Com as mãos suando, Usagi olhou da carta para Mamoru e então para a parede atrás da senhora Chiba. Não podia encará-la. Não depois de haver mandado aquilo. Aliás, onde ela enfiava a cara agora? Precisava sumir, fazer puf e aparecer de volta à sua vida pré-casamento.

Sim. A carta. Gente, quando ela a havia escrito mesmo? Sequer se lembrava de sua existência com tanta coisa que a havia sucedido naquela época. Mas era a mesma carta que enviara cheia de pesares ao casal Chiba, pedindo desculpas por não querer se casar com... com exatamente a pessoa que agora era seu marido.

Céus, ela estava com a carta. Estava indo tudo tão bem... A noite no hotel havia sido maravilhosa. O pai de Mamoru parecia quase novo quando o visitaram já em casa pela manhã. Ela também ganhara coisinhas lindas só experimentando a técnica que havia visto na televisão para namorados –apontar e dizer que quer, fazer beicinho ao mínimo sinal de hesitação. Agora, estavam naquele lugar, tomando um chá maravilhoso, típico de Quioto, quando a senhora Chiba lhe joga aquela bomba. Poxa, como a conversa havia ido de "por que vocês não ficam lá em casa?" para "olha o que sua esposinha andou aprontando"?

Era por isso! Era por isso que Mamoru vinha se comportando estranho desde a noite anterior! Como a senhora Chiba havia podido ir pelas suas costas e a entregar assim? As duas haviam se tornado tão amiguinhas...

- Uma carta? – foi o melhor que Usagi conseguiu dizer em resposta.

Sim, negaria até o final haver escrito aquilo. Devia ser de uma ex-namorada de Mamoru querendo terminar com o casamento perfeito que eles haviam construído. Por que mais uma carta enviada meses antes só apareceria agora? Não que ela pudesse dizer que sabia quando ela havia sido postada... Como argumentá-lo? Dava para ver o carimbo do Correio?

- Eu a encontrei noutro dia, procurando uns documentos do pai do Mamoru. Com a festa tão perto, achei que seria uma boa lembrança para os dois. – A senhora Chiba sorriu tão amigável como sempre, mas tudo o que Usagi podia ver era a dentição afiada que parecia estar no lugar da abertura do envelope.

Ela já a havia aberto. Bem, claro, uma carta da nora endereçada a ela e a seu marido, por que não? Mas não podia passá-la pelo triturador, ou algo assim? E pera, ela acabou mesmo de dizer que já estava com aquilo fazia tempo?

Mas não havia tempo para pensar, pois pelo canto dos olhos pôde ver a mão de Mamoru mirando o papel sobre a mesa. Rapidamente, Usagi puxou o envelope para si e o abraçou.

- Nossa! Mas o que é isso! – E riu nervosamente.

- Não se lembra, Usagi? – A senhora Chiba seguia a exalar a aura meiga de sempre que simplesmente a fazia querer pular e abraçá-la.

- Mas nem sei o que é... – Decidiu que se ela fosse uma boa mulher como demonstrava, iria seguir com seu teatro de que a carta não existia. Piscou para a mais velha para se assegurar de que ela entendia seu pedido.

E sua sogra apenas devolveu um sorriso. Não era de sorrisos que Usagi precisava! E a cumplicidade entre noras e sogras?

Foi quando percebeu que havia sons de gargalhada vindo de seu lado, onde Mamoru estava sentado. Quê? Ele estava rindo?

- Qual a graça? – perguntou, não achando que qualquer coisa ali poderia ser divertida. Não, sua vida estava perfeita demais para ser estragada por uma bobeirinha do passado.

- Eu já sei da carta.

- Quê?! – Então era verdade? Por isso ele vinha agindo distante? Usagi quedou-se com os lábios levemente abertos e trêmulos. Ao mesmo tempo, apertou o objeto com ainda mais força contra o peito.

- Digo, minha mãe me falou dela só na semana passada.

- Achei bem óbvio que você havia mudado de ideia antes mesmo de eu recebê-la – explicou a senhora Chiba para Usagi.

