Pondo a seu lado uma pasta cheia de papéis fora da ordem, Makoto passou a observar Usagi. Sua grande amiga naquela empresa, qualquer um diria, mas havia sido criado um abismo entre as duas. Ela mesma o provocara, claro.

Nunca se abrira sobre Motoki e nem podia culpar a insistência do próprio em fazer segredo. Makoto não quisera contar; não pudera mostrar aquela parte suja de sua vida. Agora, como contar sobre Masato, sobre por que o recusara?

Todavia, Usagi também lhe escondera bastante. E, nos últimos dias, não vinham se falando mais que o necessário. Precisava fazer algo. Decidira ajeitar sua vida desde aquele dia, não era?

Levantou a mesma pasta e a deixou cair mais uma vez sobre a mesa, causando um pequeno barulho. Quando percebeu a amiga dar um pequeno pulo e olhar incomodada em direção ao objeto causador do distúrbio, Makoto voltou todo o corpo para ela.

- Favor me dizer o que há de errado – demandou. Arrependeu-se um pouco do tom que usava, mas nunca fora uma menina de indiretas. – Não gosto de como tem me ignorado.

Usagi a observou por um instante. Então, voltou-se para a tela de seu computador e disse calmamente:

- E eu não gosto de ser usada. Sei que sou uma boba, mas eu esperava mais de uma amiga.

- De que está falando?

- Das mentiras do Motoki quando ele ia te encontrar. Quantas vezes vocês disseram à Reika que ele estaria comigo?

Passou a considerar qual resposta seria a mais apropriada: um choro, um grito raivoso, algo sarcástico, ou apenas fingir não entender. Insatisfeita com qualquer dessas opções, Makoto não respondeu. No lugar, anunciou:

- Eu terminei com Motoki. – E voltou a seu trabalho.

Aquele era o momento em que as duas amigas se reconciliavam aos choros, mas ela não conseguia derramar uma lágrima pelo romance frustrado. Por isso, teria que se aguentar sem a grande cena daquela no filme de sua vida.

Por sorte, Usagi era seu completo oposto e a abraçou com o rosto encharcado de lágrimas enquanto berrava. Ela não se importava com todos os olhares que atraíra; estava chorando abertamente.

- Hã, Usa? – Makoto ainda a tentou abraçar, mas não sabia como poderia consolar alguém que a estava consolando. Ou deveria estar. – Você ouviu que fui eu que terminei, né?

- Mas é tãaao triste! – proclamou, fungando sonoramente. – Desculpa não ter podido te ajudar! Que amiga sou... Ainda briguei contigo. – E fungou uma vez mais.

Sem se conter, Makoto passou a gargalhar por cima do choro derramado pela outra, ia-se embora toda a frustração sentida desde que tudo começara.


Os dois gatos estavam de volta a seu novo lugar de sempre, em frente ao apartamento dividido por Minako e Ami. Hoje não havia visita de nenhum general, estas não vinham mais ocorrendo. Mesmo assim, eles não estavam mais aliviados. Haverem encontrado aquele general perseguindo Usagi e Mamoru os preocupava imensamente.

- Luna... – Arthemis tentou, não pela primeira vez.

- Não. Já disse que não. Não posso...

- Mas precisamos do Cristal, Luna!

- Sabe que ele não existe mais. Quando todas ressuscitaram, aquele foi o último dos poderes do Cristal. Não consigo mais senti-lo.

- É a nossa esperança. Ele poderia nos revelar mais sobre esses generais.

- Pois não vou devolver à Usagi todas aquelas lembranças. Ela sempre desejou ser uma garota normal.

- Que pode acabar morta com esse bando de general atrás dela. – Arthemis avançou até bem perto, com o cenho peludo franzido como um gato podia.

A gata suspirou, mas ainda balançou a pequena cabeça.

- Não podemos... Ademais, nenhum deles parece se lembrar de nós.

- Podem estar fingindo. Todos apareceram do nada na mesma época.

- Quando as meninas foram trazidas de volta. Talvez, o Cristal tenha querido trazer os guardiões do príncipe Endymion junto com ele.

