DESCONFIANÇAS - SAKURA
Era difícil respirar...
Tudo aconteceu tão rápido que eu não estava certa de quando foi que tinha parado de me perguntar se Kakashi já sabia que o seguia para começar a correr pela imensa confusão de nada que se formava em minha mente. Quando ele se virou, nem tive tempo de me esconder, apenas me senti sendo agarrada e levada numa velocidade incrível até o que agora parecia ser os fundos fedorentos de alguma construção que, a julgar pelo barulho abafado que era possível, mais que escutar, sentir através da parede contra a qual minhas costas haviam sido lançadas de maneira, talvez, abrupta demais, tratavam de qualquer bar mal frequentado. Não compreendia o que estava acontecendo e talvez eu até devesse sentir medo. Ouvia-se muito que o número de abusos ia aumentando cada vez mais, minha mãe mesmo vivia me advertindo sobre meus horários; mas Kakashi não faria nada parecido, sempre fora tão respeitoso com todos. Seria ridículo, inclusive, pensar que ele fizesse mal a qualquer criatura, se não fosse realmente obrigado. Não, eu não precisava ter medo. Mas, então, o que estava se passando?
Deixei de correr os olhos pelo lugar assim que os pousei sobre uma pilha de lixo em decomposição e agradeci em mente que ele me estivesse tapando o nariz, ainda que não o suficiente. Olho para o homem de cabelos acinzentados, que respirava rápido sobre mim, procurando seu olho destapado a fim de pedir-lhe alguma explicação, mas ele estava prestando atenção em outra coisa. Como mal podia me mexer sob seu corpo e meu campo de visão não abrangia o objeto de sua atenção, forcei-me a captar algum som e percebi uma conversa pouco mais alta que cochichos em algum lugar perto dali. Pude distinguir claramente as vozes de Tsunade e Shikamaru:
_ ...saber o que se passa.
_ Ótimo. Descobriu alguma coisa sobre a tal organização?
Chikusho, peguei a conversa no meio. Que história é essa de organização? Kakashi estremeceu tanto que eu levei um susto: seu corpo me pressionou mais e nossos quadris estavam próximos demais para que essa situação fosse confortável. Era impossível não notar seu membro encostado no ponto baixo de meu ventre, ainda que eu não achasse realmente que estivesse ereto – mas o que eu sabia sobre isso? Apertei os olhos, porque não podia sacudir a cabeça, tentando tirar aquilo de mente, ao mesmo tempo em que insultava a mim mesma mentalmente por ter me distraído e provavelmente ter perdido outro pedaço da conversa que bisbilhotávamos.
_ Sobre Kakashi vocês descobriram algo?
_ Estamos de olho nele. Sabemos que ele está, de alguma forma, ligado a essa conspiração, mas ainda não temos certeza – oi? Conspiração contra o quê? E porque Kakashi estaria ligado a isso? Ser a última a saber me irrita! A voz de Shikamaru soou novamente, agora com um tom muito indeciso:
_ Tsunade-sama, precisamos fazer algo quanto a isso. Poderia ser perigoso para nós, em especial se essas pessoas decidirem subverter os cidadãos a confrontar nossas decisões – espere! A tal conspiração de que Kakashi faz parte é então contra a vila? Não pode ser, eu devo ter ouvido errado! –. Talvez se aceitássemos as instruções dos anciãos conselheiros de instituir o to...
Um silêncio se forma depois que ele freia de súbito suas palavras, como se acatando a uma ordem silenciosa, mas não por isso menos rígida. Pelo jeito, eu ouvi certo. Ele não completou a frase, mas se estava sugerindo uma nova lei ou algo assim para proteger a aldeia, eu ouvi certo. Shikamaru não bolava estratégias desnecessárias e, tudo em que pensava era milimetricamente planejado, pelo que, apesar de seu erro dois dias atrás, ainda era mais do que confiável... Meu amigo e antigo sensei, um traidor? Olho para seu rosto novamente: sua mandíbula estava tensa e eu podia ver seus lábios contraídos numa linha dura; seu olho destapado eu não via, pois seu rosto estava de perfil, de modo que não pude examinar sua expressão. Não, não ele... Preferi pensar que isso tudo não passava de um engano e que, assim que pudesse, Kakashi iria até a Hokage para desmentir essa brincadeira de mal gosto. Está feito, não tenho com o que me preocupar. Conheço-o, jamais faria algo assim! Ou faria?
