CAPÍTULO 12: A DECISÃO - SAKURA
O nosso último dia de missão estava bastante quente, se pensássemos que acabávamos de sair do inverno. Não que em nosso país ele fosse muito rigoroso – raros são os anos em que há neve –, mas era suficiente para pedir alguns casacos a mais. Agora a primavera começava a trazer temperaturas mais agradáveis, para alívio de alguns e desalento de outros – o primeiro era meu caso, embora eu soubesse que começaria a reclamar assim que o calor também deixasse de ser agradável. Enfim, o fato é que nossa viagem ia bem, nem muito rápida, nem muito lenta, apesar do silêncio esmagador que tentava roubar-nos a presença um do outro.
Kakashi caminhava ao meu lado com as mãos nos bolsos, como sempre; eu, fingindo que as alças de minha mochila precisavam que as segurasse com as mãos mais que com os ombros. De vez em quando falávamos, claro, nem seria humano não fazê-lo, mas cada vez mais nossos assuntos se restringiam à missão ou algum outro tema de nosso trabalho como ninjas. Olho para o céu, onde algumas nuvens, não muito grossas nem muito cinzentas, começavam a esconder o sol, ameaçando mais uma vez as primeiras chuvas da estação. "Será que devo contar?", penso, lembrando-me da estranha obrigação que me havia sido incumbida. Eu a estava cumprindo até agora, mas seria capaz de leva-la até o fim? Eu sei que ninguém pensaria em desacatar uma ordem de Tsunade, mas o que ela me pediu não era assim tão simples como fez parecer. Eu e Kakashi estamos muito próximos ultimamente – talvez até próximos demais –, apesar do clima de tensão que paira entre nossos corpos agora, o que fazia aquela decisão ainda mais difícil. Evidentemente, ela sabia que, no fim, a decisão seria minha: eu poderia escolher desobedecê-la sem que ela jamais soubesse, ou pelo menos sem que tivesse provas que me incriminassem. No entanto a confiança que depositara em mim e meu senso de obrigação para com meus deveres ninjas e a vila não me permitia simplesmente fugir. Afinal, era tudo para o bem de Konoha, não?
Droga, por que isso não me convence? Bufo, olhando para meu amigo. Ele estava agindo de modo estranho, sim, principalmente agora que tenho prestado mais atenção nele; uma coisa que eu ainda não engulo são suas intenções políticas. Está claro que ele e aquela tal Aliança estão tramando um Golpe de Estado para derrubar a Hokage. O que eu não entendo é por quê! Percorro toda a sua silhueta, avaliando sua feição e postura, na esperança que isso me ajudasse a desvendar os segredos que ele esconde e que eu não tenho audácia suficiente para investigar. Vejo seus lábios deslizarem abertos por debaixo do tecido de sua máscara e seu olho direito se apertar enquanto ele solta um longo e preguiçoso bocejo. Depois, virando-se para mim, dirige-me um sorriso ainda banhado de preguiça e provavelmente de tédio, mas minha retribuição não saiu como eu esperava e o fez torcer a expressão em algo mais intenso, apertando de leve o olho, como se tentasse ler-me.
Desvio a atenção, querendo em vão estar brava com os efeitos que aquele homem tinha sobre mim, para a estrada a minha frente, no mesmo segundo em que um arrepio chato resolve interromper meu estudo e me trazer de volta as lembranças do dia anterior. Meu cérebro estava decidido: não confiava mais no meu amigo nem lhe daria outra chance de tentar explicar sua razão. Porém meu coração, e, talvez, outra parte ainda mais irreverente e instintiva de meu corpo, não concordavam com essa resolução. Se eu sabia de que lado de mim estava meu senso de justiça em toda essa história? Definitivamente não. E, na verdade, era isso mesmo que ainda me mantinha ponderando, decidindo e voltando atrás.
Além disso, algumas coisas que meu antigo sensei e seus amigos de conspiração disseram ainda se infiltravam em meus pensamentos e várias vezes pareciam fazer bastante sentido, incluindo alguns juízos sobre o governo de Tsunade-sama, coisa com o que eu não estava certa se deveria me assutar. Isso acontecia de tal modo e com tal frequência que eu já começava a duvidar até mesmo do que antes me era certo; começava a desconfiar também da Hokage e de suas atitudes, ainda que sempre procurasse reprimir essas ideias. De fato, eu me sentia bagunçada, no ar, sem saber no que acreditar – ou em quem. Seria mesmo traição trair alguém que já te traiu? Que saco! Eu não sou a melhor pessoa para lidar com essas coisas! Não sou burra, mas também não sou um gênio! Como posso decifrar tantos mistérios se até mesmo meu raciocínio me é um mistério, ultimamente?
