UMA NOVA MISSÃO - KAKASHI

Impossível dormir!

Sento-me na cama, apoiando os cotovelos e passando, agoniado e com um suspiro, uma das mãos pela testa e cabelos, bagunçando-os ainda mais do que os rolares de um lado para o outro sobre os lençóis tinham feito. Miro o chão. Ali brincavam as sombras da madrugada que já despontava, acompanhada de uma brisa fria típica. Minha cabeça estava a mil: as ideias apostavam corrida por seus corredores abarrotados de causas pendentes e conclusões inacabadas em nítida baderna. Eu já tinha preocupações demasiadas apenas com a última batalha, que parecia ressuscitar com ganas a iminência da guerra, agora com a aparente descoberta da nossa aliança e esse tal prisioneiro... Se bem que o que a Sakura dissera até que fez bastante sentido: se já possuem as informações que insinuam ter, por que não simplesmente tomar medidas repressoras? Por que não vir logo atrás de mim? Quando a menina disse aquilo, confesso que me surpreendi muito por não ter ligado antes os pontos; e não só eu, ninguém ali esperava que ela fosse tão observadora com o pouco que sabia, enquanto que nós, mesmo com o muito que tínhamos em mãos, não fomos capazes sequer de chegar perto de seu raciocínio.

Ela sempre fora inteligente, é claro. Desde seu tempo de genin da equipe sete, mesmo quando ainda não tinha toda a força física ou o conhecimento sobre justus que tem hoje, se destacava entre os demais. Em exames teóricos sempre tirava as melhores notas e, além disso, o controle de chakra sempre lhe fora um dom, uma habilidade nata. Não é atoa que se formou com excelentes notas; não fossem as provas práticas, teria facilmente conseguido o primeiro lugar.

Ah, esses devaneios não estão me ajudando a relaxar... Deixo-me cair novamente sobre o colchão e cruzo os dois braços sobre os olhos na tentativa de escondê-los da claridade que insiste em abrir caminho pelas frestas da janela fechada. Como assim estou mais alerta do que antes? Olha, eu juro que não queria, estou até tentando deixar essas coisas de lado. Mas já faz quase três – três! – meses que nem folheio meus livros e a verdade é que eles sempre me ajudam a relaxar. Qual é, esse não é um vício assim tão ruim! Pelo menos me mantem sempre muito bem treinado... Que porcaria de desculpa!

_ Quer saber? Foda-se! – dou-me por vencido, sem mais pensar a respeito e só estico o braço, sem sair da cama, até o criado-mudo e puxo-lhe a gaveta. Tateio um pouco por ali e o encontro, já sentindo a crosta de poeira que eu sabia que lhe recobriria e provavelmente estaria a um passo de manchar-lhe a capa.

Quando o trago par junto do peito, começo a folheá-lo, procurando minhas partes favoritas, as quais eram muitas por sinal; se tinha uma coisa em que aquele velho babão do Jirayia era bom era em escrever essas malditas novelas picantes que prendem qualquer um. Eu realmente duvidava que aquilo tudo fossem experiências reais, dada a loucura surreal de algumas delas, mas ele sempre insistira que suas pesquisas eram sérias. Enfim, o fato é que ele definitivamente tinha talento para isso. Tentei não pensar que eram suas as palavras que eu lia, mas bastou com que começasse a me concentrar nelas para que esquecesse essa má ideia.

A primeria parte tratava de uma de minhas fantasias mais quentes: uma fonte termal cheia de "garotas com suas volúpias apenas cobertas pela transparência morna da água", em transcrição literal. Enquanto imaginava pela centésima-e-não-sei-quantas-vezes a cena que aquelas páginas desenhavam, não pude evitar excitar-me; logo senti os músculos do corpo do meu pênis dilatarem-se gradualmente, enquanto já ofegava. Nem tentei evitar, automaticamente tirei-o para fora da boxer azul marinho, única coisa que vestia, e comecei a movimentá-lo agilmente, a outra mão no livro, para cima e para baixo, primeiramente bem devagar, mas logo tão mais rápido que ficou difícil até mesmo continuar o que estava lendo.

A essa altura era ridículo pensar em parar essa obsessão e mais ainda pensar que eu tinha tentado pará-la antes e tinha conseguido, ainda que não por muito tempo. Continuei intensificando os movimentos, apreciando cada onda de prazer que tomava conta de mim. A cada momento que sentia-me chegar perto do clímax, diminuía, porém, a velocidade somente para brincar um pouco comigo mesmo. Logo recomeçava. Depois de bons dez minutos assim, decidi levar até o fim, não aguentando mais. Quando senti o orgasmo chegar, arrebatando-me os sentidos e um pouco da visão, apreciei tesarem-se por completo os músculos do meu membro duro e também os de minhas pernas e glúteos, ao mesmo tempo em que ouvia o barulho forte do livro caindo ao lado da cama e sentia, sem nojo algum, o líquido quente escorrer-me pela mão que permanecera agarrada ao membro. Uma imagem me vem à cabeça nesse exato momento, assustando-me: os olhos escuros entrecerrados e os lábios úmidos entreabertos de puro desejo que certa mulher de cabelos peculiarmente rosados me lançara poucas horas atrás, segundos antes de nosso frustrado quase beijo.

