CONSERTANDO O ERRO - SAKURA
Assim que aquelas palavras foram proferidas, nós assistimos aos três homens executarem rápidos e muitos sinais de mãos, enquanto a energia de seu chakra eletrizava todo o lugar e zunia nos ouvidos de todos. Atentei-me ao máximo, esperando qualquer movimento antes de agir, para interpretar seu estilo de luta e descobrir a melhor maneira de evitar e rebater os ataques. De repente, eles tocam forte o chão, fazendo um estrondo seco com a palma da mão, e espero que anunciem um jutsu de invocação, mas isso não acontece: nenhuma palavra é dita e aquela energia se dissipa quase que instantaneamente. Agoniantes segundos de silêncio se arrastam pelo terreno, sem que nenhuma pessoa ou criatura ouse interrompê-lo – nem mesmo Akamaru, que, até pouco tempo, rosnava algumas posições ao meu lado –, mas não me permito baixar a guarda.
O exército inimigo continua na mesma posição e os três homens estão ainda com as mãos no chão quando sinto a terra baixo meus pés começar a vibrar. Pergunto-me que bicho sairia de debaixo dela. Logo a onda se distingue, aumentando de volume, e percebo que o que quer que a esteja provocando está vindo por trás. Alguns de meus amigos se viram e eu repito o seu gesto, com a mente mais barulhenta do que nunca. Como o Inimigo pode estar vindo daquela direção? Como se infiltrou na aldeia sem que percebêssemos? O som agora está claro e só se intensificando: são passos, muitos passos. O contingente de pessoas donas daquela marcha logo aparece no horizonte, ao mesmo tempo em que o sol também o irrompe, fazendo-me finalmente notar que o dia amanhecia. Levanto a mão direita, que já segurava firme uma kunai, a fim de fazer algo de sombra e facilitar-me enxergar os cerca de vinte ninjas a mais que nos havia cercado. Estremeço não mais reconhecê-los. Será possível?
_ Pai!
Neji segura sua prima pelos braços, impedindo-a de correr, e ela cai de joelhos com as lágrimas rompendo sem pudor algum sua anterior determinação. Olho para ela, que tenta gritar, mas parece que sua voz sumiu, assim como seu fôlego. O semblante dos meus outros amigos não era muito diferente, estávamos todos ou assustados ou incrédulos ou ambas as coisas, incluindo Naruto e Lee, que a essa hora já teriam ido para cima do oponente.
_ Não é seu pai, Hinata. Não mais.
Dirijo novamente meu olhar para o exército a nossa volta. Neji tinha razão, eles se pareciam com nossos parentes, nossos amigos, mas não os eram. Ali só estavam seus corpos, comandados por não-sei-que-jutsu, vazios da alma que havíamos amado em outra época. Agora era preciso olhar no rosto das pessoas que tínhamos enterrado durante a Quarta Guerra Ninja e todos os calmos anos anteriores e reprimir qualquer saudade, dor ou culpa que sentíssemos ao desferir neles nossos golpes. Eu não podia acreditar no que estava vendo. Até para Orochimaru, aquilo seria um golpe baixo, maldade demais. O que será que fizemos para provocar isso?
Surpreendo-me quando vejo Naruto caminhando lentamente por entre nós e se posicionando a nossa frente, realmente disposto a lutar por nós contra o que parecia ser outra parte de nós mesmos. É verdade que ele não tinha nenhum parente ali – nem mesmo sabia quem eram seus pais, quanto mais se estavam ali ou não –, mas sua empatia era grande demais e sua alma, boa demais para que ele simplesmente não entendesse ou mesmo não sentisse toda a nossa dor. Além disso, entre aquela massa de mortos-vivos também estavam os amigos por quem choramos até pouco tempo.
Com o exemplo do menino loiro, fomos nos recompondo e divindo nosso grupo entre as duas frentes de batalha inimigas. Naruto, eu, a quipe de Gai e mais alguns ninjas ficamos com os zumbis e, embora ainda não fizéssemos ideia de como lutaríamos contra eles, alinhamo-nos em uma posição que pareceu a melhor opção. Kakashi, cujo Sharingan não funcionaria com os mortos; Hinata, que não conseguiria lutar contra o que quer tenha tomado o controle do corpo de seu pai; e os outros ficaram com os shinobi da Grama e da Pedra.
