O INIMIGO DESISTE? - KAKASHI

Aqueles foram dois dias sem vento, que decerto ficou triste pelo sumiço da menina e se sumiu igual. Mas, nessa madrugada, como que parecendo ter previsto que ela despertaria, resolveu dar os ares de sua graça, que é bem verdade que a todos faz falta por causa do nosso clima. Passou assobiando por entre os prédios, anunciando sua vinda, e entrou pela janela que eu havia aberto para amenizar a noite quente que fazia, balançando a barra das cortinas; foi reto brincar naqueles cabelos cor-de-rosa que pendiam levemente bagunçados sobre o travesseiro. Fiquei pensando se sua dona conseguiria sentir as cosquinhas que imaginei que aquilo dava.

Confesso que fiquei muito preocupado quando soube que ela havia desmaiado em plena luta, tanto que me ofereci para acompanhá-la no hospital pelo tempo que fosse preciso. No fim, acabei tendo que aceitar revezar os dias com Naruto, achei que ele também estivesse preocupado com sua melhor amiga. Hoje, essa tarefa finalmente me coube e agora ver suas bochechas rosadas dormirem com a mais bela paz, pese ao que passaram, me tranquiliza como nenhuma outra coisa. Era estranho o clima que havia se formado na vila depois daquele ataque ironicamente tão temido quanto inesperado: as pessoas não se confiavam mais e até o sono também tinha medo de se chegar.

Quando Naruto me disse que a menina tinha usado praticamente todo o seu chakra no golpe que desfez o jutsu que nos havia separado em dois bandos, quase não acreditei. Não que eu duvidasse de sua força, de jeito nenhum, mas nunca pensei que ela tivesse tanto altruísmo dentro de si mesma. Isso me fez sorrir, de alguma forma, ainda que sem abandonar a inquietação. É preciso muito disso para arriscar a vida pelos demais e mais ainda por uma aldeia que provoca conflitos desnecessários como anda fazendo. É claro que ela sempre fora um doce, mas estava sempre tão metida em brigas com os meninos, que nunca imaginei que pudesse guardar um sentimento assim tão nobre... O que mais esconderia essa garota?

Há de se ter muito valor, com certeza. "Você foi muito corajosa, Sakura.", digo baixinho, que é para não despertá-la do sonho que a faz sorrir logo que falo, como se me respondendo. Deve ser um sonho mesmo muito bonito para fazê-la sorrir assim de graça para o teto. Invejo a pequena aranha que passeia por sua teia recém-tecida no canto sobre a cama da menina, deveras incansavelmente rasgada todos os dias por quem fosse o encarregado por limpá-la dali, único bicho vivo que quiçá pudesse dizer que Sakura, em verdade, lhe sorria.

Estranho-me por estar tão melancólico ultimamente no exato segundo em que a minha antiga aluna solta um suspiro fundo, daqueles de gelar o peito do tanto que se infla e fazer a gente sorrir por isso. Ela pisca algumas vezes, bem rapidinho, como um bebê que ainda não se acostumou a abrir os olhos, e, logo que suas pálpebras revelam aqueles lindos olhos verde cor-de-esmeralda, ela os vira procurando qualquer coisa que minha cabeça tem a petulância de desejar que fosse eu quando os pousa sobre os meus. Dar-me um sorriso de lado é o que faz logo em seguida e já não quero mais ser a tal da aranha.

_ Você acordou – digo com a voz macia em intenção desconhecida, ao que ela não responde porque não foi uma pergunta –. Está com fome?

Depois de algumas mordidas na maçã que lhe ofereço, Sakura me pergunta o que eu fazia ali, mas eu não sabia direito como responder a isso. Acabo dizendo do revezamento, o que algo dentro de mim jurou ser somente uma meia verdade. Depois as questões foram por Naruto e nossos outros amigos:

_ Estão todos bem. Tenten ainda está se recuperando do ferimento, mas a sua ajuda imediata em campo de batalha fez, com certeza, toda a diferença no tratamento – ela sorri –. Neji torceu o pé, Kiba quebrou o braço e Kurenai desmaiou. Alguns outros ninjas também se feriram, uns mais gravemente que outros; felizmente não perdemos ninguém.

_ Acho que ter o hospital por perto é o único ponto bom de lutar em casa... – preferi não responder e ela não pareceu esperar que o fizesse - Que bom que conseguimos vencer...