Chikusho, Sakura! Solto o suspiro pesado e longo de gozo que quase tentei reprimir, um pouco chateado, subindo e descendo umas últimas vezes a mão. Respiro um pouco mais para me acalmar e então saio da cama e me dirijo ao banheiro para me limpar. Quando voltei, o sol ainda incomodava, mas me deixei vencer, apesar dos assuntos mal resolvidos, pelo cansaço do dia e o corpo mole que agora eu mal sustentava. Antes de pegar no sono, ainda pensei nela, inconscientemente gostando do fato de não poder controlar esses pensamentos.

Acabei acordando só depois do meio dia, morto de fome, mas, como um é normal na vida de qualquer solteiro que se preze, fiquei com preguiça de fazer comida, pelo que peguei um pão e saí correndo. Eu gosto de cozinhar para as pessoas apreciarem, sozinho não tem graça nenhuma. Além do mais, faz muito tempo que não treino e, já que não tenho nada mais para fazer, nada melhor que começar logo - não costumo acordar cedo, é verdade, mas dessa vez passei dos limites. "Não pense no motivo, seu idiota!", advirto-me.

Andei depressa para o lugar que eu costumava usar para essas coisas, nos arredores da vila. Eu costumo dizer que o treinamento é um momento muito pessoal, quando você conhece seus pontos fortes e fracos, quando se conhece. Ter pessoas observando só faria com que eu me distraísse e não fizesse nada direito, temendo ficar exposto demais e aquele lugar à direita do portão, no meio do bosque que circundava o rio, era perfeito: calmo e escondido de olhares alheios. Fazia bastante calor aquele dia, de modo que, assim que cheguei, já fui ficando à vontade: tirei a camiseta casual cinza escuro que levava juntamente à máscara e comecei a me alongar e, logo depois, a lançar kunais num tronco de árvore que havia no meio da clareira para me aquecer.

Quando achei que já estava bom, comecei o exercício de chakra. Concentrei-o na palma da mão direita por um tempo e ensaiei um chidori, sentindo o ar eletrizar-se todo à minha volta, à medida que a energia em minha mão se transformava em fortes rajadas de raios. Senti os músculos de meu braço queimarem-se um pouco e decidi satisfeito que não havia perdido tanta prática como acreditei. Desfi-lo, então, apenas para voltar a testá-lo, mas um ruído surdo me parou. Interrompi o fluxo de chakra que dirigia à minha mão e fiquei parado na mesma posição para que pudesse prestar o máximo de atenção. Agucei os ouvidos e o barulho continuou, numa frequência cautelosa, com som de grama e terra fofa se amassando sob pés; funguei e o cheiro doce preencheu meu nariz.

Não precisei esperá-la aparecer entre as árvores para saber quem era: seus passos sugeriram-na, seu perfume a entregara e meu arrepio a anunciara. Alguns segundos depois, o sol toca-lhe o rosto, que me sorria ternamente. Não conseguindo melhor tom que surpreso, apressei-me dizendo:

_ Como me achou?

_ Konnichiwa!

_ Konnichiwa... – devo ter corado um pouco e agora com as bochechas descobertas seria vergonhosamente visível. Ela ri e eu confirmo.

_ Não é o único que usa este lugar, sabe? – ela se aproxima alguns passos, passando por mim e indo até o velho tronco, pegando uma das facas que ainda estava cravada ali. Depois, volta-se novamente para mim e passeia demoradamente os olhos pelo meu peito e abdômen, fazendo-me lembrar que estavam nus, enquanto passa acaricia a lâmina com o dedo indicador, como era um estranho costume seu.

_ Sakura... – começo meio desconcertado e ainda ficando mais quando me olha de baixo para cima com atenção – Gosto de treinar sozinho.

Digo, simplesmente, ao que ela sorri, de lado:

_ Eu sei. Por isso nunca te interrompi.

_ Você sabia?

_ Não é bem um segredo, é? – ela larga o braço que segurava a faca para o lado do corpo, numa expressão divertida – Eu até te assistia de vez em quando.

_ O quê? – estava perplexo, com provavelmente cada detalhe do meu estilo de luta parecendo ter sido revelado de golpe, como num interrogatório. Ela, ao contrário, divertia-se cada vez mais.

_ Aprende-se muito observando, sensei – percebo certa ironia na última palavra. Ela caminha lentamente até mim, mordendo o lábio inferior para não deixar-se rir, até ficarmos suficientemente próximos para que outro arrepio me ocorresse.–. Deveria tentar

Diz, passando a ponta da faca por toda a linha de meu queixo e maxilar descobertos, ao mesmo tempo em que vira o rosto e passa por mim, embriagando-me com seu perfume. Sinto sua mão tocar-me por cima da calça, na coxa, e abrir a bolsa porta-armas presa ali. Sinto o peso da kunai quando cai lá dentro e depois ouço alguns passos seus atrás de mim. Não ousei me mexer em nenhum momento, temendo que isso faria ir embora a cosquinha que ainda provocava no meu rosto pelo toque do fio.

