CAPÍTULO 10: A MENSAGEM - KAKASHI

Dominado pela luxúria, outra explicação não seria justa. Chuto uma pedrinha que estava em meu caminho e a observo quicar só uma vez, amortecida pela terra fofa dali. Andava em círculos, aquela palavra não me saía da cabeça: "sensei, sensei, sensei, sensei...". Mas, que droga! Desfiro um soco furioso no tronco de árvore ao meu lado. Como pude me deixar levar daquela maneira? Fui muito imprudente! E estúpido, claro, permitindo que me tomassem essas sensações proibidas em relação à minha aluna. Como pude fazer isso? Como pude ser tão fraco? Sua beleza é grande, claro, mas não deveria despertar esse efeito sobre mim. Além disso, seduzir o professor... Estava claro que tudo aquilo não passara de uma fantasia de menina, uma brincadeira. E eu caíra feito um patinho!

Ah... Eu já tinha percebido que ela se aproximava, muito antes que me visse no lago – ultimamente ando sensível demais ao seu chakra, sendo capaz de sentir sua presença a vários metros de distância. Entretanto continuei de costas, fingindo que não a notei, talvez fosse embora quando me visse ali. Não foi o que ela fez, nitidamente. Em vez disso, entrou na água comigo e, mesmo eu sabendo que poderia ter evitado que a situação continuasse, uma inércia tomou conta de mim, sequestrando qualquer pensamento sensato que ameaçasse surgir, de modo que não fui capaz de me mover. Queria, sim, apenas que ela continuasse se aproximando e depois que continuasse me tocando e depois me beijando...

Solto um suspiro. Quando foi que me deixei confundir entre o platônico de meus desejos – que eu sabia que nunca poderiam se realizar, diga-se de passagem – pela mulher que Sakura se tornou e a realidade de minha amizade e apreço pela menina que ela sempre foi? A verdade é que eu nunca devia ter pegado aquele maldito livro de novo! Eu sabia, desde o momento em que ela havia vindo aos meus pensamentos, na outra noite, não poderia tirá-la deles. E agora eu preciso inventar alguma desculpa para sair, no mínimo relativamente, ileso do interrogatório que ela deve estar preparando para mim. Seria mais fácil me desculpar por tê-la agarrado do que por tê-la deixado me agarrar. Que merda você fez agora, Kakashi?

Pensando que teria de aguentar a mentira durante o resto de ida que nos espera, a estadia e todo o caminho de volta, a tarefa parecia impossível de se cumprir. É quando decido fugir. Claro, fugiria desse assunto, faria de tudo para mudar de tema, se ela resolvesse sacá-lo, o que eu estou certo de que fará mais vezes do que seria possível contar. Em algum momento, ela terá que se dar por vencida e então eu terei ganhado e não precisaremos falar disso nunca mais.

É então que escuto seus passos suaves ao longe e percebo que, dessa vez estão arrastados, como se seus pés lutassem contra seu cérebro, que os mandava moverem-se. Em dois segundos, ela chega à clareira e a primeira coisa que faz é focar seus lindos olhos verdes nos meus, fazendo meu corpo estúpido estremecer, sem remédio. Ela respirava pela boca, entreaberta, enquanto espremia a água para fora dos fios curtos de seu cabelo cor-de-rosa. Ficamos nos olhando em silêncio, na medida em que eu lutava para não admitir que ainda almejava seu corpo preso ao meu, já sabendo que ter interrompido aquele ato daquela maneira ainda me renderia muitas noites sem dormir.

Eu teria ido embora bem antes, na vontade de sumir o mais rápido possível e evitar qualquer conversa desnecessária e constrangedora. No entanto não poderia fazer isso, primeiro, porque tínhamos uma missão a cumprir e, segundo, porque jamais a deixaria ali sozinha com todos os perigos que poderia encontrar, ainda que eu realmente achasse que ela enfrentaria sem dificuldades a maioria deles. Por esses dois motivos, esperei, esforçando-me ao máximo em parar o formigamento em minhas mãos e a impaciência em minha cabeça.

Ela, então, desgruda o olhar do meu e o passa ao redor, dando-se conta de que eu já tinha recolhido todas as nossas coisas e levantado acampamento. Nem ela tendo feito sinal de agradecer, nem eu de informar o óbvio, apenas ficamos ali, olhando-nos mais uma vez. Quisera saber o que tinha em mente, o que havia sentido, por que me desejava daquele jeito e o que isso significava para ela nesse momento. Surpreendera-me tanto. Saber onde aprendera a forma segura e experiente com que havia agido não era exatamente de meu interesse ou incumbência, mas certamente me instigava a curiosidade. Nunca esperaria nada parecido dela; aliás, até pouco tempo atrás em nem sequer havia notado a bela mulher que se tornara, quanto mais desenvolvido qualquer tipo de paixão.

