Era já meio da tarde quando o casal retornou a Quioto, descendo na última estação da linha de trem. Bastou subirem até a superfície para Usagi começar a saltitar pelo caminho. O coração de Mamoru se sentia dividido ao observar essa cena. Não sabia o que fazer desde a conversa que tivera com o casal de gatos, apenas que precisava proteger aquela felicidade a todo custo.
- I'm so very sorry! – ouviu a esposa gritar afetada após esbarrar em uma pessoa que aparentava ser estrangeira. Em seguida, ela se voltou para Mamoru e deu um sorriso de satisfação.
- Por que toda a euforia? E como sabia que ele fala inglês?
- Ué, todo estrangeiro fala inglês! E não é lindo andar por Quioto e ver gente de todo o mundo?
Ele não conteve o riso:
- Nem parece que você mora em Tóquio. E sua faculdade também não tinha bastantes estrangeiros?
- É, mas aqui é diferente! É como se estivesse fora do Japão, num daqueles lugares turísticos tipo a Estátua da Liberdade.
- Você diz isso de uma cidade histórica? Você está quase literalmente cercada de templos japoneses.
- E por um montão de gringos.
E virou a cabeça rapidamente na direção de um casal passando. Um deles era um estrangeiro estereotipicamente alto que segurava um mapa e conversava em inglês com a mulher, esta aparentemente uma japonesa. Após uma risada pouco discreta, Usagi disse entre um suspiro:
- Adoro este ar de Quioto!
Entretanto, Mamoru não ouviu o restante das admirações da esposa. Aquele tópico fizera sua mente retornar aos gatos e a seu pedido a eles. Também àquele homem que encontrara no templo Hikawa. Ele era um estrangeiro, provavelmente. A forma como o havia olhado e a reverência com que o tratara, contudo, eram familiares, quase cotidianas. Não parecia haver o menor traço do sotaque que depois havia se revelado.
Era mais uma das sensações estranhas que vinham preenchendo seus dias. Como quando ouvira Usagi chamar por Endymion, ou quando conhecera o homem que dizia trabalhar para sua esposa. Ao menos, este ele já entendera por quê. Luna lhe revelara haver um general naquela empresa e que Mamoru já fora bem próximo dessas pessoas quando era Endymion.
Ainda assim, tudo parecia fantástico demais. Eles eram reencarnações de seres mágicos – quase mitológicos – e lutaram contra uma entidade maligna até a morte. Como em um milagre, porém, haviam sido trazidos de volta e passaram a ter uma vida normal tal qual a rainha do Milênio de Prata desejara desde o início.
Mas o que era normal naquele vazio? Naquele desespero por entender seus sonhos, o que se passava na cabeça de Usagi, o que era aquele estrangeiro? Ademais, por que os generais do tal Dark Kingdom também haviam sido trazidos de volta?
Mamoru havia implorado a Luna que nunca fizesse Usagi se recordar, que, em troca, devolvesse as memórias a ele próprio para que pudesse proteger sua amada. De nada adiantara; a gata não podia controlá-lo, um ser da Terra. Então, como cumpriria sua promessa sem saber? Fechou com força seus punhos e jurou mais uma vez que não importava o que não sabia, desde que Usagi não precisasse se lembrar.
E o vazio? Sentiria ela o mesmo? E se fosse o que ela realmente desejava, suas lembranças de volta? Mamoru sabia não ter o direito de privá-la disso, mas quem iria querer se lembrar da morte de tantos amigos, se tudo havia ocorrido como lhe fora narrado? As lágrimas que já a vira derramar mais de uma vez durante sonhos eram prova de o quanto a dor ainda persistia de tão profunda.
Sim, era o melhor. Usagi nunca deveria ter que passar por aquela dor. Ele precisava proteger aquela vida.
"Mas precisamos do Cristal, Mamoru," arguira-lhe o gato branco, Arthemis.
Era apenas para se defenderem dos tais generais caso decidissem atacar, certo? Bastava que não o decidissem. Ou que ele os impedisse caso fosse o que planejavam. E aquele estrangeiro sabia de algo. Luna o alertara a não procurar quem trabalhava com Usagi, mas nada havia comentado sobre o homem do templo.
