O ERRO DE SHIKAMARU - SAKURA
_ Iie, Ino. Não precisa, eu já disse, estou bem assim – reclamo, enquanto sou arrastada por entre as estreitas ruas, desviando-me com dificuldade das abarrotadas barraquinhas de comidas típicas e lembrancinhas locais, que estavam sendo preparadas para as festividades da noite que chegava sem demora. Ela para de súbito, encarando-me com aquele seu olhar fingido de bravo, e eu tropeço, quase caindo por cima dela.
_ Ah, Sakura quando é que você vai aprender? – começa a me puxar novamente – sapatilhas ninja não são para serem usadas com vestidos tão bonitos! Vamos, eu sei que há uma loja de sandálias em algum lugar por aqui. Mas, no que toda essa gente estava pensando? Onde já se viu espalhar tantas tendas no mesmo lugar? Assim fica impossível se orientar! Que rua era esta mesmo?
Ela segue falando consigo mesma, animada como não a via em muito tempo. Eu, por outro lado, já estou entediada só de pensar em provar todos aqueles pares até que ela decida que o primeiro estava bom desde o início, só para encontrá-lo empoeirado meses depois dentro da sapateira, por nunca mais tê-lo usado. Sim, isso era comum em datas como essa. Tento rir da situação; na verdade, era ótimo ter sua companhia de novo e fazer o que sempre fazíamos, como se as preocupações, de fato, não existissem. Já tivemos nossas desavenças no passado – e quantas e que bobas -, mas, à medida que fomos crescendo, as fomos superando e acabamos por nos tornar grandes amigas. Eu não diria inseparáveis, já que no nosso mundo poucas coisas são assim tão estáveis, mas isso é mero detalhe.
Depois de confirmadas minhas previsões e de ter provado quase uma dúzia de sandálias dos mais variados estilos, ela escolheu a primeira da fila: chinelos típicos de solado de madeira branca, com tiras grossas e fofas de cor marfim, acompanhadas de meias baixas de seda, de mesma cor, delicadamente rendadas nas extremidades, que apenas completavam a simplicidade do meu vestido. Tive que admitir, ao final, que dessa vez ela acertou em cheio e talvez eu os usasse mais vezes. Rimos como crianças quando ela se fingiu insultada com meu elogio irônico e fomos andando assim, de braços dados, por entre as pessoas comuns da cidade, agindo como elas, comentando sobre os viajantes bonitos que passavam por nós e nos dirigiam olhares pretenciosos, aos que respondíamos com sorrisinhos despreocupados.
As comidas estavam uma delícia, principalmente os doces, pelos quais eu era completamente louca. Havia bolinhos de todas as cores, enfeitados com flores e carinhas de animais; bolachinhas esculpidas de várias formas, imitando objetos, palitinhos de caramelo e chocolate e alguns outros que eu desconhecia e imaginei que fossem iguarias de outras culturas. Ia provando todos, sem cerimônia, competindo com as crianças pelos maiores, e Ino não entendia como eu podia comer tanto e não engordar. Eu só ria.
Quando a noite já se fazia madrugada, decidimos ir até o bar onde encontraríamos nossos amigos para relaxar e tomar sake. Ino caminha a minha frente apressada porque eles já estavam nos esperando, mas eu me distraio com algumas crianças lançando um balão ao céu. Elas gritavam admiradas da suavidade com que ele subia e eu fiquei ali olhando-o desaparecer no céu. É quando alguém chama às minhas costas:
_ Konnichiwa, Sakura. Está sozinha?
_ Kakashi! – alegro-me de vê-lo – Hai, acho que a Ino não me aguentou mais e decidiu ir sem mim – digo sorrindo, brincalhona.
_ Desistiu de ir?
_ Iie, claro que não! Só me distrai um pouco.
_ Vamos, eu acompanho você.
