Parte 4 – Laços Conjugais
Já era bastante tarde quando Usagi sentiu um peso a mais em sua cama. Fazia bastantes dias que ela vinha tentando não pensar que sempre que Mamoru voltava tarde assim podia ser porque estivera com ela.
Não, não havia o que pensar. Ela mesma o dissera a Motoki: mesmo que Mamoru se atrasasse algumas vezes, não eram todos os dias. E Usagi trabalhava, sabia que muitos acabavam ficando até muito tarde na firma para ganharem bônus maiores. O próprio Motoki era implicitamente obrigado a isso nem apenas por seus superiores, mas também por pressão de colegas. Ninguém via com bons olhos os que escapavam das horas extras.
E seu estado atual nada tinha a ver com ciúmes. De fato, ela gostara daqueles primeiros dias de casada, mas isto se devia à liberdade que vinha acompanhada ao negócio. Era bem parecida com a que tivera por um tempo em Osaka após a mudança da mãe e do irmão. Por esse mesmo motivo, ela vinha saindo pela rua nas últimas noites. Motoki nunca estava disponível para acompanhá-la; então, por vezes, ela até ia sozinha ao karaokê e cantava por horas com toda a força.
Naquela noi, como em algumas outras vezes, Mamoru escorregou a mão por entre sua cintura até que a palma pousou em sua barriga. Bem devagar, ele se aproximou de sua nuca. Sua respiração, com cheiro refrescante de menta da pasta de dente, soprou nos ouvidos de Usagi:
- Eu te acordei?
- Sim – disse de forma curta, sem se virar para ele.
Os arrepios eram causados pelo calor sobre seu umbigo; nada tinham a ver com alegria. Era uma reação natural, de quem não estava ainda acostumada com ter um homem tão próximo.
Desta vez, Mamoru a compreendera apenas com aquilo. Após uma respiração longa, desculpou-se e voltou a deitar a cabeça atrás da dela.
Não e não, pensou Usagi. Faltava ainda mais uma parte para ganhar a nota perfeita naquele jogo. Pegou a mão de Mamoru sobre sua barriga e a jogou para trás de forma que não mais a tocasse, como que já acostumada. Vinha repetindo isso toda noite que o marido lhe punha a mão e considerava dormir assim como um casalzinho de apaixonados após uma noite de romance. Algo que ele não teria nem tão cedo se dependesse dela.
Ouviu-o emitir algum som e virar para o outro lado. Ele nem tentou dissuadi-la com beijos ou sussurros como em noites anteriores. Apenas aceitou o tratamento.
Tentando convencer-se de que estava satisfeita consigo mesma, Usagi se abraçou ainda mais e fechou os olhos com força para mais uma ou duas horas de sono de má qualidade. Porque estava com raiva, ressalte-se. Simplesmente por isso. Sem explicações enroladas e sentimentalóides de adolescentezinha boboca.
Makoto forçou um riso para uma das piadas das funcionárias do departamento vizinho, com o qual estavam comemorando uma ótima venda na semana anterior. Realmente, confraternizar-se não era muito seu forte, por isso, sempre contava com Usagi para ajudá-la nisso. Mas, só de olhar para a amiga, Makoto já a havia feito optar por se esforçar um pouco mais para se dar com aquelas mulheres.
O que havia com a amiga? Com certeza, o casamento devia ser uma das causas. Seria por isso que não queria lhe falar nada? Porque ela não entenderia? Bem, a própria Makoto tinha seus segredos, mas eram por uma ótima razão. Usagi compreenderia algum dia quando os ouvisse.
- Ei, Usa... – resolveu tentar perguntar mesmo assim. – O que há contigo? Desde o feriadão que te acho meio pra baixo. Brigou com o seu marido, é isso? Olha, pode me contar! Posso nunca ter casado, mas de briga de relacionamento eu entendo tudo.
A outra sorriu, olhando para o lado. Então, ajeitou o cabelo e disse:
- Só tô um pouco estressada com a festa. Agora que assinamos o contrato com a agência, é como se um trator tivesse passado por mim.
- Você podia pedir uma licença ou algo assim.