Espere aí... Por que é, senão, que estamos nos escondendo como se, de fato, fôssemos culpados? Fiquei com raiva por um instante, e quase o empurrei para frente usando meu chakra, por ele ter me envolvido nessa inconfidência, mas toda a ira repentina se esvaiu quando Tsunade quebrou o silêncio, puxando novamente minha atenção:
_ Isso não é assunto para discutir aqui – disse, simplesmente.
A verdade é que eu não fazia ideia nenhuma do que pensar; quanto mais eu tentava, mais confusa ficava. Aquelas palavras apontavam claramente contra meu amigo e não havia motivo algum para duvidar do que dizia a mulher responsável por cuidar de tudo e de todos na aldeia. Ela provavelmente tinha um bom motivo para desconfiar de Kakashi e ele parecia concordar com isso ao se esconder daquela maneira. Por outro lado, eu também espiaria de pegasse alguém sussurrando meu nome com os outros pelos cantos. Algo cheirava mal nessa história e não me refiro à viela escura na qual nos entrincheirávamos.
Devo dar uma chance a ele, de qualquer maneira, pelo menos em consideração à nossa amizade. É isso, está decidido! Agora nos afastaremos e eu não lhe permitirei omitir nada em sua explicação. Já faz alguns dias que percebi que ele tem guardado segredos de mim. Não que tivesse a obrigação de compartilhar tudo comigo e nem eu me importava muito em saber dos mais mínimos detalhes de sua vida, mas agora eu acabei me envolvendo nesse em específico e estou curiosa demais para deixá-lo se safar.
Mas, Kami! Não há força de vontade que não se abale com um olhar tão misterioso como o que ele cravou em mim. Não tinha me dirigido os olhos desde que nos escondemos e, mesmo em qualquer tempo antes, eu nunca os vira tão de perto. Tentei ler alguma coisa em sua profundidade quase absurda, mas era difícil me concentrar com ele parecendo fazer o mesmo, obrigando-me a nadar sem rumo pelas águas tempestuosas do mar escuro e revolto, em ressaca, que era seu único olho à mostra. Além disso, ele ainda não tinha deixado de tapar-me a boca, o que me fazia difícil manter o fôlego, mas ao mesmo tempo passava-me uma ótima sensação o seu toque, levemente áspero, roçando os meus lábios.
De repente, ele estremece curtinho, como se sentisse um arrepio, e eu me contagio ao sentir seu corpo tesar-se todo contra o meu, novamente fazendo-me sentir alguma coisa lá em baixo se mexer. Estremeço também, piscando devagar e soltando um pequeno bufido só de sopro – inaudível, eu esperaria, ainda que talvez não imperceptível –, contra a palma de sua mão. Ele tinha uma das pernas posicionada entre as minhas que parecia agir por conta própria, apertando-se pouco a pouco, quase que me tocando entre as pernas. Desentendi quando senti um formigamento ali, parecendo minha virilha desejar aquele toque. Tive que me segurar para não me mexer alguns centímetros atendendo à sua ânsia. Supõe-se que eu deveria estar brava com aquele homem e não me derreter por ele!
Pressiono meus maxilares e passo a língua pelos meus lábios a fim de deprimir a sequidão que se havia posto neles e acabo tocando-lhe a mão - tinha um gosto salgado de suor. Imediatamente em resposta Kakashi move um dos dedos num movimento instintivo em meu queixo, pisca alguns segundos e depois começa a tirar a mão do meu rosto, numa preguiça que se morria por não ceder. Ele pende o braço ao lado de seu corpo, nossos olhos ainda presos uns aos outros, e, engolindo em seco, vai se afastando de mim, desapoiando a outra mão da parede ao meu lado. Assim que nossos corpos desgrudam, a brisa fria da noite rouba-me o doce fantasma de seu calor e a minha vontade é de puxá-lo novamente para mim. Há tanto tempo não sentia isso, "será que... Não, não pense nisso, Sakura! Este homem só está tentando te enganar, ele ainda te deve muitas explicações!".
