Parte 5 – Sentindo a Separação
Havia música, havia pessoas. E todos a olhavam e se divertiam. Ela continuou a bailar despreocupada até o momento em que aquele homem a segurou firme. Não obstante uma máscara que lhe cobrir o rosto, sua identidade era evidente. Era seu príncipe. A quem estava disposta a devotar toda sua vida. Sempre.
Um calor lhe vinha ao coração e ela começou a sentir cócegas na bochecha. Um pingo quente deslizava desde seu olho.
Usagi abriu os olhos lentamente e passou as costas da mão contra seu rosto para secar suas lágrimas. Havia chorado por causa de um sonho novamente. E, mesmo havendo sido um tão bom, sentia-se como se faltasse uma parte dentro de si.
- O que há comigo? – perguntou-se em voz alta, envolvendo-se com os braços. Eles estavam arrepiados, apesar de já ser início de verão e de sua pele estar úmida de suor.
Sentou-se no sofá, onde havia cochilado sem querer, e percebeu uma nova mensagem em seu aparelho. Motoki mais uma vez lhe avisava que Reika havia saído para se encontrar com Mamoru naquela noite. Já devia ter imaginado, era mais uma em que seu marido avisara que não o esperasse para a janta. Quantas dessas foram verdadeiramente em razão do trabalho?
Após encher a boca de ar e o deixar sair todo de uma vez tal qual uma bolha que explodia, Usagi discou o número de Motoki. Precisava gritar com alguém ou enlouqueceria.
- Usagi? Foi mal, mas não é uma boa hora – disse o amigo apressado antes mesmo de ouvi-la.
Contudo, também não era uma boa hora para se rejeitar Usagi.
- Como se sua esposa está com meu marido? – bufou de volta. – Não tem como você estar ocupado às onze da noite!
- Vamos, fique calma.
- Calma!?
- Escuta, foi você quem decidiu não falar com ele, fingir que não sabia.
- Escute você aqui, Motoki...
Mas ele a cortou.
- Realmente tenho que ir. Marcamos outro dia, tá?
- Vou precisar de algo mais específico, já que você só tem tempo pra me mandar ser sua babá. – E cruzou os braços por despeito, apesar de ele não poder vê-la assim.
- Que tal no próximo sábado?
Ao desligar, Usagi não se sentia mais tranquila com a data. Não aguentava mais a forma que seu relacionamento vinha tomando. Aquela sequer era ela, uma mulher de ficar no sofá esperando homem. Usagi Chiba não parecia em nada Usagi Tsukino.
Não havia muito como descontar mais em Mamoru. Ele nem vinha jantar nos dias em que ela cozinhava. Assim não podia misturar laxante ou arsênico como ela fantasiava fazer. E sexo ele já devia estar ganhando muito melhor fora de casa do que quando o conseguia dentro. Não que ela andasse com coragem de se deitar com ele. Desde aquela noite quando ouvira tudo, sequer permitira que o marido se aproximasse de seu corpo.
Deveria pedir divórcio? Não era como se fosse dar o neto que o casal Chiba esperava...
- Aaaaah! – gritou, apertando o tecido do sofá. Odiava como havia passado a sentir ciúmes dele, mas seria pior se Mamoru descobrisse.
Ademais, Motoki não parecia muito feliz com a ideia de ser pai, aquela gravidez talvez até acelerasse o divórcio dos outro casal. E Usagi não estava disposta a facilitar a vida do marido, justo quando Motoki parecia prestes a liberar a mulher.
Ainda incerta do que fazer ou pensar, pegou sua bolsa e uma muda de roupas. Passaria a noite em sua verdadeira cama. E não deixaria um só aviso.
- Oi, gatinho!
Minako levou a mão à cabeça de um dos gatos que vinham aparecendo com frequência no muro em frente à porta de seu apartamento. Era bem branco, mas este tinha um curioso sinal que lhe lembrava de uma lua crescente. Era sempre bom vê-lo após mais um dia cansativo de trabalho no café, por isso vinha tentando alimentar ele e a gata que o acompanhava às vezes. Após mais um cafuné, despediu-se do felino e entrou.
- Cheguei! – anunciou, percebendo que sua companheira de quarto também já havia voltado pelo sapato deixado na entrada.
Usando um avental, Ami esticou o corpo da cozinha e lhe deu as boas-vindas da usual forma contida.