Caminhamos por alguns minutos e logo chegamos à taverna, que estava abarrotada de gente, todos rindo e conversando alto, deixando os garçons loucos. Passo o olho pelo lugar até que encontro nossos amigos sentados a uma mesa grande num dos cantos. Vamos até eles e nos sentamos. Naruto faz uma piada sobre não terem deixado Kiba entrar com Akamaru porque o dono era alérgico ou algo assim, depois olha para Hinata com um olhar terno e a beija na ponta do nariz, deixando-a incrivelmente vermelha e tirando de todos nós pequenos "us" de aprovação. Enquanto isso, Asuma tenta chamar a atenção de uma garçonete que passa por nós para pedir mais uma rodada de sake. Percebo que Ino não está em lugar algum e resolvo perguntar por ela. Hinata é a única que me ouve, já que não gosta muito de beber e parecia ser a única sóbria de nós. Ela me diz que nossa amiga mal chegou e já saiu de fininho com Sai. "Suspeito...", penso, mas não digo nada.
Rio muito com eles e quando começo a sentir os sons nos meus ouvidos começarem a ficar abafados decido que é hora de parar de beber. É então quando olho para o lado e noto que Kakashi já não está ao meu lado. Procuro-o até que vejo o final de sua cabeleira acinzentada desaparecer por uma das portas laterais do recinto. Não me demoro muito pensando e vou atrás dele. Encontro-o na rua, já não tão movimentada como mais cedo, ao lado do bar.
_ Kakashi, o que... Mas que frio! – levo as mãos imediatamente aos meus braços, esfregando-os, a bebida me deixando espontânea e eu achando graça.
_ Aqui, vista isso. – ele me entrega o moletom preto que carregava amarrado à cintura, sem tirar os olhos do que quer que estivesse a nossa frente. Estava escorado na parede, com uma perna flexionada para manter melhor o equilíbrio e os braços cruzados, e a essa posição volta depois de me entregar o casaco. Agradeço ao mesmo tempo em que tento me concentrar no que ele observa, mas não entendo.
_ O que você está olhando? – soo bastante informal, mesmo sem pretendê-lo.
_ Não percebe o padrão? – ele diz acenando com a cabeça na direção de um grupo de homens. A princípio continuo boiando, tentando descobrir do que ele se refere, mas, apenas alguns segundos depois, pesco a ideia, orgulhosa de ter conseguido tão rápido e concordo.
_ Eles são bonitos!
Ele se vira para mim bruscamente com um brilho divertido no olhar, que aumenta de repente, e solta uma gargalhada. Exalto-me, dando por mim que nunca o havia visto rir, apenas sorrir por debaixo da máscara, e fico feliz com sua expressão.
_ Sakura! – ele diz, rindo mais e meu coração dá doidos pulinhos no meu peito quando ele levanta sua mão em direção ao meu rosto e pousa ali, no canto de minha boca, seu polegar direito, afastando o que constato ser uma migalha de qualquer coisa que eu tenha comido durante a noite. Penso que deve mesmo ter sido uma visão bem engraçada e coro. Ele olha por um breve instante a migalha na ponta de seu dedo, parecendo estar-se decidindo se a provava ou não, enquanto eu alimento a expectativa de poder ver seu rosto, mas, no fim, apenas a joga no chão e depois volta a me olhar demorado nos olhos. Pergunto-me se ele realmente cogitou tirar a máscara e ele também parece perguntar-se algo.
_ São os ninja de que Temari havia falado – assinala com a cabeça para aqueles homens, que para mim pareciam visitantes comuns. Imagino que eu não conseguiria ser tão discreta quanto ele e agradeço por não conseguir desviar meu olhar do seu.
_ Ainda está preocupado com isso? – digo, finalmente, ao que ele franze o cenho, curioso.
_ Você não?
_ De jeito nenhum – ele ri da minha sinceridade e penso que deveria beber mais vezes, se fosse esse o motivo de seus risos. Ele ficava ainda mais bonito com eles adornando-lhe o rosto, se é que isso realmente era possível.
_ Preste atenção.