Forcei-me a pensar naquilo e desviei os olhos, imitando cara de brava. Quando voltei a olhá-lo, ele ainda me encarava, mas dessa vez não me deixei vencer: cruzei os braços e levantei-lhe uma sobrancelha, em mudo pedido por um esclarecimento. Ele pareceu não entender, franzindo as sobrancelhas enquanto tombava a cabeça levemente para o lado direito, feito um filhote que não sabe a culpa que lhe cabe. Como eu continuasse quieta, ele voltou a cabeça, lembrando-se de algo. O mistério encheu de novo seus olhos e ele se demorou por um tempo me analisando, como se se decidindo sobre algo. Puxou-me então, como se ligando o foda-se, pela mão e disparou, fazendo-me trotar passos largos atrás dele. Antes que eu pudesse dizer "de novo não", paramos em frente à porta de uma casa velha. Kakashi bateu uma melodia truncada na madeira com os nós dos dedos – uma senha? Minha curiosidade atacou de novo e entramos depressa não mais a porta se abrir.
A sala era ampla, mas escura, iluminada apenas por uma vela que descansava precariamente sobre um pires no centro do quarto. Estava caindo aos pedaços sim, não me impressionaria se visse algum bicho estranho se escondendo por ali, mas até mesmo isso simulava ser proposital. Em volta dela, algumas pessoas – os bichos? – faziam um círculo perfeito; param de falar assim que dão acordo de nossa presença. Meu rosto queimava com o olhar de todos os mais ou menos dez que eu havia contado por alto examinando cada parte de mim. Confesso que senti algo daquele medo de antes, por não saber o que fazia ali, mas a mão que Kakashi descansa em meu ombro, naquele momento, me tranquiliza um pouco.
_ Está atrasado, Kakashi – ora, e isso lá é novidade? –. Vejo que também trouxe uma iniciante.
Presto atenção ao homem que se refere a mim e, percebendo ser Iruka, corro a vista por todos os presentes, aliviando-me de ser, a maioria, rostos conhecidos: vários dos que estão ali foram meus antigos senseis. Até mesmo Anko, a mentora da minha primeira prova chunin, e Neji, que me dirige um aceno de cabeça e um leve sorriso, estavam ali. A minha honradez de estar participando do que parecia ser uma reunião importante vai por água a baixo assim que ouço as próximas palavras:
_ Sabe que deve avisar-nos antes – completa Iruka.
_ Eu não tive escolha – viro a cabeça instantaneamente para ele a tempo de ver sua cara de desculpas ao velho colega de trabalho. Ele devia desculpar-se comigo por dizer tamanha grosseria, sabendo que odeio ser um fardo. Solto um desgostoso bufido e fixo meus olhos na chama que dançava já fraca no pavio queimado da vela.
Kakashi vai até a janela, me abandonando ali perdida, sem saber o que fazer. Decidia-me se ficar em pé mesmo ou ir embora quando um senhor que eu não conhecia me chamou pelo nome para que se sentasse com eles na roda e foi o que fiz: de fato estava curiosa. Eles começam a falar, retomando, pelo jeito como eu não entendo nada ao princípio, a conversa de onde a tinham parado. Depois de alguns pontos noto que se referem à recente batalha que enfrentamos contra os ninja da Grama e da Terra, então aguço ao máximo os sentidos porque era esse o motivo pelo qual eu tinha seguido Kakashi para começar. Olho para ele, que parece incrivelmente despreocupado com o braço apoiado em seu joelho e seu típico semblante entediado que vigiava de tempos em tempos o vidro sujo.
_ Então você não acha que tenha sido um erro, Akira? – parece ser vocação minha pegar as conversas a meio caminho... O homem dá uma longa tragada em seu cachimbo antes de responder, não sei se se acalmando do incômodo ou pensando a respeito.
