CAPÍTULO 2: A ORGANIZAÇÃO - KAKASHI
Percebi um vulto cor de rosa se aproximando pelo meu lado direito, inconfundível em sua presença única, mas não pensei que Sakura fosse fazer mais que dirigir-me alguma palavra quando passasse por mim, seguindo para onde quer que fosse. No entanto ela parou ao meu lado e, se inclinando para frente, jogou algo na água que saiu quicando por sua superfície. Olhei em sua direção, já um tanto surpreso, apenas para surpreender-me mais. Eu já havia percebido o quanto ela tinha ficado bonita, de algum tempo para cá. A menininha dos cabelos que faziam jus ao seu nome tinha se tornado uma mulher fantástica em vários sentidos, estava claro, e de vez em quando eu me pegava observando-a demais. Mas assim em pé a minha frente, com aquele sorriso no rosto, ela estava ainda mais bonita.
"Você está linda!", interrompo-me quando percebo estar falando alto e ela logo percebe minha intenção, abrindo um sorriso meigo que me deixa aliviado. Eu não gostaria de acabar como o Naruto quando insinuava algo do tipo; se bem que ela mudou bastante, amadureceu. Outro ponto para ela.
Ela se senta ao meu lado conversando qualquer coisa que eu apenas noto e respondo automaticamente, enquanto a observo demais outra vez. Ela fica com o rosto voltado para o sol, que faz sua pele clara se enrubescer com seu calor fraco de início de primavera, quando provoca aquela sensação gostosa de formigamento nas bochechas em contraste com o ventinho frio, resquício do inverno, que faz seus cabelos esvoaçarem lindamente em volta de seu rosto, emoldurando-o do mais belo tom de rosa. Tinha as mãos apoiadas no chão, uma de cada lado do seu corpo, os ombros encurvados levemente para cima davam a impressão de que ela respirava relaxadamente pela primeira vez em muito tempo – acho que era possível ver isso em qualquer um dos shinobi da Aldeia da Folha, hoje. Aproveito seus olhos fechados para passear os meus por todo seu corpo, que eu nuca tivera a oportunidade de admirar assim tão de perto: sua pele era quase da cor de seu vestido, que, a propósito, lhe caia perfeitamente bem. Ainda é possível perceber seus músculos tensos das missões que se nos acumulavam nos dias anteriores, cada um deles parecendo sussurrar um alívio pelo dia de folga. Sua cintura era fina como eu nunca havia notado, agora envolta pela roupa colada, e lhe dava um ar ainda mais feminino, e suas pernas pediam, suplicavam sedutoramente que seu vestido se encurtasse um pouco mais, enquanto ela as balançava, sentada ali na beira da ponte comigo.
Volto ao seu rosto e salto em mim quando percebo que está me olhando também. Nossos olhares, o seu curioso, do meu não faço ideia, se cruzam e ela ainda dança o mesmo sorriso nos lábios. Sua expressão não é acusatória, na verdade, era bem parecida com a que me dirigira na noite passada, mas eu encaro como se fosse – terá percebido algo? – e censuro meus pensamentos, enquanto um arrepio percorre todo o meu corpo: "ah, Kakashi, você tem que parar de ler aqueles livros... O que pensa que está fazendo? Ela é quase dez anos mais nova que você e foi sua aluna!", decido me lembrar dela quando era apenas a menininha que eu treinava, na tentativa de repelir qualquer devaneio impróprio, e funciona. Recomponho-me aceitando seu pedido por uma caminhada, ao qual eu tinha me esquecido de responder.
Fomos conversando qualquer coisa boba, qualquer coisa atoa, enquanto caminhávamos, despreocupados, por qualquer canto da cidade. Era um momento único, que quiçá nunca se repetisse, e seu caminhar alegre me deixava feliz. É interessante como ela faz uma mistura perfeita de seu lado mulher, com seus olhares e conversas maduras e por vezes até sugestivas, com seu lado menina, quase que saltitando um passo descompassado, por vezes até descoordenado, ao meu lado, numa alegria doce e ingênua. Penso que os anos devam estar me deixando carente, no medo de acabar um velho solitário e rabugento que não poderia dar continuidade ao seu clã. Policio-me de novo.
De repente, Temari cruza à nossa frente, chamando nossa atenção, também com o semblante mais ameno. Estranho um pouco, ela não costumava vir muito. Na verdade, Shikamaru era quem sempre a visitava, nos últimos tempos, mais preocupado que nunca. Os dois foram um dos primeiros casais, entre nossos amigos, a se formar, mas eu demorei bastante para perceber e até me surpreendi, desatento que sou para essas coisas. Lembro que sou mais velho que eles e continuo solteiro... Isso tem que ser piada!
