A jovem se desculpava com um cliente curvando-se vários ângulos a mais do que se recomendaria em uma aula de etiqueta. Seu jeito franco e sua dedicação provavelmente já haviam compensado qualquer desconforto que seu pequeno erro causara. E era bem pequeno: uma xícara havia caído do lado da mesa desse cliente, ele nada mais que se assustara. Minako realmente não precisava se desculpar tanto.
Sem esconder o sorriso, Shin continuou a observá-la fazer a limpeza. Vinha sendo ignorado fazia já algum tempo. Devia ser por isso que não sentia mais qualquer pudor em simplesmente continuar seguindo seus movimentos dentro do restaurante. Muito vinha acontecendo, e rápido demais. Mesmo desejando poder conhecê-la melhor, não havia como.
- Desculpa o atraso – disse Jadeite, tomando o lugar à sua frente. – Estas semanas vêm sido um inferno. Desde aquilo de sábado, não consigo pensar direito. Não imagina a confusão que fiz hoje, e aí tive que refazer tudo e só terminei agora. Isto não está bom, nada bom.
- Já disse que se acalmasse. Encontraremos uma resposta para essa questão.
- Aquele homem, acha que era um de nós? Como o que você viu noutro dia?
- O marido de Usagi, né...? Ele não parece ser como nós.
- Então, por que senti aquilo? Você também! Agora eu entendo quando me falou sobre ele, sobre ele ser diferente.
- Bem, também acho que a Minako é diferente, mas não como nós dois.
- Minako? – Jadeite pareceu confuso por um momento, então seus olhos pousaram na garçonete. – Não vejo nada de estranho nessa menina. – E virou os olhos.
- Você também me disse que era loucura sobre o marido de Usagi e aquele homem.
- Bem, estamos em dois a um; eu retiro o que disse quanto ao tal de Mamoru. Tem algo errado com ele! Você pegou o cartão dele, não foi?
- Fiz questão.
- Marquemos algo!
- Também pensei nisso quando você me ligou no sábado.
- Por que esperou até sexta à noite, então?
- Eu queria conversar com alguém antes.
- A garçonete?
Shin balançou a cabeça lentamente.
- Bem, eu consegui que ela me ajudasse a localizá-lo. Ele deve estar chegando a qualquer momento.
- Está falando do homem do outro dia? Como assim o chamou? Era para conversarmos sobre o lance. Você sabe, sobre- bem, aquilo.
- Exato.
- Com aquele cara?
- Você verá, Jadeite. Aquele homem, Zoisite, é exatamente como nós dois.
- Zoisite?
- Um nome peculiar, não acha?
Após um momento silente, Jadeite assentiu. Uma parte sua queria rir da coincidência de como seus nomes soavam parecidos. Mas era aquela parte superficial que parecia ser esmagada a cada dia por outra em seu corpo.
Então, passou a olhar para a parte externa, aguardando o tal homem parecido com ele próprio.
Usagi abriu com pressa a porta do apartamento, com apenas uma parte de sua mente notando como já se acostumara com chamar aquele lugar de sua casa. A maior parte de sua concentração estava nas desculpas que teria que arranjar para Mamoru. Os dois não costumavam marcar muitas coisas juntos, já que saíam do mesmo lugar; então, ela não fazia ideia de como o marido reagia a atrasos. Principalmente um de mais de uma hora.
Tirou os sapatos, jogando-os para trás, e pisou na madeira da casa, sentindo a porta bater atrás de si. Ótimo, aquela sim era uma reclamação constante nos últimos tempos, ela precisava tomar mais cuidado com os barulhos que fazia. Usagi tomava, mas apenas depois que já os havia causado.
Lembrando-se novamente de que estava com pressa, correu para seu quarto removendo parte das roupas que usava. Tinha planos de tomar banho antes, – os poucos minutos da estação até ali foram capaz de derretê-la – mas não queria dar mais motivos para a ira de Mamoru.
- Desculpa o atraso! – gritou desde o quarto, pondo na mala tudo o que adiara pôr na noite anterior. – Acredita que errei o trem e nem sei onde fui parar? Justo hoje que consegui sair bem cedo da empresa... – Para checar um pouco a expressão do outro, pôs a cabeça para a sala e perguntou: – Quanto tempo temos até o trem? Não vamos perder, né?
Percebeu que Mamoru estava apenas sentado no sofá sem haver sequer ligado a televisão para onde parecia olhar. Seu marido voltou o rosto para ela e pareceu surpreso ao vê-la. Como não ouvira o furacão que acabara de causa? Estaria tão furioso assim?
- M-Mamoru? – cobrou ao não ouvir resposta.
- Ah. Desculpa. Bem-vinda de volta.
- Ah, é. Acabei de chegar! – exclamou em tom de melodia, só para esconder quão nervosa ele a estava deixando. Sua risada, contudo, deixou bem claro.
Alheio ao estado da esposa, ele se levantou como se estivesse pronto para a guerra. Agora que viria o sermão, né? Usagi engoliu em seco. Então, o homem sorriu; simplesmente lhe mostrou os dentes com os olhos brilhando fixos nos dela.
- O-o que... houve...? – Usagi perguntou com a voz lhe falando enquanto olhava para cima, tentando ler o rosto do marido.