Algum tempo ainda de silêncio permaneceu nas duas arenas que se formaram, tempo em que apenas as ameaças silenciosas dos olhares – alguns furiosos, alguns transtornados, e havia até mesmo aqueles ainda sonolentos – se atacavam. Ouvi barulho de pessoas correndo atrás de mim e deduzi que os estrangeiros finalmente saíram de sua posição inicial e tomaram os primeiros assaltos. Logo depois, os corpos sem vida de nossos antigos amigos começaram a se mover rapidamente em nossa direção, ao que respondemos em mesma velocidade e grau, tentando afastar o peso que aplastava nossos corações. À medida que a batalha avançava, sons de facas, espadas, socos, chakra e gritos enchiam todo o ambiente e me faziam lembrar de todas as lutas que tive anteriormente. A morte estava novamente presente: agarrava-me os pés e os braços como se nunca mais fosse soltar e tomava conta de mim, enquanto eu tentava afastá-la com a raiva que, na verdade, só a aproximaria.
Estou lutando, faz alguns bons minutos, com uma mulher que não conheço, mas que parece ser muito forte, pois desvia de todos os meus ataques. Tento não prestar muita atenção em seus olhos inertes, imaginando que, mesmo que lhes prestasse alguma atenção, não me seria mais fácil anteceder seus ataques, que deviam estar sendo comandados a distância. É quando consigo acertá-la em cheio no estômago com um de meus socos enriquecidos de chakra. Ela sai voando por vários metros até bater de costas numa árvore, que se rompe ante a força do meu ataque. Não fico para saber se ela vai se levantar e viro-me a tempo de impedir que Naruto fosse apunhalado pelas costas, ao mesmo tempo em que ele afasta com seu Rasengan outros dois ninjas com quem lutava. Ele então faz mais três clones da sombra para suprir os que já tinham sido eliminados e se vira para mim com um agradecimento silencioso, voltando, depois, depressa para a luta.
Penso em dar um grande soco no chão, como costumo fazer, para desestabilizar os inimigos e quem sabe até acabar com alguns, mas desisto ao perceber que seria perigoso demais para com os meus amigos, que estavam muito envolvidos pela luta. Percebo movimentos atrás de mim e me atento a eles, bloqueando imediatamente o ataque de outro zumbi e cravando duas facas kunai em seu peito. Ele apenas cambaleia para trás, mas logo se recompõe e investe novamente contra mim, ainda com as facas em seu corpo. A cena é bizarra o suficiente para ligar algo dentro do meu cérebro. Como eu não pensei nisso antes? Deixo que a impaciência tome conta de mim e concentro um pouco de energia em meu calcanhar esquerdo, girando sobre o outro e acerto, combinando um movimento de taijutsu que Lee havia me ensinado com a minha força banhada de chakra, o lado do corpo do meu oponente que também sai voando para longe.
_ É inútil! – grita Tenten ao meu lado, lutando com dois zumbis, parecendo desesperada ao imaginar o que eu já me havia dado por conta. Corro para ajudá-la – Eles não lutam com chakra ou força física, não se cansam!
_ Eu sei – digo, nutrindo a raiva conhecida e em vão rejeitada por mim e afastando mais um inimigo.
Nesse exato momento, minha amiga cai ao meu lado com um grito afobado de dor, levando ambas as mãos à barriga. Corro até ela apenas para me preocupar mais ao vê-la tirando uma faca do estômago e tentando parar o sangue que lhe mancha a blusa e escorre, como se desesperadamente, por entre seus dedos. Tento afastar suas mãos para que meu jutsu curativo seja mais eficiente, mas ela reluta, de modo que o realizo por sobre suas mãos mesmo, rezando para que seja suficiente. Ela balbucia algo e peço que não tente falar porque seu estado pode ser grave, entretanto ela não me ouve e apenas repete, com o cenho franzido em dor, um pouco mais alto: Lee. Olho em volta procurando-o. Quando o encontro, ele já percebeu o que tinha acontecido e interrompe, já no ar, sua técnica Sombra da Folha Dançante, caindo com habilidade no chão e correndo até nós. Seu inimigo, porém não teve a mesma sorte, única de quem depende um morto-vivo, caindo de cabeça no chão. Quando nosso amigo chega onde estamos, debruça-se preocupado sobre Tenten e ela sorri. Esperamos até que eu pare a hemorragia, Lee protegendo-nos de ataques-surpresa, e depois a levamos dali. Assim que passamos por Naruto, deixo que os dois sigam sozinhos.
_ Naruto, preciso da sua ajuda. Acho que já sei como acabar com isso!