_ Não – o silêncio que se forma sugere que não fosse continuar.
_ Não o quê? – pergunto-me não aguentando a curiosidade e arrependendo-me amargamente pela intromissão ao fitarem, apertados, seus olhos os meus. Ele parecia entender o motivo de minha petulância, mas nem eu mesma conseguiria explicar sua origem. Já ia pedindo desculpas quando ele ensaiou um pequeno sorriso com o canto enrugado de seus lábios.
_ Kakashi, como pretende iniciar a menina em nosso grupo sem contar-lhe nada sobre o que fazemos? – ele indaga, sem tirar os olhos dos meus.
_ Eu realmente não tive tempo, me desculpe – imagino a mesma expressão fajuta de quando inventa qualquer desculpa esfarrapada para seus atrasos. Reviro meus olhos para ele.
_ Você sabe que é Shikamaru quem coordena a maior parte das nossas estratégias de batalha, não? – faço que sim com a cabeça, ao percebê-lo dirigindo-se a mim – E também que a ideia da festa em comemoração ao tratado de paz foi dele... – assinto novamente à sua sugestão – Pois bem. Não acredito que algo nisso tenha sido em vão. Chigau. É certo que um erro ridículo assim o faria perder seu posto imediatamente, devido às circunstâncias atuais. Entretanto ele continua no cargo, eu diria até que subiu de nível... Na verdade, cada coisa que aconteceu aquele dia foi planejada, até mesmo a vinda dos inimigos.
_ Como assim? – interrompo, estranhando sua acusação.
_ Ele sabia de tudo, simplesmente – cochichou-me Neji, já que o velho não quis responder.
Aquilo era muito estranho. Eu mesma tinha desconfiado, antes, de que Shikamaru não cometeria um erro assim, mas tampouco me parecia lógico que fosse de sua vontade atrair os inimigos para uma luta dentro de nosso próprio território! O que fazia com que essas pessoas pensassem assim? Será que era possível que estivessem mesmo certas? Nesse caso, o que esse plano esquisito significa? O silêncio parecia ser algo normal por ali, porque cada um era absorto em seus próprios pensamentos cada vez que uma ideia era solta. Olho para Kakashi e o pego observando-me, também pensativo; parecia tentar decifrar o que dizia a minha mente, ainda que não usasse seu sharingan. Logo ele se levanta e vem sentar-se ao meu lado; não me dirige, porém, a palavra, e sim aos outros.
_ Tenho um relatório a fazer – todos voltaram sua atenção a ele nesse momento, ávidos pela novidade que poderia encaixar as peças do quebra-cabeça ou embaralhá-las ainda mais. Ele continua: – Enquanto vinha para cá, ouvi Shikamaru e a Hokage conversarem.
Então ele contou sobre o que tinha acontecido antes, mencionando coisas que eu não havia captado. Pelo jeito, agora tinha um prisioneiro na história, que parece tinha sido pego pelas nossas tropas antes da batalha, já que isso não poderia ter acontecido enquanto esta tomava ação nem depois. Ninguém tinha ideia de quem fosse o cativo, mas todos pareciam concordar que provavelmente se tratava de alguém importante, para que houvesse tanto sigilo em torno. "Seria alguém da Aldeia da Grama? Isso explicaria sua invasão.", penso comigo.
_ Então é verdade – disse o senhor que agora eu sabia que se chamava Akira, aparentando ler-me o pensamento –. Eles esperavam que a Grama viesse, atraída pela nossa provável guarda baixa, e o motivo foi a prisão desse homem.
Antes que o homem completasse sua frase com um decidido "precisamos descobrir quem é", Iruka sai correndo da reunião, batendo a porta a suas costas e assustando a mim, mas não aos outros, que pareciam já ter previsto sua reação. Eu não podia saber o quê, mas era óbvio que algo sobre esse assunto o incomodava muito. Alguns instantes depois disso, Kakashi volta a falar sobre o que ouvimos mais cedo. Disse de terem descoberto a tal organização, que eu estava com muito medo de achar que era sua essa reunião, e de terem associado seu próprio nome a ela. Todos ficaram tensos com o informe, permanecendo um bom tempo em reticência, entreolhando-se em trocas mudas de palavras.