Enquanto o outro se aproximava mais, ela só pode encolher o corpo. Então, sentiu-se abraçada. Mamoru a havia puxado para bem perto e a segurava com força.
- Que foi, Mamoru? – perguntou com a voz abafada pela blusa dele. – Aconteceu alguma coisa? Foi seu pai? – Mesmo sugerindo isso, sabia que era algo relacionada a ela própria; a forma como lhe tratava fazia parecer que ela sumiria a qualquer momento.
Após um tempo, ele levantou um pouco a cabeça e deixou os lábios bem perto de sua orelha.
- Vamos ficar assim um pouco mais, - pediu-lhe antes de deitar-se sobre seus ombros.
Era para ser algo agradável, simplesmente um abraço... Devia ser aquela forma estranha e intensa com que era enlaçada por seu corpo que a fazia se sentir tão triste. Não, estava se enganando dizendo isso. Sempre que Mamoru a tinha nos braços ou quando a deixava, Usagi sentia aquele aperto no coração. Estar com ele, pensar nele... Seria apenas amor? Não se enganava mais que não sentisse algo especial por ele. Mas seria apenas isso? Por isso, ele a segurava tão intensamente? Então, havia algo errado com amar.
- Vai ficar tudo bem, Usa.
Em vez de sentir o efeito daquelas palavras tranquilizadoras e de seu nome sussurrado tão carinhosamente – quando ele começara a chamá-la assim? – o que Usagi percebeu foi um gato preto os observando.
- O que é isso!? – perguntou, dando um pulo para trás e caindo sentada de mal jeito sobre a poltrona da sala. – É piada, né? Você me achou esse gato na rua e trouxe aqui só pra me assustar!
Mamoru observou o gato um pouco. Em seguida, caminhou até o felino e o pegou pelo peito, entregando-o à esposa. Assim que o recebeu, ela percebeu que o marido lhe sorria divertido.
- Seu susto veio de brinde, na verdade.
- O quer dizer com isso? – Com o gato em mãos, ela começou a inspecioná-lo. Era uma fêmea tal qual imaginava.
- Achei que seria legal termos um bicho de estimação.
- Na véspera de viajarmos?
Não é que não gostasse da ideia; de fato, seu coração estava batendo mais forte com o gesto. Era apenas estranho, principalmente adicionando-se a forma como ele se comportava até pouco antes.
- Eu a encontrei na rua, andando aqui perto.
- Não podemos deixá-la sozinha.
Mamoru olhou para baixo, mas logo sorriu.
- Já pedi pra um vizinho vir vê-la. Está tudo ajustado. A menos que ache muita responsabilidade... Afinal, mal estamos nos entendendo só os dois.
Olhando mais uma vez para a gata, Usagi balançou a cabeça. Como poderia discordar? Abraçou-a junto a si com toda a força e respondeu:
- Vou chamá-la de Luna! Com esse sinal de lua na testa, parece até a gatinha que eu via perto de casa todo dia, he he.
Ao dizer isso, sentiu-a pular em seu colo.
- Ela gostou, né? – E a apertou mais uma vez, sentindo a gata se agitar alegre em seus braços.
- Acho que gostou do nome, mas não diria o mesmo desses abraços.
- São abraços. Abraços são sempre bons! – Levantou meus olhos da gata, começando a perceber que ele não concordava. – Você não acha?
Mamoru lhe exibiu um sorriso leve e assentiu.
- Claro que gosto dos seus abraços. – Então curvou o rosto até ela e a beijou suavemente. – Mas os gatos, não. – E tirou Luna de seus braços, puxando mais uma vez o corpo de Usagi para si a fim de continuar o beijo.
Não podia dizer que não gostava daquilo; seu estômago parecia até um vulcão em erupção de tão emocionada. Mas a atitude de Mamoru era suspeita. Ele saberia? Que havia algo muito errado entre eles?
Não era normal sentir uma tristeza tão maior que a da época em que não eram tão próximos. Quanto mais perto o sentia, mais precisava se aproximar. E ela não compreendia aquele sentimento, não sabia o que fazer com ele. Não querendo mais pensar em seus sonhos, Usagi apenas o beijou de volta. Tinha sorte de não ter muito poder de concentração, além de possuir um marido tão atraente para lhe roubar o ar e lhe fazer esquecer temporariamente daquilo tudo.
Mas até quando?
Continuará...
[Fim da Parte 7]
Notas da Autora:
Desculpa pelo atraso... Meu orientador me deu uma tradução gigante pra fazer que ficou ainda mais gigante depois que fui de fato fazer tudo T_T Ainda nem terminei e já tô com o corpo tooodo dolorido. Mas um dia lerei estas notas e rirei de como a vida era fácil, né? (E eu nem vou pra este congresso...) Enfim, Shin e Jadeite planejando algo com Zoisite? E o que Mamoru está pensando em saber depois do que ouviu dos gatos? Ao menos a Luna não tá mais abandonada na rua, né? Ela já estava virando uma delinquente, espiando casais desavisados, rs.
Muitos agradecimentos, como sempre, ao pessoal que tem deixado review, Mari Rodrigues, MViana, BunnyRita, Acdy-chan, adoro ler suas opiniões, espero que continuem lendo. Quem ainda não comentou, faça! Estou esperando para saber o que acham da história.
E até o próximo capítulo, que abre já a antepenúltima parte da fic!