- Ou esse é mais um plano do Dark Kingdom. Os verdadeiros generais estão adormecidos e voltarão assim que estiverem fortes novamente.

- Não podemos, Arthemis...

- Não podem o quê?

Assim perguntando, Rei se aproximou de ambos os gatos e se curvou para vê-los de perto. Dois gatos com o sinal de lua crescente na testa. Os mesmos de suas visões, sem dúvidas. E falantes! Quem diria que entregar documentos na casa da tal Mizuno fosse lhe render aquela descoberta? Pensando bem, Ami Mizuno era a Sailor Mercury; deveria ter esperado achar mais por ali.

Os felinos a olhavam de volta tão inertes que pareciam ser de pelúcia. Para constatar que não o eram, Rei estendeu sua mão até o de pelo escuro. Era macio, familiar. Uma fêmea, tinha certeza mesmo sem entender nada de animais.

- Luna... – sussurrou enquanto o nome lhe vinha aos lábios.

Devia ser algum nome da vida passada daquele animal, como Serenity era para Usagi. A diferença era aquele se tratar de um gato que falava.

- Não quer falar comigo?

O branco se aproximou mais, como se cobrasse também uma reação da fêmea.

- E você é Arthemis, né? – Rei levou a mão livre também à cabeça deste.

- Ah. – A porta do apartamento se abriu para revelar a moça da agência de matrimônios. Ami acenou-lhe com a cabeça. – Então, já chegou. Por favor, entre.

Com um olhar de pesar para os gatos – eles iriam fugir, não era? – Rei cumpriu com o comando. Por que estava tão longe de encontrar a peça que faltava naquele quebra-cabeça? Sempre que começava a pensar que as visões não passavam de uma vida passada, fatos estranhos aconteciam. Ou teria apenas imaginado os gatos falantes e o olhar de gelo de seu namorado?


Fechando seu celular, Mamoru considerou desligar o aparelho logo, antes que a próxima mensagem o fizesse trair a confiança de Usagi mais uma vez.

Claro, adultério não estava entre suas atividades com Reika e, apesar de considerá-la atraente, ela sequer fazia seu tipo. Contudo, sua esposa fora bastante objetiva ao pedir que não mais se encontrassem – e o fizera com razão. Por isso, ele não adiara dar a notícia à mulher de Motoki e proibir a si mesmo de até trocar mensagens com a mesma. Sabia que se preocuparia, já o fazia antes mesmo de ouvir sobre a gravidez.

A tela externa do celular iluminou-se de cima da mesinha do quarto, ela devia ter mandado mais uma mensagem demandando que se encontrassem. Talvez devesse responder desta vez; sequer poderia vê-la, pois estava de partida para Quioto naquela noite. Não, respondeu-se com firmeza. Pediu que não se falassem ao menos por um tempo. Reika não possuía amigos mais próximos que Mamoru, mas também não era isolada do mundo. Ele não era insubstituível. Ademais, também era a decisão certa com relação a Motoki, se o amigo suspeitava da relação de ambos a ponto de contar para Usagi.

Irritado com o próprio aparelho, ele o desligou de vez. Usagi ainda não devia ter anotado o número fixo do apartamento, mas não devia precisar. Chegaria em cerca de meia hora; não o fazendo, bastava o próprio Mamoru ligar para a esposa. Do telefone convencional. Tentando se convencer de que estava mais tranquilo, voltou a arrumar a mala para a pequena viagem.

Estava ansioso por chegar logo e, desta vez, poder ter uma verdadeira lua de mel antecipada. Mesmo sem precisar, saíra às cinco em ponto de seu trabalho simplesmente porque não se concentrava mais nas tarefas. Precisava fazer tudo certo.

Visitariam seus pais no dia seguinte e almoçariam por lá – Mamoru sequer os avisara que iria na sexta-feira de forma a poder passar aquela noite a sós com a esposa. Após se despedir da casa dos pais, passeariam pela antiga capital e falariam do tempo que ela morara na região oeste. Sua faculdade também não devia ser muito longe, poderia até conhecer o campus onde ela estudara. Tendo os pais naquela região, já conhecia bem todos os pontos turísticos e não conseguia pensar em nada muito atraente por ali, mas não se importaria de rever a ilha de Awaji, ou o zoológico de Tennouji. Pegou-se sorrindo com todos aqueles planos de adolescente, era como se estivesse esboçando um encontro. Bem, não o deixaria de ser. O que não poderia permitir era perder o sorriso de Usagi novamente.