De repente, sinto uma dor aguda no pé esquerdo e caio, surpreendida e de joelhos ao chão. Sakura... Achei que já tivesse deixado essa época de virar o pé para trás! Ouço Kakashi se ajoelhar ao meu lado, atrasado na tentativa de me dar algum apoio, e sento-me, trazendo o joelho de encontro ao meu peito para poder analisar o tornozelo, já sabendo como seria sua aparência. Toco a área machucada e percebo que já começava a inchar. É, o jeito era esperar que não ficasse roxo e assim pudesse se curar mais rápido.
_ Você está bem, Sakura-chan? – levanto o rosto para o dono daquela voz rouca, agora toda preocupada, e estranho-me ao perceber que gostava da presença daquele sufixo junto ao meu nome e que tinha sentido falta de que meu amigo me chamasse assim.
_ Hai – suspiro, franzindo as sobrancelhas e voltando a atenção para meu pé, que agora latejava –. Apenas torci o tornozelo.
_ Precisa tomar mais cuidado – jura?
_ Eu sei – miro-lhe um olhar reprovador por seu comentário totalmente desnecessário, ao mesmo tempo em que tento mover o pé a fim de sentir a extensão da contusão. É claro que algo não estava certo, era um machucado, mas o algo impedia parcialmente o movimento e causava uma dor estranha, um pouco profunda demais para uma simples torção.
_ Vamos te tirar do meio da estrada.
Anuncia Kakashi, pegando-me um braço pelo cotovelo e outro pelo punho, para ajudar-me a levantar. Casualmente, passo o braço em volta de seu pescoço, apoiando-me em seu ombro, e ele desliza uma mão pela minha cintura, provocando ali arrepios indecentes e completamente fora de lugar. Assim que toco o chão com a ponta da sandália direita, entretanto, um pulso de dor percorre-me toda a perna e sinto como se me tivessem cravado uma faca no pé. Não consigo conter um pequeno grito de dor, que saiu mais chorado que gritado, de fato. Kakashi me encara com a feição tensa, preocupada e depois a desvia para alguma parte de meu corpo, embora eu saiba que não está realmente olhando. Então ele me solta um pouco, mas sem me deixar sem apoio, e retira minha mochila de minhas costas para logo pendurá-la precariamente em seu ombro.
_ Vem, eu te carrego – dizendo isso, ele se agacha um pouco, o suficiente para abraçar o ponto baixo de minhas duas coxas e erguer-me em seu colo.
Mesmo carregando todo aquele peso, não fez nenhuma cara diferente da que já sustentava antes, apenas caminhou devagar por alguns instantes floresta adentro e depois me deitou ao pé de uma árvore. Largou as duas mochilas ao lado e se sentou comigo, com cara de "posso ajudar?".
_ Pode me passar a caixinha de primeiros socorros de dentro da minha mochila, onegai? – peço-lhe, sentando-me mais reta um pouco e aproximando novamente, com um pouco de dificuldade, o tornozelo enorme ao meu corpo.
_ Claro.
Ele vasculha por alguns segundos o meu pedido dentro da bolsa, mas, quando o encontra, não entrega. Ao invés disso, abre a caixa e me olha com cara de pergunta de novo. Rio um pouco de sua desajeitada vontade de ajudar e indico-lhe um potinho verde escuro, que ele pega e destapa, revelando uma pasta branca, grossa em seu interior.
_ Quer que eu passe pra você?
_ Kakashi! – rio dessa vez um pouco mais alto, descontraída – só uma pomadinha não vai curar isso aqui – ele fica corado e eu acho mais graça ainda –. Dá, deixe que eu faço.