- É bom aquele irritante do Mamoru me levar pra algum lugar bem legal de lua de mel, é pra isso que tô economizando minha folga. Mas esse feriadão ajudou bastante.
- É, fazer os convites deve ser um saco...
Makoto decidiu seguir com a conversa e não escancarar como a desculpa de Usagi lhe soava a mentira. Mas um silêncio insistia em preencher o vazio. Precisava quebrá-lo... Percorreu a sala com os olhos e percebeu um grupo do outro lado.
Com firmeza, segurou o pulso de Usagi e o puxou naquela direção. Assim que a amiga compreendeu o intuito, fez uma boa pose e as duas conseguiram invadir a foto que estava sendo tirada. Em segredo, fizeram-se um sinal de vitória.
- De quem é a câmera? – perguntou Usagi, já estendendo seu celular para conseguir uma cópia do arquivo.
- É o celular do Jadeite. – Shin estendeu o aparelho, já ativado para a transferência.
Apenas depois de todos os envolvidos pegarem as fotos, o estrangeiro conseguiu recuperar seu celular.
O fogo crepitava à sua frente e já havia causado várias trilhas de suor por seu rosto, mas Rei precisava continuar concentrada.
Quantos anos havia que ela não se dedicava tanto a esses rituais? Desde que entrara para o colegial, vinha se concentrando em cuidar para que o templo crescesse. Ao se formar, até optou por não seguir qualquer outra carreira. Sabia que aquele era seu lugar, por isso, passou a administrar cada detalhe desde aquele dia, enquanto deixara os rituais para seu avô e alguns temporários e aprendizes. Agora, sentia-se envergonhada por haver negligenciado a parte mais importante em um templo: servir a ele.
Parecendo está-la perdoando, o fogo sagrado começava, fracamente, a lhe comprovar a premonição tida tempos antes.
Havia algo errado, mas Rei não conseguia precisar o quê. Era fácil demais dizer que seu namorado era um assassino e que desejava destruir o mundo. Difícil era manter-se fora do hospício depois que o fizesse em voz alta. Ela precisava recuperar logo seu dom; entrar em contato com sua espiritualidade para que os deuses lhe dissessem exatamente por que lhes enviaram aquele sonho.
Sentiu o peito agitar-se. Desejava que fossem seus poderes de sacerdotisa retornando, mas não passava de seu celular vibrando. Com um suspiro, jogou-se para trás de forma a não mais sentar-se sobre a panturrilha e esticou as pernas.
Uma mensagem justamente de Jadeite. O momento fortuito escolhido por ele para enviá-la fez parecer algum sinal dos deuses. Mas eles não perderiam seu tempo para avisar sobre uma festa na empresa, a menos que fosse ocorrer algum massacre no lugar.
Rei franziu a testa; sentia-se brava consigo própria. Estava ficando obcecada com um mero sonho e com algumas fantasias que tivera de tanto olhar para o fogo do templo de seu avô. Pessoas que nunca vira na vida, coisas que nunca vivenciara. Pior, que só vira dentro de sua coleção de histórias em quadrinho.
E a festa mencionada na mensagem sequer era do departamento do namorado, mas daquele tal do Shin Saitou. Sempre a irritara como às vezes Jadeite parecia seguir aquele homem tal como um cachorro ao dono. Ou melhor, ao líder da matilha.
Uma nova vibração. Jadeite estava enviando outra mensagem; havia se esquecido de anexar uma foto. E aproveitara para convidá-la para um jantar, pois mal vinham se vendo.
Entenda o recado, pensou ela enquanto balançava a cabeça. Rei precisava de tempo, ao menos para superar aquele estranho sonho.
Como que estivesse fincando pregos na cabeça do namorado, ela digitou uma resposta com força: "Tô ocupada até tarde." Não era bem mentira ao menos. Ainda assim, sentiu algum peso na consciência. E se ela estivesse ficando doida de fato? Ainda confiava nos seus poderes, mas não havia qualquer prova de que Jadeite fosse um monstro. Muito pelo contrário, ele vinha sendo como o namorado perfeito por todos aqueles anos. Tão perfeito que sequer havia espaço para chamá-lo de perfeito demais. Era uma relação normal.