_ Bom, tecnicamente, nós não vencemos – ela me franze as sobrancelhas e me noto preguiçoso de contar-lhe tudo o que tinha acontecido, até mesmo porque eu nem sequer estou seguro de nada que anda acontecendo. Odeio isso! Mas agora que comecei, ela insistiria até que lhe contasse tudo.

_ O que quer dizer?

_ Alguns dizem que foi sorte, eu desconfio. Não se desiste assim de uma luta...

_ Eles desistiram? – ela parece incrédula e não é para menos.

_ Sim – decido explicar de uma vez, coçando, sem graça, a parte de trás da cabeça por ter enrolado tanto –. Você conseguiu melhorar a nossa situação com aquele soco, que eu confesso ser o mais forte que já vi em toda a minha vida – ela ruboriza com o adendo –, mas ainda seria uma batalha bastante longa e desgastante. Acontece que, de repente, eles começaram a recuar. Não pude ler o que se passava na mente deles, já havia usado meu sharingan por tempo demais e estava exausto – sim, isso não me deixou nada satisfeito... –. O que posso dizer é que seu líder parecia desesperado por ir-se logo daqui.

_ Talvez eles tivessem percebido que não nos venceriam.

_ É o que o Gai diz; eu duvido. Estava tudo muito equiparado, não dava para dizer com certeza ainda qual dos lados venceria. Além disso, a sua vinda até aqui parecia ser coisa planejada, como se só estivessem esperando o momento certo, que a nossa festa pareceu proporcionar – reprimo-me para não dizer mais, lembrando-me que não convém difundir assim todas as minhas desconfianças, já que poderia ser perigoso não só para mim.

_ Pensando bem, o que aquele homem disse era mesmo muito estranho. Nós fizemos alguma coisa para provocar isso, Kakashi?

Salvo pelo gongo! Ou melhor, pela loira cansada que mal conseguia manter seu jutsu de juventude e que entrava pela sala a passos arrastados. Eu estava a ponto de soltar uma mentira tão mal contada que, certamente, me obrigaria a esclarecer coisas de que eu não gostaria à curiosidade da menina, que continuou me olhando como se prometesse a si mesma o lembrete de me interrogar mais tarde. Eu, enquanto isso, tentava esconder meu alívio.

Tsunade veio até o pé da cama de Sakura e colocou a mão em sua testa ao mesmo tempo em que abria a boca para um longo bocejo. O "bom dia" ausente de seu gesto me fez lembrar de que pouco me impedia de ter mais um pé atrás com ela.

_ A febre não voltou – falou ela, finalmente. Mais parecia querer quebrar o gelo que comunicar-se de fato. Às vezes sinto pena dela, antes tão amável...

_ Quando poderei sair daqui?

_ Hoje mesmo. Pedirei que algum médico dê uma olhada em seus exames e, se estiver tudo em ordem, assinarei sua alta – uma pausa –. Você já comeu?

A intenção da pergunta talvez fosse boa, não fosse a frieza de sua postura e expressão, que não parecia concordar com isso. Sakura apenas ergueu a mão direita, mostrando-lhe o talo da maçã, que já se ia oxidando e amarelando. A Hokage assentiu, firme, voltando-se para a saída do quarto e quase desaparecia pela porta quando parou, repentinamente.

_ Sakura... – ela disse sem olhar para nenhum de nós – fico feliz que tenha acordado.

Aquilo me pegou de surpresa. Acho que a nós dois. Passaram-se alguns segundos e, como não respondêssemos, ela partiu, ao lado de Shizune, que não entrara no quarto.

A notícia de que Sakura havia acordado não demorou em correr, pois logo os enfermeiros estavam ficando loucos tentando impedir que todos os seus amigos entrassem ao mesmo tempo no pequeno quarto de hospital - os meninos gritando em discussão sobre quem a veria primeiro. A minha intenção era de ajudá-la a organizar suas coisas na mochila para ir embora, mas o tumulto acabou me impedindo de fazer isso, de modo que apenas acenei com a cabeça para ela, enquanto ela me lançava uma silenciosa súplica por livrá-la de todos aqueles mimos exagerados e perguntas inconvenientes.

