugar bem verde e amplo, afastado do centro da cidade. O interior da agência cheirava a flores e todos os demais cheiros bons do mundo na quantidade e combinação certas.

Mamoru terminava de conversar após ela descrever tudo o que gostaria no casamento, quando Usagi aproveitou para olhar os arredores. No fundo, havia uma entrada para uma ampla sala que servia de capela. Era quase um local mágico; felicidade invadiu seu peito ao pensar assim. Como se casar daquela forma com uma pessoa de quem ela não gostava além da atração física podia parecer tão certo? Mas "certo" era a melhor descrição para o que seu coração pensava de tudo.

- Ah! – exclamou ao perceber que havia uma jovem de uniforme da empresa descendo do altar.

- A senhorita precisa de alguma coisa?

- N-não! Eu s-s-só... err... – Usagi sorriu sem jeito e saiu correndo, batendo a porta atrás de si.

- O que está fazendo perambulando por aí, sua cabeça de odango? – Mamoru surgiu bem à sua frente, seguido da planejadora que os atendia.

Usagi baixou a cabeça.

- Eu doido te procurando – explicou o rapaz. – Agora, despeça-se da senhora Aino.

- Muito obrigada por hoje, senhora Aino – disse resignada para a mulher mais velha, curvando o corpo com educação.

A planejadora, quem devia possuir em torno de cinquenta anos, sorriu-lhes e levou-os até a saída, desejando que retornassem logo.


Quando chegaram ao andar do apartamento, Usagi ainda se sentia contrariada e não fazia qualquer questão de esconder isso de seu rosto.

- Vai ficar com essa cara a noite toda? – perguntou Mamoru, enquanto buscava sua chave.

- Não gostei de levar bronca na frente de todo mundo.

- E como eu fiquei quando olhei pro meu lado e a criancinha tinha desaparecido?

- Foi mal, achava que tinha o direito de ir aonde quisesse. Parece que com o seu sobrenome vieram algemas invisíveis, né? – Usagi correu até sua bolsa para puxar a própria chave e abrir a porta ela mesma.

Sentiu-se gelar com o que via no interior de sua – ainda que temporária –nova casa.

- Mãe? – Mamoru pareceu ser o primeiro a processar a cena.

A senhora Chiba sorriu para os dois.

- Acabamos de chegar da estação e, como não tinha ninguém em casa, acabamos entrando mesmo assim. Seu pai foi buscar umas coisinhas na loja ali na esquina e já volta.

Usagi sorriu de volta para a nova sogra. Passada a surpresa, o que lhe vinha era a sensação de ouvir o sino da salvação. Com certeza, não poderia ser feito nada inapropriado quando os pais do marido estavam bem ali na mesma casa, né?

Sorte duas noites seguidas. Mas havia também uma ponta de frustração ao olhar Mamoru passar na sua frente e cumprimentar melhor a mãe. Tentou espantar a sensação ruim antes que se conscientizasse demais da vontade de tê-lo para si mais uma vez. Bem, ela teria a vida inteira para vencer a vergonha e aproveitar o prêmio que ganhara na loteria dos casamentos arranjados.


Não conseguia definir se sua primeira semana como Usagi Chiba havia passado rápida ou lentamente. A verdade era que sempre que estava no trabalho, sentia como se seus dias com Mamoru não passassem de uma ilusão.

Quantas vezes ela não contemplara seguir outra direção no trem de volta para casa? O fato de todos ainda se referirem a ela pelo nome de solteira também não ajudava, mas a própria preferira assim. Makoto chegou a lhe dizer que logo tudo mudaria, especialmente depois da festa. Ao mesm tempo, confessara nunca haver sido próxima de alguém que se casara, então, não havia certeza naquela previsão.

Ainda assim, não era tão ruim quanto imaginara. De dois em dois dias, Usagi cozinhava. Duas vezes na semana, ela deveria arrumar a casa. A própria mãe fora quem sugerira aquele esquema no almoço de domingo junto com os seus sogros. E parecia estar funcionando, já que era bem parecido com as regras de sua própria casa. Mamoru prometera preencher o resto, já acostumado com arrumar seu apartamento e fazer a própria janta sempre que podia.

Apesar de nada estar materialmente faltando à casa no final daquela semana, Mamoru não chegara cedo um dia que fosse. Nos dias em que Usagi estava incumbida de cozinhar, ele sequer fora para jantar, havendo mandado mensagens de que teria que voltar mais tarde para casa.

A terceira vez em que isso ocorreu, na sexta-feira, sequer era dia de ela cozinhar, de sorte que Usagi tivera que se contentar com um hambúrguer de um restaurante fast food próximo ao prédio. Irritada, ela decidiu que não guardaria o lixo que fizera comendo; ficaria com ele no sofá e assistiria televisão até o marido retornar. Mamoru havia de ouvir poucas e boas quando o fizesse. Não era assim que alguém devia agir com apenas uma semana de casados.

Quando ele chegou enfim, provavelmente após pegar o último trem, Usagi já havia cochilado ao som das notícias do jornal noturno. Apesar de semidesperta pelo som das chaves e do anúncio de Mamoru de que havia retornado, estava sem forças para discutir àquela hora. Decidiu, portanto, apenas fazer cara de uma pobre coitada abandonada para dormir sozinha na sala.

Ouviu-o aproximar-se e, quando pareceu haver-se agachado, sentiu sua mão recolher o lixo a seu redor. Cheiro de cigarro e álcool... Outra reunião do serviço? Então, percebeu um barulho de sacola, indicando que ele trouxera comida pronta. Logo, Mamoru se afastou. Abriu um olho para espiá-lo pôr o conteúdo na geladeira. Em seguida, ele saiu da cozinha de volta para o sofá. Usagi fechou os olhos rapidamente. Foi quando se sentiu ser levantada e levada até o quarto, onde foi depositada com extremo cuidado na cama. Ela não sabia se a raiva havia se esvaído ou aumentado, apenas que se tratara de um golpe baixo.

Continuará...

Notas da Autora:

Agradecimentos a todos que têm acompanhado! O próximo capítulo é o último desta parte da história, mas ainda tem muito chão pela frente pra fic terminar. Continuem lendo, por favor!