- Mamo?
- Hm? – E mais uma vez, ele notou haver se desligado por completo de seu passeio com a esposa a ponto de nem ouvir o que ela lhe falava.
- Dá pra prestar atenção em mim ao menos? – Usagi pisou fundo na rua e parou por um momento. Suas bochechas pareciam pegar fogo assim como o olhar que lhe voltava.
- Err... Eu só me assustei com a forma como me chamou. Só isso, nada mais. – Não era de todo mentira.
- Quê?
- Você não costuma me chamar de Mamoru?
Com o rubor do rosto começando a enfraquecer, ela quedou-se pensativa.
- Costumo?
- Não que eu me importe. Digo, não me importo de jeito nenhum. – Sabia que agora era o rosto dele que ficava vermelho. Que espécie de assunto era aquele? – É só que eu me assustei.
Ela sorriu e voltou a andar apoiando-se em seu braço.
Mamoru suspirou discretamente. Realmente, aquela viagem era para ter sido sua melhor chance de provar como eles estavam bem, de fazer ótimas lembranças. Por isso, fizeram apenas uma visita breve a seu pai pela manhã e ficaram passeando pela parte jovem de Osaka. Estava óbvio que sua intenção ali não era de demonstrar amor filial e justamente o oposto: aproveitar a breve lua de mel e ir ver o pai. Mas sua cabeça não estava bem para qualquer que fosse o principal propósito.
Com o braço que estava enlaçado, puxou-a para um pouco mais perto do corpo. Precisava se vigiar agora que tinha uma noção melhor de quão frágil era aquela felicidade.
- Ah, o café é ali, né? – Ela apontou, soltando-o ao mesmo tempo para sua frustração. Então, passou a andar apressada até o lugar, não parecendo consciente de como ele sentia falta de seu peso e seu calor sobre o braço.
Em um momento, seu rosto estava sendo forçado para um lado pela mão pesada de Rei, no outro, Jadeite viu-se como se acordado à força de um longo sonho.
O turbilhão de lembranças e sentimentos que invadiu sua cabeça deixou-o imobilizado por um instante. Tão logo recuperou o controle de seu corpo, sentiu-se entrar em estado de emergência. Mesmo se arrependendo tão logo o fizera, afastou a namorada de si com urgência tal que o corpo dela bateu sonoramente contra a parede. Mas não havia tempo para desculpas, pois não havia desculpas que o perdoasse. Apressado, correu para fora do quarto e correu pelo templo e correu pelas escadas e correu pelas ruas. Precisava continuar correndo para o mais longe possível.
E agora? Procurava Kunzite? Por tanto tempo, nenhum dos dois entendia de onde vinha e formularam as mais absurdas teorias juntos. Agora estava tudo na cabeça de Jadeite, todo o passado, tudo o que haviam feito. Tudo. Em demasia.
Era tanto de que havia se lembrado que agora não se sentia mais na sua vizinhança, quando os arredores do templo de Rei sempre lhes foram mais familiares que seu próprio apartamento. Não mais. Aquele mundo todo não era mais o mesmo em que nascera e fora criado, quando ainda era um dos que serviam o príncipe Endymion.
Aquele homem... Era ele, certo? Era seu senhor; Jadeite tinha certeza disso agora. Mas ele não parecia se lembrar de nada, assim como todos os demais: Kunzite, Rei. Todos haviam perdido as lembranças por alguma razão. Para o próprio, era fácil imaginar qual: Beryl o havia matado. Após não ter mais uso para o general que vinha controlando, ela apenas o matara e passara para o próximo. Nephrite. E se o mesmo houvesse ocorrido a todos?
O que fosse que houvesse acontecido, era inegável que seu senhor parecia feliz com aquela moça, Usagi. Sim, a menina que trabalhava no departamento de Kunzite. Provavelmente, Sailor Moon, se bem se recordava. Seria ela também a reencarnação da princesa Serenity? Definitivamente, parecia sê-lo no físico. Sendo assim, era incontestável que seu senhor estivesse feliz naquela vida. Seria um crime procurar por sua ajuda. Não podia sequer vê-lo mais; bastara um contato com ele para Jadeite lembrar seu nome como reflexo, um contato prolongado poderia despertar as memórias perdidas de seu príncipe.