Ele me entrega o pequeno recipiente e eu mergulho dois dedos dentro dele, tirando o que acho ser o bastante. À medida que começo a espalhar o remédio ali, vou aplicando um jutsu curativo para acelerar o procedimento. Torções não são exatamente lesões muito complexas, a maioria não passa de distensões musculares, mas geralmente são chatas de se curar e, caso não quiséssemos nos demorar muito mais para chegar em casa – estávamos há poucas horas dos limites de nossa aldeia –, melhor seria que eu me apressasse ao máximo.
Alguns minutos depois, tento mover o pé como havia feito antes e sinto algo ainda mais estranho do que havia sentido antes, como se o machucado estivesse piorando ao invés de se curar. Franzo o cenho, sem entender por que motivo a técnica que estava usando não estava funcionando. De fato, o inchaço ia diminuindo, mas os resultados não passavam dos tecidos superficiais. Troquei então o método por outro mais invasivo e pude confirmar a suspeita que formulava em minha mente.
_ O que foi? – pergunta Kakashi, provavelmente percebendo minha aflição.
_ Acho que rompi um ligamento – conto, com um suspiro de frustração. Eu poderia concertar, sim, mas demandaria algo mais de tempo e esforço.
_ O que isso significa?
_ Ainda não sei. Esse é o tipo de coisa que costumava deixar pessoas sem poder andar – ele arregala os olhos –, hoje, com o ninjutsu médico e as cirurgias, isso não acontece mais. Mesmo assim, dependendo da condição, ainda pode deixar sequelas e, com certeza, não se cura tão facilmente como uma torção comum. Além de que não podemos fazer uma cirurgia fora de um hospital.
Quando termino de falar, paro com o jutsu um pouco, querendo saber o que Kakashi vai dizer sobre isso. Possivelmente teríamos de dormir no caminho mais essa noite e nossas opções se dividiam em duas: compartir a única barraca que tínhamos trazido, o que seria com certeza bastante desconfortável depois do que aconteceu; ou que ele dormisse do lado de fora novamente, já que eu não cederia minha tenda de jeito nenhum. Ele olha para as mochilas e depois para mim outra vez, fixando-se no meu pé machucado. Hesita, morde o lábio inferior e então decide falar, voltando a olhar para mim com uma expressão engraçada:
_ Eu te carregaria, sem problemas – leva a mão à nuca –. Mas não acho que sustentar três bagagens desse tamanho por horas seria humanamente possível.
Rio de seu desconcerto, percebendo que ele se referia a mim como terceira mala e deixando de lado por um tempo meu comum desgosto com a possibilidade de ser um fardo, porque eu sei que ele só estava brincando e também porque não queria acabar com a aura boa que parecia querer se instalar entre nós. Meu companheiro ri também, virando-se para as mochilas, tira de lá os lanches que tínhamos comprado e os coloca entre nós, oferecendo-me um bolinho, o qual aceito. Comemos em silêncio e eu decido deixar a cura para depois, concentrando-me num certo pensamento que estava me incomodando de novo: "precisamos conversar... Sobre muitas coisas.".
_ Kakashi...
Interrompo-me, ao olhar para ele, que estava novamente sem máscara, com a boca cheia, pois estava comendo. Lembrei-me de nossos rostos tão próximos, nossos lábios selados e nossos corpos – nus – colados. Coro instantaneamente com meus pensamentos, não fazendo ideia de como começar a conversa que eu sentia que necessitávamos ter para o bem de nossa amizade ou o que quer que existisse entre nós.
_ Eu sei... – ele diz, depois de engolir o que estava mastigando e soltando um muito leve suspiro depois disso. Coro, só mais um pouco, entendendo que lhe passava pela cabeça exatamente o mesmo que a mim.
_ Gomen nasai, Kakashi-sensei – foi o que consegui dizer, com uma voz trêmula que eu sempre tento reprimir e várias vezes acabo deixando passar, não tendo muita certeza se essa era realmente a resposta que deveria dar, mas tampouco inquieta o suficiente para sustentar seu olhar e descobrir.
_ Não, Sakura – ele chama a minha atenção novamente e procuro seus olhos cálidos mais uma vez –. Sou eu quem deve se desculpar – não respondo e ele não se explica, apenas acrescenta, algo incomodado, talvez chateado, desviando o olhar para o restante do bolo que segurava já sem vontade entre seus dedos: –. E não me chame assim, por favor.