Antes eu não me aguentava de curiosidade, queria saber logo tudo o que estava acontecendo, mas agora minha cabeça encontra-se saturada de informações, as quais ainda preciso organizar e interpretar. Tudo que queria agora era ir para casa e ter uma boa conversa com meu travesseiro, até mesmo porque eu ainda não havia decidido se confiar no meu amigo cinzento ou não. Entretanto, aquelas pessoas não pareciam ter acabado de discutir ainda e eu não gostaria de perder nada. Quase achei graça quando Kakashi reproduziu exatamente o mesmo discurso último de Shikamaru, antes que ele fosse interrompido.
_ Instituir o quê? – alguém perguntou.
_ Exatamente, ele não terminou – respondeu ele.
_ E o que Tsunade disse?
_ Nada, somente que esse não era assunto para se discutir em público.
_ Bom, que seja – falou Anko, inquieta –. Temos coisas mais importantes com o que nos preocupar do que mais um capricho desse governo – que petulância! Definitivamente essas pessoas eram a tal organização que conspiravam contra a aldeia. "Calma, Sakura, não exploda. Você está em minoria aqui", tentei me tranquilizar.
_ É verdade. Fomos descuidados, eles já sabem de nós e, se estão tomando medidas para conter-nos, precisaremos agir com mais cuidado.
_ Mas como eles descobriram? – um dos homens da ANBU parecia desesperado.
_ Não sei – disse Kakashi, envergonhado –. Eu fui o mais cuidadoso possível e ainda assim eles ligaram os pontos.
_ Você!
Iruka irrompe pela porta, nitidamente estivera ouvindo pelo lado de fora. Ele caminha ligeiro pela sala até onde Kakashi estava sentado e o levanta pelo colarinho, com os olhos em fúria. Todos nos levantamos preocupados, prontos para parar qualquer coisa que fosse longe demais, mas ao mesmo tempo querendo saber o porquê de atitude tão impulsiva, agressiva. Iruka voltou a falar, as palavras engasgadas em sua garganta com a brutalidade que ainda lhe emanava dos poros, nariz e olhos:
_ Você! Você é o impostor! - ninguém diz nada, nem mesmo Kakashi, que estava extremamente assustado com a situação, e ele continuou, agora com lágrimas rolando-lhe freneticamente a face: – todo esse tempo... Eu confiei em você e todo esse tempo só esteve colhendo informações nossas para entregar ao inimigo! Você nos traiu!
Enquanto repetia a última frase várias vezes, arrastou quem costumava ser seu melhor amigo pelo cangote até a parede, contra a qual o jogou e desferiu um soco inútil, facilmente desviado por Kakashi. Os dois se fuzilaram com o olhar e, de repente, começaram uma luta – mais bem uma briga de bar, eu diria – ali mesmo. Nenhuma das pessoas fazia menção de intervir, mesmo as mais assustadas pareciam mais preocupadas com outra coisa, talvez até concordassem com Iruka. Olhei para Akira, que parecia ser o chefe ou sei-lá-o-quê deles, esperando que fizesse algo, mas ele parecia um cientista, com seu olhar clínico observando tudo como se fosse uma experiência interessantíssima. Quando voltei a olhar para os dois crianções que se batiam na minha frente, assisti ao meu antigo sensei da academia acertar um soco no maxilar do líder da minha equipe ninja e não aguentei: apressei-me entre eles, farta daquela situação.
Reuni toda a força que consegui e afastei os dois, talvez forte demais, ficando entre seus corpos caídos de bunda no chão a cada lado meu. Não acreditando que eles ficariam assim por muito tempo, bradei, furiosa, o mais rápido que pude, de repente dando-me por conta do que estivera óbvio durante todo esse tempo:
_ Vocês são burros ou o quê?
