Era domingo, já bem tarde da noite.

Usagi se aconchegava no edredom, embalada pelo cheiro de Mamoru, quem já dormia a seu lado. Após tantos desencontros, os dois haviam feito sexo no sábado tão logo retornaram de assinar o contrato na agência de matrimônios. E haviam acabado de fazer mais uma vez naquele domingo.

Usagi rolou na cama para encarar o marido. Irritada por ser a única animada demais para conseguir dormir, considerou contorcer o rosto dele com caretas. Bem quando já o tocava, ouviu seu celular tocar na mesinha de cabeceira.

Não era hora de alguém interromper aquele momento, pensou aborrecida. Não que Usagi estivesse certa de a qual deles se referia: se àquela sensação de estar íntima com seu marido que vinha durando desde a noite anterior, ou apenas a seu plano de brincar com o rosto adormecido do mesmo. Mas tinha certeza de uma coisa: não queria se virar para pegar o aparelho.

Sentiu Mamoru se mexer na cama. Suas mãos se esticaram sobre ela, tateando seu rosto.

- Eeei! – reclamou com ele, batendo de volta na sua cara.

- O celular... – gemeu-lhe de volta, os olhos tortos. Incrível que já estivesse em sono tão profundo... Usagi havia apenas tomado uma ducha rápida e acabara de voltar para a cama. De onde vinha tanto sono?

- É meu. Deixa tocar, - respondeu rapidamente.

Mas Mamoru havia conseguido localizá-lo e agora estava com o corpo por cima do dela, jogando o celular a seu lado.

- É Motoki – comentou, antes de virar para o outro lado e cobrir-se até o nariz.

Naquele momento, Usagi entendeu o porquê do tom de voz com que o amigo lhe falara pouco mais de uma semana antes quando ela lhe ligara. Sentindo o mesmo aborrecimento, pensou com um sorriso que era a hora de dar o troco.

- Alô?

Ao ouvir a resposta de Motoki, ela se levantou apressada da cama. Vingança adiada.

Conferiu o nome do bar anotado às pressas e suspirou. Usagi já havia ido ali resgatar o amigo outras duas vezes, não contando as em que a própria já não estava com ele num bar qualquer. Mas aquela fora a primeira vez em que o estava considerando um imenso estorvo. Talvez, isso também se devesse também a ser a primeira vez que ele precisava de babá em pleno domingo.

Após olhar ao redor do ambiente, um bar aonde ela jamais havia ido ou de que já houvesse falar, Usagi percebeu que um atendente a olhava firme. À sua frente, encontrava-se Motoki. Ele estava deitado sobre seu braço esquerdo e com a ponta dos dedos da mão livre sobre a borda do capo quase vazio.

- É a senhorita Tsukino? – perguntou o homem.

Ela assentiu para depois pensar que não, não o era mais. Mas, sem perder tempo com filosofias, falou para o outro se levantar logo. Porém, diferente das demais vezes, Motoki a ignorou e continuou a circular a borda do copo com o dedo.

Após se sentar no banco ao lado, Usagi lançou um olhar apologético para o atendente, quem apenas se afastou com um sinal de que não se preocupasse e foi passar pano em outra parte do balcão.

- Motoki... – ela chamou o amigo, passando a mão em suas costas com alguma força, como se o gesto lhe pudesse transmitir energia.

Em resposta, ele balançou a cabeça ainda na horizontal, sem voltar-se para Usagi.

- Você tem que ir... Amanhã tem trabalho e olha a hora. Logo perderemos o último trem! – Mas não era como se ele a visse apontar para o relógio do bar. – E a Reika? Ela viajou de novo?

Ele sacudiu a cabeça.

- Então, por que está perdendo seu raro momento com ela? Se fosse você, não a largava!

- Não quero saber dela... – resmungou Motoki, quando enfim jogou a cabeça para cima. – Sabe, eu trabalho que nem um condenado por ela e aquela mulher sequer pensa em me agradecer. Só fica reclamando de tudo sem qualquer direito. Sim, ela ganha o dinheiro dela, mas quem disse que aquilo sustenta a casa? Sustenta as bolsas dela, os sapatos, as malditas roupas que ocupam todo canto da maldita casa! Aquela mulher não tem direito a nada, nada mesmo.