- E por isso você vem me tratando assim? – Usagi perguntou, enfim encarando o marido.

- Assim como?

- Você sabe – disse entre dentes. – Mas, pera... Semana passada?

Mamoru assentiu.

- E demorou isso tudo para ficar chateado comigo?

- Não estou chateado. – Ele ergueu as sobrancelhas.

- Está sim. Totalmente está! Você viu a cara que você veio fazendo o dia todo? E quando fomos no café depois do almoço? Você foi muito contra e ainda me chamou de gorda!

- Não, eu só disse que trocar um rodízio de carne por uma tigela de arroz e carne não ia te ajudar a caber no vestido. E repeti isso quando você pediu aquele frappé de morango e sei lá mais o quê, ainda pondo baunilha com chantilly por cima.

- Mas era a sobremesa!

- E os doces que comeu depois?

- Eu precisava experimentar o que tava levando de lembrança pra todo mundo.

- Uma caixa inteira?

- Você é um malvado!

A discussão foi interrompida quando os dois perceberam que a senhora Chiba havia se engasgado com o chá. E com o fato de não conseguir parar de rir.

- Às vezes, não reconheço meu Mamoru – explicou-se a senhora, limpado as lágrimas com um lenço de sua bolsa. – Nem parece aquele menininho tímido que não falava com ninguém.

- Evoluiu para criticar cada coisa que a esposa põe na boca. E não ouvir uma palavra minha o dia inteiro.

- Eu só estava pensando em tudo, só isso. Não tem a ver com a carta eu estar distraído. Aliás, minha mãe disse que você errou a forma como se escreve meu nome e meu sobrenome.

Irritada, Usagi virou o rosto para outro lado. Ele continuou mesmo assim:

- Mesmo havendo acertado o sobrenome dos meus pais.

- Vai mesmo continuar a me massacrar, é? E na frente da senhora Chiba? – Lágrimas desciam pelos olhos de Usagi. – Você já tava me chamando de balofa e agora fica falando que sou burra?

Após um suspiro resignado, Mamoru chamou uma das atendentes.

- Um daqueles parfaits com castela de houjicha para ela. – Já voltado para Usagi, disse: - Viu? Eu notei que estava de olho nele.

- E anmitsu! - ela acrescentou, mostrando a língua para o marido.


Um dia de briga não deveria preocupar Rei. Muito pelo contrário, era cedo demais para uma reconciliação. Mas aquela não fora uma briga normal...

Rei abriu o celular e novamente tentou ligar para Jadeite, mas ela continuava a ser direcionada para a caixa postal. Quando isso acontecera no dia anterior, ela havia tido a impressão de que ele a estava evitando de propósito, mas agora realmente acreditava que o celular estivesse desligado.

Com um olhar para o fogo sagrado, ela se levantou e decidiu ir até o apartamento de Jadeite. Eles precisavam conversar sobre aquilo. Sabia que havia feito tudo errado, tudo mesmo. Desde o início, não deveria tê-lo afastado. No momento, sentia como se o houvesse perdido enfim. Justo quando isso não era mais o que Rei desejava.

Quando deu por si, já estava tocando a campanhia daquele apartamento. Fazia quanto tempo que ela não ia até ali? Desde aquele sonho, vinha temendo Jadeite, não querendo que ficassem a sós, desejando que sequer houvessem se conhecido. Mas, a verdade era que Rei o amava. Ao mesmo tempo que temia aquelas visões, ela ainda o amava. Sim, não fosse por isso, já o teria dispensado. Já chutara homens de sua vida por motivos muito mais mesquinhos que um sonho ruim.

- Droga, abra logo... – disse ofegante. Viera correndo? Nem havia se dado conta, mas parada em frente àquela porta via que suas pernas estavam bambas pelo esforço repentino. – Vamos.

Talvez não houvesse levado nem um minuto, mas, após o que pareceu longo demais, Jadeite enfim abria a porta. Seu rosto surgiu de uma brecha; parecia o mesmo de sempre e, ao mesmo tempo, mais jovem e mais pálido.