Ouviu um som vindo de fora do quarto do casal e percebeu-se sorrir novamente. Sem pensar muito, correu para dar as boas-vindas a Usagi – algo bastante raro; ela raramente chegava depois dele. Foi quando se deu conta de que o barulho não se tratava de uma porta abrindo, mas deslizando. Então, voltou-se para a sacada. Havia se certificado de fechá-la antes, mas agora se encontrava escancarada, deixando o vento do por do sol entrar no apartamento.

De cima de seu sofá, dois gatos o encaravam fixamente.

- O gato do outro dia? – murmurou confuso. Havia se convencido de que apenas o imaginara então, mas lá estava e agora acompanhado. Por que um gato se daria ao trabalho de chegar tão alto com tantos outros lugares para ir?

- Mamoru, p-preciso que nos escute... – O gato preto andou até o braço do sofá mais próximo dele e ali se sentou mais uma vez. – Precisamos de sua ajuda para... – Ele pareceu tomar fôlego e prosseguiu: - Para recuperar o Cristal de Prata.

Melhor dizendo, tratava-se de uma gata a se tirar pela voz. Mamoru não entendia de animais para assim confirmar; ademais, tinha medo de estar levando aquela alucinação a sério demais para sequer tentar fazê-lo. Ao se perceber assim, deu as costas para os visitantes e caminhou para s cozinha. Precisava de um copo de água.

- Espere! – A voz masculina saía do gato branco desta vez, quem tinha uma das patas levantada e apontada para Mamoru. – É muito importante que nos ouça.

- É pelo bem da Usagi, – a gata falava mais confiante agora. - Você entende, não é? Mesmo sem se lembrar de nada, vocês conseguiram se reencontrar. Sei há algum vestígio de lembrança, ou não creio que isso seria possível.

- Lembrança?

Mamoru se sentou na poltrona e ficou com o olhar fixo na mesinha à sua frente. Tendo sofrido amnésia quando criança, aquela era uma palavra sensível para ele.

- Vocês não se lembram, eu sei. – Abaixando a cabeça, a gata suspirou contrita. – Mas é exatamente para proteger a Usagi que pedimos sua ajuda.

- Proteger de quê? – perguntou ele, ignorando as pontadas na cabeça.

- Do passado. De tudo o que aconteceu.

- O que aconteceu... – Levou a mão até a nuca baixou o olhar para seus pés.

Aquilo era sobre seus sonhos? Sobre a princesa que gritava por ele, e que Mamoru não conseguia alcançar em meio ao nevoeiro que os separava? Fazia anos que via aquela cena e, nos últimos meses, vinha lhe aparecendo com cada vez mais frequência e clareza. A cena em que ele, Endymion, corria desesperado até a princesa Serenity.

Junto com essa nitidez maior, outras visões passaram a lhe aparecer. Uma mulher de longas unhas gargalhando, um choro cortante, lágrimas. Também a sensação de estar preso, de fazê-la chorar. Não Serenity, mas Usagi. Vinha culpando a situação por que o casal passara; contudo, essas visões tristes se associavam cada vez mais com os sonhos do príncipe desesperado e de sua princesa.

- Vão embora – disse ele decidido, levantando-se novamente. Desta vez, era melhor tomar algo com álcool e fingir que estivera bêbado antes mesmo do primeiro gole.

- Não podemos, Endymion. – O gato branco pulou até sua frente. – Isto é importante. Seus generais estão se reunindo em torno da princesa Serenity. Precisamos que nos ajude a obter o Cristal de Prata, que está com sua esposa. – Devendo notar que Mamoru não reagiria, o gato acrescentou – Nem que para isso precisemos acordá-la.

Continuará...


Notas da Autora:

Enfim, consegui soltar esta atualização há tempo! rs. E uau, a parte já vai ser concluída no próximo capítulo, acho. Só a parte 7, não a fic toda! XD Aguardo seus comentários!