CAPÍTULO 11: MAIS DÚVIDAS - KAKASHI

Um ronco alto tirou-me do transe em que me encontrava, perdido entre pensamentos dos quais jamais me lembraria. Como se acabasse de acordar de um sono pesado, inspiro fundo pelo nariz e olho para o lado, deparando-me com uma Sakura incomodada, sua braveza levemente abalada pelo rubor que a vergonha de ter uma fraqueza revelada traz. Traída por seu próprio estômago, ela contorce os lábios num beiço emburrado, mordendo-se a parte de dentro da boca. Eu teria rido e ela também, bem capaz, em outro momento, mas o clima era agora igualmente descontente para ambos, de modo que me limitei a dizer:

_ Vamos parar aqui – aponto para a casa de chá logo que passamos em frente a ela. Não digo para quê, era óbvio. E a obviedade não é bem vinda quando o silêncio se força.

A verdade é que não havíamos jantado noite passada, com todo aquele alarde e discussão. Além disso, tendo as frutas que Sakura trouxera e as que colhemos no caminho de ida até a Kumogakure sido rapidamente consumidas por nossa pressa, já não nos restara mais opção que não parar em algum lugar e suprir nossas barrigas famintas. Aquela era a primeira vila pela qual passávamos e era certo que se tratava de uma cidadezinha muito pequena, mas a próxima ainda estava longe e a fome que nos tomava com certeza deixaria o caminho ainda mais cansativo e longo.

Eu e Sakura não conversávamos nada mais que o estritamente necessário desde nossa discussão – ou talvez desde o incidente do lago... - e, mesmo que dessa vez o silêncio fosse muito desconfortável, eu não tinha a menor vontade de rompê-lo. Ela não disse qualquer palavra quando concordou em entrar no pequeno estabelecimento nem eu fiz mais que segui-la até a mesa ao lado da janela, a que nos sentamos. Ficamos observando a calmaria da rua escassamente movimentada até que uma menina de pouco mais que uma década, provavelmente, de idade viesse nos atender. Assim que anotou nosso pedido, dois pedaços de Bolo Kasutera* e duas xícaras de chá, a jovem nos dirigiu um sorriso leve e voltou para trás do pequeno balcão, de cujas vitrines vislumbrava-se belos, pães e doces. Era aconchegante, apesar de simples, a pequena quitanda. As paredes creme contrastavam com os móveis de madeira escura e o tecido das almofadas de ao redor das mesas era do mesmo verde pardacento das cortinas, salvo pelo fato de que estas tinham pequenos desenhos de um dourado meticulosamente bordado estampando-lhe o tecido a intervalos regulares. A iluminação suave dava um tom de sono ao ambiente, o que não seria muito eficiente para um desjejum, mas era certamente muito acolhedor. Sempre fui apaixonado por lugares assim e, mesmo com a tensão que tão grande fazia aquela mesa entre mim e quem havia se tornado uma grande amiga, pude sentir-me tranquilo.

Olho para o rosto de Sakura, querendo ver a mesma tranquilidade em suas linhas, mas elas continuavam frias, mirando com olhos desinteressados algum ponto fixo na rua. Quando percebeu que a olhava, encarou-me, a princípio sem qualquer reação. Contudo e como eu não desviasse, ergueu o queixo para mim, um tanto soberba, parecendo responder ao desafio que pensou eu pudesse ter proposto com o olhar, ainda que eu não tivesse certeza se realmente o fizera. Assim ficamos por alguns minutos, um tentando ler os segredos que guardava o outro, ao mesmo tempo em que tentava esconder os seus próprios. Seria uma luta sem vencedores, mas nenhum dos lutadores se renderia tão cedo, isso era mais que certo.

A batalha silenciosa foi interrompida, felizmente, pela menina garçonete, que veio trazendo nossos pedidos e depois se foi, despedindo-se ternamente:

_ Yoko taberu ne!**

_ Arigatou – eu disse sozinho.

A primeira coisa que fiz foi molhar a garganta com o delicioso e morno Ryokucha*** que havia pedido, enquanto observava Sakura fazer o mesmo com o líquido marrom-avermelhado do seu Hojicha****, que soltava uma esparsa e branca fumaça de dentro da xícara em que descansava. Por mais que minha consciência tentasse policiar o que de animalesco existe em todos os homens e que comigo não seria diferente, foi-me impossível impedir as cócegas que apareceram em meus lábios quando vi os de Sakura tocarem a caneca e sorverem com cuidado o líquido de dentro dela, sentindo a falta que faziam colados a eles... É estranho o que essa menina me desperta, como se eu não me contivesse em mim mesmo, como se eu não coubesse em mim mesmo.

