Parte 6 – Uma Familiaridade
Exceto por teimosia, não havia mais por que continuarem casados. Mamoru pensou assim ao voltar os olhos para Usagi, quem pegava no sono na cama que ela improvisara com uma coberta no chão.
Estavam em um hotel de Quioto apesar das insistências da mãe para que fossem para a casa do casal. Ela passaria a noite no hospital, de forma que poderiam ficar tranquilos no lugar. Todavia, acharam melhor simplesmente conseguirem um quarto próximo de onde o pai de Mamoru estava internado. Sua vida íntima era complicada demais para expô-la mesmo à casa vazia dos pais. E havia muito que conversar.
Contudo, tão logo chegaram lá, Usagi se apropriara da coberta e a transformara em um colchão. Não houve uma só troca de palavras, nem mesmo o mais comum. Mamoru não podia culpá-la; ele mesmo estava atemorizado de que, na próxima vez que se falassem, tivessem que retomar o assunto sobre o divórcio.
Ele gostava de Usagi. Gostava da companhia que lhe proporcionava e da forma como conseguia fazê-lo rir. Por que mudara tanto com o casamento? Sentia-se culpado. Havia trabalhado até tarde muitas vezes e, noutras, saíra com outra mulher em vez de apenas voltar para casa. Mas Reika era sua amiga e precisava dele. Principalmente, ante a suspeita de que Motoki a estaria traindo. O que sua esposa negava.
Mamoru se levantou da cama e se ajoelhou ao lado dela. Por sorte, Usagi tinha o sono bastante pesado; não acordaria quando a trocasse de lugar. Esticou a mão e começou a sacudi-la um pouco apenas para confirmar que a esposa estava adormecida. Inspirando fundo, preparou-se para envolver seu ombro e suas pernas. No meio desse movimento, todavia, Usagi começou a se mexer levemente. Pensando havê-la despertado, afastou-se um pouco de cima da coberta e aguardou uma reação.
Os lábios da jovem se mexiam suavemente de início. A intensidade do movimento começou a aumentar e a impressão agora era de que estavam tremendo. "Está sonhando?" Mamoru entortou um pouco a cabeça e voltou a se aproximar. Havia quanto tempo que não ficavam tão próximos? Inspirou o cheiro do sabonete do hotel, com que ela se banhara tão logo fazer sua cama. Seu estômago apertou-se ao se lembrar de que virariam estranhos em breve, e por escolha dele próprio.
Mas não havia uma opção de fato. Ele queria ficar com Usagi, mas sentia-se obrigado com os pais que sempre lhe amaram tanto. Inicialmente, aquele era seu único intuito com o casamento: dar-lhes um neto. E não era justo exigir isso da esposa. Por mais informada que ela estivesse quando aceitara o matrimônio, um filho não é algo que se força em ninguém. Sobretudo no estado a que a relação do casal havia chegado. Não seria saudável para qualquer dos três.
Quem sabe um dia ela não deixaria Motoki, e seus pais já teriam esse neto? Aí poderiam se reencontrar e conversar melhor. Ele a conquistaria e não a deixaria mais para ganhar essa segunda chance.
Riu-se da própria imaginação. O próprio não sabia por que desejava tanto estar com Usagi, imagine o que a outra parte pensaria dele a partir do divórcio. Tudo estaria acabado sem retorno; essa era a verdade. Aquela relação, o rumo que tomara... era imperdoável.
Levou sua mão até a testa de Usagi e ajeitou as mechas desgrenhadas de cabelo que se colavam em sua testa. O ar condicionado do quarto estava a todo vapor e, mesmo assim, ela estava suada. E chorava? Passou um dedo por seus cílios úmidos e o desceu até os lábios trêmulos. Com o que sonharia?
Curioso, Mamoru abaixou o rosto até bem próximo da boca e aguardou que os sons fizessem sentido. Não obstante não se lembrar de nenhuma vez sequer já haver ouvido aqueles nomes que chegavam ao seu ouvido, ele se sentiu congelar.
Tuxedo Kamen? Endymion?
Era como se seu estômago se contorcesse sozinho. Seu coração também não parava de bater. Por que reagia assim a palavras tão desconhecidas? Tão desconhecidas quanto lhe soavam familiares. Começou a arfar, sem conseguir recuperar o fogo. Correu até sua carteira sobre a mesa próxima e pôs apenas metade do pé nos sapatos até fugir daquele quarto. Não estava se sentindo bem.
Estava um dia bastante sossegado no café restaurante onde Minako trabalhava. Apesar de haverem estreado vários sabores de bebidas geladas, nem o fato de serem por tempo limitado havia feito o movimento aumentar fora do horário de almoço. Dessa forma, o café que também era restaurante estava se tornando um restaurante com opção de café... Bem, isso não lhe dizia respeito conquanto continuasse empregada.
