- É impossível ser amigo de todo mundo. – Reika tomou um gole de seu café e pôs de volta a xícara na mesa. – Pra que isto?

Sentindo-se um pouco tonta, Usagi balançou a cabeça, como se tentando censurar a si mesma pela ideia. Contactar justo sua rival? Bem, Reika não era uma rival propriamente, nunca havia acontecido nada entre Mamoru e ela. Mas o gosto amargo de saber da traição – ainda que inexistente – não fora esquecido.

Para que a havia chamado mesmo? Para obter o contato, voltara a falar inclusive com Motoki, com quem ainda se sentia um pouco brigada depois de saber como fora usada em suas desculpas para a esposa – e um pouco em respeito ao que Usagi havia pedido a Mamoru.

Ah sim... Mamoru. Mamoru...

- Eu não gosto de como ficamos – Usagi disse à mulher. Devia estar muito nervosa, pois só de olhar para o bolo delicioso que havia pedido, sentia o estômago embrulhado.

- Sua solução foi perfeita. Até você decidir quebrá-la agora. – Reika estava terminando o café e parecia indicar com o corpo que iria embora tão logo o fizesse.

Mesmo havendo sido próxima de Motoki, Usagi nunca realmente se encontrava com Reika. Dessa forma, sua imagem dela costumava ser apenas a da estudante que conhecera tantos anos antes, quando da ida para o intercâmbio. Sim, as duas haviam se visto depois, apenas não o bastante. Talvez porque Motoki sempre reclamava da esposa... Havia algo como cumplicidade ali.

Hoje a Reika sentada à sua frente em nada tinha a ver com a jovem de antes. Ela definitivamente ainda era bonita, talvez até mais ainda. Todavia, algo estava errado em seu olhar. Podia ser apenas o choque de vê-la com a barriga já tão grande. De quantos meses estaria? Ela mal havia descoberto um mês antes, né?

- Vinte e uma semanas.

- Quê?

- Você estava olhando pra minha barriga. Estou de quatro meses. Eu sei que é grande, mas é só isso.

- Oh. Desculpa, eu não queria olhar. – Baixou a cabeça apenas para se lembrar do seu bolo. Tentou levar um pedaço à boca, não podia mostrar para o inimigo qualquer fraqueza! – Eu insisto que compareçam ao casamento. Mamo está muito triste, acho que isso o animaria! E você é amiga dele, né? Não iria querer ele assim. Seria legal vocês poderem conversar de novo. Considere ao menos ir à festa. Ou mandar uma mensagem, sei lá.

A outra riu ainda segurando a xícara contra a boca. Então, disse-lhe:

- Não seja tão boba, Usagi. Dificilmente, eu seria a causa da tristeza. Não conhece seu marido? Mamoru não é bem do tipo que precisa de com quem falar. Era sempre eu quem o procurava... Está perdendo seu tempo aqui. – Reika terminou sua xícara e começou a abrir a carteira.

Sem perder tempo, Usagi se levantou e esticou o corpo até o outro lado da mesa para bloquear a mão da outra.

- Espera! – disse apressada. – Eu também a chamei porque precisava perguntar uma coisa.

- Quê?

- É mais como uma ajuda mesmo... mas queria que não dissesse nada ao Mamo ou ao Motoki.


Após puxar a porta para fechá-la, Mamoru guardou os sapatos na estante ao lado e pôs os chinelos para entrar em casa. Vinha abrindo tantos folhetos e se imaginando nas casas anunciadas neles que seu próprio apartamento parecia algo do passado sempre que entrava nele ultimamente.

- Cheguei, Usa! – chamou, franzindo a sobrancelha.

Eram apenas oito da noite, ela não estaria dormindo, certo? Olhou para a sacola em uma das mãos, havia passado em um restaurante de sushi popular e comprara bastante. Seria um desperdício, já que ao menos dois terços eram para ser da esposa.

Mesmo já havendo reajustado o vestido de casamento duas vezes, ela não vinha levando muito a sério o regime que deveria fazer até a cerimônia. Ela evitava alguns doces e compensava a dieta na quantidade de comida, o que não traria qualquer resultado obviamente.

- Usa! – Ele espiou sorrateiro para dentro do quarto, mas a cama estava da forma como ele havia arrumado pela manhã. – Ué?

Coçando a cabeça, pegou o celular no bolso do paletó e enviou uma mensagem perguntando de seu paradeiro. Tentou ainda lembrar se a esposa lhe havia dito qualquer coisa sobre chegar tarde, mas nem haviam se falado naquele dia direito. Usagi, incrivelmente, se levantara primeiro e ficara o dobro do tempo no banheiro do que o de costume. Bem, mulheres são assim, disse a si mesmo. Ou ela estaria evitando-o? Nos últimos dias, ela parara de reclamar sobre sua distração – e o próprio Mamoru se acostumara com tudo o que Luna lhe havia contado fazia já duas semanas.

