Parte 8 – Proteção

O fogo queimava contra seu rosto e tornava o ar difícil de respirar, mas Rei insistiu em suas preces para que pudesse ver mais. Ao menos, um pouco mais.

Em pensar que por anos mal passara pela sala não fosse para limpá-la. Agora, não saía de lá na esperança de que o fogo lhe revelasse o que faltava naquele quebra-cabeça desmontado de sua memória. Mesmo as peças que ela já possuía não se ajeitavam direito. Sabia que já as estava espremendo umas contra as outras; a imagem que formava nunca faria qualquer sentido porque aquele não era o encaixe perfeito.

Olhou insistente para dentro do fogo, ignorando a ardência de seus olhos ressecados. Lá estavam aqueles personagens de que ela própria fazia parte. Algumas vezes, via imagens que sequer pareciam haver acontecido naquele planeta e sim na Lua. Literalmente, na Lua. Mas, desta vez, como em outras, era-lhe mostrado o mais estranho: ela própria.

A Rei de dentro do fogo que não vivia fora da Terra, mas que usava o mesmo uniforme escolar que ela mesma já usara e brigava com seu avô, com Yuuichirou, quem ela não via desde que ele decidira deixar o templo anos atrás. Só que também brigava com Usagi Tsukino, uma pessoa que Rei nunca havia visto antes daquele dia na empresa a não ser por fotos de seu namorado. E estava cercada de pessoas que a faziam se sentir nostálgica ainda que nem as conhecesse de verdade: Ami Mizuno, Makoto Kino, Minako Aino. A menina da agência de matrimônios, a moça que trabalhava com Jadeite e a garçonete. Desconhecidas e, ao mesmo tempo, amigas queridas dentro de sua vida alternativa no fogo.

O que era aquilo? Por que lhe doía tanto? Por que era isso que o fogo sagrado lhe mostrava no lugar de lhe ensinar mais sobre os seres que as atacavam e sobre o papel de Jadeite naquilo?

Com as mãos trêmulas, Rei correu até seu quarto e abriu um baú com os objetos de seu passado. As coisas de sua mãe falecida, algumas anotações do colégio, fotos com amigas. Nada. Nenhum indício daquela visão. Nem mesmo o tal comunicador que aparecia no fogo estava ali. Ou a caneta mágica que a tornava igual à imagem passada no reino da Lua.

Pegou as fotos já espalhadas pelo chão e as pôs coladas contra seu nariz. Queria qualquer indício de que ela e aquelas meninas possuíram uma vida em comum... mas não achava nada.

Por que havia duas vidas? Por que a que vivia naquele instante parecia a mais irreal? Por que aqueles sonhos e visões vieram sacudir tudo?

Tudo havia começado com Jadeite, não era? Deixou-se sentar sobre as pernas no chão do quarto e ponderou sobre a hipótese. O sonho mais antigo de que se lembrava não havia sido o primeiro. Pensando melhor, ela já vinha tendo visões parecidas; apenas as esquecia assim que abria os olhos. Isso até a noite em que acordara nos braços de quem havia supostamente tentado matá-la um dia.

Mas Jadeite... Ela o amava e não havia duvidado que fosse retribuída até então.

E se estivesse vendo da forma errada? Todas as vezes que indagava ao fogo, não era o caos que via. Eram lembranças: umas tristes, outras felizes. Mas apenas lembranças. Nenhuma premonição, nenhum futuro sombrio. Seu mundo continuava o mesmo, seu namorado ainda lhe seguia qualquer pedido e até a deixava em paz, enquanto Rei seguia a busca louca por um sentido para seus sonhos. Podia não ser um presságio e sim um pedido de seu corpo que se lembrasse daqueles dias tão importantes.

A grande pergunta era: se as visões não fossem nada além de uma visão do passado, por que ela havia se esquecido de tudo? Por que todos também se esqueceram? Por que ela não reconhecia essas pessoas que lhe pareciam tão importantes?

- Rei?

Ergueu a cabeça de suas mãos tensas, apertando cada articulação uma da outra. Jadeite entrava timidamente em seu quarto.

- Nossa, você está toda suada. – Ele riu, oferecendo o braço como apoio.

- Aconteceu alguma coisa?

- É que é sábado... E a gente não tem passado muito tempo juntos. Eu tinha ligado antes e seu avô em disse que você estava ocupada com o fogo sagrado aí decidi vir pessoalmente, esperando que já tivesse acabado, ou que pudesse fazer uma pausa para o almoço. – E olhou ao redor do quarto, como se demonstrando que estava certo. – Dei sorte, né?

- Ah... Sim. – Rei ainda se mantinha sentada,e agora suas mãos seguravam o tecido do uniforme de sacerdotisa.

- Algum problema, Rei? – Ele se ajoelhou à sua frente e fez menção de lhe segurar os ombros, mas parou suas mãos a milímetros do quimono branco.

