Parte 7 – Um Vazio Crescente

Enquanto dava passos largos para se afastar o máximo possível daquele templo, Usagi começou a mancar um pouco. Tá, seu joelho arranhado não doía àquele ponto, mas não gostava da falta de compaixão por parte de seu marido. Olhou de rabo de olho para o homem logo atrás, mas ele continuava apenas seguindo em frente.

- Sinceramente, não é assim que uma cliente deve ser tratada – resmungou. Quem sabe não conseguia ao menos que ele concordasse?

- Não creio que um templo deva ter uma relação de clientela. Ademais, você mesma disse coisas meio estranhas pra aquela moça. Como foi que se conheceram, afinal?

Usagi fechou o punho com força, mas conteve o impulso de aplicar um soco para calá-lo. A pergunta que lhe fora dirigida lhe havia feito se lembrar de algo importante. Inclinando o queixo para cima, virou a cabeça para outro lado.

- Não estou falando com o senhor. Sei que também riu quando eu caí. Sinceramente, esperava um pouco mais do meu próprio marido.

Enquanto prosseguia com o sermão, sua mente estava naquele fato importante. De fato, Usagi já havia encontrado Rei Hino antes. Melhor, esta a havia procurado com um aviso sobre seu superior. Apesar de somente impressão inicial de que se tratava de uma louca haver lhe vindo à cabeça durante o reencontro, Rei também a chamara de Serenity na ocasião. O nome que aparecia em seus sonhos.

Droga, por que não se lembrara disso antes de caí em uma longa discussão com a moça do templo? Seria bastante difícil conversarem depois de ter lhe sugerido uma camisa de força na frente de tantas pessoas. Contudo, Mamoru estava bem do seu lado, Usagi era quem acabaria no hospício se começasse a repetir aquela história.

Aqueles sonhos não paravam. Pelo contrário, vinham piorando a cada vez, arrastando com eles uma solidão, uma dor no peito. Mesmo agora que Mamoru, o príncipe de suas visões, tratava-a com tanto carinho, era como se um vazio permanecesse dentro dela. Como podia estar com saudades de quem estava bem ali, seguindo-a como que para irritá-la?

- Usagi?

E bem quando pensava nele, percebeu que Mamoru a estava chamando.

- Que foi afinal? – Voltou a fingir a zanga. Bem, não era falsa; realmente havia ficado chateada com ele na hora.

- Acabei de dizer. – Ele agora a havia alcançado e passava o braço pelo dela, andando bem junto a seu corpo. – Vou te compensar por hoje.

- Compensar, é? Não creio que seja fácil. Sabe, foi uma decepção. – Não, não tinha sido. Foi apenas seu Mamoru agindo como sempre. Ela também riria, e muito mais alto que o marido fizera.

- Que tal irmos para casa e pormos uma bela roupa? Soube de um restaurante muito bom em Ginza.

- Comida, é? Não sou tão fácil assim.

Ao mesmo tempo em que o falava, sentiu a respiração de Mamoru soprar seus cabelos perto da orelha. Deixando-a ruborizada, ele sussurrou com a voz rouca:

- Eles são famosos pelos parfaits. – Como se percebesse o esforço que Usagi fazia para não reagir, acrescentou ainda: – Com direito a calda de chocolate belga.

- Está bem... Já que você insiste. Vou te fazer companhia. Você sozinho não daria ao parfait todo o apreço que ele merece. – Ela sorriu enfim. Era tão bom ser mimada de vez em quando...

Quando olhou para o marido, porém, percebeu que ele franzia a testa.

- Não vá dar pra trás agora, Mamoru.

Em resposta, ele balançou a cabeça. Mas continuava um pouco aéreo.

- Eu só tive uma sensação estranha. – Assim dizendo, olhou para trás.

- Que foi? Não que diga que alguém tá nos seguindo. Ai, será o pervertido daquela vez...?

- Que pervert- Ah, o gato? – Então passou a mão pelos cabelos. – Deixa pra lá. Foi só sensação mesmo.

- Mamoru, Mamoru...

Mas ele sorriu e disse antes que ela continuasse:

- Nem me venha falar das suas camisas de força, sua boba.


Escondendo-se no meio dos clientes de uma pequena loja, Jadeite amaldiçoou o alvo de sua perseguição. Ele havia percebido que o seguia? Quis conferir novamente se aquele homem ainda olhava para trás como se o procurando, mas hesitou por um momento.

O que diria se fosse confrontado? Não, ele não o faria, né? Não na frente da própria esposa. Ainda bem que, ao ouvir a confusão de Usagi com sua namorada, Jadeite não havia se exposto ao grupo. Aquele homem não tinha qualquer informação sobre sua identidade; diferente dele próprio que trabalhava com a esposa do dito-cujo.

Pensando assim, deu um passo para fora da lojinha e procurou o casal que vinha seguindo desde o templo. Os dois estavam bem mais distantes agora, ainda com os braços enlaçados. Agora, Usagi se inclinava sobre o marido e falava animada sobre alguma coisa.

A cena o fez se lembrar de quando conhecera Rei. No início, os dois também andavam assim, né? Bem, ao menos sua namorada, sim. Jadeite apenas se deixava levar, um pouco confuso com seu jeito tão direto. Todavia, algo havia mudado não apenas nele nos últimos meses. Ela própria vinha se afastando de alguma forma e sequer passava a noite em seu apartamento. Bastava escurecer para lhe inventar alguma desculpa e voltar para casa como se o namorado fosse algum lobo mau.