Saiu mais alto do que eu previra, admito, mas funcionou; a birra dos grandões tendia a ir diminuindo. À medida que isso ocorria, semblantes confusos, e até alguns surpresos, tomavam conta de todas as faces dali. Continuo:
_ Será que ninguém percebeu? – sem resposta – Sério, por que dizer da organização conspiradora no meio da rua, onde todos podem ouvir, mas não conversar sobre a porcaria de uma lei? – tudo bem, talvez se eu estivesse mais calma fosse mais fácil entender.
_ A quê você se refere exatamente? – pergunta Akira, um dos surpresos.
_ Foi de propósito! Qual é, essas suspeitas vagas? – bufo, irônica e tomo fôlego – Eles não disseram nada concreto sobre a organização de vocês, o que queriam era que acreditassem que já sabiam de tudo. E essa história do prisioneiro foi claramente um convite, uma emboscada: Tsunade sabe que vocês iriam atrás dele. Provavelmente ele nem existe! – examino seus rostos, todos confusos, menos o velho esquisito, que parecia maravilhado. Respiro fundo: – Essa lei nem deveria ter sido mencionada, por isso ela impediu que Shikamaru falasse sobre isso.
Quando termino, abaixo os braços que eu ainda mantinha estendidos entre Iruka e Kakashi. Sento-me no chão entre eles, cansada, sem atrever-me a olhar para nenhuma das pessoas ali, sabendo que toda a sua atenção estaria novamente sobre mim. Eu nunca esperaria participar de nada como essa reunião e muito menos ter que impedir dois brutamontes de se matarem ou ter que esclarecer a cabeça de uma dúzia de pessoas confusas. Se antes eu já estava cansada, agora encontrava-me quase no limite da exaustão. Como diabos pode uma discussão ser mais extenuante que uma luta?
Depois disso, pouco se discute, apenas alguns cochicham pelo canto. Kakashi é o primeiro a se mexer, caminhando até Iruka para ajudá-lo a levantar, na clara intenção de fazerem as pazes. Mas este não parecia muito inclinado a isso e o ignora, levantando-se sozinho e mantendo ainda uma expressão de desprezo. Já eu aceito sua mão estendida para mim quando a oferece. Ele murmura baixinho próximo ao meu ouvido, quando me levanto, que me acompanharia até em casa e eu concordo, apenas. Despedimo-nos com um breve aceno e seguimos nosso caminho.
Pelas ruas, não conversamos. Ele caminhava cabisbaixo, com as mãos nos bolsos e eu não prestei atenção na minha forma de andar, mas tenho certeza que não teria sido nada gracioso de se olhar. Quando chegamos à porta de minha casa, paramos e finalmente nos olhamos nos olhos de novo, eu me lembrando de como nossos corpos estiveram perto algumas horas mais cedo, ele hesitando antes de falar:
_ Desculpe-me por hoje – não respondo –. Por levá-la até lá sem que você quisesse e por ter presenciado tudo aquilo – ele parecia fugir das palavras.
_ Tudo bem – digo por fim, não que realmente estivesse.
Ele me olha apertando os olhos, tentando entender-me, eu acho. Diz então, amenizando a figura e me sorrindo de canto, terno:
_ Você foi incrível, hoje.
Pego-me num sobressalto com aquele elogio inesperado e imagino que devo ter arregalado os olhos para ele, porque logo abre mais o sorriso. Acabou se arrependendo disso, levando a mão ao queixo numa expressão contida de dor. Sorrio também e lhe digo que entre para que eu pudesse ajudá-lo com uma pomada e talvez um curativo. Ele obedece e então o conduzo até a sala de estar, onde ele se senta ao sofá, enquanto eu procuro pela caixinha de primeiros socorros na gaveta da cômoda atrás dele. Eu poderia usar meu chakra sim, mas estava cansada demais para isso; além do mais, um soquinho no queixo não mata ninguém e a dor às vezes faz bem.