Ela observou o rosto ficar cada vez mais próximo. Era seu Jadeite. Aquele que a amava e se embolava um pouco com as palavras. Ele sequer conseguia pronunciar seu nome direito quando a conhecera e praticara seguidamente até ser a palavra que dizia mais claramente.

- Talvez – respondeu-lhe honestamente. Pois era como se ainda conseguisse ver os olhos congelados daquele homem de suas visões.

- Algo com o templo? Desde antes de te conhecer que você não liga muito para a parte espiritual daqui, né?

- Não, Jadeite. O problema tem mais a ver com você.

Como aquela surpresa em seus olhos – não congelados – poderia ser fingida? Rei inspirou fundo. Havia um limite para o que podia pedir aos deuses. Por isso, tinha que prosseguir. Ou não conseguiria nada.

- Preciso que seja sincero comigo – pediu a ele com firmeza. – Preciso que me diga o que sabe sobre o Milênio de Prata, sobre a Princesa Serenity e sobre o Dark Kingdom.

- Como? – Sentiu o corpo do outro se retesar um pouco, mas seu olhar lhe mostrou confusão.

- Jadeite, quero que me diga sobre os generais e o que você lembra sobre seu passado. Eu preciso saber.

- Meu p-passado? Não sei do que está falando, Rei. – Levando a mão à cabeça, passou a balançar esta lentamente.

- Por que tentou me matar? Por que nem eu, nem ninguém se lembra de nada? Você tem que saber de alguma coisa.

- E-eu...

Decepção. Ela o conhecia, sabia ler seu olhar e este lhe respondia que Jadeite sabia sim de algo. Por mais sinais que lhe enviasse que não fazia ideia do que lhe era pedido, de algo ele parecia saber.

- Jadeite!

- Eu não sei!

- É claro que sabe, não minta. – Rei continuou a impulsionar o corpo contra ele, não se importando de que o homem estivesse já deitado no chão como uma presa de morte iminente. – Diga tudo o que puder.

- Eu não sei – repetiu-lhe sem a encarar, contudo.

Aquela postura beirava à covardia. Contrariada com tal reação do namorado, em quem ela tanto queria voltar a confiar, Rei preparou-se para lhe dar um tapa e ultimou:

- Diga logo o que sabe sobre tudo!

Com o impacto, o rosto de Jadeite virou para um lado com a palma da mão e, quando retornou, o olhar que lhe era lançado parecia vir de outro. Daquele outro Jadeite.


Com uma espreguiçada, Usagi esticou os pés um por vez e olhou para o marido. Eles vinham andando fazia uma hora por toda Shinsaibashi. Havia sido legal quando tiraram as primeiras fotos e ele lhe comprara alguns mimos nas lojas que passaram por aquela rua comercial, mas agora ela só estava cansada.

- Vamos comer... – pediu, sabendo que fazia a voz de uma criança mimada.

Todavia, Mamoru não lhe respondeu.

- Qual é? Já cansei de andar aqui, vamos parar um pouco! – Usagi correu para alcançar o marido e agarrou seu braço com violência.

Como se ele não houvesse ouvido uma palavra antes, Mamoru voltou-se assustado para ela.

- Comer...

- está com fome? – Ele levantou o braço livre e olhou para o relógio. – Ah, já é mais de uma. Nem percebi o tempo passar.

- Ai, fala sério. Vamos logo! – Usagi começou a puxá-lo até a saída da rua comercial.

- Você não devia estar de dieta?

- Eles já vão ajustar o vestido, não tem problema. E estamos viajando, não existe dieta no meio de uma viagem.

- Do jeito que vem me puxado pra lá e pra cá desde que pisamos na estação de Quioto, isto está mais para sua casa do que ponto turístico. E eles não podem prever quantas toneladas você pode engordar na hora de ajustar o vestido do casamento.

- Deixa de ser um chato.

- Afinal, para onde estamos indo?

Usagi pôde sentir a saliva chegar aos beiços.

- Um rodízio de carne! É ali perto da Loft.

- Carne? À vontade? Ai! – Mamoru reclamou quando ela parou bruscamente.

Toda a fome havia desaparecido com o tom usado pelo outro. Mamoru não estava sendo malvado como de costume...

- Ai, e se eu não couber naquele vestido lindo!? – O desespero fez sua boca secar enquanto ela o olhava esperando qualquer alívio.

- Eles podem dar um jeito se você não continuar engordando.

- Esse seu sorriso de príncipe encantado de vida cor de rosa que não sabe o que é andar com cuidado pra calça não rasgar me deixa irada!

- Como?

- Tá certo, vamos comer algo menos pesado... Conheço um lugar bem em frente ao prédio do outro restaurante. Mas você vai ter que compensar a economia que vai fazer, hein?

Em resposta, Mamoru apenas lhe sorriu afetuosamente e continuou a se deixar guiar, enquanto Usagi descansava um pouco a cabeça em seu braço. No estado de sonhos que o relacionamento dos dois se encontrava, aquela viagem tinha tudo para ser perfeita; um contraste completo com a última vez.