Os passos cessam, de repente, e ela diz:

_ A propósito: Tsunade quer nos ver.

E então meu outro problema da noite passada volta. Tsunade deveria querer algum esclarecimento de minha parte, talvez uma confissão e uma promessa de que acabaria com a organização hoje mesmo. Respirei fundo e finalmente saí daquela posição rígida. Peguei as outras facas no poste e vesti minha camisa. Mas por que chamar Sakura também? Será que a tinha visto comigo? Martirizei-me assim que pensei a respeito por tê-la posto em risco dessa maneira; eu sabia muito bem o que era feito aos traidores em uma guerra. Imaginei que Sakura estivesse insinuando que a Hokage esperava ver-nos agora mesmo, de modo que me dirigi logo para lá.

Pela posição do sol, já deveria passar das cinco da tarde. Praguejei por não ter passado em casa para um banho; com essa demora, com certeza eu teria tido tempo. Porém, mal termino de formular essa ideia e Shizune aparece, cumprimentando-me e dizendo que já podia entrar. Sakura não esperava ali junto, pelo que imaginei que a conversa, em verdade, seria somente comigo, mas assim que passo pela pesada porta de madeira, deparo-me com ela de pé frente para a mesa da loira. Estranho, mas não digo nada.

_ Kakashi – formal demais...

_ Tsunade.

_ Muito bem, agora que estamos todos aqui – qual é, eu não me atrasei dessa vez! –, podemos discutir sobre sua nova missão.

_ Uma nova missão? – acho que isso é bom, odiava ficar parado tempo demais e pode ser também que me ajudasse a pensar com mais clareza sobre as coisas que me perturbam. Bom, pelo menos era melhor do que o que eu achava que seria o tema dessa reunião.

_ Sim. Estou enviando vocês até o país do Trovão, para levar e trazer alguns documentos. Como já sabem, estamos em um delicado processo de aliança com o senhor feudal de lá e suas aldeias ninja, pelo que precisamos que seja tudo feito em pessoa. Precisamos fortalecer o acordo provisório de antes, porém não posso me ausentar da Folha do momento. Confio à vocês o sucesso desse tratado.

Penso em pedir mais detalhes, mas Sakura apressa-se:

_ Que documentos seriam, senhora?

_ Exigências e comprometimentos, além de algumas informações sobre a situação na vila. É extremamente importante – ela agora se levanta de sua cadeira e apoia as mãos firmemente sobre sua mesa, elevando o tom de voz – que vocês mantenham qualquer detalhe sobre essa missão em completo sigilo, entenderam? Nenhuma dessas informações pode cair em mãos erradas!

Assentimos prontamente e ela se senta de novo, ficando mais calma. Então ela dirige um olhar demorado a cada um de nós e nos dispensa, dando-nos uma hora para preparar-nos e partirmos. Estamos já nos despedindo quando me lembro:

_ Tsunade-sama – digo –, e Naruto?

Ela faz um breve silêncio, ponderando algo, mas por fim solta, seca:

_ Não quero Naruto nessa missão.

Era realmente uma droga como até mesmo as coisas de que eu sabia ameaçavam passar para a pilha das que eu não sabia, estas em crescimento exponencial ultimamente. Tentei não pensar sobre isso, já que nunca seria capaz de convencer aquela velha rabugenta e rezando para que Naruto não cruzasse nosso caminho. Se isso acontecesse, perderíamos um tempo enorme tentando explicar-lhe porque não podíamos contar sobre a missão nem leva-lo conosco e outro maior ainda tentando em vão impedir que ele fosse correndo gritar com a Hokage sobre isso. Ele era um garoto muito irritante quando queria, sim, mas dessa vez eu lhe daria razão. Afinal, o loiro fazia parte da nossa equipe e enviar-nos sem ele parecia-me uma atitude muito mesquinha, sem contar que ele certamente faria falta se precisássemos lutar.

Descíamos o último lance de escadas do prédio em que ficava o escritório da Hokage em silêncio. Quando olho para o lado vejo Shikamaru apoiado a parede de braços cruzados. Penso em cumprimentá-lo, mas ele me lança um olhar um tanto ameaçador, como se quisesse mesmo que eu percebesse que estava de olho em mim. Suntentei sua expressão até que não podia mais, deixando-lhe claro que era preciso muito mais para me fazer recuar ou mesmo me assustar. Sakura e eu continuamos em silêncio até que nos separamos outra vez para pegar nossas coisas e seguir viagem. Tsunade não havia mencionado nenhum prazo, mas não imaginei que fosse tolerar demoras, aliás, era bem certo que ela exigira o menor tempo possível.

Encontramo-nos em frente aos portões principais, pouco mais de meia hora depois, prontos para sair da vila, não sei por quanto tempo. O descanso havia acabado.