Ele diz, jamais conseguindo abandonar seus hábitos de sensei, logo antes de se agachar ao meu lado, quase como o Shikamaru faz quando está muito concentrado. Tento imitar seu gesto, porém, quando chego perto do chão, me desequilibro e caio de bunda. Kakashi contrai os lábios, se segurando para não rir e eu começo a ficar irritada comigo mesma. "Mas, nani? Estou parecendo o baka do Naruto!", penso, decidindo-me ficar daquele jeito mesmo, já que o esforço de me levantar me causa tontura. É bem patético, na verdade; eu já devia ter me acostumado com certo nível de álcool em meu sangue, tampouco é como se eu tivesse bebido tanto...
_ Eles fingem não se conhecerem, mas se entreolham parecendo compartilhar um pensamento e várias vezes trocam de grupos, sempre comentando algo logo depois – como ele conseguiu ver isso em tão pouco tempo? – Além disso, suas roupas são diferentes, mas tem o mesmo tom de azul e cinza escuro e seus sapatos são exatamente iguais, como se tivessem vindo preparados para correr ou lutar.
_ Eles podem ter comprado na mesma loja... – noto seu semblante divertido de novo, quando olha em minha direção, numa censura jocosa, de modo que me apresso em explicar: – é serio! Eu não entendo dessas coisas, mas a Ino vive me falando sobre moda. Deve ser assim que funciona, não?
_ Vem, eu te acompanho até em casa – ele me ajuda a levantar, ainda sorrindo.
_ Mas eu não quero ir agora – protesto –, estão todos se divertindo.
_ O que você quer fazer então, Sakura?
Ele tinha resolvido ceder aos meus pedidos por ficar, talvez tenha se lembrado de que não precisava mais me proteger, e contorce a boca por debaixo do tecido que lhe cobre quase a face toda, fingindo um esforço enorme para pensar em alguma coisa. Acho que era algum tipo de brincadeira, porque pareceu satisfeito quando eu ri de sua careta. Disse, por fim:
_ Tenho uma ideia – e flexiona seu braço perfeita, mas não exageradamente musculado, fazendo um espaço triangular para que eu me apoiasse ali, o que fiz. Em seguida conduziu-me até o meio do bar, onde alguns casais dançavam e fomos seguindo o ritmo da música, tentando imitá-los. A princípio a balada um tanto agitada nos permitia certa distância, mas é trocada em seguida por uma melodia mais lenta, que exigia toques mais próximos dos corpos que dançavam. Kakashi me olha, então, com o olhar como pedindo-me permissão, que eu concedo, para tocar-me a cintura. Apoio meus braços envolta de seu pescoço e, embora tenhamos ficado desconfortáveis durante alguns segundos, bastou com que nossos olhares se cruzassem para que nos esquecêssemos de tudo. Éramos, por aqueles dois minutos de música, apenas só nós dois, perdidos na vastidão despovoada de nossos pensamentos; não nos desviamos nem por um instante sequer. Dentro do mísero espaço – que pedia tão insistentemente para sumir – que havia entre nossos corpos, éramos a perfeita sincronia, mas imaginei que não era isso o que se percebia de fora dele; shinobi como nós não têm tempo para aulas de dança. Apesar do provável mico, nos divertimos bastante.
Depois de algumas músicas assim, eu me canso bastante e começo a bocejar, tombando vezes demais minha cabeça em seu peito – que coragem você ganha depois de alguns copos, hein garota? -, de modo que ele se propõe a levar-me para casa mais uma vez e eu aceito. Não sei por quê fiz isso e acho até que o deixei bastante sem graça, mas antes de entrar em casa, ao despedir-me, dei-lhe um beijo demorado na bochecha. Não me atentei ao seu rosto, mas tive a impressão de que seus pelos da face se arrepiaram baixo os meus lábios.
Não sei por quanto tempo dormi, meia hora, menos? Um estrondo alto me acorda – virou rotina é? – e gritos assustados me despertam. Pulo da cama, já não tão zonza ou sonolenta como antes, pela adrenalina que enche meu corpo, e visto-me correndo – havia dormido exatamente como chegara em casa. Assim que saio do quarto deparo-me com meus pais saindo do seu, assustados. Pergunto-lhes se sabem o que está acontecendo, mas não fico para ouvir a resposta; é claro que eles não sabiam, não faziam parte do mundo ninja, eram apenas comerciantes.