Cada vez mais submerso em todos aqueles pensamentos, Jadeite só percebeu haver-se chocado contra alguém quando se notou caído no chão. A mão de uma mulher se estendeu à sua frente e ele a aceitou até ver a quem pertencia, quando quase perdeu o equilíbrio mais uma vez.
- J-Jupiter? – Olhou mais uma vez para a moça e percebeu que a havia confundido. Aquela era apenas mais uma das que trabalhavam em sua empresa. Makoto Kino. – Ah, sinto muito – disse apressado até perceber que ela estava acompanhada e desta vez não havia qualquer engano. – Nephrite! – exclamou, não sentindo mais o chão sob seus pés.
- Jadeite, é você, né? O amigo do Shin. – Makoto havia se adiantado e entrado no caminho entre ele e o outro general que a acompanhava. – Você está bem? Parece um pouco pálido. – Ela pausou por um momento, fazendo uma careta discreta. – Sabe quem eu sou, certo? Makoto Kino? A gente se falou algumas vezes na empresa.
Antes que a jovem prosseguisse, no entanto, Nephrite se adiantou e entregou um cartão de apresentação, dizendo:
- Por que não vamos tomar um café? Makoto vem me dizendo muito bem de um restaurante perto de seu trabalho.
Desesperado por entender a pessoa chamada Masato Sanjouin, ao menos pelo que constava de seu cartão, Jadeite acabou por aceitar. Não havia por que seguir com cautela. Não quando ele podia sentir a energia que Masato emanava. A energia tão familiar que somente poderia vir de Nephrite.
Arthemis miou enquanto observava a porta do apartamento de Minako. Naquele dia, ela havia sido chamada para substituir alguém no trabalho, por isso, não estava. Agora que sempre podia vê-la, sempre se sentia nervoso quando sua antiga dona não estava ao alcance de seus ouvidos.
- Não deveríamos ter confiado nele – repetiu a Luna o que vinha dizendo desde a noite anterior.
- Eu também não gosto da ideia de forçar que o Cristal apareça, Arthemis. Seria muito improvável que Usagi não lembrasse assim que estivesse em contato com ele.
- E eu acho é irresponsável deixarmos os generais soltos por aí.
- Eles não costumavam ser maus, não é? Quem sabe não foi por isso que o Cristal os trouxe de volta?
- Nunca ficou muito claro o controle que Metallia ou Beryl possuíam sobre os quatro. Ademais, digamos que eles estejam mesmo sem qualquer memória como parece. Como garantir que não descobrirão seus poderes e os usarão para o mal?
- Isso vale para as meninas.
- Eu confio nelas, é bem diferente.
- E sua opinião mudou o mundo.
- E a sua é a mais imparcial já pronunciada.
- Não temos motivos para fazer Usagi passar por tudo aquilo de novo, Arthemis.
- Eu quero entender, mas acho que temos sim.
- Acreditemos no Mamoru. Ele sempre fez o melhor pela nossa Usagi.
Com novo miado, Arthemis acabou por aceder uma vez mais. Ele entendia o que era não querer sacrificar quem amava, ainda que significasse contrariar toda a precaução. Mas e se aquela omissão dos gatos causasse dor a quem amavam mesmo assim?
- Vou checar a Minako – disse, descendo do muro. Quando percebeu, Luna já o acompanhava. Ao menos, ela também entendia aquele perigo.
- A questão é o quanto você lembra, meu caro Jadeite. – Masato Sanjouin mal havia se sentado à mesa do café restaurante próximo da empresa quando assim disse com um meio sorriso. Cruzando as longas pernas, examinou o cardápio à sua frente e não pareceu ansioso por uma resposta.
- Basta apertar o botão à mesa quando estiverem prontos para o pedido – disse a garçonete nitidamente nervosa com o comportamento de Masato.
- Por que não me traz um chá apenas? – pediu ele com uma piscada antes que ela pudesse escapar da mesa.