Ela abaixa um pouco a caneca e assopra seu chá, apequenando a boca num perfeito coração rosado e úmido, enquanto passa a mão livre pela mecha de cabelos que lhe havia caído no olho a fim de prendê-la atrás da orelha. Quem me visse pensaria que estava preso em algum tipo de genjutsu, pois eu duvido que minha aparência fosse outra que não a de alguém em transe. Mal percebi quando passei a língua pelo lábio inferior, quase tocando o pano da máscara que repousava sobre meu rosto todo, e pergunto-me se ela percebeu. É provável que sim: quando levanta os olhos para mim enquanto toma mais um gole, enfada-se quase de súbito. Para de beber, abaixando a xícara, e pisca demoradamente, enquanto vira o rosto para a janela e bufa. Ainda em sua reação, bate com força levemente descabida a taça em cima da mesa, o que faz com que várias gotas de sua bebida respinguem e caiam sobre a mesa, uma delas inclusive atingindo-lhe o dedão da mão que segurava a asa. Ela solta o objeto imediatamente e volta sua atenção para a pele que começara a queimar no mesmo instante em que a água lhe atingira a superfície. Sacundindo a mão de leve em reflexo, a dona dos cabelos mais bonitos que já vi suspira baixinho e leva o ferimento até a boca, como o beijo "curativo" que se dá em uma criança machucada.

Talvez eu devesse ajudar, afinal é o que qualquer um faria a um amigo que se machucasse, mesmo que, como no meu caso, pouco pudesse fazer por ele. Mas o fato é que eu continuava imóvel em minha mistura de desconcerto e deleite; além do mais, Sakura saberia, com toda a certeza, lidar com uma simples queimadura de chá, como uma das melhores médicas-ninja de todos os tempos. Dito e feito: quando tira a mão da boca não havia nenhum sinal de mancha ou bolha. Algo me diz que esquecer o que aconteceu entre nós não será algo assim tão fácil como eu pensara... Sacudi a cabeça e finalmente consegui me concentrar em meu próprio chá. Terminamos nosso café da manhã em silêncio, quase como se começando a nos acostumar com aquela estranheza entre amigos.

Eu já estava prestes a acabar minha refeição, levando um dos últimos bocados de bolo à boca com o kuromoji***** e tentando manter meus olhos focados no meu lado da mesa, quando meus sentidos captam uma conversa suspeita a alguns metros a sudeste de onde estávamos sentados. Olhei para cima, para além de Sakura e das pessoas que estavam atrás dela, mirando um ponto qualquer da parede a frente, com o palito a meio caminho da boca que tinha fica aberta ao vácuo; a mulher de cabelos rosados a minha frente ainda estava na metade de seu doce e não parecia ter notado nada estranho. Endireito-me na cadeira, fechando a boca e pousando a comida novamente no prato, a fim de me concentrar no que ouvia. É claro que uma simples conversa sussurrada não seria suficiente para me alertar e, na verdade, tampouco tinha conseguido distinguir qualquer palavra ainda que os colocasse em lista de observação, mas meus instintos não costumam me enganar.

_ Então é verdade? – uma voz rouca de homem cochichava.

_ Foi o que ouvi – outra, um tanto alarmada, respondia.

_ Não é possível! – assustou-se o dono da primeira – Mas como isso foi acontecer?

_ O que eu sei é que uns homens encapuzados o sequestraram. Ninguém viu quem eram nem para onde o levaram, os caras sumiram imediatamente e desde então ele está desaparecido.

Houve vários segundos de silêncio, apenas interferido pelo ritmado som do tamborilar dos dedos de um dos homens e a respiração pesada, chiada do outro, que a parte mal disciplinada de meu cérebro julgou ser asmático. Eu não poderia arriscar olhar e ser descoberto, mas podia jurar que o movimento impaciente vinha daquele que havia falado primeiro.

_ Como é que não conseguiram impedir uma coisa dessas? – falou o rouco em tom mais elevado do que provavelmente deveria, ao mesmo tempo em que batia o punho contra o balcão. Fez um silêncio, recompondo a compostura e murmurou novamente, não menos indignado, mas talvez com um leve fundo de deboche: – Alguns homens contra todo um exército de guardas!