- Luna! – Lembrando-se da gata, passou a procurá-la.

Mas não foi nenhuma surpresa quando não a encontrou. Mesmo havendo tentado adotá-la, ela possuía coisas mais importantes do que entrar no personagem de gata doméstica para a frustração de Usagi. "Só falta ela querer um cachorro agora" pensou, lembrando-se divertido das reclamações cheias de ciúme que vinha ouvindo do animal novo. "Ela nem queria realmente nenhum bicho e agora fica agarrada na Luna. Serão saudades do que não lembra?"

Percebendo que não podia fazer nada e vencido pela fome, Mamoru arrumou a mesa para jantar.

Ao terminar, lavou os talheres a toda hora checando o telefone móvel. Mais duas vezes enviou mensagem sem ser respondido. Então, decidiu ligar para ela. Antes, ligou a televisão para simular descontração quando por dentro começava a achar que poderia ter um ataque cardíaco. Luna havia mencionado estar em contato com os tais generais, né? Ou com um deles? Ela não havia querido entrar em detalhes, aparentemente, a pedido da ou das pessoas.

Ligou para ela, mas ninguém atendeu. Irritado com o som da apresentadora do programa aleatório que passava na televisão, desligou-a e conteve o impulso de jogar o controle contra a tela. Tentou discar o número da empresa, mas apenas um vigia atendeu e ele não sabia redirecionar números. Ou estava com preguiça, de tão certo que ninguém realmente estaria lá àquela hora de sexta-feira.

Esses generais... Eles estavam todos ao redor de Usagi, a gata havia dito sem realmente dar detalhes. E se fizeram algo com ela, enfim? Eles podiam não se lembrar de tudo, mas e se alguma lembrança repentina houvesse sido suficiente?

Não, precisava se acalmar. Essas semanas todas usadas para isso e ainda achava que o apocalipse aconteceria? Anos haviam se passado e todos vinham vivendo em paz. Sim, Usagi apenas se atrasara. Não eram nem nove da noite ainda. E ela já dormira fora uma vez.

Ao se recordar do fato, ligou rapidamente para a senhora Tsukino, mas a esperança se foi com poucos segundos de palavras convencionais. Sua esposa não estava lá e a mãe dela não sabia de nada. Agradeceu ansioso para tentar a próxima pessoa. Mas quem? Considerou Motoki por um tempo e acabou por discar o número, apenas para encontrar o não mais tão amigo ainda no meio do trabalho e tão atarefado que lhe respondeu e desligou sem mostrar sequer reconhecer quem lhe falava.

- Droga... – Mamoru disse, tentando se acalmar com o som da própria voz. A verdade era que não conhecia nenhuma amiga de Usagi. Os primeiros meses de casamento foram um pouco atribulados e estranhos e as últimas semanas foram muito atribuladas e estranhas; não havia tempo para ser social. Usagi não conhecia seus amigos, nem ele os dela.

Ah!

Com um pulo, revirou o bolso da calça e puxou a carteira. Jogou sobre o sofá todos os cartões de contato que recebera nos últimos tempos até ver o logotipo familiar da empresa de Usagi. Shin Saitou. O superior que se apresentara a ele uma vez, quando o vira junto a Reika. Fazia muito mais de um mês, o homem podia não se lembrar dele, mas ainda devia ter o mesmo celular.

- Alô? – Mamoru não exatamente se lembrava da voz da pessoa, mas tão logo ouvira aquela palavra, tinha certeza de ser ele mesmo.

Rapidamente se apresentou e perguntou se a esposa ainda estaria no serviço àquela hora, pois não conseguia contato com ela. Após um momento de silêncio, Shin respondeu negativamente, que ela havia saído às cinco horas em ponto e desligou. Estaria trabalhando tal como Motoki? Não havia sequer como confiar numa informação tão jogada assim.

Sentindo-se culpado, Mamoru discou novamente o número.

- Eu realmente não sei dela.

- Sinto muito, mas não poderia me dar o número da amiga dela? A senhorita... – Fechou os olhos até o nome lhe vir à mente. – Kino. Makoto Kino, ela trabalha logo ao lado da minha esposa, se não me engano.

- Não posso cometer esse tipo de indiscrição, senhor Chiba. Apenas vá descansar. Uma boa noite.

Ele continuou a ouvir o silêncio do celular. Sua mente estava lhe exibindo tantos cenários que seu corpo não sabia muito bem como reagir.