- O que faz aqui? – Havia algo errado no tom com o que o namorado lhe dirigia. Um pouco ríspido, um pouco confuso, um pouco reticente, um tanto surpreso.

- Posso entrar?

- Sinto muito, estou ocupado agora.

Tão logo sentiu que a porta seria fechada, Rei esticou o pé para impedir.

- Preciso conversar. Sobre nós dois.

Com um suspiro, Jadeite abriu a porta rapidamente e saiu, fechando-a atrás de si com ainda mais velocidade.

- Diga, então – agora o tom usado era impaciente e, talvez, um pouco resignado.

- Sei que está bravo por ontem. Pelos últimos tempos.

- Sim, tem razão. Não temos dado certo.

- Peço desculpas. Foi minha culpa, Jadeite. Por favor, vamos para dentro e eu te contarei tudo.

Sim, tudo precisa ser como deveria ter sido desde o início. Aquele era seu companheiro, o homem que amava e que a amava mais ainda. Não um inimigo. Pensando assim, Rei estendeu a mão para puxar a porta e entrar. Foi menos de um segundo até Jadeite reagir e fechá-la novamente apenas com um jogar o corpo para trás, mas a paisagem da parte de dentro havia sido bem clara para ela.

- Já chega, Rei. Vamos terminar.

Apesar de ela haver dado um passo para trás, isto não passara de um ato reflexo. Ignorando o pedido do outro, ela apontou-lhe o dedo indicador.

- O que essas pessoas fazem ali dentro? E seu sotaque, por que dum dia pro outro você se tornou tão fluente?

- Vá embora, Rei. Você me ouviu.

- E você também, eu te fiz duas perguntas.

Jadeite estava pronto a dizer algo quando a porta se abriu novamente. De dentro, saiu um homem que Rei conhecia apenas de suas visões, mas vê-lo bem na sua frente não a assustava mais como antes.

- Quer que eu te explique tudo? – ofereceu Nephrite, com um sorriso galanteador.

- Tudo, é? – Rei disse sem tirar os olhos do namorado. – Dominar o mundo ou querer minhas amigas?

- Oh, então já sabe?

Voltando-se para o outro, Jadeite pediu:

- Não a assuste assim. – Então, tornou a olhar para Rei. – Ela não tem nada mais a ver comigo de qualquer forma, é só minha ex.

Antes que Nephrite dissesse qualquer coisa, Rei deu um novo tapa em Jadeite.

- Esse seu discurso... não vou engolir isso! – disse ela, voltando a impulsionar seu corpo até a porta.

No mesmo instante, o homem voltou a impedi-la enquanto Nephrite apenas os observava aparentando divertir-se. Engolindo em seco, Rei conteve a vontade de descontar mais de sua frustração batendo em ambos. Então, inspirou fundo para se acalmar e fixou o olhar no até então namorado.

- Não vai mesmo me dizer o que houve? Prefere confiar em alguém como Nephrite?

Em resposta, Jadeite escondeu mal a surpresa – provavelmente de que Rei soubesse o nome do outro general – e virou o rosto, quebrando o contato visual.

Sem esperar mais, Rei se retirou do prédio. Agora que tudo estava acabado, sentia como sua mão ficara dolorida do tapa. Muito mais que no dia anterior. Teria-o dado com força demais? Mas Jadeite nem pareceu haver recebido nada...

Acabado? Não! Não podia. Não deixaria. Mas o que ela poderia fazer agora? Perdera-o. Perdera-o para Nephrite e para todos os generais que havia visto dentro daquele apartamento. E o que pretendiam fazer? Realmente dominar o mundo? Massageou o canto da cabeça e tentou recuperar sua racionalidade.

Sim, era isso. Era o que devia fazer! E o começaria por chamar a menina da agência de casamentos, Ami Mizuno. Não podia mais perder tempo buscando respostas. Por algum motivo o tempo havia começado a andar novamente, elas também deveriam fazer algo. Lembrando ou não, algo forte o bastante as unia até mesmo além da morte. Nephrite e seus amigos nunca puderam vencer isso.

Continuará...

[Fim da Parte 8]