Dirigimo-nos, então, com certa dificuldade, até onde estava acontecendo a outra metade da luta, que parecia incrivelmente mais difícil que a nossa. É quando eu confirmo minhas suspeitas: atrás de todo o movimento que acontecia ali, estavam os três homens do início, a salvo de todo o tumulto e concentrados, com os olhos fechados e as mãos unidas à altura do peito, na posição característica de qualquer jutsu que precise ser segurado por muito tempo ou controlado de longe. Fiz sinal para que parássemos e apontei para os três. A princípio Naruto não entendeu a quê exatamente eu me referia, mas, logo que os viu naquela posição, fez um sinal de afirmação com a cabeça e eu agradeci por não ter de explicar. Ainda precisávamos definir uma estratégia. Lembrei-me de quando Orochimaru usou algo parecido contra o Terceiro Hokage e duvidei que shinobi fracos conseguissem realizar um jutsu de tão grande porte como era aquele. Com certeza não seria fácil chegar até eles e mesmo depois que conseguíssemos, ainda teríamos de enfrentá-los.
_ Talvez não sejamos suficientes para derrotá-los, mas, se pelo menos conseguirmos atrapalhá-los, pode ser que o jutsu se quebre – digo.
_ O que pretende fazer?
_ Qualquer coisa!
Ele assente, reunindo ainda mais garra e recomeçamos a correr. Enquanto não chegamos, procuro com os olhos cada um de nossos amigos e acho que Naruto está fazendo o mesmo. Ino está bem, e Chouji e Sai. Hinata ainda parece muito assustada e várias vezes também, perdida, mas não está com muitos problemas. Kiba e Akamaru acabaram de executar o Presa Sobre Presa e, pelo seu cansaço, imagino que não seja a primeira vez. Então meus olhos pousam sobre Kakashi. Está usando seu sharingan e deve ter perdido sua bandana porque não a tem em sua testa. Também abaixou a máscara, noto, provavelmente para respirar melhor, já que sua batalha parecia realmente muito desgastante. É então que ele prepara seu Chidori e avança para o inimigo, que desvia de última hora. Mas Kakashi é esperto: assim que passa pelo oponente, gira rapidamente no ar e transfere o golpe para sua outra mão, da qual o homem não consegue desviar por estar de costas. Esse é o Kakashi que eu conheço! Com um movimento bem estudado, é capaz de acabar uma luta em segundos. Sinto-me orgulhosa por breves momentos e então me centro no importante novamente. Em outras circunstâncias, eu teria ficado muito curiosa em ver mais de sua luta e mesmo de seu rosto, mas agora a preocupação era grande demais e nenhum de nós tinha tempo para essas bobagens. Não sei se Naruto também prestou tanta atenção quanto eu, mas, se sim, tampouco se distraiu com isso.
Minutos depois, conseguimos passar por todos, rodeando ao máximo o campo, sem nos envolver demais em nenhuma das brigas e alcançamos o trio. Imediatamente, eles percebem a nossa presença, porém, como se não fôssemos muita ameaça, não fazem mais que abrir os olhos e encarar-nos. Devolvemos-lhe o olhar assim que paramos em sua frente. Eu realmente não sabia o que fazer e o fato de que eles não estavam interessados em lutar não ajudava em nada. Acho que eu deveria ter pensado numa estratégia melhor do que simplesmente chegar aqui achando que qualquer coisa serviria para tirar-lhes a atenção do que estavam fazendo. Martirizo-me, tentando pensar rápido em uma boa pedida, enquanto espio Naruto para ver se ele está se saindo melhor que eu. Para meu alívio ele parece ter uma ideia, que me conta:
_ Podemos tentar aquela técnica que estávamos treinando.
_ O quê? – surpreendo-me – Mas ela ainda não está pronta!
_ Você tem uma ideia melhor? – faço que não com a cabeça olhando para nosso objetivo, à frente, um pouco envergonhada de momento.
_ Acha mesmo que vai dar certo?
_ É a nossa única opção.
Meu melhor amigo cochicha algo em meu ouvido. Levo alguns segundos para processar a informação e imaginar ficou tudo planejado, posicionamo-nos e eu espero Naruto anunciar minha deixa. Seria bastante engraçado para qualquer um que assistisse a cena do lado de fora: de um lado, três homens calmos que mais pareciam estar meditando que executando um jutsu de guerra; de outro, dois pirralhos crescidos discutindo termos de sua próxima pirraça para com os adultos. Sorrio ironicamente de lado e logo depois sacudo de leve a cabeça, na tentativa de afastar esses pensamentos bobos, voltando à concentração bem a tempo de que me fosse dado o comando que eu esperava:
_ Sakura, agora!
