Era já final de expediente na empresa quando Makoto pegou seu celular e olhou para a tela por um momento. Espiando Usagi em seu computador, quem passava a limpo uma tabela de despesas, voltou a mexer em seu aparelho. Queria conversar com a amiga, ao menos desabafar tudo o que vinha enchendo sua cabeça, mas não conseguia dar o primeiro passo. Apesar de toda aquela necessidade, Makoto não estava acostumada a conversas de garotas. Então, porque se sentia quase obrigada a contar para a outra?

Desceu a tela de sua lista de contatos até chegar ao nome de Masato Sanjouin. O homem do goukon. Mesmo assim o chamando, ele apenas acontecera de estar no mesmo bar que os participantes do evento. E no mesmo apartamento quando ela recuperara a consciência no dia anterior. Nua. Chega de lembrar isso! Makoto sacudiu sua cabeça e fechou o celular.

Que mal teria em contar para Usagi sobre seu reencontro com Masato? Havia apenas corrido atrás dele e pedido desculpas pelo dia em que fugira de seu apartamento. Também aceitara o convite de tomarem algo enquanto a chuva não diminuía. Terminado o pequeno encontro, trocaram informação de contato. Mas ele ainda não havia ligado. A única mensagem fora para dizer que havia gostado muito de revê-la. Makoto também não a respondeu ainda.

Após essas lembranças, Makoto percebeu seu superior com o olhar fixo naquela direção. Era verdade, ainda estava no horário de trabalho. Não era para mexer em celular, pensar em homens ou fofocar com amigas. Não obstante retornar à sua própria tarefa – qual fosse, fingir estar ocupada para não receber mais nada a fazer naquele dia – Shin seguia a observá-la. Irritada com aquela pressão, a moça olhou direto para ele e reclamou:

- O que foi?

O superior devolveu-lhe uma expressão de inocência. Como ele podia fingir não estar olhando para lá com aquela cara feia? Antes que Makoto pudesse vociferar esses pensamentos, porém, Shin se aproximou de sua baia. Mas foi Usagi quem ele abordou:

- Bem conheci seu marido noutro dia. Num café.

No canto do olho, Makoto espiou a reação da amiga. Esta apenas havia erguido o olhar das folhas a seu lado. Insatisfeito com a evidente falta de interesse, o outro prosseguiu:

- Sabe, ele estava com uma ruiva muito bonita. É melhor tomar cuidado. – Agora sim com a expressão aliviada de missão cumprida, o superior retornou à sua área de trabalho sem esperar resposta.

Uma ruiva bonita... só podia se tratar da esposa de Motoki, Reika. Makoto juntou os beiços em uma careta. Superada sua reação natural à lembrança daquela mulher, voltou-se bruscamente para Usagi. Sabia que a amiga já tinha conhecimento de todo o caso, mas não por ela. Aquela era a primeira vez que Makoto tinha a chance de confrontá-la. Insistiu em seu olhar por uma reação da outra.

- O que foi, Mako? Acha que me importo com o que aquele idiota faz? – após assim dizer, retornou às tabelas.

- Pois você está mentindo. Sei que se importa.

- Tá. Mas é claro que sim; o que faço com todos os convites da festa se rompermos? Já enviei todos. E digo logo: se aquele idiota do Mamoru me cancelar esse casamento, não devolvo presente algum. Ele que cuide de toda a dor de cabeça que tá causando.

Apesar de sua preocupação não haver passado com aquela resposta evasiva, Makoto forçou uma risada e disse:

- Bem, homens têm amantes... Não quer dizer que vão cancelar casamentos. Eles não associam uma coisa na outra. Olha seu amigo, o Motoki. Vive fugindo de casa e da esposa, mas nunca pensa em apenas pedir um divórcio. Só ficar livre logo.

Usagi balançou a cabeça.

- Ele não o fará agora que a Reika está grávida. Se bem que, se o filho não for dele, eu mesma cancelarei o casamento deles junto com minha festa. Pensando melhor, a festa já vai ter acontecido quando essa criança nascer e fizerem o teste, né? Melhor pra mim, já disse que não devolvo presente.

- Grávida? – Incapaz de se manter calma e processar o resto do que lhe era dito, Makoto levou a mão até a boca.

- Bem, não sei se meu marido é burro o bastante para me trair dessa forma. Se era pra fazer filho alheio, não precisava de mim. Deve ser do Motoki mesmo...

- Quero dizer, a esposa dele tá grávida? E eles não sabem de quem é?

Tinha consciência de que era para estar consolando a amiga. Antes, Makoto apenas precisava tirar do rosto o sorriso ao perceber a possibilidade que se formara. Motoki mesmo lhe havia dito que mal vinha se encontrando em casa com a esposa. Então, como a teria engravidado? E ele nunca perdoaria. Homens poderiam considerar a esposa uma parte da casa a se evitar e até conseguir amantes por aí sem considerar o divórcio uma só vez. Mas Motoki não pensaria em outra coisa uma vez que o filho de Mamoru saísse da mulher que devia ser sua.