Devia ser essa timidez que chamara a atenção de Minako quando a vira no trabalho da mãe. Na época, Ami estava apenas fazendo algumas horas para ajudar a pagar os livros da faculdade e não precisar pedir à mãe. A senhora Mizuno nunca teria permitido se soubesse que havia algo no caminho entre a filha e os estudos. Entretanto, de tantas coisas que podiam haver atrapalhado a faculdade de Ami, Minako não acreditava que quaisquer delas fossem as culpadas de verdade.
- Vou terminar a sopa em cinco minutos, por que não se troca para comermos?
- É realmente nojento como você soa como minha esposa... – Minako comentou resignada.
- Revezaremos assim que puder fazer coisas comestíveis.
Qualquer um teria dito algo assim em tom de brincadeira, mas Ami prosseguia a mexer na cozinha como se houvesse apenas dito o óbvio. Uma simples declaração do que aconteceria. Esse era o jeito daquela pessoa, Minako só gostaria que ela sorrisse mais. Não havia desafiado a mãe e largado a medicina? Alguém tão forte assim deveria seguir a vida com mais vontade em vez de apenas se tornar uma dona de casa.
- Sabe, encontrei com aquele homem de novo. O bonitão da empresa perto do meu trabalho.
- Quer dizer que já jantou? – Ami levantou os olhos sem esconder a surpresa.
- Não, não! – Balançando as mãos enfaticamente, continuou: – Acho que ele é gay.
- Ele disse alguma coisa assim?
- Bem, desde aquele dia, ele nunca mais me chamou. – Ao notar que Ami não entendera a que se referia, explicou-se: – Aquele dia, quando fomos naquele café e vimos o marido de uma das minhas clientes, amiga do Shin. – Quando a moça demonstrou recordar-se, Minako assentiu satisfeita. – Bem, nesse dia, ele ficou todo estranho e pensativo. E agora, mesmo indo sempre no meu trabalho, nem fala comigo direito. E ele também não me beijou naquele dia. Será que foi como minha amiga? Gays gostam de amigas mulheres, né? E aquele cara que vimos... o Shin o olhou também meio torto. E já sei que vai me lembrar da sua teoria. – Minako fez uma careta de desprezo. – Eu sou a deusa do amor, saberia se aquilo fosse um encontro. Ha! Não mesmo.
Ami apenas deu de ombros e lhe apontou para um armário. Seguindo as instruções, Minako parou de beliscar os pequenos tomates com maionese que estavam perto dela e começou a pôr os pratos na mesa.
- Você ainda duvida dos meus poderes, né? – gritou desde a sala de jantar. – Eu sei que está pensando naquele músico.
- Não como você insinua...
- E repito: deveria dar uma chance ao amor. Aí, aproveita pra descobrir o nome verdadeiro daquele sujeito. Não engulo aquele nome artístico brega. Quem quer se chamar Zoisite, hein? Aposto que tem algum nome chato como Koichirou, Tanaka ou coisa assim.
Ao perceber que a outra não respondia, voltou à cozinha para flagrá-la absorta com um pedaço de jornal em mãos. Para quem desistira de completar a faculdade, Ami continuava bastante interessada pelo mundo intelectual e se mantinha em dia com as notícias e com os livros mais cultos. Mas nunca comentava esse hábito com a companheira de quarto.
Nesse momento, ouviu a campainha do apartamento tocar e correu para a porta. Era ele de novo. Toda noite em torno daquele horário, Zoisite, um músico que prestava serviços para a empresa onde Ami trabalhava, vinha trazer uma flor. Bem, toda noite era exagero, mas a frequência vinha se aproximando disso nos últimos tempos. Desde que ele fora rejeitado.
Minako esticou a língua até tocar a bochecha enquanto fazia seu plano. Então, correu para o banheiro.
- Ami, pode atender pra mim? Vou demorar um pouco aqui – pediu antes de se trancar lá.
Como deusa do amor, ela sabia que aquele era o par certo para Ami. Apenas precisava dar tempo para que sua amiga o admitisse.
Prendendo a respiração, Mamoru abriu a porta de seu apartamento e sentiu o alívio lhe quebrar os nós de tensão dos ombros. O chinelo de andar em casa da esposa não estava lá. Ela os estava usando no momento. Ela havia retornado.
Deixou-se estar por um momento. Inspirava o ar de uma casa de família, não o apartamento vazio para o qual ele retornara na noite anterior.