Não queria muito da vida, pois nunca encontrara nada que lhe satisfizesse. Nenhuma carreira, nenhum homem lhe importara até então. Talvez, por isso mesmo, conseguisse entender um pouco os pensamentos de sua colega de quarto. A vida não era tão interessante quanto deveria ser; então, por que não apenas ganhar o bastante para sobreviver? E até que era muito desde que conseguira aquele emprego. Tanto tempo sendo garçonete desses cafés e de outros restaurantes familiares lhe garantira bastante experiência. Quem sabe não pudesse pedir uma semana de folga e passear para algum lugar em agosto? Seria bom se pudesse convencer Shin a ir junto, mas aquele romance não parecia se desenvolver. O que havia com aquele homem, afinal?
No momento em que assim pensava, a pessoa que esperava chegou ao café. Ignorando as boas-vindas de todos os funcionários, o homem caminhou diretamente em direção a Minako e a encarou desafiante.
- O que foi, afinal? – perguntou Zoisite, um músico que prestava serviços à empresa de casamentos de que a mãe de Minako era sócia.
Ele parecia bravo. De fato, Zoisite havia exigido ter a conversa por telefone, mas ela não pudera fazer. Precisava ver seu rosto pessoalmente. Como não obteve resposta, o homem insistiu:
- O que tem a Ami que é tão importante? Aliás, como conseguiu meu número de celular?
- Vi no celular dela. – Minako virou os olhos. – Onde mais?
- Se isto é mais um pedido para eu desistir, é melhor nem começar. – Zoisite sentou-se à mesa que ela acabara de limpar e cruzou as pernas.
Automaticamente, Minako lhe trouxe um copo com água e sentou-se à sua frente.
- É exatamente o contrário – disse sem esconder o sorriso de autossatisfação.
- Como assim? Pensei que a Ami me queria longe da vista dela.
- Não sei se ela te contou, mas eu aconteço de ser a deusa do amor.
Sem responder se já sabia ou esboçar qualquer reação, Zoisite apenas cruzou os braços e aguardou a continuação. Minako sentiu-se irritada, ela estava ali para ajudar, não poderia receber um pouco de cooperação ao menos? Ainda assim, prosseguiu:
- Sei que Ami te rejeitou, que ela não está interessada em relacionamentos, etc. Bem, você sabe como a vida dela tem sido um pouco complicada desde que brigou com a mãe.
- Se fosse para ouvir esse discurso de novo, teria procurado a Ami diretamente.
- Fica quieto e ouça meu plano genial! E infalível, porque eu sei que vocês dois são feitos um para o outro.
- Você me chamou aqui para falar de planos? Pensei que era um assunto importante.
- E é! Porque da forma como tá indo, sem minha ajuda, você vai virar o melhor amiguinho dela antes de namorado.
Batendo as palmas da mão com força na mesa, Zoisite se levantou e se virou para a saída. Minako correu para segurar seu braço antes que se fosse e insistiu:
- Você não precisa fazer muito!
- Não farei nada. – E se livrou do aperto, usando agora a mão livre para ajeitar o cabelo. – Que menina irritante.
- Pois se não agir logo, vai perder!
Não havia mais clientes no café quando Shin lá entrou acompanhado de seu amigo Jadeite e de mais duas mulheres. Talvez por isso Minako houvesse gritado tão alto, ainda assim, sentiu-se embaraçado pela cena que acabara presenciando.
Shin ergueu as sobrancelhas e tentou estudar a situação que havia encontrado tão logo entrara. A moça que tanto lhe chamava atenção encarava feroz mente outro homem. E este apenas sorria ao ouvir a ameaça. Então, o homem começou a andar, ignorando a expressão raivosa que Minako lhe lançava pelas costas. O que haveria acontecido ali?
Shin passou a observar o desconhecido com alguma curiosidade. Aquela pessoa era familiar.
O homem veio em direção à saída, na frente da qual Shin estava, e quando estava bem próximo, encarou-o por um momento. Shin sentiu o coração disparar com alguma emoção estranha. Algo parecido com o que sentira fazia pouco tempo, quando conhecera o marido de Usagi. Mas, naquela hora, havia apenas ficado irritado que o homem estivesse com outra. Agora, não sentia qualquer irritação que explicasse como reagia no momento. E sabia que o outro também devia estar pensando em algo semelhante pela forma como seus olhos se encontraram.
Seria mesmo algum conhecido? Estaria sendo rude não o cumprimentando? Na dúvida, acenou-lhe com a cabeça, forçando o corpo a se curvar suavemente. Mas não era isso... Tinha que ser mais, algo muito maior.
- Shin?
Ouviu a voz distante de Jadeite o chamar. Foi quando notou que o grupo com que viera havia todo já tomado uma mesa e o aguardava.
- Ah – conseguiu ainda dizer.