Depois disso, não vi mais nenhum deles e imaginei que estivessem numa festinha de boas vindas ou algo assim. "Essas crianças de hoje... A garota acaba de sair de dois dias de coma e já lhe preparam um porre!", rio com o pensamento. Meu resto do dia foi tranquilo. Recebi uma visita de Iruka, comunicando-me que nos reuniríamos novamente àquela noite e esperar por ela foi o que fiz. Tsunade ainda queria que descansássemos e, embora nunca fosse possível que eu assim fizesse com tudo o que está acontecendo e todas as dúvidas que me rondam a consciência, tentei seguir o que esperava que fosse um conselho seu – e não uma ordem. Mais tarde, tomei um banho calmo, comi um pedaço de pizza que estava na geladeira não-sei-desde-quando e saí pelas ruas, calmo porque ainda faltava muito para o encontro – sim, para a Aliança eu me esforçava em não atrasar.

Um vulto escuro espreita-se pela sombra que faziam as paredes de duas casas ao meu lado, provavelmente um gato agradecendo por pensar que eu não o tivesse notado. Fora meu pequeno espião felino, era uma noite calma na Folha: a lua, que se escondia atrás das poucas nuvens que nublavam levemente o céu escuro, já dava claros sinais de ter saído de sua fase cheia e agora minguava a cada noite; as poucas janelas acesas nas casas, das quais, em outros tempos, era possível escutar montes de ternos "oyasumis", mas que agora estavam assustadoramente silenciosas, iam-se apagando aos poucos; algumas pessoas enfeitavam as ruas ainda, a maioria delas bêbada ou metida em brigas de bares, os quais estavam cada vez mais cheios de vícios e seus adictos.

Cego quem não visse a tristeza e desesperança que nos acometia, apesar de que eu tivesse certeza de que outras nações e vilas mais pobres estivessem em pior situação. Muito da verba de nosso Estado e também de nossa cidade, antes destinada a funções sociais, agora estava toda concentrada para arsenais e exércitos. Não que isso fosse novidade, desde a última grande guerra que estamos assim, mas a continuidade dessa política só piorava as coisas, por mais que nos mantivesse minimamente protegidos de ameaças externas. O fato é que o desemprego aumentou com tudo isso e várias pessoas se viram na necessidade de realizar qualquer tipo de trabalho sujo para sobreviver, em especial as mulheres, cuja única oportunidade era prostituírem-se. Em oposição, estavam os mais abastados – aqueles que ainda não haviam falido –, esbanjando dinheiro em casas de jogos, apenas para ilustrar sua também doentia desesperança...

"Mas que saco, eu não aguento mais!", pensei, me referindo ao maldito gato, que eu sabia desde o início que mais bem seria uma gata – eu deveria reprimir mais essa observação? –, mas também sabendo que a frase teria um interessante duplo sentido e rindo-me por dentro com isso. Sério, ela realmente tinha ido mais longe dessa vez, conseguiu me enganar por tanto tempo que eu agora estou me roendo de curiosidade para saber por que me segue. Deve estar mesmo muito empenhada com o que quer que lhe esteja pulando nas orelhas, porque, nem quando me perseguia a fim de tentar descobrir-me o rosto, conseguia ser tão cuidadosa. Mas eu conhecia bem aquela respiração baixinha, aqueles passos suaves, e – pô! – a roupa toda preta até ajudaria à noite, mas com aquele cabelo? Ela não pensaria poder me enganar para sempre, não?

Contive minha vontade de virar-me e perguntar de uma vez o que fazia ali, resolvendo seguir meu caminho por mais um tempo e depois pegá-la desprevenida. Afinal, pode ser que ela tenha desconfiado de que eu a tivesse percebido. Contudo, não poderia me aproximar demais do local marcado para a reunião do grupo e arriscar que ela descobrisse. Passei os olhos, sem virar a cabeça, pelas ruas que se seguiam transversais à que nos encontrávamos, procurando a perfeita hora de surpreender a garota.

De repente, algo me faz parar e quase em uníssono aos meus passos o caminhar da gata atrás de mim também para: é um cheiro bastante conhecido. Não entendi meus instintos no momento, mas tampouco ousei discutir com eles. Apenas imprimi a maior velocidade que pude, agarrando minha seguidora pela cintura e escondendo-nos em uma viela estreita, mal iluminada e mal cheirosa que dava para os fundos de um bar bem a tempo de escapar dos olhares atentos dos guarda-costas de Tsunade. Ela estava acompanhada de Jiraiya e Shikamaru, com quem discutia em tom sigiloso, pelo que tive que me esforçar para ouvir:

_ Então eles ainda não descobriram? – ela diz, parecendo escolher as palavras, ao que assente o mais novo e bem sucedido estrategista da vila.

