Vinha passando os últimos dias perdida em pensamentos. Ouvir aquele nome pareceu haver lhe ligado algum botão e lhe despertado uma parte desconhecida dentro de si. Princesa Serenity, era como aquela mulher a havia chamado. Toda a conversa parecera um enredo de anime até então. Como um nome tão estranho pudera mudar tudo? Teria corrido atrás dela se não houvesse reencontrado Minako logo em seguida. Quando enfim terminara a conversa e pagara a conta, a desconhecida não estava mais à vista.
Passou a ter pensamentos estranhos e a se recordar de imagens de sonhos. Vinha culpando seu casamento repentino por aqueles sonhos, mas e se a mulher estivesse certa? Um fogo sagrado teria revelado a ela sobre espíritos malignos que tomaram a forma de Shin e Jadeite. Fogo sagrado...
Percebeu uma foto de um templo xintoísta colada em um mural e estendeu a mão para tocá-la. Fogo sagrado seria algo de um templo daqueles, né? Usagi tentou tatear o local através da imagem e era como se pudesse ver todos os detalhes. Dois corvos pousados enquanto uma jovem de cabelos longos e negros usava uma vassoura de palha para juntar folhas secas. Era aquela mulher!
- A senhora vem pensando em um casamento tradicional?
Usagi se virou para encarar a encarregada da agência de eventos, a senhora Aino. A seu lado, Mamoru a observava sem esconder a curiosidade. Estava tão distraída que se esquecera de era o meio de uma conversa. Sacudiu a cabeça para a mulher.
- Só tava olhando.
Mas a mulher não pareceu convencida e passou a explicar:
- Temos alguns templos conveniados e este acontece de estar bem na região onde moram. O sacerdote é um senhor de idade simpático que ficaria honrado, caso considerem ter uma cerimônia lá.
- Esse é o templo Hikawa, certo? – A voz de Mamoru a assustou; vinha de muito perto de seu ouvido. Ele havia se aproximado para observar melhor a foto.
- Exatamente! Já esteve lá, senhor Chiba?
- Ah, sim. – Ele passou a mão na cabeça. – Acho que sim.
Antes que ele pudesse se aprofundar no assunto, uma jovem de uniforme da agência se aproximou segurando uma grossa pasta, que foi entregue à sua superior. Mamoru lembrava-se de havê-la visto uma vez conversando com Usagi, por isso, cumprimentou-a com um aceno de cabeça.
- Ah, olá! – Sua esposa pulou à frente, como se estivesse prestes a abraçar a recém-chegada.
Talvez o houvesse feito, caso a outra não houvesse dado alguns passos assustados para trás. Parecendo se recuperar, a jovem mostrou também reconhecê-la e a cumprimentou.
- Como está seu amigo? – perguntou a Usagi.
- Ah, você tinha razão, Ami. Não precisava mesmo de hospital. Acho que já está tudo bem.
Ami sorriu discretamente, sem dar pistas sobre o que as duas conversavam. Normalmente, Mamoru apenas não se incomodaria com ignorar, mas tudo relacionado à sua esposa o vinha tirando do que ele sempre considerara ser o seu "normal".
- Hospital? De quem estão falando? – inquiriu, sem esconder o tom de demanda.
- Só o Motoki na outra noite. Ele acabou machucando a perna, e a Ami estava passando por ali na hora. – Usagi voltou-se para a moça: – Sinto muito pela cena, ele tava bastante bêbado.
- Eu estou acostumada, não se preocupe. Havia muitos onde eu trabalhava antes.
- Oh, que legal! Você já trabalhou num bar ou algo assim, é? – perguntou Usagi com sua característica familiaridade exagerada.
Sem conseguir se interessar com o restante da conversa, Mamoru quedou-se a observar a esposa pelo restante do dia. Como podia lhe dizer que estivera com outro homem usando um tom inocente? Usagi lhe contara de forma tão factual, ou até cotidiana, que ele não teria dado importância não fossem os avisos que recebia de Reika constantemente.
Haviam mesmo chegado ao ponto em que Usagi não se importava mais com o que o marido pensava? A lembrança da noite que ela passara fora de casa retornava à sua mente. Teria sido nesse dia? Ela estivera mesmo com Motoki, tal qual Reika lhe expusera? Mamoru sabia que bastava perguntar à senhora Tsukino, mas não aguentaria a resposta. Talvez, ela sequer importasse.
Foi enquanto concluía assim algumas horas mais tarde e já de volta à casa dos dois naquela noite de sábado que Mamoru recebeu uma chamada de sua mãe no celular.
- O que houve? – Usagi correu até o quarto atrás dele.
Sem parar de pegar peças de roupa aleatórias, explicou-lhe apressado:
- Meu pai passou mal e está internado no Quioto. Preciso correr para não perder o trem.
Quando achou que ela não lhe diria sequer uma mensagem de apoio, percebeu que a esposa também pegava uma de suas malas menores.
- Eu vou junto.
- Não. – Fechando a própria mala, ele começou a caminhar para a porta.
- Como assim? Também é meu pai agora!