Olhou melhor a foto anexada e sentiu a boca ficar seca.
Não, não era uma premonição de massacre. Nem algum fantasma dando uma de engraçadinho. Era simplesmente uma foto com pessoas de escritório, incluindo Jadeite, o tal de Shin e... Quem eram aquelas duas meninas mais na frente da foto?
- Serenity? – sua boca pronunciou aquele nome tão familiarmente estranho. O fogo à sua frente começou a arder forte como se um vento o houvesse soprado em sua direção.
Nesse momento, a porta se abriu. Era seu avô para avisar que a enviada pela agência de matrimônios já havia chegado.
- Já estou indo, vovô – respondeu ao se levantar.
Com o movimento, seu celular rolou por suas vestes de sacerdotisa e caiu no chão. Uma mensagem de Jadeite piscava no visor. "Já falei com seu avô e fui convidado para jantar com vocês." Simplesmente isso. Jadeite nunca acrescentava símbolos às suas mensagens. Não que Rei costumasse fazê-lo, mas isso tornava difícil saber qual tom o namorado usava. Antes, isso apenas a fazia pensar em como havia um lado fofo nele, agora a deixava apreensiva de que ele estivesse desconfiando de algo.
- Senhorita Hino? – Uma voz feminina ecoou pela sala. Droga, seu avô já havia deixada a moça da agência entrar.
Rei sacudiu sua cabeça e guardou o aparelho na veste. Em seguida, passou uma toalha no rosto e cumprimentou a jovem, pedindo desculpas por seu estado. Quando, enfim, olhou diretamente para ela, teve o impulso de pular para trás como se visse um espírito desencarnado.
- Mercury? – murmurou, mas ainda em tom audível.
A moça devolveu-lhe uma expressão confusa e então se curvou em movimento apologético:
- Sou a assistente da senhora Aino. Peço desculpas, mas ela não pôde vir. Vim em seu lugar, discutir sobre a agenda para os próximos casamentos que faremos no seu templo. Chamo-me Ami Mizuno. – E se curvou mais uma vez para aguardar a resposta de uma Rei estupefata.
- Nossa, você já mandou relatório pra patroa? – Shin havia pegado o celular do amigo Jadeite e lia em voz alto um recado recém-enviado, provavelmente, à namorada.
Não acreditando na cena que incluía seu superior, Makoto ria livremente tal como todos ao redor. Então, lembrou-se de um boato ouvido no banheiro feminino. Jadeite não parecia estar muito bem com a namorada. Claro, as mulheres que o diziam usavam tons invejosos, em parte por torcerem para que terminassem e pudessem ter chance com o estrangeiro, noutra porque isso parecia vir usando o tempo que Shin passaria na companhia delas normalmente. Se bem que a não ida do superior aos bares devia ter muito mais a ver com aquela loira do café perto dali do que com os problemas conjugais do amigo, concluiu Makoto com um estalar de língua.
- Sabe, Usagi... – Virou-se para a mesma, quem observava a cena divertida. – A bochecha do Jadeite me lembra muito a de um namorado que tive.
- Ah, é? Eu bem ando pensando que já o vi em algum lugar também. Vai ver ele é um desses caras familiares. – E riu com a mão atrás da cabeça.
Makoto não a seguiu na gargalhada. De fato, não era só a bochecha de Jadeite que a fazia pensar no passado. Pensando melhor, ela passara a falar mais com Usagi e Shin exatamente porque desconfiava que já os conhecia de antes e estava tentando lembrar de onde. Ter amigos ia contra sua natureza, ela não era boa nisso. Mas com Usagi, ao menos, a relação surgira naturalmente. Bem, o fato de a outra não haver se assustado com sua altura tenha contribuído mais que algo tão vago como o "destino".
- E seus goukons? – Usagi perguntou, tirando-a dos devaneios.
- O que tem eles? Lembre-se de que agora a senhora tem um marido em casa.
- É que você normalmente sai de um já planejando outro... Mas agora não anda falando nada. Não me diga que arrumou um namorado secreto e não me disse!?