Dou acordo de mim: era isso, uma paixonite, para nós dois o era. E, com sorte, iria embora exatamente do mesmo modo como havia chegado. Por mais que precisasse aguentar mais alguns dias de perigosa convivência, tudo isso estaria acabado no momento em que pisássemos a vila e eu mesmo trataria de colocar um ponto final a isso. Tudo o que precisava fazer era evitá-la até que a falta passasse e sair com outras mulheres até que o desejo não mais existisse. Sorri, mais para mim que para ela, satisfeito com minha própria decisão e virei-me em direção à estrada, de onde seguiríamos viagem. Não demorou muito e comecei a escutar seus passos atrás de mim, ainda bastante preguiçosos.

O silêncio pairou entre nós durante todo o caminho, não tendo sido quebrado nem mesmo pelo barulho das cidades e vilas pelas quais passávamos. Em outros tempos, isso não me incomodaria de modo algum, mas, naquela circunstância, era mais um peso a carregar, que fazia arrastarem-se os minutos e as horas. Até estranhei sua quietude – não era próprio de sua vivacidade e generosidade deixar que o diálogo sumisse entre duas pessoas –, porém eu poderia facilmente entendê-la e não ousaria indagá-la, instigá-la a dar-se conta e começar a perguntar tudo o que eu não queria responder.

Logo caiu a noite, mas não paramos, pois já faltava muito pouco para chegarmos ao nosso destino e também porque quanto mais cedo isso acontecesse, mais cedo poderíamos voltar e deixar essa história toda de lado. Entretanto, algo nos atrasaria: de repente, ouço o zumbido ameaçar em nossa direção. Imediatamente antes de que tocasse minha companheira, bloqueio o objeto que o provocara com uma de minhas kunais, rebatendo a faca do inimigo que ainda não se mostrava. Alguns segundos depois, com os sentidos lentos demais para alguém que deveria estar em guarda, Sakura se assusta e segue meu olhar pela estrada e as florestas que a costeavam de ambos os lados.

Era bem possível que não só Sakura estivesse desatenta, já que nem mesmo eu havia percebido que estávamos sendo seguidos. É claro que poderia ser uma coincidência, mas, fosse eu esperando o momento certo para atacar, com certeza o faria aqui e agor: à noite e em um lugar apertado e escuro, para que não tivéssemos para onde correr. De soslaio, vejo me minha amiga preparar, entre os dedos de ambas as mãos, várias shurikens pequenas e escorregar para trás de mim, encostando suas costas nas minhas. Era definitivamente uma boa estratégia: a posição nos daria quase total ângulo de visão e as pequenas armas se camuflariam mais facilmente na noite, além de que eram bem mais silenciosas que as kunais.

Então, a minha frente aparece um homem. A um meio ajoelhar-se, tinha um dos braços pousado sobre uma das pernas, que estava flexionada, e assim ficou por um tempo, com a cabeça loira escura abaixada de modo que não pudéssemos ver seu rosto. Ele sabia fazer suspense, pelo menos. Começou a rir baixo, então, levantando-se logo depois e permitindo-nos conhece-lo: sustentava a bandana da Aldeia da nuvem e era jovem, deveria ter a idade de Sakura, mas isso não o fazia menos perigoso.

_ Quem é você? – perguntei, quando terminou de rir e ficou ali olhando como se não fosse fazer mais nada além de debochar de nós.

_ Ora – ele fecha os olhos, ergue o canto da boca e repousa uma das mãos na cintura, despreocupado demais para meu gosto –, você não espera que eu vá mesmo responder, espera – abre os olhos azul brilhantes em minha direção –, Kakashi?

Estreito o olhar para ele, perguntando-me de onde me conhecia, se nunca nos havíamos cruzado e eu nem mesmo tinha mostrado meu sharingan. Sakura se coloca ao meu lado, imaginando, talvez cedo demais, que ele fosse nosso único oponente e assiste ao nosso silêncio cheio de reservas e insinuações mudas. Sem desgrudar os olhos de nós, o menino leva sua mão lentamente para trás, como se fosse tirar de lá algum tipo de arma. Minha colega age rapidamente e atira nele a primeira leva de shurikens, das quais ele se desvia sem nenhuma dificuldade e, ainda com a mão atrás de si, lança-lhe um olhar estranhamente misturado em diversão e reproche.