Contudo, quando Makoto, enfim, se sentiu pronta a consolar a amiga, esta fora chamada pela recepção do prédio. Havia uma visita a esperando na entrada da empresa. Por isso, pudera apenas observá-la sair intrigada. E inevitavelmente pensar:

"Droga, não conto nada pra ela e ainda fico feliz com a tragédia iminente – e certa – na vida dela. Grande amiga que sou..." Então, abriu a lista de contatos de celular. Mas a lembrança da novidade que acabara de ouvir a fez mudar de Masato para Motoki o contato para quem iria mandar mensagem.


Bastou ver Usagi sair do elevador para um arrepio percorrer seus braços. Era ela. A mesma das visões que o fogo sagrado havia mostrado a Rei.

Viera até o prédio confirmar que suas visões estavam sendo tais quais sonhos: seu cérebro apenas processava informações já conhecidas. Vira Usagi em alguma foto de Jadeite. Tivera todas as oportunidades de se encontrar com a menina da agência de casamentos. Não passavam de garotas que fizeram parte da paisagem e que agora seu cérebro transformava em visões. Ainda que tentasse dizer-se tudo isso, aquele arrepio ao se encontrar tão perto de Usagi não enganava a sacerdotisa dormente nela.

- Princesa Serenity... – murmurou sem entender por que a chamava assim.

Então, percebeu que a mulher caminhava em direção aos recepcionistas do prédio. Rei não sabia o que dizer a ela, que desculpa dar. Usagi sequer fazia parte do mesmo departamento que seu namorado. Com os pensamentos nublados pela adrenalina, fugiu para o exterior do prédio, escondendo-se entre algumas pilastras.

E se Jadeite realmente fosse um homem mau? Estaria a princesa em perigo por se encontrar tão próxima dele? Mas o que Rei poderia fazer? Levou a mão à cabeça, agarrando seus cabelos e os puxando até sentir o couro cabeludo incomodado. O que estava acontecendo, afinal? Fechou com força os olhos, numa tentativa de se recordar de todas as visões tidas até então. Nenhuma formava uma história, era um conjunto de imagens e informações pouco conectadas. Vilões e guerreiros. E um reino antigo, parte de outra vida. Mortes.

Rei começou a sentir dificuldade em respirar. Estava mesmo prestes a cair em prantos? Por quê? Após consertar os cabelos, ela inspirou fundo até se controlar e encarou a jovem loira que olhava confusa a seu redor. Os recepcionistas deviam ter acabado de dizer que sua visita sumira. "Que papelão, Rei..." pensou, estalando a língua. Enfim, retornou ao interior do prédio, como que marchando em direção a Usagi.

- Desculpa o atraso – começou a dizer, apesar de não ser propriamente um atraso. – Eu me chamo Rei Hino.

- Hã... É um prazer. – Ela se curvou com hesitação. – A senhora vem em nome de alguém? Posso ajudá-la com algo?

- Sinto muito, não sou uma cliente. Eu vim vê-la. Podemos conversar em um lugar mais calmo? Jadeite me comentou que abriu um café aqui perto.

A jovem entortou a cabeça pensativa; então pareceu perceber algo.

- Você conhece o Jadeite?

Brigando consigo mesma pelo deslize, Rei tentou assentir brevemente. Após mais um momento, a outra acabou por aquiescer e a guiou até o café restaurante sobre que seu namorado comentara uma vez.

- Sejam bem-vindos! – Uma garçonete de cabelos escuros as recebeu e anotou seus pedidos.

Estava frente a frente com Usagi, mas voltava a perder a confiança no que viera fazer. Aquela moça devia estar vivendo uma vida normal, sem monstros e sem mortes. Tal como Jadeite, como sua namorada deveria sabê-lo mais que qualquer outra pessoa. Então, qual era a necessidade de mexer naquilo? Até onde sabia, tudo não passava de acontecimentos de uma vida passada.

- Hã... então... Disse que conhecia Jadeite? – Usagi a olhava desconfiada.

Mesmo que Rei já houvesse perguntado diretamente para seu namorado, este não parecia conhecer muito sobre Usagi. Departamentos diferentes, mal se falavam. Sem qualquer informação útil sobre aquela moça, como iniciar a conversa de forma a alertá-la do que estava acontecendo? Da forma como o destino parecia se mexer ao redor das duas mulheres? Toda sua alma lhe gritava que estavam em perigo. Não dissera nada a tal Ami Mizuno, mas aquela era a Princesa Serenity. Tinha que haver algo de especial com ela. Era a pessoa que sua encarnação anterior parecia proteger com a própria vida.

Ignorando a pergunta de Usagi, decidiu ela própria escolher um assunto:

- Soube que iria se casar, meus parabéns.

- Ah. Sim, obrigada. Na verdade, já nos casamos.

- Que bom, espero que sejam felizes.

- É... digo, obrigada de novo.