Negando instantaneamente, Makoto riu do absurdo. Ela não era mais criança para ter namoradinhos pelos cantos. Sem contar que poucos homens se sentiam confortáveis com ela. Quando possuísse um de verdade, com certeza contaria à amiga.
- Vamos, Mako! Por que mais você desistiria?
- Bem, acordar pelada no apartamento de um estranho me soa como um belo alerta de que eu fiz algo errado, - explicou.
Apesar de usar um tom leve, a lembrança daquele dia ainda a assustava. Certo, a causa d e seu comportamento peculiar fora a bebida, mas ela só bebera porque estava no goukon.
Usagi estava para redarguir algo quando seu celular vibrou. Antes de ler, porém, escondeu a tela como sempre o fazia quando ele mandava mensagens.
O nome daquele possível remetente veio à mente de Makoto sem qualquer conexão com a conversa anterior, mas fez seu corpo se encolher assim que pensou melhor. Claro que ela guardava segredos da amiga. Alguns por deixarem-na envergonhada, como nas vezes em que pensava no estranho daquele goukon; outros porque a fazia se sentir a pior pessoa do mundo.
- Motoki? – perguntou Makoto com os lábios trêmulos. Não que Usagi pudesse notar, absorta com o aparelho em suas mãos.
A amiga apenas confirmou com um aceno e continuou a olhar para a tela oculta. Porque aquele silêncio a fazia temer o conteúdo da mensagem, Makoto decidiu aproveitar a necessidade de falar com sua própria curiosidade.
- Como vão ele e a esposa? Já se acertaram depois daquela noite do bar?
Sua amiga não era nenhum baú fechado a sete chaves. Usagi sempre lhe comentava sobre os problemas que Motoki vinha enfrentando no casamento, mas o susto em seu olhar após ouvir a segunda pergunta fez Makoto dar um passo para trás.
Droga.
Ela não lhe contara do bar. Usagi não lhe mencionara uma só palavra da vez em que fora buscar Motoki e ele machucara a perna fugindo de um possível atropelamento. Nem sobre a declaração dele acerca da traição de seu marido. Bem, todos tinham seus segredos.
Makoto apressou-se para consertar a gafe:
- Você me comentou noutro dia, que ele tava bebão, - mentiu.
- Contei? – Não havia apenas confusão no olhar da amiga, também era visível o seu medo.
- Sim, que você o buscou de novo. Parece que ele tinha brigado com a esposa ou algo assim? Tô misturando as coisas?
Com algum alívio na face, Usagi sorriu.
- É, eles tão se entendendo. Bem, não tinha sido nenhuma briga; só o de sempre.
- Ah. – Makoto tentou não falar mais nada para não transparecer seu desânimo. Mas não sucedera pelo que a outra lhe disse em seguida:
- Você realmente não gosta da Reika, né?
- Eles deviam se separar logo.
Assim que o disse, Makoto se arrependeu. O quanto Usagi deveria estar usando aquele casamento como espelho do seu próprio? Queria se remendar, falar qualquer coisa mais. Contudo, nada lhe vinha à mente. Aquela conversa a havia cansado. Não, a lembrança daquele assunto pendente a cansara.
Após inventar qualquer desculpa, pegou suas coisas e deixou a festa. O ar úmido e quente da rua lá fora veio a seu rosto. Ótimo, estava chovendo. Makoto abriu a bolsa para pegar seu guarda-chuva e aproveitou para pegar seu celular. Enquanto digitava uma mensagem, acabou por esbarrar em alguém. Com a bochecha quente de embaraço, ela curvou o corpo para se desculpas. Quando levantou o olhar para a pessoa que atingira, sentiu o ar prender-se na garganta.
Passando do outro lado da rua, estava o homem do goukon.
Notas da Autora:
Decidi pôr um capítulo mais longo desta vez, ou ficaremos aqui eternamente, né? Mas o que vocês preferem com relação a tamanho? Eu sempre fico em dúvida de o que é melhor, rs.
E os fãs das demais senshi, espero que estejam gostando! Elas andam aparecendo bastante, né? O que acharam? Nenhum comentário? Vamos, digam! Por favor, vai! rsrsrs Aguardo a opinião de vocês! E até o próximo capítulo!