"É claro! Que tonta fui!", as palavras se iluminam em minha consciência, revelando-me um alívio e uma esperança estranhamente fortes. Foi por isso que ele foi embora, deixando-me sozinha no lago, no dia anterior. Ele não tinha me rejeitado, como meu ego pensara, mas sim se sentido culpado. Olho no fundo dos olhos dele, os mesmos olhos que eu sabia que só fariam embriagar-me daquela sensação proibida que teimava em não se desculpar dentro de mim. Aquela sensação que punha em xeque qualquer tentativa que meu cérebro tivesse de manter meus instintos bem trancados dentro da caixa de pandora que eu guardara por tanto tempo e que agora parecia querer, de livre e espontânea vontade, abri-la sem medo das consequências. Aquela sensação que provocava arrepios e formigamentos em lugares que... Percebi que estava mordendo o lábio inferior de uma forma certamente indevida, pois Kakashi olhava para ele com uma ânsia que qualquer um que visse entenderia por que caminhos andavam suas ideias. Solto o lábio imediatamente e desvio o rosto, escondendo meu rubor atrás de uma mecha de meu cabelo que havia caído em meu rosto com o movimento brusco.
_ Eu não deveria ter entrado no lago com você – minha razão volta a policiar-me, numa voz baixa que eu sabia poder ser ouvida.
_ E por que entrou? – Noto que ele aproxima seu corpo do meu, enquanto solta a provocação, tão lentamente que eu me pergunto se está consciente de sua ação.
_ Eu espero que isso não afete nossa amizade – digo, simplesmente, porque é verdade e porque não quero responder à sua pergunta.
Achei até que, ignorando-o, conseguiria que deixássemos aquela conversa de lado e nossos desejos proibidos fossem embora, mas todo mundo sabe que esse tipo de sensação, se não some logo, é porque ficará por muito tempo. E, já tendo nós provado dela antes, seria muito mais fácil ceder novamente aos seus encantos. Apenas para comprovar minha teoria, Kakashi agora estava próximo o suficiente de mim para que nossos ombros quase se tocassem, daquela forma inconstante, toca, não toca, que deixa qualquer um inquieto. Enxergo, de soslaio, sua mão levantar-se ao meu lado e vir em direção ao meu rosto. Ele tinha a intenção de colocar aquela mecha atrevida de meus cabelos para trás da orelha, mas havia conseguido provocar vários arrepios com o simples toque da ponta de seus dedos na maça de meu rosto.
Não lhe bastou. Ainda precisou expandir o contato por toda a linha de meu maxilar e queixo, onde se deteve, fazendo-me estremecer perigosamente. Com a mão ainda em meu rosto, deixo que ele conduza meu olhar até o seu, que agora estavam há escassos centímetros um do outro. Tinha o rosto descoberto, já nem a bandana vestia mais, e - depois de parar-me em sua cicatriz, como sempre fazia, curiosa por saber onde a conseguira, embora já tivesse especulado sobre isso várias vezes - não pude evitar mirar sua boca, entreaberta como a minha; nossas respirações se misturando e se aquecendo. Seria engraçado pensar o quão vazia fica a mente de uma pessoa nessas ocasiões, se a minha também não estivesse totalmente em branco naquele momento. Os lábios de Kakashi se mexem e seus olhos requisitam os meus, enquanto ele fala, devagar e com a voz tão baixa e tão rouca que eu não tenho certeza se ele realmente queria que eu ouvisse:
_ Tarde demais.
Arrepio, praticamente a cada centímetro aproximado, enquanto ele puxa lentamente meu rosto para o seu até que nossos narizes se encostam. Então ele para, deixando cair junto a mão, antes pousada em meu queixo - como se desistisse, mas não o suficiente para se afastar - e ficamos encarando nossos lábios suplicantes, torturando-nos ao mesmo tempo. Não era, na verdade, como se alguém tivesse a intenção de recuar; talvez fosse como se não tivéssemos ainda coragem o suficiente para avançar. Mas existem situações em que coragem é capricho, pensar é capricho. A gente acha que atitudes intuitivas são corajosas, mas a verdade é que a coragem precisa ser pensada. A intuição, os instintos, não. Estes apenas são.