_ Na verdade – começou o outro, tão receoso de seu comentário de correção que me fez pensar que fosse vários anos mais novo que o de antes –, haviam poucos guardas no palácio àquela noite. Foi no mesmo dia em que deslocamos boa parte de nossos homens para Konoha, lembra-se?

Alarmei-me ainda mais, notando que os falantes eram ninjas da Aldeia da Grama. Eu estava diante do que poderia me levar ao motivo de sua invasão à nossa vila, que poderia muito bem ter acendido o fogo da guerra novamente. Essa seria uma informação, mais que valiosa para a Aliança, extremamente vital tanto para nossa segurança quanto para um melhor entendimento do contexto em que estávamos inseridos. É incrível como o conhecimento pode mudar tudo, seja isso má ou boa coisa. "Por isso o escondem", penso.

_ Claro que me lembro – respondeu resignado –. Quase perdemos um de nossos melhores generais por causa disso.

_ E pensar que teríamos ganhado se nada disso tivesse acontecido...

_ Claro! – riu um riso arrogante, quase se alterando novamente, o primeiro ninja – Isso com certeza foi planejado!

_ Não temos certeza.

_ Não temos dúvida!

Apressou-se ele furioso, interrompendo seu companheiro e provável aluno, que parecia ser mais equilibrado e sensato, mesmo que muito mais novo. Este soltou um suspiro, em resposta, acalmando a si mesmo e, saindo pela tangente, disse:

_ De qualquer maneira, não há nada que possamos fazer agora. O contingente ainda deve estar fragilizado, teremos sorte se os generais ainda souberem o que fazer.

O ruído metálico da cadeira sendo arrastada no chão de cerâmica anuncia que os dois se levantam e o barulho surdo de papel sendo atirado sobre a mesa, que pagam a refeição. Frustrado, cogito a ideia de segui-los, já que pouco havia conseguido com essa conversa confusa. Ainda não sabia quem havia sido raptado e nem por que isso lhes preocupava tanto. Eles mencionaram um general importante, seria alguém com cargo semelhante? Que ligação esse sequestro poderia ter com a última batalha que enfrentamos? E por que isso lhes poria tanto medo àqueles viajantes?

Tantas perguntas... Levo a mão à minha pochete pronto para retirar dali o dinheiro para pagar a comida e sair ao encalço da dupla, não querendo perder nenhum ponto de seu assunto. Entretanto não completei a ação, pois o que eles disseram em seguida, fez-me perceber que não continuariam o diálogo. Abaixaram ainda mais o volume da voz, na clara denúncia de que o que seria dito era segredo de Estado, mas não o suficiente para impedir meus ouvidos muito bem treinados de lobo de ouvirem a declaração.

_ O que temos que fazer é voltar depressa - respondeu o sensei, cansado.

_ Mas não terminamos nossa missão. Ainda temos que conseguir os...

_ E você acha que existirá alguma missão se não existir aldeia?

O jovem ficou em silêncio e seu mestre continuou:

_ Se os outros países descobrem quem de nós está desaparecido, estamos acabados – e saíram apressados.

Fico ali parado na mesma posição, a fome sumida e a perplexidade turvando-me ainda os pensamentos. Não tinha certeza sobre o que pensar, com certeza precisaria de um bom tempo de reflexão para desvendar o trunco entre as palavras daqueles dois habitantes da Aldeia da Grama. Olhando para Sakura, que me observava desconfiada e curiosa com a provável cara de estranheza que eu expunha, lembro-me de que tempo mudo não vai me faltar durante a viagem. Disfarço, espero que o suficiente, o espanto de meu semblante e me levanto, ao perceber que ela já tinha terminado seu café da manhã, e ela repete meu movimento.

Antes de sairmos da tenda, ainda compramos alguns pãezinhos para o caminho e também reabastecemos nossos cantis de água. Fomos andando bem devagar e de boca fechada, obviamente, pela avenida principal da cidade, que coincidia ser a via que tomaríamos para sair dali e ir em frente. Enquanto isso, comecei a recordar a noite da invasão da Folha pela Grama e a Pedra, tentando me lembrar de algo que talvez me tivesse passado despercebido e que pudesse me ajudar a entender o que acabara de ouvir. Recordo a conversa que tive com Akira, logo antes de que Sakura e Naruto chegassem e terminássemos de montar nossa formação para a luta que viria:

_ Kakashi – o velho chama-me a atenção quando se aproxima. Não grita porque o que tem a dizer se mistura com nossa organização e discutir qualquer coisa do tipo no meio da rua já é perigoso o bastante – O que você sabe sobre tudo isso?