- Ah, sim, senhor. – E olhou para Jadeite e Makoto, enquanto rabiscava o bloco.
- Hã... – Makoto olhou incerta para o acompanhante. – Um café gelado, por favor.
Ao se sentir pressionado a também escolher algo, Jadeite apenas resmungou que gostaria do mesmo. Então, voltou a encarar Nephrite, quem seguia examinando os itens no cardápio em suas mãos.
- O que quer dizer com o quanto lembrou? – tentou perguntar, incapaz de evitar um rápido olhar para a moça à mesa.
- Sobre o Dark Kingdom, sobre Metallia, sobre o príncipe Endymion.
- Do que está falando, Masato? – perguntou Makoto timidamente.
- Ah, sim. Ainda não me apresentei adequadamente. Prefiro ser chamado de Nephrite, mas Jadeite aqui já deve saber disso.
Sentindo um frio lhe percorrer a espinha, Jadeite quis perguntar por que ele estava agindo dessa forma, mas sua garganta estava seca demais pela adrenalina. Contudo, havia sido tal qual se Nephrite o houvesse ouvido, pois assim falou:
- Não se preocupe com ela, Makoto está tão envolvida nisto quanto você e aquela menininha loira do outro lado. – E apontou discretamente para uma garçonete. – Claro que nenhuma delas parece se recordar de nada.
A sensação de estar em um sonho, em um mundo paralelo ou qualquer coisa assim somente parecia aumentar, enquanto Jadeite assistia Makoto olhar irritada para o outro.
- Por que você sabe disso tudo? – tentou perguntar.
- Tal como você, eu também acabei lembrando. Sempre acreditei fosse devido a meu contato prolongado com o príncipe Endymion.
- C-com o s-s-senhor Endymion?
- Foi bastante interessante como justo eu entre nós quatro fui parar perto dele, não acha? Mesmo sem recordar de nada, ele deve ter querido ficar de olho em mim. – E riu. – É uma vida alternativa interessante; mentiria se dissesse que não sou grato.
- E-espera, Masato. – Makoto enfim parecia haver recuperado a voz. – O que está falando, afinal? Jadeite? Por que é como se vocês se conhecessem?
Jadeite não achava que poderia ser mais surpreendido naquele dia até Nephrite irromper em uma gargalhada que fez todos os pelos de seus braços se arrepiarem.
- É só uma piada, Makoto. – De volta a falar como Masato Sanjouin, ele se ajeitou no assento e continuou: – Não se preocupe, não se preocupe.
- Piada? – Ela ainda parecia incerta, mas não tinha escolha. De fato, menos que a própria Rei, Makoto não parecia se lembrar de nada.
Ela era mesmo Jupiter? Antes de Beryl matar Jadeite, ele havia descoberto as identidades de Mercury, Moon e Mars. Ainda que não conseguisse se lembrar de seus nomes com exatidão havendo já se passado tanto tempo, tinha certeza de que Rei era Mars e de que a menina de sua empresa, Usagi, era Sailor Moon. Entretanto, ele sequer conhecera Sailor Jupiter naquela encarnação.
E por que Nephrite nunca pensara em contá-los? Sobre trabalhar com o príncipe, sobre suas lembranças perdidas, sobre já até saber quem eram as Sailors daquela época. Deveria mesmo confiar naquele sujeito? Não importava quanta história dividiam no passado, não sabia o que esperar dele.
Notas da Autora:
Descuuuuulpas por ter demorado tanto! Nossa, não imaginava que eu fosse demorar isto tudo. Ainda bem que este capítulo tá mais longo pra compensar. Mas nem é tão longo assim a ponto de compensar direito, né? Vou confessar que... eu esqueci que não tinha postado -_- Eu pensei em fazê-lo um dias desses e pelo jeito não o fiz. Simplesmente isso :o
Acho que é o frio me deixando mole... Desculpas mesmo! Sempre que acharem que estou demorando muito, mandem sinal de fumaça pra mim, que pode ser de eu ter realmente esquecido. É isso. Mil agradecimentos a quem ainda está acompanhando. Tá no fim, tá fim! Falta pouquíssimo agora!