Aquelas palavras pareceram parar um pouco o tempo para ele e lhe tirar temporariamente o peso dos últimos tempos. Não mais se contendo, Mamoru caminhou até onde ela estava parada e fez menção de lhe beijar. Tal qual já esperava, Usagi se encolheu em resposta.
- Até parece que sou um monstro ou um assassino. – Ele estalou a língua, esforçando-se para não transparecer a dor trazida pelo balde de água fria. – Quando eu voltar, quero que resolvamos sobre o divórcio.
- O quê!?
- Mal nos casamos e tudo o que você faz é me evitar. Olha, sei que tenho que entender. Sabia desde o início de que você foi mais empurrada para cá do que veio por vontade própria. Mas você escolheu ao menos permanecer aqui... Só que meus pais, claramente, não têm todo o tempo do mundo. Eu preciso cumprir o que prometi a eles.
- Basta esperar o exame.
Mamoru a observou por um momento, mas nenhuma explicação se seguiu. Ela apenas o encarava com o queixo erguido em desafio.
- Não é hora de brigar – disse ele por fim, voltando a pegar sua mala.
- Estou falando do seu filho com a Reika. Se ele realmente for seu, nem precisamos nos divorciar. Temos nosso casamento, seus pais um neto.
- Como?
- Eu pensei que isso era justamente motivo para um divórcio, mas sabe de uma coisa? Não vou perder cara assim. Não assino papel algum, enquanto não soubermos sobre aquele bebê. Vamos ter a nossa família disfuncional mesmo. Você que aguente.
- Espera, você está mesmo me acusando de traição? Eu não passei noite alguma fora de casa.
- E por que acha que fui pra casa dos meus pais, Mamoru? Recordemos aquele dia, seu hipócrita insuportável. Você me disse que chegaria tarde, já foram tantas que nem lembro se você se deu ao trabalho de culpar seu trabalho daquela vez. Agora, diga-me: para onde você levou aquela mulher naquela noite?
- Eu fui mesmo me encontrar com a Reika, mas era porque sabia que você estaria com o Motoki.
- Motoki!?
- Eu quero o divórcio, Usagi.
- Não dou. – E cruzou os braços.
Seria uma cena da qual Mamoru riria se não estivesse acontecendo com ele próprio. Gostava daquela parte de Usagi. Droga, ele gostava dela. Mas devia a seus pais. Havia assegurado aos dois que logo poderiam segurar seu neto. Não importava o quanto a esposa insistisse que não estivera com Motoki, não era mais a questão sendo discutida. Por isso, insistiu:
- Quero que volte para casa amanhã. Se não quiser assinar os papéis, eu contratarei um advogado e resolveremos isso em litígio.
Foi quando algo concomitantemente previsível e inacreditável aconteceu. Ela começou a chorar.
Mamoru não queria mais estar naquela cena. Incapaz de fazer qualquer coisa para melhorar, pôs-se a andar em direção à saída do apartamento. Caso não se apressasse, mentiu para si mesmo a fim de ocultar-se a covardia, apenas poderia pegar o trem do dia seguinte.
- Seu idiota! – ela gritou com toda a força, fazendo-o parar. – Seu traidor idiota!
- Pela última vez – retorquiu ele – não fui eu quem traiu aqui. Foi você quem passou a noite com Motoki.
- Não passei não! E aquele filho?
- Não posso prestar conta de toda a vida social da Reika pra responder, mas garanto que não é meu.
- Mentiroso – disse ela entre soluços.
Mamoru suspirou e forçou a se afastar mais. Apenas não conseguia. Não com ela chorando assim. Por mais chorona que Usagi fosse, aquele som ainda parecia apertar seu coração. Com uma força que não achava que tinha, conseguiu, enfim, deixar o apartamento e caminhar até o elevador. Antes que este chegasse, porém, sentiu a presença da esposa a seu lado.
- Eu disse que iria também.
Foi tudo o que ela lhe disse até a chegada à estação de trem bala em Quioto.
Continuará...
[Fim da Parte 5]
Notas da Autora:
Novamente, mil agradecimentos a todos os comentários e todos que vêm acompanhando a história. Desta vez consegui atualizar mais rápido, né? Recebi tantos incentivos com meu artigo que ontem eu terminei! Falta muita coisa chata ainda, título, resumo, revisão... incluir página e livro que não incluí enquanto escrevia porque me odeio, rs.
Enfim, quem disse que meu artigo interessa depois dessa discussão da Usa com o Mamo? Falei que enfim ia ter confronto, né? Só que não terminou aqui. XDDD Olha, confesso que um dos meus momentos favoritos desta fic é esta parte. Enquanto escrevia eu lembro que pensava: "esta história tá perdida! Não tem mais jeito, tá tudo errado, ela merece o lixo mesmo!", mas a Usagi fincou o pé no chão e decidiu brigar pra resolver as coisas com o Mamoru, salvando minha fic junto. -chora de emoção-
Bem, agora chegamos à parte 6 da história, passamos da metade e daqui a pouco estaremos no final, né? Continuem dizendo o que acham, adoro ler a opinião de vocês!
E até a Parte 6: "Uma Familiaridade". :D