_ Não muito – viro-me casualmente para ele – somente que a festa fazia parte de um plano de Shikamaru.

_ Sim, isso eu já imaginava. Não sabe de nenhum detalhe?

_ Bem – esforço-me em resposta a sua pressa impaciente –, as pessoas estão dizendo que este foi o primeiro erro dele, mas eu duvido muito. O Nara é inteligente demais para que tivesse um deslize desse porte.

_ Eu também não acho que tenha sido um erro – faz menção para que eu continue.

_ E também tem aquela história da nossa invasão à Grama: uma revanche era mais do que prevista, facilitar as coisas assim seria muita prepotência.

_ Foi tudo pensado... – mostra o óbvio, mas fala como se para si mesmo – E a Folha queria que eles revidassem.

_ Como?

Assusto-me quando comenta. Algo perigoso assim seria tão imprudente como o erro que as pessoas achavam que nosso estrategista tinha cometido. Se bem que, no meio de tanta coisa sem sentido, mais uma ideia bizarra até faz juízo. E a bem da verdade é que eu estivera mesmo remoendo algo assim desde que encontrei Temari mais cedo. Se me lembro bem, ela disse que, se alguém tentasse aproveitar nossa aparente guarda em baixa para investir contra nós, cairia em nossa armadilha. Talvez o recado não fosse para qualquer país, e sim especificamente para a Aldeia da Grama, mas com que propósito? Por que seria interessante travar uma batalha em meio à tamanha instabilidade que ronda nosso mundo, logo agora que estamos firmando contratos de paz? E arriscar a vida de nossos cidadãos ao trazer o inimigo até nossa terra?

_ A comemoração foi o convite.

Conclui Akira, não me tirando as dúvidas. Resolvo contar sobre a conversa que tive com Temari, apenas para confirmar o que agora nós dois já sabemos. Ele já insinuava retirar-se, sem despedidas, como costumava fazer sempre que precisava pensar, quando me lembrei de mais uma coisa estranha que havia notado mais cedo e que não fui capaz de associar antes.

_ A propósito – começo, recebendo novamente sua atenção –, vi uma movimentação estranha de alguns shinobis durante a festa do tratado.

_ Como assim? – diz com uma curiosidade receosa.

_ Agiam de modo estranho, tentando se misturar e passar despercebidos, mas vestiam a mesma coisa e se comunicavam de tempos em tempos, como se esperassem o momento para fazer o que quer que tinham vindo fazer.

_ Pode me dizer quem são?

_ Não estão mais por aqui – digo depois de dar mais uma olhada ao redor –. Pensando bem, faz tempo que não os vejo.

_ Reconheceu algum deles? – diz o velho, categórico.

_ Não usavam bandanas, mas alguns rostos me eram familiares. Tenho quase certeza de que vieram da Aldeia da Areia, mas eu duvido que seu propósito era festejar conosco. Talvez fizessem parte da estratégia e já estivessem se preparando para a batalha.

_ Poderiam ser espiões inimigos... – eu não sabia se entendia realmente sua hipótese.

Coloco essa conversa na lista mental de coisas a lembrar mais tarde e então começo a remoer outra, que, de súbito, me veio em mente - bingo!

Depois da batalha, quando me dirigia à reunião da Aliança e peguei a conversa de Tsunade e Shikamaru. Eles falaram de alguém que tinha sido feito prisioneiro, alguém importante o suficiente para que a própria Hokage se preocupasse pessoalmente pelo seu bem – ou mal? – estar. Eu sei que a Sakura pensa que isso não passa de um blefe e que, se caíssemos nele, poderia resultar na descoberta de nossa organização, mas agora eu já não sei se concordo com isso. Esses dois ninjas da Grama mencionando alguém desaparecido, aparentemente sequestrado, no mesmo intervalo de tempo... Seria mera coincidência?