Sua mente ainda estava, parcialmente, tentando se lembrar daquele homem. Este mesmo já se havia ido àquela hora. Percebeu também Minako entrou para a cozinha do café sem nem mesmo lhe cumprimentar, o que lhe tirou a chance de perguntar quem seria a pessoa com quem falava com tanta emoção.
Minako... Aquele era um grande problema que Shin não sabia resolver. Começara como uma atração inexplicável. Fora outra pessoa que vira e fizera seu coração bater com força, quente. Desde então passara a retornar ao café apenas para ter essa emoção de volta. Mas, desde aquele dia de chuva quando lhe ajudara a chegar à estação, Minako parecia exigir algo dele. Algo que Shin não se sentia em condições de dar. Não da forma que ele estava, não enquanto não encontrasse o que vinha buscando entender.
Sua vida era um enorme branco.
O que estava acontecendo? Por que ela havia se tornado a acusada? Um sentimento de culpa invadia Usagi. No final, ela realmente agira de forma suspeita. Mesmo agora que sabia das desconfianças do marido, havia decidido ficar até bastante tarde no trabalho. Não era exatamente a desculpa da hora extra que a fizera acreditar na traição?
E agora...
Usagi afundou a testa nos braços e levantou os olhos apenas para conferir o relógio. Se saísse agora de lá, seriam dez da noite quando chegasse em casa. Ao seu redor, havia apenas mesas vazias. Não havia o costume de horas extras em seu departamento a menos que estivessem com um projeto próximo do prazo. Não era o caso.
Lembrando-se de algo, pegou seu celular. Nenhuma mensagem nova. Sabia que Mamoru não lhe responderia mais. Vinham se evitando desde que chegaram a Quioto, onde o senhor Chiba ainda estava internado. Sabia que cedo ou tarde teriam que conversar, e Usagi imaginara que poderia levar Motoki junto para confirmar seu ponto: ela era inocente. Entretanto, o amigo não lhe respondia as mensagens desde o dia anterior, nem mesmo atendia suas chamadas. Será que Mamoru já havia falado tudo a Reika? Ela teria alertado ao marido?
- Droga.
Afundou mais uma vez a cabeça entre os braços e ficou olhando para sua mesa com a pouca claridade que entrava naquele pequeno espaço. Após um longo momento sem pensar em nada especialmente, forçou o corpo a se levantar. Era hora de pegar o trem para casa. Na melhor das hipóteses, Mamoru já estaria dormindo – não que acreditasse em tamanha sorte. Tudo teria que acontecer naquela noite.
Luna observou a porta do apartamento à sua frente abrir e Ami sair calmamente. Mas a porta escancarou mais uma vez em seguida e Minako a seguiu discutindo mais uma vez sobre o músico.
Por que ela havia posto na cabeça que Ami deveria se envolver justo com aquele homem? Já percebia que Minako retomava o assunto toda vez depois que Zoisite passava com uma flor, o que era quase diário.
"Boa menina" pensou a gata ao ouvir nova recusa de Ami. Esta sempre fora a mais sensata das cinco. Mesmo sem memórias, não se arriscaria perto de alguém como um general do Dark Kingdom.
- A Minako tá brigando de novo? – Arthemis cochichou perto de seu ouvido.
Após assentir, tornou a assistir por um momento. Então, voltou-se novamente para o gato e anunciou:
- Acho que vou dar uma olhada se a Usagi já voltou de viagem. As coisas não pareciam bem quando os dois foram embora no sábado.
- Luna, espere. – Arthemis mexeu um pouco as patas dianteiras e se sentou pensativo. – Não seria melhor contar só para eles ao menos? Afinal, eles são os herdeiros do Milênio de Prata e o reino da Terra, né?
- O Cristal de Prata lhes deu a chance de terem a vida normal que a rainha Serenity desejou em seu leito de morte. – Luna baixou a cabeça. – Não poderia tirar isso deles, não depois de tudo por que passaram.
- Eu sei...
- Ademais, segundo o que pesquisamos nenhum dos generais parece ter suas memórias.
- Podem estar fingindo, sabe bem disso.
Emitindo um som agudo, a gata lamentou.
- Discutimos melhor noutra hora. Por enquanto, vou apenas ver como ela está.
- Luna...
Continuará...
Notas da Autora:
Muito obrigada a todas comentando! BunnyRita, Joyce Mamoru, PriSalles, MViana, ilospessousa e todo mundo mais que está acompanhando aqui e pelo meu site. Sempre fico muito feliz com tudo o que vocês comentam, mesmo quando é só pra xingar a Reika. Mas sério, que confusão que ela e o Motoki causaram na história, né? Agora é resolver a confusão que quatro generais sem rumo arrumam, rs. Será que o Arthemis vai convencer a Luna? :( Continuem me dizendo o que vocês acham, adoro saber!
Ah e pra quem lia minha fic de Rayearth, Do Seu Jeito, ela foi retomada e hoje mais tarde ou amanhã tô postando mais um capítulo novo. :D
Até o próximo capítulo!