_ Tsc. Tsc. Tsc. – balança a cabeça – Pressa não combina com você, Sakura.

Ela se assusta e com razão. A essa altura não havia dúvidas de que era um tipo de espião o shinobi que tínhamos à frente. Olho para minha amiga, com o canto do olho, que já se recompunha, mas mantinha agora uma postura muito desconfiada, provavelmente temendo que ele, pela observação, soubesse muito de seu estilo de luta. Não fiz ou disse nada, resolvendo deixá-lo mostrar também um pouco de si.

O loiro desconhecido tira, então, um pergaminho da pequena bolsa que carregava na base das costas. Imagino algum tipo de invocação, como as armas que Tenten usa ou os desenhos de Sai, contudo o que faz em seguida não confirma minhas suspeitas: ele nos estende o documento, em intenção de que nos aproximássemos e o pegássemos.

_ É uma mensagem do Raikage.

_ Por que o Raikage precisaria nos enviar uma mensagem? Viemos para falar com ele – Sakura diz, ainda desconfiada.

_ Veja com os próprios olhos – simples, como se não se importasse com que nós acreditássemos nele. Um bom mentiroso teria a mesma atitude, reflito. Ele balança o pergaminho a nossa frente e então muda o tom e a figura para algo mais ameaçador –. Ele desiste das negociatas e não quer nenhum ninja da Folha em nossa aldeia.

_ Como assim, desiste? – Sakura se altera um pouco ao meu lado, dando um passo para frente – ele ainda nem considerou nossos pontos!

_ Isso não é necessário. Já temos informações suficientes de Konoha para saber que não devemos confiar em ninjas como vocês.

_ Ora, seu...

_ Sakura!

Interrompo seu movimento colocando o braço em sua frente ao mesmo tempo que lanço a advertência em voz baixa e firme. Ela não ficou nem um pouco satisfeita com isso, mas não avançou. Eu também não gostei nada do que aquele homem disse, mas não pude negar que já esperava que algo do tipo acontecesse, mais cedo ou mais tarde. Assim que me certifico de que ela não tentará arranjar-nos uma luta desnecessária, abandono o lado seu e caminho, sem baixar a guarda e em máxima atenção a qualquer movimento estranho, em direção ao jovem ninja. Tomo-lhe a pequena carta das mãos e a desenrolo. Realmente era o que dizia ser, constava da assinatura e do selo oficial de Kumogakure.

Hokage-sama,

Devido às atuais circunstâncias, não se faz mais necessário
qualquer acordo, mesmo menção de concordância ideológica
ou política, entre as aldeias da Folha e da Nuvem. Declaramos
ainda que, a partir desta data, a entrada de qualquer
pessoa – shinobi, civil ou diplomata – fica suspensa,
incontestavelmente e sob qualquer conjuntura, até segunda ordem.
Esta não é uma decisão passível de contestações. Qualquer
tentativa de intromissão ou espionagem será interpretada
como afronta direta e a guerra, declarada.

Raikage-sama.

1678, ni gatsu, 11*.

As palavras estavam nítidas e, se não havia nenhum código escondido entre elas, a intenção do chefe de Kumo era a total transparência, ainda que pudesse suspeitar de que aquele documento não seria lido em voz alta para a população de Konoha. Algo me intrigava em seu discurso e a ameaça que ele fizera era de assustar a qualquer um, ainda que já estivéssemos todos temendo algo assim. Leio tudo mais uma vez, tentando achar algo que me pudesse ter passado despercebido antes, no entanto nada encontro; pelo que levanto o olhar novamente ao ninja à minha frente, que não tivera intenção de me atacar, nem tampouco de recuar.

Sondei seu olhar firme e determinado e decidi que confiaria em que aquele pergaminho fosse verdadeiro. Afinal, tampouco me cabia decidir se desacataria a possível ordem do Raikage e poria em risco a segurança das duas aldeias. Enrolo a nota novamente e a coloco na mochila, por sua abertura superior, voltando depois para onde Sakura me esperava, provavelmente ansiosíssima por saber o que estava escrito ali.

_ Vocês podem ir embora, não têm mais nada para fazer aqui – disse, ríspido e seco, o menino e é exatamente o que começamos a fazer. Teríamos de acampar de novo, mas seria melhor que o fizéssemos mais adiante ou aquele ninja e os companheiros que com certeza o acompanhavam poderiam pensar que tínhamos a intenção de invadir.