Assim sendo não foi coragem o que eu tomei, mas sim uma boa dose de instinto. Terminei o caminho que Kakashi havia começado a trilhar, roçando suavemente nossos lábios por um instante, antes de pressioná-los um pouco mais em um beijo. Ele não reagiu, de modo que me ajeitei melhor e abracei seu lábio superior com os meus, num beijo mais caprichado, mas não menos suave. Dessa vez ele resolveu corresponder, lançando uma de suas mãos em minha nuca e entrelaçando seus dedos em meus cabelos. Imito seu gesto, fazendo com que a pressão dos beijos aumentasse e nos obrigasse a apressá-los, abrindo-os e permitindo às nossas línguas que finalmente se encontrassem e consumissem.
O baú proibido sacudia perigosamente e eu não sabia se poderia mantê-lo fechado por muito mais tempo, ou mesmo se queria que ele assim ficasse. Contudo a realidade veio bater à porta, ou melhor: ao pé. Mexi desajeitadamente, querendo aproximar-me ainda mais de Kakashi, a perna e senti a pontada de dor novamente. Interrompi o beijo no mesmo instante, soltando um gemido baixo de dor. Olho para meu tornozelo e o vejo inchando outra vez; teria de começar a tratá-lo logo ou poderia piorar.
_ É... – meu amigo recupera o fôlego perdido, evitando-me olhar nos olhos – Acho que é melhor eu armar a barraca, pode chover.
_ Matte – seguro seu antebraço, agora sim num lampejo de coragem, antes que ele terminasse de se levantar, obrigando-o a olhar-me nos olhos –. Não vai fugir de mim de novo, vai?
Ele fica paralisado por alguns segundos, tampouco acreditando que de repente eu tinha ficado tão atrevida, mas depois pisca duas vezes e dá um sorrisinho mínimo de lado. Solto seu braço, satisfeita com sua resposta silenciosa e o assisto montar nosso refúgio. Sim, nós já fizemos nossa escolha: compartilharemos a barraca, como da primeira vez.
Aquilo que tivemos não pode ser chamado de conversa e nem era esse tipo de conversa que eu pretendia ter, em primeiro lugar, quando insinuei que precisávamos falar. Aliás, o que eu mais precisava entender não tinha sido posto em pauta. Não era necessário que eu pedisse qualquer esclarecimento a Kakashi e, em verdade, ninguém em meu lugar se incomodaria em fazê-lo; apenas cumpriria com seu objetivo e deixaria que outro tomasse conta das formalidades. No entanto esse não era o caso para ser formal, afinal somos amigos de longa data, e a relação que eu começava a construir com aquele homem tendia perigosamente ao acaso do futuro, de modo que eu não sabia como interpretar corretamente as informações à minha volta, desconfiando até mesmo de minha desconfiança.
Desvio a atenção que mantinha no jutsu médico que praticava em meu tornozelo e a coloco sobre o ninja sentado há alguns metros de mim, além da fogueira que havia acendido entre nós. Tinha as pernas cruzadas, uma embaixo da outra, e polia o fio de uma kunai com uma pedra, fazendo arranhar um som acre e soltar pequenas faíscas de vez em quando. Sem colete, sua postura era relaxada, confortável e os movimentos que realizava com os braços expunham ostensivamente seus belos músculos, que, por debaixo da malha fina da camiseta, pouca questão faziam de se esconder. Nosso beijo fora interrompido por meu machucado irritante, porém a verdade é que não poderia ter continuado por muito mais tempo. Claro que nossos instintos mais queriam que se fizessem eternos, mas nenhum de nós compreendia o significado daquelas sensações e, como num estudo, deixar variáveis tão complexas sem observação poderia arruinar tudo. A racionalidade em mim, eu sabia, não abandonaria aquela luta e provavelmente o mesmo acontecia para Kakashi.
Eu o desejava, sabia disso e já não me esforçava em negá-lo sequer para o objeto de meu querer. Alguma coisa me dizia que ele se sentia assim também, entretanto, ainda que decidíssemos nos render ao carnal em nós, os olhares imaturos de nossa vila por demais tradicionalista não nos deixariam em paz. O mais sensato era reprimir toda essa vontade, mas, como eu disse, minha cabeça já estava certa disso, restava convencer o resto de mim. Como dizer ao surdo que tape os ouvidos?
Sacudo a cabeça, na tentativa de retomar o foco. Tendo a minha curiosidade aumentado significativamente e dependendo o sucesso de minha missão daquela conversa, decido sacar logo o tema, muito embora eu não soubesse exatamente como. Apenas comecei a dizer o que me veio à cabeça, sem parar para analisar qualquer palavra.