Não esperei ouvir o "agora" para começar a concentrar a minha energia em minha mão esquerda, enquanto Naruto faz um clone da sombra, que logo começa a trabalhar em sua mão direita, rodando nela seu chakra com a mais alta velocidade. Logo que acaba, faz com que seu clone desapareça, e eu me junto a ele, fundindo nossos chakras em um só ataque, numa corrida em disparada até nosso alvo: tínhamos escolhido o homem da direita, que era bem mais novo que os outros dois e, por isso, imaginamos que fosse menos experiente. No entanto o que temíamos acontece: passamos reto, como se tivéssemos simplesmente errado o caminho. Ele contornara nosso ataque com a maior facilidade e nós fomos direto bater numa rocha atrás dele. Se pudéssemos contar com a surpresa, já que era um ataque muito chamativo e não tão rápido como gostaríamos, teria sido o ataque perfeito, pois o nosso Kumiawasa-Rasengan destruiu a pedra por completo e ainda abriu um enorme buraco no chão onde ela estava. Mas agora havíamos falhado.
Cambaleio para o lado, desnorteada por ter usado já tanto de meu chakra, mas o menino dos cabelos loiros, cuja visão tão familiar sempre me tranquilizava, continuou ali, parado, sem nem piscar os olhos, tamanha era sua frustração. Volto minha atenção novamente aos nossos inimigos, mas eles não têm interesse nenhum em nós, já nem mesmo nos olham. Surpreendo-me por não me enfurecer e, ao invés disso, decepcionar-me comigo mesma e desesperar-me com nossos amigos. Tento reprimir as lágrimas que teimam em inundar-me os olhos e só consigo quando preciso me preocupar com Naruto, que começou a se encher de sua determinação furiosa característica. Pensei, por um instante, que fosse a Kyuubi, mas me enganei: era mesmo o meu amigo, cuja força de vontade e confiança haviam voltado para o lugar de onde nunca deveriam ter saído. Ele, então, brada um grito de guerra que só pode ter sido tirado do fundo de seu diafragma, devido à sua força, e realiza o seu mais conhecido movimento de mãos. De repente, centenas de Narutos aparecem, enchendo todos os cantos possíveis, até que eu não consigo mais saber quem era o verdadeiro ou mesmo enxergar nossos três oponentes. Sorrio alegre e travessa: alegre pela grande quantidade de energia disponível que tem meu amigo; e travessa por pensar que, finalmente, o semblante arrogante dos invasores deve ter dado lugar a um bem mais preocupado.
No entanto minha alegria não dura muito. Apenas se iniciara a ofensiva instintiva de Naurto, que os clones começaram a desaparecer um após o outro. Estico o pescoço para cima, procurando, em vão, descobrir, no meio de toda aquela confusão, como aqueles homens estavam conseguindo contra-atacar sem desfazer o jutsu que prendia e cansava nossos amigos do outro lado do campo de batalha. O número de Narutos começou então a diminuir drasticamente e eu fiquei com medo mais uma vez de todo aquele esforço ser em vão. Meu coração acelerava cada vez mais e a agonia de não entender o que estava acontecendo piorava tudo. Eu precisava fazer alguma coisa e rápido!
Afastei-me a passos largos de todos aqueles Narutos, ao mesmo tempo que concentrava o máximo que podia do meu chakra, dessa vez sem me preocupar em deixar um pouco para depois. Eu sabia que aquilo poderia machucar meu amigo e realmente temia que isso acontecesse, mas e a vila? O que aconteceria se, por acaso, perdêssemos essa batalha? Seguia sem acreditar que o maior estrategista que conheci pudesse ter cometido um erro tão grande e grave. Não, de jeito nenhum posso deixar que esse erro se confirme e que sejamos escravizados ou mortos ou sei-lá-o-quê! Quando sinto a palma de minha mão formigar e queimar de tanta energia, desfiro o soco mais forte que consigo no chão. Assim que os nós dos meus dedos tocam o local, centímetros à frente dos meus pés, sinto todo o terreno estremecer com vontade, como se a mãe natureza fosse a própria responsável por tamanha fúria que rompia as entranhas de seu corpo.
Num instante todas aquelas cabeças douradas desapareceram como fumaça, mas não pude ver muito mais pela poeira que pairava no ar do que eu tinha causado. Além disso, uma tontura assustadora toma conta de mim, na mesma proporção em que meus membros inferiores se tornam tão pesados que já não mais se suportam. Caio de joelhos no chão e, em seguida, meu tronco também se desequilibra e desaba para o lado, fazendo a minha impossibilidade de mover os braços em resposta bater forte com a cabeça. Imediatamente percebo minha visão turvar-se toda. Pisco com força, mas isso só faz com que ela pese ainda mais, enegrecendo-se agora. Sentindo um sono insistente e repentino apoderar-se de mim, deixo que minhas pálpebras se fecharem e é quando ouço a voz dele, soltando um pequeno suspiro aliviado: "Naruto", acho que tentei dizer, mas a verdade é que eu já ficaria satisfeita somente com tendo conseguido sorrir.