- Jadeite não me disse que tipo de pessoa era seu marido.

- Apenas um assalariado comum.

Os cafés chegaram naquela hora, o de Usagi estava acompanhado de um bolo cheio de cobertura e marshmallow. Rei a observou comer rapidamente, enquanto sorria. Era uma cena estranhamente familiar. Elas realmente já haviam se conhecido... Aquela conversa não era com uma total estranha. Seu coração se sentia quente tal como se houvesse acabado de encontrar a melhor amiga dos tempos de escola. Não podia mais esconder o segredo.

- Usagi, gostaria que ouvisse um aviso para você.

A moça levantou o olhar após engolir o último pedaço do bolo. O canto de sua boca estava com uma mancha enorme de marshmallow. Tentando ignorar a visão, Rei prosseguiu:

- Eu posso estar enganada, mas há duas pessoas na sua empresa que podem tentar matá-la.

- O quê? – Não era uma pergunta cheia de susto e temor. Usagi havia começado a gargalhar. – Isso é algum vídeo pra tevê? – E olhou ao redor.

- Não tem câmeras aqui.

- Mas! – E gargalhou mais uma vez, incapaz de falar.

- Sua idiota, apenas me escute! Eu vi no fogo sagrado que tanto Jadeite quanto Kunzite são espíritos malignos.

- Kunza- o quê? – Ela passou a segurar o estômago, como se assistisse a um programa de comédia.

Rei começou a ficar consciente dos olhares que as garçonetes e os clientes lhes lançavam; estes eram cada vez menos disfarçados.

- Kunzite, digo, Shin Saitou. Seu chefe e Jadeite são enviados de uma organização maligna e podem estar com um plano para matá-la.

Usagi havia parado de gargalhar e a olhou por um momento. Enfim, parecia começar a entender a gravidade do que lhe era dito.

- Você tem razão – começou a lhe dizer. – Eu bem que estava desconfiando de que meu chefe queria me matar. – Mas voltou a gargalhar ainda mais alto. – Você não imagina o trabalho chato que ele me deu pra fazer hoj- AAAAAAAAAAAAI! Mas por que me bateu!? – Usagi levou a mão ao lugar da cabeça onde havia sido socada.

- Porque você não está me ouvindo.

- Claro que estou! – replicou com a voz chorosa. – Não tenho culpa se você acabou de me falar coisas tão doidas.

Ela realmente não sentia nada? Não havia qualquer estalo dentro de seu corpo? Rei olhava agora para a princesa que deveria proteger e via uma imbecil com a bochecha suja de marshmallow. E pior, que a olhava sem qualquer agradecimento pelo aviso.

- Pois bem, acredite no que quiser. – Rei abriu sua carteira e pôs duas notas de mil ienes sobre a mesa. – Se acha que Jadeite e Kunzite são apenas bons rapazes que só por coincidência foram trabalhar contigo, fique à vontade. Tenha uma boa morte, princesa Serenity. Não vou perder minha vida para proteger uma idiota.

Assim dizendo, deixou a mesa e o café. Mas não sem antes esbarrar em uma garçonete loira recém-chegada da rua. Era... Encontrar aquela outra pessoa de suas visões religou-lhe o alarme de alerta dentro de sua mente. Havia se apressado em deixar Serenity com a própria sorte? Dessa vez, não repetiu a falha de quando se encontrara com Ami Mizuno, mas aquela garçonete era sim a Sailor Venus.

Era como se o destino estivesse juntando todas as peças. Assim pensou, ao notar que Venus correu para cumprimentar uma Usagi ainda perplexa e na mesma posição em que Rei a deixara.

O que estaria para acontecer? Ou aqueles seriam apenas tempos de paz? Paz... Rei nunca mais teria paz. Não enquanto tremesse só em olhar o namorado, sem saber qual a verdadeira identidade de Jadeite.

Continuará...


Notas da Autora:

Novamente, demorei bastante pra postar, mas desta vez tem uma explicação justíssima! Além de problemas de ordem familiar, tive problemas de ordem adio-tudo-até-o-último-prazo-e-me-desespero-depois. (suspira) Eu tô há dias batendo cabeça nas teclas aqui pra terminar um artigo pro mestrado e aí acabo me sentindo mal de pensar em fic quando poderia estar encaixando mais uma citação lá, né?

E não, o artigo não tá pronto, rs. Digamos que está em 85%, mas o problemas 1 me deram uma boa desculpa para folgar do problema 2 e me focar um pouco na questão 3, esta fic. (Alguém entendeu?)

Agradecimentos a todos que ainda estão aqui firmes e fortes acompanhando e agradecimentos especiais à Pri Salles, à BunnyRita e à MViana pelas reviews no último capítulo. Tô aqui de dedos cruzados para que todos continuem comigo para o próximo. Neste a Usa nem apareceu, né? :( Mas no próximo teremos uma cena só dos dois, só não posso dizer que seja uma muito feliz. :(((

Até lá! Não deixem de comentarrrrrr! ;)