_ Como assim "devido às circunstâncias"? – ela faz um gesto debochado e uma voz terceira fingida.– Isso lá é explicação que se dê?

Já devia ser bem tarde da noite, pela posição, já passada do centro do céu, da lua, mas o sono não veio para nenhum de nós. Além do fato de estarmos agitados, é claro, porque teríamos de dividir a barraca mais uma vez. Depois do que aconteceu no lago e da minha secreta decisão de não permitir que nada do tipo sequer chegasse perto de ocorrer de novo, isso não seria nada fácil de levar a cabo. Tanto que eu já pensava dormir ao relento mesmo, talvez pudesse me abrigar do vento na copa de alguma árvore ali em volta. Olho para cima, buscando pelo galho perfeito, mas só de pensar em ter que relaxar a uma altura daquelas, sinto-me estremecer. Bendita hora que eu fui inventar de ter medo de altura!

Sakura caminhava de um lado para o outro há tanto tempo e tão rápido, mais conversando consigo mesma do que comigo, que já começava a me deixar tonto. Parecia a um ponto da fúria e eu pedi silenciosamente que ela não viesse descontar isso em mim, ao mesmo tempo em que pensava na sorte que Naruto tinha por não ter vindo nessa "missão". Eu deveria ter imaginado que ela teria esse tipo de reação, já que nem eu mesmo, que tinha um pouco mais de informações por conta da Aliança do Grou, tinha conseguido entender muito bem a que se referia o Raikage.

_ E que história é essa de guerra? Eles estão loucos? Não assinar os contratos, tudo bem; proibir as pessoas de entrar na aldeia, tudo bem; mas ameaçar uma guerra? – ela parece se lembrar de que falava comigo, dirigindo-me sua teatral cara de indignada – Kakashi, você está me ouvindo?

_ Sakura... – suspiro – Isso é só da boca para fora...

_ Da boca para fora! – debocha de novo, cruzando os braços e batendo o pé. É claro que eu não acho que seja besteira, mas tampouco é como se pudéssemos fazer algo a respeito.

_ Olhe – levanto-me e coloco-me a sua frente, segurando cada um de seus ombros de leve e olhando-a nos olhos de perto –, nada vai acontecer. Voltaremos à vila, entregaremos essa mensagem à Hokage, não invadiremos aldeia nenhuma e então tudo ficará bem.

_ Guerra, Kakashi! – ela se solta com um chacoalhar brusco de ambos os braços, olhando-me como se eu fosse um tremendo imbecil que a estivesse tentando convencer de uma mentira ridícula – Só o fato de terem mencionado isso... Você não entende?

_ É claro que eu entendo! – dou-me ao direito de enfurecer-me também. Bufo, imitando seu deboche, que agora já me dava nos nervos: – Quem parece não entender é você!

_ O quê?

_ Nunca lhe passou pela cabeça que nós provavelmente fizemos algo para despertar essa atitude? – ela fica quieta, parecendo ponderar o que eu dizia, pelo que continuo, não tão calmo quanto deveria: – Eles não só não quiseram nos ouvir, como nem sequer nos deixaram chegar perto de seus portões.

_ Você acha que eles já podem estar tramando uma investida contra nós?

_ Como é que é? – indigno-me – Como pode ser tão sonsa, Sakura? – ignoro seus olhos estreitos de raiva e seus punhos cerrados em ameaça – Quando é que vai deixar de ser o cachorrinho adestrado de Tsunade?

Preparei meu rosto e todos os músculos de meu corpo para o golpe que levaria, porém ele não veio. A garota dos cabelos rosados apenas me encarava como se não pudesse acreditar no que acabara de ouvir saindo da minha boca. Talvez eu tenha sido um pouco duro, é verdade, mas Sakura precisava ouvir aquilo e melhor agora do que tarde demais. Ela confiava muito na Hokage, quem, é claro, não merecia, e, desde a reunião à qual a levei para conhecer a organização, percebi que ela anda com um pé atrás comigo, sempre me estudando, me vigiando... Como se apenas esperasse o momento certo para me atacar, com palavras ou não, e defender Tsunade e toda a vila. Agora eu realmente achei que tinha dado essa chance a ela, entretanto sua reação não sugeria nada disso. Ela então desfaz o espanto de suas feições e aos poucos começa a desenhar nelas algo mais parecido com o desprezo que com o desgosto. Ainda me olha assim por longos segundos antes de dizer:

_ E você é o cachorrinho adestrado de quem, Kakashi? Akira?

Claro que não dividimos barraca.