_ Estão desesperados, mas fomos extremamente cuidadosos. Pode ser que desconfiem de nós, mas jamais encontrarão prova alguma.

_ E nosso prisioneiro?

_ Continua sem saber o que se passa.

_ Ótimo – faz uma breve pausa –. Descobriu alguma coisa sobre a tal organização?

Nesse momento eu gelei. As dúvidas invadiram minha cabeça em uma fração de segundo, trazendo uma pontada de dor acima da minha sobrancelha direita. Não podia acreditar que eles tivessem descoberto algo. Mas como? Onde estavam seus espiões para que nunca os tivéssemos percebido? Será que havia alguém infiltrado entre nós? Quem? O suspense que fazia Shikamaru, me provocava ainda mais; tive que lutar com meu corpo para que ele não se inclinasse mais para frente ou mesmo corresse na direção deles, na ânsia que sentia por saber logo do que se tratava tudo aquilo.

_ Nada mais, depois do que descobrimos.

A coisa piorou quando ouvi meu nome:

_ E sobre Kakashi vocês descobriram algo?

_ Estamos de olho nele. Sabemos que ele está, de alguma forma, ligado a essa conspiração, mas ainda não temos certeza.

Ela assente, Jiraiya apenas observa e eu estremeço. Shikamaru hesita em sua menção de falar, no entanto decide se pronunciar:

_ Tsunade-sama – e agora ele soava apreensivo –, precisamos fazer algo quanto a isso. Poderia ser perigoso para nós, em especial se essas pessoas decidirem subverter os cidadãos a confrontar nossas decisões. Talvez se aceitássemos as instruções dos anciãos conselheiros de instituir o to...

A Hokage levantou a mão, em gesto que o mandava silêncio, ao qual ele responde imediatamente, apenas me deixando furioso por saber o que ele sugeria e mais ainda se ela acolheria a proposta.

_ Isso não é assunto para discutir aqui.

E, dizendo isso, foram embora.

Fico alguns segundos parado, tentando digerir, entender o que acabara de ouvir. É quando sinto a respiração bastante pesada de Sakura contra a mão que eu havia pousado sobre sua boca para que ela não pudesse estragar nosso disfarce. Volto meu rosto para ela, nossos olhares se cruzando, perigosamente próximos. Ela me fitava com uma mistura tão indecifrável quanto inúmera de sensações. A luz fraca que piscava de um poste perto de nós lançava flashes de luz e sombra sobre sua face perfeitamente branca, fazendo dançar o brilho confuso em seus olhos. A mão que eu mantinha sobre seus lábios ameaçava suar, enquanto ela esquentava-lhe a palma com sua respiração e eu, com a minha, as costas. Pensei em retirá-la, visto que o perigo já havia passado, contudo a iminência de ter nossos hálitos misturados seria acintosa demais.

Um arrepio percorre-me toda a espinha, ao ouvir os gritos de meus pensamentos, agora tão conflituosos, e sinto-a estremecer contra mim. Nossos corpos também estavam juntos demais: era mais que possível sentir o calor de seus seios e de sua barriga pressionados baixo o meu peito. Eu ainda mantinha meu antebraço esquerdo escorado ao lado de sua cabeça, com o punho cerrado. Meu tronco pressionava sua silhueta contra o muro, enquanto uma de minhas pernas entrelaçava-se às suas. Não tinha certeza se seria minha imaginação fértil, preciosamente regada pelo erotismo dos livros que eu tantas vezes e tão avidamente lia e relia, ou se efetivamente a parte superior de minha coxa podia tocar o mais alto de sua entrepernas.

Minha mente estava dividida em duas partes, que lutavam exasperadas: uma querendo se livrar logo daquela situação embaraçosa e outra desejando se afundar ainda mais nela. Enquanto disputavam, empoleirados em cada um de meus ombros, o anjo e o diabo, eu me permitia ficar ali por mais alguns segundos até que, quem sabe, a pressão me obrigasse a decidir. A verdade é que, pelo menos por enquanto, eu ia deixando que a figurazinha de pele, rabo e tridente avermelhados ganhasse a disputa.