Por que ele não tinha nem o número da melhor amiga da esposa!? Pegou o celular e considerou ligar novamente para a senhora Tsukino. Entretanto, percebeu que, mesmo que esta não soubesse nada de Dark Kingdom ou de generais malvados, acabaria preocupada com a situação. O desespero já era nítido em seu tom de voz.

Sem arrumar a bagunça de cartões sobre ele, levantou-se do sofá e voltou a ligar para Usagi. Por que ela não lhe responderia? Não podia estar sem bateria quando o telefone estava definitivamente chamando sem cair na caixa postal.

Chamando...

Agora que estava com a casa em silêncio, percebeu um barulhinho familiar. O toque da Usagi! Mamoru correu novamente até o quarto, mas não era dali que vinha.

- O banheiro!

Ela não estava lá até agora, né? Não, Shin não falara nada sobre ela não haver ido hoje. Certo, que ele não parecia haver prestado muita atenção, mas na segunda vez até o chamara pelo nome. Prestara o bastante para saber que falava com o marido de Usagi.

Mesmo assim, abriu a porta esperançoso. O aparelho estava ainda tocando sobre a pia, conectado à tomada pelo carregador. Dentro da própria pia se encontrava uma sacola plástica com o logotipo de uma loja de conveniência. Mas sua esposa não estava ali.

Ela o esquecera de manhã? Não... Mamoru e ela haviam trocado mensagem na hora do almoço, quando ele confirmara que levaria a janta. Ademais, de onde aquela sacola haveria saído? Para confirmar, por via das dúvidas, ele abriu o visor do aparelho, que sequer estava com a carga completa ainda. Usagi havia retornado do serviço e saído de casa novamente levando somente sua bolsa.

Quando deu conta de si de novo, estava já dentro de um táxi, pedindo que o motorista se apressasse até o endereço da empresa. No caminho, discou o número da tal Makoto, mas ela também não sabia sobre Usagi. Ao menos, pareceu notar que não era exagero seu e em vez de mandá-lo dormir como Shin fizera, insistira que lhe avisasse quando tivesse qualquer notícia.

- Ah, ela ia ver aquela mulher – a moça disse rapidamente do outro lado da linha. – A esposa do Motoki.

Mamoru agradeceu e desligou.

Reika? Deveria ligar para ela e perguntar? Makoto podia estar enganada, o que sua esposa iria querer com aquela pessoa? Seria isso? Usagi estava pensando que havia sido traída de novo e, desta vez, fugira de casa sem deixar um meio de contato. Àquela hora, ela poderia estar chegando à casa de seu pai em Osaka.

"Que seja isso", pegou-se pensando enquanto pagava ao taxista e corria para o prédio fechado da empresa. "Droga, que seja isso..." Tateou a porta de vidro e tentou chamar o segurança, mas foi ignorado.

Ela poderia estar com Motoki também, uma fuga romântica. Não... Ele estava realmente trabalhando a julgar pelos sons do ambiente. Bem, usagi devia conhecer outros homens, decidiu.

Então, um cabelo loiro lhe puxou o olhar. Por um segundo, tentou se enganar de que seria Usagi andando dentro daquele restaurante, mas não. Era uma garçonete. A mesma que vira junto com Shin Saitou naquele café. Namorada do patrão e garçonete do lado da empresa, ela poderia saber algo.

Ou rir de como ele havia parado longe quando não eram nem dez horas da noite em uma sexta-feira. Estava paranoico, só podia ser.

- Oh, você! – A garçonete veio correndo antes de dar o cumprimento de sempre. – Seja bem-vindo!

- Desculpa, eu não vim como cliente. A verdade é que eu... Você se lembra da minha esposa?

- A Usagi? Claro!

- É que... você saberia algo dela hoje?

- Bem, ela veio aqui de tardinha. Umas cinco da tarde? Seis? Eu tinha acabado de entrar no meu turno e não é sempre que trabalho até tão tarde.

- Ela veio então?

- Sim, sim! Pediu um bolo lindo, he he. Mas nem comeu muito, ela tava distraída conversando com uma moça ruiva.

- Ruiva?

- É. Ah! Ela parecia grávida. Definitivamente, grávida. Eu pude sentir o cheirinho de amor materno no ar. – A garçonete assentiu algumas vezes. – E foi isso, depois elas saíram juntas em direção à estação. Nem falei com ela...

- Depois, que horas?

- Não foi muito tempo. A mulher estava com pressa, acho. Só pediu um café mesmo. Mas acho que deu tudo bem, elas saíram meio felizes. Eu sou boa com pessoas, sabia?