_ Kakashi, Sakura! – ela acena para nós, vindo em nossa direção.
_ Temari, que bom te ver! – diz Sakura e eu apenas sorrio por debaixo da máscara – o que faz por aqui?
_ Vim visitá-los, para variar – ela ri, "visitar-NOS?" – Aproveitarei a festa de hoje a noite para relaxar um pouco. Muitas pessoas da Aldeia da Areia também virão comemorar, acho que é um alívio para todos nós, não?
_ Festa? Matte, que festa? – Sakura parece animada, mas desentendida. Também fico cursioso, não soube de nenhuma festa. Será que houve mais algum acordo? Alguns dias de folga, tudo bem, mas uma festa? E se os outros Estados descobrissem? Isso me parece muita prepotência, o que estamos tramando? Ah, essa falta de informação...
_ Não é nada demais, Gaara e a Hokage só...
_ Vamos, Temari, não esconda nada de nós – confesso minha impaciência e também minha desconfiança, deixando Sakura um pouco aflita e Temari algo assustada.
_ Tudo bem, me desculpem, é a força do hábito – ela suspira com um sorriso de desculpas e esperamos que continue, o que ela faz em um tom bastante baixo, que me preocupa um pouco – É realmente uma festa, queremos chamar a atenção. Foi ideia do Shika – diz, íntima e orgulhosa – Na verdade, é por isso que estou aqui. Estamos deslocando uma parte de nosso exército ninja para cá neste exato momento, claro que disfarçados. Não houve nenhum aviso para que pudéssemos avaliar a reação das vilas vizinhas, quando se dessem por conta, sob o pretexto da comemoração do recente tratado que firmamos. Dessa parte vocês estão sabendo, não?
Confirmamos com a cabeça, mas, não sei por quê, aquilo não me convence...
_ Não seria correr riscos demais? E se alguma das aldeias resolverem nos atacar?
_ Se o fizerem, morderão a isca.
Olho para Sakura, ela parece tão animada quanto Temari, mas eu não estou gostando nada disso. Shikamaru havia se tornado um grande estrategista e ocupava agora um dos cargos mais altos em nossa Guarda, de modo que estava muito próximo da Hokage e de todos os outros grandes envolvidos na organização das frentes de batalha e investigação. Temari não ficava para trás, era uma das capitãs de Suna. Eu, ao contrário deles, nunca ansiei por nenhum tipo de poder, apesar de, como ninja de alto nível, sempre tê-lo tido a minha volta e disposição. Nos últimos tempos, porém, as coisas parecem fugir da minha percepção, como se alguém as estivesse tapando, escondendo. Eu imaginava que um dia eles acabariam desconfiando de mim, mas tão rápido? O que estou deixando escapar?
Temari segue seu caminho depois desses esclarecimentos e continuo andando ao lado de Sakura, mas, agora perdido em minhas preocupações, dou-lhe pouca atenção, o que ela percebe, é claro.
_ Está tudo bem, Kakashi-san? Parece ter ficado preocupado – ela está cautelosa. Quando não respondo, acrescenta: – Vamos, vai ficar tudo bem. Se Tsunade-obasan não nos deu outro aviso é porque ainda quer que descansemos. Talvez devêssemos aproveitar a festa como se fosse só uma festa, o que me diz?
_ Anou, Sakura! – interrompe-nos, gritando de longe, outra voz feminina. É Ino, chamando por ela. Digo que está tudo bem e ela se despede de mim, andando em direção a sua amiga. Observo-a até que esteja alguns metros distante de mim e volto-me sobre meus calcanhares, saindo rápido dali. Se estiver certo, a essa altura meu grupo já estaria sabendo de tudo e preparando uma reunião de última hora. A situação urgia e precisávamos decidir como agir. Duvidei que fosse sobrar tempo para qualquer comemoração de minha parte.