Ao contactá-la para perguntar onde estava, Usagi lhe havia dado a desculpa de que fora passar a noite na casa dos pais e logo desligara o telefone. Após uma noite passada com apenas sua culpa, Mamoru ficara todo o dia fantasiando com o momento em que chegaria e encontraria não apenas a casa vazia, mas o armário também sem as roupas da esposa.
Em vez de voltar apressado para conferir se seus temores tinham fundamento, ele mesmo acabara por chamar Reika para um café. Não havia mais como negar: o casamento todo havia naufragado. De alguma forma, Mamoru havia feito Usagi correr longe.
E ele sequer podia reclamar, tecendo ele próprio sua parte da teia de mentiras. Hoje mesmo, ele havia de seu trabalho às cinco da tarde em ponto e mesmo assim enviara uma mensagem avisando que chegaria tarde. Sem mencionar em momento algum seu jantar com Reika.
Após o banho, continuava sem se sentir melhor. Teria agora que encarar as costas silenciosas da esposa.
Lembrou-se do que Reika lhe dissera no dia anterior e repetira naquela noite. Sabia que a encontrar era um veneno, que só piorava tudo; contudo, ela estivera certa sobre Usagi desta vez.
Olhou a esposa virada de lado para longe dele. Haveria como consertarem o que possuíam? Fazia sentido continuarem assim? Precisava se esforçar um pouco mais, talvez pudessem voltar para antes daquela noite. Da noite em que ela fora ver Motoki.
Ele podia engolir tudo. Para aquele relacionamento dar certo, alguém teria que ceder. E Usagi já fizera sua parte casando-se sem realmente querer.
Fechando os punhos, Mamoru
- Como foi nos seus pais?
Ela ficou silente inicialmente. Então, mexeu-se um pouco, deixando evidente que debatia com si mesma quanto ao que responder. Ou se responderia? Enfim, ela lhe falou sem esconder o ressentimento do tom de voz:
- Muito melhor que aqui.
Mamoru preferia nunca haver sabido sobre a verdade por trás de tudo. Sentia-se não apenas perdendo aquele que fora seu melhor amigo, como também sua esposa. O que ele podia fazer? Não havia como voltar no tempo; só poderia seguir em frente. Começava a compreender um pouco o que Reika sentia quando se encontravam, pois tinha vontade de voltar àquele restaurante e conversar amenidades. Não ter que encarar aquelas costas a seu lado.
Droga, se lá era tão melhor assim, por que Usagi simplesmente não o trocava? Tornaria tudo mais fácil. Serem sinceros um com o outro.
Continuará...
Notas da Autora:
Mil agradecimentos a todas que deixaram reviews! Fiquei tão feliz em ver a reação de vocês! Aguardo comentário também sobre este capítulo. Até que pra poucas palavras aconteceu bastante coisa. O que acharam da cena da Mina com a Ami? E o confronto Mamoru e Usagi tá quase chegando,eles estão já no limite... Aguardem e vejam!
Agora respondendo ao que não dá pra fazer em privado. ;-) (Não se sintam acanhados de pedir esclarecimentos do que precisarem! Só não poderei responder aquilo que for spoiler, claro.)
Mari Rodrigues: "No próximo capítulo diga que esse filho não é dele :("
R: Err... Ao menos, eu não confirmei que é ainda...!
Vanessa Diaz: "Mamoru merece mais que um gelo de Usagi, merece um iceberg! Onde ele tá com a cabeça se encontrando com essa tal Reika?"
R: MORTE! E que bom que tenha gostado das emoções do último capítulo!
Bianca Martis: "Filho de Mamoru? ESPERO QUE NÃO! :(((((("
R: Eu também espero :((( E se for, que ele não tenha tido nenhuma culpa e possa viver feliz pra sempre com a Usagi! rs.
Carol: "Tô aqui imaginando como será o próximo cap! Tomara que a próxima atualização seja logo logo *-*"
R: Foi rápida o bastante? Valeu a pena a espera? Farei o possível pro 16º também sair logo!
Maria: "gostei muito do capitulo e curiosa para saber o que vai acontecer asseguir. :)"
R: Tomara que você goste do que tenho aqui planejado pro futuro *cruza os dedos*
PriSalles: "Adorei o cap, louca pra saber os próximos capítulos... Bjão"
R: Obrigada! Fico muito feliz que esteja acompanhando e na torcida pra que continue assim! Espero que tenha gostado também deste capítulo!