- Ei! – Usagi não podia esconder que se sentia ferida com o discurso, já que a divisão financeira parecia o seu arranjo com Mamoru.

Ela também não parecia obrigada a pagar nada da casa. Já havia feito algumas compras com seu dinheiro, mas não era nada comparado a todas as contas. E não achava que isso lhe tirava o direito de reclamar se o marido resolvesse chegar tarde todos os dias, como Motoki acabava fazendo. Não que ela odiasse aquilo em Mamoru; ficava irritada quando ele a contrariava, mas havia algo de liberdade em ter a casa apenas para si. Talvez ela reclamasse mais se gostasse do marido de verdade, como era o caso de Motoki e Reika. Assim, não podia também tirar a razão de Reika; melhor, não podia deixar de ficar do lado dela.

Irritada com o rumo que o discurso tomava, Usagi se levantou rapidamente da cadeira e apontou para a porta de saída.

- Pode ir andando, Motoki. – Forçou, então, os ombros dele para cima, até ele a atender e se levantar.

Como o outro parecia entortar mais o corpo que andar, Usagi posicionou-se para ajudá-lo com mais experiência naquilo do que gostaria de ter. Já era quase maio, mas um vento frio bateu em seu rosto, fazendo-a desejar voltar para sua coberta quente com o cheiro de Mamoru.

Agora precisava chamar um táxi para a estação. Era bom que houvesse sobrado dinheiro na carteira daquele bêbado, pensava ao pisar na calçada.

Antes que ela pudesse reagir, porém, Motoki começou a balançar a cabeça para baixo e riu.

- Oh-oh... – disse ele e correu com pressa para longe dela.

- Motoki! – Usagi só conseguiu observar enquanto ele corria para o meio da rua.

Um carro passou com velocidade quase por cima do amigo. Por sorte, ele acordou do que havia feito e pulou de volta para a calçada.

- Aaai! – gritou Motoki ao cair no chão e encolheu-se próximo ao meio-fio.

Ainda sem reação, Usagi sentiu alguém pular para cima do amigo e começar a olhar para a perna que Motoki parecia proteger enquanto gemia.

- Ele deve ter apenas batido com a canela no meio-fio. – A moça de cabelos bem curtos começou a apalpar Motoki, até que ele gritou sobre os gemidos de antes. – E torcido o pé quando pulou. – Ela ergueu os olhos azuis para Usagi e lhe sorriu. – Basta limpar o machucado que o resto ficará bom logo, logo. Não há por que ficar tão assustada.

Usagi assentiu e se curvou em agradecimento à moça. Quando as duas já se encontravam frente a frente, um estalo veio à sua mente.

- Você é a menina da agência! – disse, apontando para a moça.

Ela também pareceu reconhecê-la, mas entortou levemente a cabeça e franziu a testa.

Motoki gemeu e, no próximo segundo, a rua estava cheia de uma substância parcialmente líquida. O cheiro azedo misturado a álcool subiu ao nariz de Usagi, causando-lhe ânsia.

- Talvez seja melhor levá-lo a uma clínica, - disse ela resignada, afastando o rosto do vômito.

- Realmente, não é grave... senhora Chiba.

- Ah, você lembrou meu nome! Pode me chamar de Usagi mesmo, - disse com um sorriso.

- Sou Ami. Ami Mizuno. - E o retribuiu com alguma reserva, após curvar-se com alguma cerimônia.

Antes de poderem se falar mais, Motoki gritou alto e com força, quase como se rugisse. E não parecia mais dor ou enjoo. Após um escarro sonoro, como se atacasse alguém invisível, ele se explicou.

- Minha perna está bem, meu casamento que não está. Não acho que clínicas curem isso, Usagi. Sabe, eu não ia dizer nada, mas eu realmente preciso pôr pra fora. É injusto contigo; não dá pra ficar calado.

Ela olhou confusa para Ami e levantou os ombros antes de voltar-se para ouvir o resto do que Motoki lhe contava.

- Minha esposa está me traindo, Usagi – disse Motoki, dando um soco na calçada em que estava sentado.

Antes que ela conseguisse decidir como reagir a isso, o outro completou com um tom amargo, mas acompanhado de certo escárnio:

- Com o Mamoru.

Continuará...

[Fim da Parte 3]

Notas da Autora:

:ooo ? XD

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