Pouco mais de meia hora depois, a lua já reinava alto no céu e nós estávamos reunidos na sala de uma casa velha, há muito tempo vazia, que ficava numa parte abandonada da vila, ocupada apenas por algumas pessoas que não tinham condição de pagar por uma casa. Para não levantar suspeitas, deixamos as luzes apagadas e apenas uma vela iluminava a discussão, que se acalorava cada vez mais. Ninguém gritava, para manter nosso disfarce, mas, vez ou outra, alguém se exaltava e os envolvidos se fuzilavam com o olhar, insultando-se, às vezes silenciosamente, às vezes não. Nós nos chamávamos A Aliança do Grou, em homenagem a um grande pássaro da região, que, apesar de viver entre a suja lama do pântano, apresenta a mais pura e branca plumagem, apenas tocada de vermelho no topo de sua cabeça. Sua grandeza simbolizava a esperança; sua plumagem impecável, o nobre em nossa causa; e o pequeno círculo de fogo, a força da nossa revolução.
Lutávamos, ou planejávamos lutar quando fosse necessário, pelo bem estar, liberdade e transparência em nossa aldeia, bem como o cessar pacífico da guerra; no entanto ainda não tínhamos certeza dos limites do que exigíamos, isto é, de onde acabavam as reivindicações por nossa terra e onde começava a intromissão nos assuntos de terras estrangeiras. A fronteira é bastante tênue quando se está envolto em conflitos tão abrangentes e a liberdade parece estar comprometida como um todo. E embora esperássemos trazer mais pessoas para dentro da organização, ainda não éramos muito numerosos, todavia, apenas nove: sete homens e duas mulheres; a maioria membros da ANBU e outras organizações secretas as quais eu mal conhecia de nome.
_ Vocês estão loucos? Precisamos agir agora! – diz, um pouco exaltada e desesperada, Anko, que estava entre as mulheres.
_ Não percebe que eles já estão de olho em nós? Quem sabe o que pode acontecer se começarmos a nos movimentar?
_ E o que você sugere que façamos? É perigosa essa estratégia e mesmo que ocorra tudo bem, a que custo? Esses conflitos estão prejudicando principalmente a vida na aldeia, cada vez mais pessoas passam fome e estamos sendo enganados por nosso próprio governo!
_ Bom, o que você sugere que façamos?
_ Que o desafiemos! Desafiemos a Hokage, a ANBU! As pessoas vão perceber que estamos do lado delas e vão nos apoiar. Essa guerra não é mais importante que a vida dos nossos cidadãos! – seu interlocutor ficou pensativo, parecendo concordar, finalmente.
_ O que você acha, Kakashi?
Akira, um ninja aposentado e reservado, de meia altura, olhos pequenos e cabelos brancos, com quem eu nunca tinha tido a oportunidade de conversar antes dos últimos acontecimentos, era quem me dirigia a palavra, após alguns segundos de silêncio. Não havia hierarquia estabelecida entre nós, mas ele era do tipo de pessoa que apenas escuta e pensa, falando somente quando tem certeza ou, nesse caso, quando quer ter certeza, de modo que sua opinião era muito respeitada e tinha bastante peso sobre nossas decisões. Sinto-me um pouco orgulhoso de que a minha tivesse tanta importância para ele; eu também costumava ouvir mais do que dizer, tinha até a impressão de que ele me via como um discípulo por conta disso.
_ Anko tem razão em dizer que a vida das pessoas está acima de qualquer conflito e sobre a necessidade de fazer algo. Mas Iruka também está certo em que temos de ter cuidado. Eles estão monopolizando a informação e é justamente por isso que as pessoas da vila nos verão como os vilões da história, se nos precipitarmos – digo em tom baixo com o silêncio e atenção de todos a meu favor.
_ Exato – concorda Akira –. É por isso que a situação é tão difícil.
_ Então continuamos no mesmo impasse de sempre? – diz a outra mulher, decepcionada.
_ Por enquanto, acho que devemos seguir somente ajudando quem podemos e alimentando nosso disfarce. Precisamos de mais algum tempo para pensar, de qualquer modo. Não podemos nos precipitar.
Todos concordamos, embora alguns com relutância.
_ Vem vindo alguém!
Diz, apressado, um dos homens que havia ficado perto da janela de guarda, logo dispersamo-nos rapidamente. Estou andando pelos telhados das casas ali perto quando percebo que estou sendo seguido. Deixo que o intruso se aproxime e então o surpreendo mirando uma kunai em seu pescoço. Abaixo a arma assim que percebo de quem se trata.
_ Iruka, você me assustou.
_ Gomen, Kakashi. Não foi minha intenção – espero que continue – Eu queria lhe agradecer por ter me apoiado hoje.
_ Iie, não tem porquê. Você está certo, as coisas andam muito delicadas para agirmos sem pensar.
_ Ainda assim... – ele vacila, trocando o peso do corpo de um pé para o outro, fazendo caras que, em outra situação, pareceriam contraditórias, mas cujas expressões contrastantes ilustram, agora, a dificuldade do que estamos vivendo – Não fazer nada me irrita!