_ O que você vai fazer com aquelas informações? – digo, em alto e bom tom, nitidamente pegando meu interlocutor de surpresa.
_ Como?
_ Dos ninjas da grama que encontramos mais cedo... – recomeço e ele me olha de um jeito estranho, meio desconfiado, meio confuso – o que vai fazer com aquelas informações?
_ Não sei – diz, com as sobrancelhas unidas numa mesma linha, depois de algum tempo analisando-me –. Interpretá-las, eu acho.
_ Pelo jeito aquela história do prisioneiro era verdade – digo, mais para mim mesma do que outra coisa, lembrando-me do que ouvimos Tsunade dizer, àquela noite em que segui Kakashi, finalmente ligando os fatos –. Tem alguma ideia de quem possa ser?
Meu companheiro e líder de equipe solta um suspiro, decidindo abandonar de uma vez o cuidado de suas armas.
_ Iie – pausa –. Eles não deram muitas pistas.
_ Você acha mesmo que nós somos os responsáveis?
_ É o que tudo indica – guarda as armas com suas outras coisas e vem se sentar mais uma vez ao meu lado. Não podia dizer com certeza, por conta da fraca luz que a chama fazia em seu rosto na noite que já havia caído, mas ele parecia um pouco relutante ainda em conversar sobre aquilo, o que só me deixava mais curiosa.
_ Bom, quem quer que seja deve ser perigoso – dou de ombros, escorando-me preguiçosamente no áspero tronco da árvore atrás de mim –. Fico feliz que ele esteja preso.
Kakashi se vira bruscamente para mim, encarando-me com uma expressão que eu não entendi. Aperta os lábios numa linha fina e abaixa o rosto. Alguns segundos depois, ouço seu suspiro frustrado, acompanhado das palavras:
_ Nós não sabemos disso, Sakura.
_ Você não vai contar à Godaime, vai? – recebo um silêncio como resposta prévia à minha desconfiança descarada.
_ Eu não posso – soou como uma confissão.
_ Nande*?
_ Porque – mira-me, decidido – eu não confio nela.
Bufo. Como entender palavras soltas assim? Às vezes acho que ele não quer que eu compreenda suas razões, porque nunca diz nada completamente. Esse joguinho de mistério pode ser legal até certo ponto, mas cansa!
_ Você não entende.
_ Então me explique! – mexo-me e acabo com o tornozelo doendo, mas ignoro – Explique, Kakashi, se quer que eu entenda, porque não sou obrigada a adivinhar. E me desculpe por não pegar a charada quando você e seu clubinho decidem começar a conspirar contra nós sem nenhum motivo! – termino zangada, já imaginando que isso levaria a outra discussão, mas, para minha surpresa, minhas palavras não despertam sua raiva.
_ Nós... – ele não me olhava, mas sua voz soava decepcionada e isso me acertou mais do que qualquer palavra irada. Afinal, ele havia sido meu professor por muito tempo – Então você está do lado deles?
Meu queixo cai, em parte porque o que lhe tinha despertado a atenção não me parecia digno de interesse – já que eu tinha mencionado o "sem motivo" exatamente para deixá-lo irritado –, em parte porque não podia acreditar no segredo que aquele seu discurso revelava. Hesito enquanto minha língua tenta sem sucesso dar forma ao abstrato que meu cérebro queria dizer. Como assim do lado deles? O que isso deveria significar? Que Kakashi estava contra nós? Meu semblante seria de alguém indignado, imaginei, mas o daquele ninja de repente se mostrava tão distante para mim que eu pensei que não o conhecia de fato. Talvez eu realmente não devesse confiar nele, talvez Tsunade estivesse certa, talvez fosse melhor termina com isso antes que tudo piorasse, talvez...
Não. Talvez, não. Estava feito, ele tomara sua escolha e agora eu também. Já sabia o que seguir e não pensaria mais a respeito. De novo ele não quis se explicar e dessa vez não ousei pedir por qualquer esclarecimento: não queria ouvir nem mais um segundo do que quer que ele tivesse a dizer. Não havia mais defesa possível para meu antigo sensei, nem seus beijos e carinhos o salvariam dessa vez.
_ Estou do lado certo.
