A noite estava bastante quente quando Mamoru deixou o bar acompanhado de seus colegas de trabalho e alguns clientes. Enquanto todos se despediam, ele baixou seus olhos para o relógio em seu pulso. Eram só oito da noite; havia terminado bem cedo aquela reunião. Antes não houvesse avisado a Usagi mais uma vez para não esperá-lo. Sempre lhe doía um pouco saber que ainda nem haviam tido sua festa de casamento e já possuíam tantos problemas em casa.

Havia quanto tempo que não faziam sexo? Às vezes, a distância parecia tanta que ele até duvidava que já houvessem dormido juntos. E Mamoru sentia falta de senti-la contra seu corpo, de abraçá-la. Agora, tinha até medo de tentar alguma aproximação. Não queria ser recusado novamente. Não queria pensar em onde Usagi estaria recebendo o afeto que lhe satisfazia a ponto de não querer mais o dele. Naquelas primeiras vezes do casal, ela o procurara, ela o quisera. Então, tudo apenas desapareceu. Sem que pudesse reclamar, restava a Mamoru tentar fazer sua parte como marido. Ao menos, ganhar o direito de dizer qualquer coisa. Mas noite após noite ele vinha se atrasando no trabalho, tendo outros compromissos... Decepcionando a esposa.

Enquanto assim pensava, sentiu o celular vibrar no bolso do paletó. Era ela. Mamoru não queria encontrá-la, ganhar mais motivos por que seu casamento fracassara na lua de mel. Todavia, como sempre, acabou por aceitar vê-la naquela noite em vez de voltar para sua esposa.

Ao abrir a porta do pequeno café próximo à estação de trem, Mamoru logo avistou Reika. Seus cabelos continuavam longos como sempre, mas hoje estavam devidamente presos para trás. Devia ter acabado de sair da universidade, pois usava roupas sociais e parecia um pouco cansada.

- Que bom que pôde vir! – disse ela assim que o avistou. Sobre a mesa, encontrava-se uma xícara de café.

Mamoru também pediu uma para si e encarou a mulher à sua frente. Queria poder resistir, simplesmente não atender aos chamados dela. Era o melhor para seu casamento, o que era melhor também para seus pais e seus sogros. Por outro lado, preocupava-se com a palidez cada vez mais evidente no rosto da amiga, queria poder aliviar sua preocupação ao menos um pouco. Que tipo de amigo a deixaria assim?

- Como tem passado, Reika? – perguntou sem esconder seus pensamentos do tom de voz.

Com um sorriso amargo, ela começou a falar de Motoki. Era sempre essa a razão para aqueles encontros, afinal. Mesmo quando Reika apenas queria passar um tempo ou conhecer algum café novo, o marido continuava sendo a grande razão por trás dos convites.

Mamoru não tinha certeza foi ele quem viu a menina loira familiar antes ou se ela o abordou primeiro, mas agora a voz grave de Reika foi sobreposta por um grito animado. A loira pareceu pular sobre a mesa e o cumprimentou eufórica.

- Como é bom revê-lo! – dizia ela, enquanto Mamoru buscava em sua mente de onde conhecia aquela menina.

A verdade era que grande parte dele estava simplesmente aliviada por aquela loira não ser sua esposa. Não sabia como explicar que seu "trabalhar até tarde" incluía tomar um café calmamente com outra mulher. Não que houvesse algo errado em se encontrar com Reika: os dois eram amigos de faculdade! E não que ele estivesse tão calmo quanto tentava transparecer. Todavia, nem ele mesmo conseguia se convencer de sua inocência. E, desta vez, era tal qual houvesse mentido.

Como se a moça pudesse ler seus pensamentos, ela lhe perguntou em seguida:

- Como está a Usagi?

Estava consciente de que havia se ajeitado na cadeira e voltado os olhos para Reika de forma culpada. E de que esta havia reagido negativa à menção daquele nome. O nome tabu, não obstante nenhum dos dois haver estabelecido essa proibição verbalmente.

- Está bem, tudo bem – respondeu coma voz rouca.

- Soube que o casamento mesmo é em dois meses. Que legal, né? Ela deve estar louca atrás dos detalhes da festa. Adoro casamentos! – continuava a loira. Suas risadas deixavam claro que "adorar" era um verbo que não expressava com fidelidade o quanto gostava de casamentos.

Antes que ela pudesse continuar com sua excitação exagerada, porém, um homem aproximou o corpo da mesa e se curvou levemente para cumprimentar Mamoru.

- É um prazer conhecer o marido da Usagi. Trabalhamos juntos na empresa e espero que minha subordinada não esteja dando muito trabalho. – O homem, então, entregou-lhe um cartão de apresentação.

- Ah, senhor Saitou. – Mamoru levantou-se de sobressalto após ler o papel recebido e retribuiu o gesto entregando seu próprio cartão. – Eu que espero que a Usagi não esteja lhe dando trabalho.

- Ela é uma boa menina. – Shin sorriu apenas um pouco. – Como já deve saber, não é das mais eficientes. Mas sempre podemos confiar nela. Ela é de ouro.

Mamoru assentiu com cautela e olhou para Reika instintivamente com o canto dos olhos.

- É melhor irmos, né? – A loira, quem agora Mamoru lembrava-se de haver visto em um café próximo à empresa de Usagi, enlaçou o braço de Shin e passou a puxá-lo.

- Bem, foi um prazer conhecer o noivo. Estou ansioso pela festa de casamento. – Shin sorriu mais uma vez antes de sair.