_ A mim também.
Um breve silêncio se instala. Meu amigo olha para o chão como se um peso enorme e invisível estivesse em suas costas e as forçasse brutalmente para baixo. Seu rosto da expressão vazia que acabara de fazer passa rapidamente para uma de dor profunda, culpa e arrependimento, tudo ao mesmo tempo: seu cenho franzido, as sobrancelhas unidas numa linha dura sobre seus olhos, que piscam furiosamente lutando contra as lágrimas; sua boca apertada contras os dentes, torcida num desgosto cheio de nojo.
Dói-me ver meu amigo nesse estado. Antes conversávamos muito, mas depois do que aconteceu ele tem se distanciado de mim, tem se distanciado de tudo e de todos. Agora faz exatamente três meses desde que veio até mim, desesperado, pedindo ajuda para impedir o que ele havia ajudado a montar. Konoha recebera notícias de que a Aldeia da Grama tinha se aliado ao País da Terra, antigo inimigo do País do Fogo e com o qual estava tramando a derrubada de nossa nação. Imediatamente a Folha preparou uma espécie de medida preventiva contra a Grama e Iruka estava ajudando a montar as equipes de ataque. Disseram-no que não passaria de uma ameaça e as pessoas estariam a salvo, porém quando seus companheiros começaram a extrapolar na agressividade da investida, ele percebeu que estava colaborando com um possível massacre e, não tendo conseguido contra-argumentar, resolveu buscar ajuda.
Não me preocupei em julgá-lo, há muito que estávamos todos sendo enganados e forçados a fazer coisas que não aprovaríamos em outra ocasião. Ao invés disso e imediatamente, fui à procura de amigos que eu tinha certeza que estariam ao nosso lado, pese às nossas discordâncias compartilhadas em segredo sobre a conduta de nossa própria aldeia. Não consegui, contudo, a ajuda de muita gente – apenas três concordaram em seguir-nos – de modo que não conseguimos fazer muito a respeito. Quando chegamos lá, disfarçados para não levantar suspeitas das pessoas da nossa vila, a situação já era de guerra e os habitantes da Vila Oculta da Grama estavam desesperados com a "visita" surpresa. É claro que eles resistiram à afronta e o que se seguiu apenas confirmou o medo de Iruka: foi literalmente uma chacina. Não só shinobi foram mortos durante o combate, como também civis, os quais tentamos afastar da batalha. Fomos insuficientes, quase inúteis...
Nós tivemos perdas, sim, inclusive um dos amigos que topara ir conosco e que se enfurecera demais com a situação, mas não se compara ao que aconteceu com a aldeia que atacamos. A destruição que nossa vila provocou foi absurda, tanto na questão física – das construções – quanto na humana – das centenas de mortos. Eu não podia acreditar que a minha pátria havia sido a protagonista disso e, mais, que Tsunade, a neta do primeiro Hokage e fundador de nosso estilo de vida, havia permitido tal coisa! Iruka estava ainda pior, sentia-se culpado por ter ajudado diretamente; a dor em seus olhos e o nojo de si mesmo eram manifestos.
"Ele não deveria se culpar assim", penso, fraterno e preocupado com o que imagino que me passaria pela cabeça se estivesse em seu lugar. Foi a partir desse dia que formamos nosso grupo, mais pela iniciativa e força de vontade de Iruka que qualquer outra coisa - ele havia sido o pensador e formador de boa parte da filosofia com que pensávamos e, de fato, a praticava fielmente. Tento não imaginar que, se a Aliança não existisse, ele poderia muito bem já ter encurtado sua própria vida.
_ Pupe-me de sua pena, Kakashi! – ele diz, lendo minha mente e desgostando-se com isso, logo antes de ir embora sem dizer nada mais.
"Em algum momento teremos de nos precipitar" digo baixinho para mim mesmo, recordando a recente reunião e entendendo a que se referia Iruka em seu interior. Decido, depois, ir até a festa ver o que se passa por lá e dar uma olhada nos ninjas disfarçados, para tentar descobrir qual era exatamente seu plano. Uma intuição de que algo parecido com o massacre da Aldeia da Grama estava para se repetir – uma revanche, quem sabe? - formigava perigosamente em meu interior...
Tomei a liberdade de criar um personagem para a história, então me desculpe se ficar difícil de imaginar.
Muito obrigada por ler, espero que gostem desse novo capítulo.