Além disso, pelo que eles disseram, era alguém muitíssimo importante, que poderia inclusive decidir o futuro de todo seu país. Se o homem preso em nossa aldeia for o mesmo por quem eles estão preocupados, pode haver um nítido interesse da Folha sobre o destino de Kusagakure. Também há o fato de que nossos inimigos fugiram de repente, quando receberam uma notícia – provavelmente a do tal sequestro – e nós não fizemos nada a respeito, deixamos que fossem embora. Está certo que estávamos debilitados, mas é consenso entre todos que uma invasão é afronta grande demais para deixar passar barato.

Droga! Parece que quanto mais eu penso, menos entendo. Não consigo ligar os pontos... Onde se escondeu meu raciocínio rápido? As perguntas continuam vagando e se confundindo, as respostas nem sequer parecem existir para que alguém as encontre.

_ Ikuze – sobressalto-me ao ouvir o inesperado comentário de Sakura, que caminhava inquieta ao meu lado –, diga-me: o que você ouviu?

_ Oro?

_ Não se faça de bobo, Kakashi – e me lança, de soslaio, um olhar reprovador –. Sei que você estava ouvindo a conversa daqueles homens.

Fico perplexo por uns instantes, não podendo acreditar que tinha deixado isso tão explícito. Será que eles também perceberam que os espiava? Quase rezei para que não, ao passo em que esperava, em vão, que Sakura desistisse de saber sobre aquilo. Sua desconfiança não podia gerar outra coisa em mim que desconfiança para com ela. Além disso, nem eu mesmo entendia por completo a situação, pelo que jamais poderia explicar a ela de modo a que satisfizesse sua curiosidade. Respirei fundo, sabendo que ela não recuaria e procurei algo que não me comprometesse muito:

_ São ninjas da Grama, voltando para o próprio país. Nada de especial.

Ela me analisa por alguns segundos, mas não olho para ela. Costumo mentir muito bem para todos, mas essa garota definitivamente me tira do sério!

_ Não minta para mim, Kakashi – falou ela, firme.

_ Eles falavam sobre a batalha com a nossa aldeia.

Foi o que decidi dizer, aproveitando-me da meia verdade que ela pareceu aceitar. Da completa nem eu mesmo sabia e talvez se soubesse teria, realmente, compartilhado com ela. Afinal, eu não tinha motivos suficientes para não confiar uma informação sobre nossa cidade a ela. Embora aqueles fios rosados parecessem estar ao lado dos loiros de Tsunade, que eu não gostaria que se inteirasse de algumas notícias antes que eu e a Aliança soubéssemos do que se tratava, eu estou certo de que serei capaz de trazer sua dona para dentro de nosso círculo. Era apenas uma questão de conhecimento. Sakura ainda não entendia tudo o que acontecia, estava sendo enganada como o resto da vila. Quando acordasse do sono da alienação, eu lhe contaria todos os detalhes e então ela tomaria a decisão correta.

Ela me olhava com claro interesse agora, encorajando-me a continuar, enquanto desacelerava o andar, obrigando-me a obedecer à frequência de seus passos. Contei-lhe toda a conversa, sem fazer muitos juízos próprios não querendo revelar meus poucos e fracos pensamentos a respeito, mas também sem omitir fato algum, deixando que ela levantasse suas próprias hipóteses e tirasse suas próprias conclusões. A cada palavra minha ela parecia mais confusa e não me interrompia muito, mas pelo menos estava prestando atenção como se realmente quiséssemos conversar. Confesso que fiquei um pouco mais aliviado com a tensão parecendo se esvair de nossos ombros. Talvez nossa amizade voltasse logo a ser como era antes.

Ao passarmos pelos portões simples e deixarmos a pequena vila para trás em nossa jornada, vi um homem encostado à parede da casa da última esquina. Vestia uma capa cinza, toda manchada de tons mais escuros da mesma cor, que lhe cobria desde os ombros até os pés. Não logrei reconhecê-lo, mas sua estratégia sim: era uma antiga tática ninja de ocultamento nas folhas, desenvolvida inicialmente por Konohagakure. Quando não haviam ainda sido descobertas as táticas de genjutsu, nossos antepassados precisaram recorrer a técnicas mais rudimentares, como roupas que se misturassem facilmente com a paisagem, a fim de não serem vistos, fora um verdadeiro acervo de movimentos sutis. Porém aquilo parecia extremamente fora de lugar, além de fora de tempo: nosso observador estava descoberto, em plena luz de quase meio dia, como se realmente quisesse que o percebêssemos. Fitava-nos sem a menor pretensão de se esconder.