Rodeio o sofá com a caixinha nas mãos e ajoelho-me no chão à sua frente, colocando meu corpo entre as suas pernas abertas – confortável demais, eu diria, talvez, em outra ocasião. Tiro a tampa do pequeno recipiente de metal e pego de lá de dentro um tubinho de álcool e um tufo de algodão. Quando me viro para ele, percebo: teria de tirar sua máscara... Tento esperar que o faça, mas ele não parecia ter-se dado conta disso ainda, já que prestava atenção demais às minhas mãos, que agora estavam espalhando álcool pelo macinho de algodão. Decido, assim, tirá-la por conta própria.
Mal ergo minha mão e toco-lhe a beirada da máscara em sua bochecha, ele segura meu punho, como que por instinto, impedindo-me de continuar. Cruzamos nossos olhares, outra vez próximos demais e depois de alguns segundos assim ele cede e me deixa abaixar o tecido que sempre lhe cobria quase a face toda. Vou descendo-o suavemente por todo o seu maxilar, revelando o roxo do machucado, e deixo-o amontoado na base de seu pescoço. Confesso que desfrutei de cada pedacinho de sua maravilhosa figura. Era tão bobo pensar que ele tivesse que tapar seu rosto por qualquer que fosse o motivo que eu não pude segurar o comentário:
_ Não deveria esconder o rosto, Kakashi – disse, ainda me demorando em apreciá-lo. Quando voltei meus olhos aos seus, ele parecia preocupado, quase inseguro. Sorri de leve, quase achando graça e atentei-me ao que tínhamos vindo fazer. Tive que molhar outra vez o algodão, porque o álcool já tinha evaporado completamente.
Encostei suavemente o algodão na ferida, que ameaçava inchar e testei sua expressão, querendo saber se doía. Como ele não fizesse muita menção disso, comecei a limpá-la. Dois pequenos cortes tinham se aberto ali, mas não deixariam cicatrizes; apenas tirei o sangue já coagulado de sobre eles e fiz um curativo simples.
_ Ficará roxo alguns dias, mas duvido que alguém notaria – aponto para a máscara em seu pescoço, ao que rimos um pouco juntos, o cansaço e estresse acumulados da noite esvaindo-se fácil. Ficamos assim por algum tempo, perdidos um no olhar do outro, com sorrisos bobos ornando-nos a boca, como havia sucedido antes. Eu ainda estava ajoelhada entre suas pernas, mas agora apoiava meus antebraços em seus joelhos e estava sentada sobre meus calcanhares, ele, por sua vez, inclinado sobre meu rosto. Tão próximos, compartilhávamos o mesmo ar e o mesmo ritmo cardíaco; pude ver, quando fitei sua boca, seus lábios se abrirem com um estalinho doce e praticamente imperceptível. Instintivamente abri os meus em resposta e quase pude sentir, por antecipação da iminência de um beijo, o gosto que teria aquele contato.
De repente, passos que não haviam sido ouvidos se tornam mais altos e luzes que não haviam sido acesas iluminam o ambiente. Imediatamente nos separamos, levantando-nos de nossas posições; era tarde: minha mãe já teria flagrado a intimidade que compartilhávamos. Ela pede desculpas secas e sai quase correndo dali, voltando a subir as escadas, mas esquecendo a luz acesa. Quando volto a mirar meu amigo, ele já tem sua máscara no lugar, sob a qual constato um leve avultar-se no lado esquerdo do queixo. Rimos tímidos e eu pego a maletinha de cima do sofá para guardá-la.
Após isso, acompanho Kakashi até a porta. Despede-se coçando a parte de traz da cabeça. Era engraçado vê-lo envergonhado e mais ainda ver-me desigual numa situação como essa. Entretanto se fosse ao contrário e fosse a sua mãe a flagrar-nos em situação parecida eu estaria procurando um lugar para me esconder nesse exato momento. Observo enquanto ele dobra a esquina devagar, lançando-me um último e rápido olhar e depois fecho a porta. Já deitada, antes de pegar no sono, procuro a lua pela janela sempre aberta do meu quarto, mas já era muito entrada a noite para que ela ainda estivesse lá em cima.
Ah, Kakashi...