"Heh. Quem sabe eu seja..." Olhou para as próprias mãos com alguma atenção, vendo o que apenas ele poderia. Ou Rei também já conseguia enxergar? A mancha de sangue.

Após mais algum tempo perdido em pensamentos, decidiu correr atrás do casal antes que o perdesse de vista. Precisava descobrir mais sobre aquele homem.

- Não dê mais um passo, Jadeite!

A forma agressiva com que a voz lhe dirigia já seria o bastante para assustá-lo, mas o fato de estar vindo de um gato preto era aterrorizador. Jadeite olhou para os dois felinos que pularam à sua frente. Eles avançavam em sua direção, olhando-o fixamente.

- Não vamos deixar se aproximar nem mais um centímetro deles, General. – O gato branco ergueu uma das patas para mostrar suas garras.

Jadeite não tinha medo de gatos, mas aqueles dois causaram uma emoção forte nele que fazia seu estômago revirar. O que era aquilo? Sentiu as mãos geladas e o coração bater anomalamente. Antes que decidisse o que fazer, seu corpo já havia começado a correr para longe numa velocidade que nem sabia ter. Quando deu por si, estava tão longe que nem sabia ao certo onde exatamente.

- Eles não me seguiram, né? – perguntou-se, assustado demais para manter as palavras em pensamento. Precisava ouvir a própria voz, saber que ainda fazia parte do mundo.

Em seguida, levou a mão à barriga. O nervoso continuava a fazê-la se contrair. Seus braços pareciam arrepiados e as palmas suavam. Por quê?


Mais uma cerimônia de casamento daquele domingo estava terminando. Ami se posicionou logo atrás da senhora Aino e a acompanhou nas despedidas dos noivos com o alívio que sempre sentia quando eles deixavam a agência.

Minako sempre comentava que devia ser mais divertido se casar no Japão, em vez de seguir um monte de passos burocráticos chatos em que a cerimônia sequer fazia parte. Mas o trabalho da agência já era tão grande e tudo sempre dava tão errado que era bom a cerimônia não ser a celebração oficial do matrimônio. Não conseguia imaginar o quanto mais poderia dar de errado ali caso ainda tivessem que cumprir com formalidades de lei.

Ao perceber que todos os clientes já haviam ido, a senhora Aino se voltou para Ami e pediu que fosse cuidar das festas que ainda aconteciam ali. Despedindo-se da superior, ela se apressou para continuar o serviço. Faltava somente mais uma hora de salão para um deles, por isso, era melhor se direcionar àquele. Parando à porta apenas para endireitar suas roupas e inspirar um pouco, preparava-se para entrar quando alguém saiu pela passagem restrita a funcionários.

- Boa tarde. – Zoisite fez-lhe um cumprimento comedido e se afastou logo em seguida, carregando sua pasta de partituras.

Mais uma vez, o músico havia agido como se fossem desconhecidos. Não queria se importar; dizia-se que a frieza dos últimos dias não devia ser estranhada. Zoisite havia se declarado para ela, que o havia rejeitado. Ele ainda tentara insistir, continuavam até a se falar. Sem mencionar as flores, quase diárias por um período. O que mudara desde então?

Lembrou-se subitamente de Minako. Ela saberia a resposta? Mas Ami balançou a cabeça; não podia ficar falando disso. Não mentia quando o rejeitara. Havia algo errado em sua vida e, por isso, não poderia ficar com ninguém até entender o que seria.

Quando mais jovem, não questionava muito sobre a vida. Nem tinha tempo para isso entre a escola e o cursinho, além dos estudos por ela própria. Então, desde o final do ginasial, ela passou a contestar um pouco seu estilo de vida. Antes o tivesse feito radicalmente, mas foi apenas na faculdade, quando se amigara com Minako que tomara coragem de enfrentar a vida que sua mãe lhe planejara e sair para descobrir a dela própria.

Não, a culpa não era mesmo da companheira de quarto. Ela incentivara-a sempre, dera-lhe a coragem que lhe faltava. Ami queria muito seguir seus conselhos agora também e aceitar Zoisite, mas não estava pronta. E não podia decepcionar mais um, enquanto sua batalha interior em busca de si mesma prosseguia tão forte como quando decepcionara sua própria mãe.

Enquanto isso, sabia que o estava perdendo.

Continuará...

Notas da Autora:

E aí? Que tão achando? rs. Notas curtíssimas desta vez porque, nossa, eu tô exausta, mas enfim entreguei os artigos do mestrado (pro semestre passado, o prazo é doido assim e a gente tá sempre se seguindo por ele...), agora pensar no deste semestre? XDD (E esta pessoa que achava que a esta altura já estaria com a dissertação quase pronta.)

Mas deixem seus comentários! Eu pessoalmente morri de rir escrevendo a segunda cena com o Jadeite. Cara, ele deve ser o personagem mais torturáv-, digo, mais legal pra essas cenas. :xxx XDDDD Mas sim, esta parte já começa a caminhar pro clímax... O que será que vocês acharão, hein? Tô aqui curiosa!