Começo a correr, meus pés sabendo para onde iam, embora minha cabeça não estivesse pensando muito a respeito. Mal dobro a esquina da rua principal, que dá para o portão de entrada da aldeia, que está arrebentado, por sinal, e já vejo o tumulto: há ninjas correndo para todos os lados, preparando-se em formações, carregando armas de um lado para o outro, levando civis para lugares mais seguros... De fora dos portões a cena não era tão diferente, ainda que bem mais calma. Ali, acumulado na estrada, estava um grupo de aproximadamente quarenta shinobi da Aldeia da Grama e mais uns dez da Aldeia da Pedra – do País da Terra –, todos vestidos de preto. Tinham uma postura calma e pareciam aguardar alguma coisa, no entanto não era como se todo aquele exército tivesse se deslocado até aqui apenas para uma conversa e um chá com bolinhos.
_ Sakura-chan! – era Naruto que vinha atrás de mim. – Estávamos procurando você.
Ele faz um sinal com as mãos para que o seguisse e nos encontramos mais a frente com Kakashi, que parecia bastante aflito, conversando com um velho. Pararam de falar assim que nos aproximamos, mas não me importei.
_ Estamos montando uma formação, as equipes Kurenai e Gai também estão conosco – avisa nosso líder, ao mesmo tempo em que se despede silenciosamente do senhor ao seu lado –. Vocês, por favor, tomem suas posições, podemos precisar atacar ou defender a qualquer momento.
_ Vamos colocá-los em seu lugar! – grita Lee, entusiasmado como sempre.
_ É isso aí! – comemora Naruto.
Faço como me foi instruído e me preparo atrás de Neji e à esquerda de Hinata, conferindo minhas facas kunai e shuriken. O que está acontecendo? Não tínhamos tudo sob controle? Será esse o primeiro erro de estratégia de Shikamaru? Olho para ele, agachado com as mãos em sua posição típica e os olhos fechados; a sua volta outros capitães de guerra discutem em médio tom. Nenhum deles parece tão confiante como Temari havia sugerido antes. E Tsunade onde está? E Jiraiya? Preocupo-me mais um pouco e volto minha atenção novamente aos nossos inimigos, franzindo o cenho. O tumulto começa a cessar do nosso lado, à medida que nos organizamos. O que parece ser o mandante do outro time se move, com seu enorme cabelo cor de fogo esvoaçando a cada passo dado à frente de seu pelotão, na clara intenção de falar-nos:
_ Vila Oculta da Folha, finalmente nos reencontramos – faz uma pausa, quase que solene, como se o que acabara de dizer fosse autoexplicativo, mas eu não pego a referência. Olho para meu antigo sensei, muito atento ao que aquele homem diz. Será que ele sabe do que se trata?
O forasteiro continua:
_ Imagino que, se estão tão aflitos, é porque sabem que esta não será tão amigável quanto nos foi a sua visita, meses atrás – ele fala com amargura e tenho medo do que significam suas palavras –. O primeiro erro de vocês foi terem se precipitado. Resolvemos, então, como bons vizinhos, acatar sua vontade sobre nossos aliados – ele aponta para o grupo de shinobi da Pedra com certa ironia no tom.
Uma breve pausa e o homem desfaz seu sorriso amargo e seus olhos se enfurecem, envolvendo-se de um tom arroxeado. Outros dois se aproximam dele, posicionando-se um de cada lado seu, com os olhos da mesma cor. Os três erguem os braços simultânea e lentamente no que suponho – e confirmo, logo depois, pela energia que flui por seus corpos, fazendo voar seus cabelos e roupas – ser uma concentração de chakra.
_ O segundo foi ter nos subestimado – outro sorriso, dessa vez de loucura, se forma no rosto dos três e seu líder brada, em alto e bom som: – Agora vocês vão se arrepender!