Um suspiro de Reika trouxe Mamoru de volta à realidade. Ele continuava de pé com os olhos na porta por onde o casal passara, imaginando como Shin descreveria aquela cena para sua esposa no dia seguinte.

- Isso foi um pouco desconfortável... – comentou ela.


Lá estava. Era o apartamento que Minako vinha dividindo com Ami. Luna ainda não conseguia acreditar que as duas houvessem se conhecido novamente ao longo daqueles anos e que agora dividissem um quarto. Ainda assim, não havia dúvidas. Os nomes na porta de entrada eram de Ami Mizuno e Minako Aino.

Arthemis havia lhe alertado sobre a coincidência antes de trazê-la, mas não explicado o evento. Em teoria, as duas estudavam em escolas diferentes, possuíam personalidades quase opostas. Luna observou maravilhada Ami se andar próxima à janela e se afastar, desaparecendo para o interior.

- Minako ainda não voltou – comentou Arthemis, sem explicar como o sabia.

- Bem, tirando a Ami, tudo parece normal.

- Vamos esperar. Ao menos até a Minako...

- Já entendi, já entendi. – Luna suspirou com resignação.

Já era bastante tarde, mas ficara difícil para ela própria observar Usagi desde que ela se mudara para aquele prédio alto. Qual gato poderia explicar aparecer no andar em que sua protegida agora morava? Mas era exatamente por isso que Luna compreendia o parceiro. Ela também esperava Usagi passar pela manhã e à noite enquanto ia e voltava do trabalho. Só vê-la bem já a acalmava.

- Luna, olhe! – Arthemis moveu a pata para o térreo.

O apartamento de Ami e Minako possuía apenas dois andares de cima e um longo corredor interligando os apartamentos de cada piso, esse completamente exposto para a rua exceto pelo pequeno muro onde os dois gatos haviam se sentado. A escada dava acesso direto tanto para a entrada quanto para o andar mais acima. Era exatamente ela que um homem familiar subia; seu cabelo loiro e ondulados se encontrava apenas meio preso para trás e balançava com o movimento.

Luna sentiu seus pelos se arrepiarem ante a visão daquele general cada vez mais próximo. O que fariam? Pulavam dali mesmo para o térreo e saíam correndo? Desesperada, olhou para Arthemis a fim de conseguir um conselho.

Todavia, o general passou sem sequer perceber a presença dos gatos. E apertou a campanhia do apartamento de Minako. Não custou muito para Ami recebê-lo e deixá-lo entrar.

- Ela o conhece!? – perguntava Luna, ainda sem conseguir respirar direito. – Não vi errado desta vez. Tenho certeza de que era Zoisite!

- Eu te disse, Luna. Eles ainda estão vivos.

- Então, aquele estrangeiro também...

- Também devia ser um general. Mas qual será o plano deles?

- O Cristal? Mas... Algo está errado, Arthemis. – Luna deitou no muro e miou fracamente. – Zoisite não me olhou em momento algum. Ademais, quantos deles conheciam as identidades das meninas?

- Bastaria um se estiverem trabalhando juntos. E devem estar; cada um investindo contra uma delas.

- Pra quê? O Cristal não está com elas. E, se agirmos...

- ...elas podem acabar lembrando. – Arthemis gemeu bem baixo com a conclusão. – Já entendi; continuemos a observar.

- Exato. E até onde sabemos, eles lembram tanto quanto as meninas e o príncipe Endymion.

Com isso, voltaram a esperar até que Minako retornasse. O que aconteceria bastante mais tarde. E na companhia de mais um general.


Após sair do pequeno restaurante, o casal atravessou a rua e caminhou para a estação de trem. Depois de encontrarem os conhecidos de Usagi, a conversa não havia mais progredido.

- Algum problema, Mamoru?

Devia estar encarando-a o tempo todo. Mas era inevitável.

- Só me perguntava se o assunto importante para tratar comigo era apenas uma desculpa para eu lhe pagar um jantar.

Reika gargalhou, voltando para ele seu olhar.

- Ah, claro. Comer um pouco de macarrão num restaurante de família é a noite perfeita pra uma garota.

- Bem, deve ser melhor que comer sozinha em casa. Motoki se atrasou de novo hoje? – Por que o tom de desaprovação, Mamoru se perguntava ao dizer aquelas palavras. Ele mesmo estava bem longe da sua esposa.

- Não desta vez. Ele deve estar vendo as notícias a esta hora, deitado no sofá de pijama.

- Então...

- Porque eu queria que fosse o primeiro a saber. Não sei ainda o que fazer, não posso olhar para o Motoki antes de ter conversado contigo antes.

Preocupado, Mamoru parou de andar apesar de a entrada da estação estar bem à sua frente. Normalmente, ele não gostava de simplesmente parar no meio do caminho. Isso incomodava as pessoas, criava um obstáculo repentinamente. Contudo, o tom de voz de Reika tremulara levemente várias vezes. Eles se conheciam fazia anos. Isso não era típico dela. Pela primeira vez naquela noite, sua atenção estava inteiramente voltada para a mulher enquanto lhe pedia que prosseguisse.

Ela inspirou lentamente antes de fazê-lo:

- Eu fui ao hospital hoje à tarde e... – Balançou a cabeça e pareceu desistir de explicações complicadas. – Estou grávida, Mamoru.

Continuará...

[Fim da Parte 4]

Notas da Autora:

Demorei de novo com o novo capítulo... Desculpa. :(( Mas aqui está ele e espero que eu não tenha perdido todos com essa demora, rs. Não deixem de cobrar sempre, muitas vezes eu me esqueci por algum motivo bobo como a FFN não abrir na hora e aí achei que já tinha posto, he he.