Mamoru assentiu distraído. Makoto lhe dissera que Usagi veria Reika e agora a garçonete repetia isso. Começou a tentar se acalmar. O celular da esposa podia estar se descarregando; então, depois de ter uma conversa aberta com outra, elas decidiram ter uma noite de mulheres. Esquecer o celular podia até ser uma forma de garantir que não seriam perturbadas.

Bastava agora confirmar com Reika! Hesitou um pouco, olhando para aquele número que não mais usava em sua agenda.

Antes que apertasse o botão de discar, porém, percebeu que estava recebendo uma nova chamada. Um de seus amigos de trabalho; seria algum problema novo? Não, ele tinha saído cedo, né?

- Masato? – Atendeu, cansado demais para ocultar a confusão do tom de voz. Percebeu haver assustado a garçonete, então pediu desculpas com um gesto, então esperava a resposta do colega de trabalho.


Shin quase pulou em Masato quando o ouviu falar ao telefone.

- Você acabou de chamá-lo aqui!? Que a esposa dele tava aqui!? – perguntou, sem poder conter o nervoso. – Peraí, Masato, isso tá longe dos nossos planos!

- E como mais você pretende conseguir o Cristal de Prata, Kunzite?

Aquele nome de novo... Desde que Jadeite os apresentara àquele homem, todos vinham se submetendo a uma espécie de hipnose para tentarem se lembrar do passado, mas nem mesmo seu próprio nome verdadeiro Shin conseguia aceitar.

- Mas se esse cara vier aqui vai ver o que fizemos à Usagi! – tentou argumentar, mas o outro não reagiu. – Somos apenas dois!

- Eu já disse que não podemos confiar no seu amiguinho, e muito menos no Zoisite. Quando tivermos o Cristal, nós o chamamos de volta.

- Acha mesmo que basta sermos dois que nada vai acontecer? Aquele cara está vindo para cá. E logo a Usagi também acorda.

Pensou na mulher adormecida no quarto de Masato e fechou o punho. Jadeite estava certo em não se envolver? Mas ele já lembrava tudo, não tinha realmente muito por que ficar ali.

- E se as tais guerreiras descobrirem? Com esse sequestro todo, pode ser que a memória delas volte para proteger a princesa. Tinha mesmo que provocar justo o marido da Usagi. Ela já está aqui, para que precisa dele?

- Quanto a elas, eu repito que basta termos o Cristal conosco. E nosso querido príncipe Endymion é o instrumento essencial para o extrairmos da princesa.

- Instrumento? Você nunca disse que pretendia machucar alguém, Masato. Fale logo como exatamente pretende pegar o Cristal, ou perderá sua superioridade em números.

Masato gargalhou condescendente.

- Eu nunca te escondi nada, Kunzite. Foi você que já esqueceu o que Zoisite nos narrou em hipnose; sobre como os cristais arco-íris foram unidos pela princesa.

- U-unidos...? – Shin sentiu a garganta secar ao perceber que sabia exatamente a que o outro se referia. – M-mas isso... ele pode acabar morrendo!

- Não, nós podemos acabar morrendo de novo se essas guardiãs chegarem ao Cristal primeiro!

Queria ficar em silêncio e apenas sair dali, mas Masato tocara no assunto certo. Jadeite narrara claramente sobre como a namorada já estava começando a lembrar, a tal Sailor Mars. O próprio Jadeite também recuperara a memória do nada. Tudo estava começando a mudar após aquele longo período de calma e podia não demorar muito até essas meninas virarem verdadeiras guerreiras. Ele não queria morrer, nunca o quisera. Gostava de sua vida, queria voltar a ela. E aí, talvez, poder se declarar para Minako e formarem juntos uma família.

- Masato, eu não vou embora, mas quero que me confirme uma coisa. O dia em que encontrou Jadeite foi mesmo apenas uma coincidência?

- Garanto que não estava nos planos falar com ele naquele dia. – Mas o homem sorriu enquanto mexia em uma das bolsas guardadas no canto de sua sala. – E confesso que eu estava me preparando para todos termos nosso reencontro em poucos dias. Só pensava em investigar um pouquinho mais a Jupiter. Uma pena que me animei tanto com Jadeite que estraguei esse plano.

Ele levantou-se do chão e entregou-lhe uma das coisas que havia retirado da mala, dizendo:

- Enquanto não conseguimos extrair o Cristal, isto terá que bastar.

Shin olhou curioso para o objeto metálico na mão, a qual começou a tremer tão logo ele tomou consciência de que se tratava. Era a primeira vez que segurava uma arma de fogo.

Continuará...

[Fim da Parte 9]