CAPÍTULO 13: TRAIÇÕES E DESAFETOS - KAKASHI

Nossa viagem acabou sendo atrasada mais um pouco. Eu já tinha me conformado com a apatia que Sakura fazia questão de manter para comigo, feito a criança mimada que um dia ela foi e que parecia ter resgatado. Inclusive era bom que não nos falássemos, que não nos olhássemos, que não nos tocássemos, assim eu poderia manter melhor a promessa que havia feito a mim mesmo: esquecê-la, fosse como fosse. Porém, como se alguém estivesse brincando com a minha cara em algum lugar, meus planos foram frustrados, tanto pela curiosidade da garota, quanto por minha incapacidade de resistir ao seu interesse, que eu podia sentir que se fazia cada vez mais nítido. Já era difícil aguentar a tarde toda com ela me olhando de cima a baixo, sem dificuldade alguma em me despir dos muros de papel que eu havia levantado em proteção; com o forte e recém-descoberto poder, o qual ela fazia questão de aprimorar sempre que podia, então é quase impossível não ceder – não que eu realmente estivesse me esforçando muito.

Algumas coisas nela me decepcionaram, até mais do que eu poderia imaginar. É estranho de repente perceber o quão mal você conhece uma pessoa que passou boa parte da vida ao seu lado. A proximidade entre nós só ocorreu de uns tempos para cá, é verdade, mas ainda assim me surpreendi ao perceber o pouco que sabíamos um do outro. Talvez tenhamos mudado muito também, desde que nos conhecemos e nos tornamos amigos - pelo menos, eu sim posso dizer que mudei bastante. Enfrentar duas guerras, perder um amigo em plena adolescência já é peso o suficiente para se aguentar sem nenhuma reação, que de repente as nações comecem a se ameaçar mutuamente e os conflitos voltem à tona só piora ainda mais as coisas. Não é querer ser arrogante, mas eu precisei de muita força para seguir em frente com tantas atrocidades que vivenciei. Não foi fácil chegar até aqui; quando paro para pensar, nem acredito que consegui.

Sakura também já enfrentou uma guerra e, mesmo antes, com a partida de Sasuke, ela já havia mudado muito. Teve sua inocência de menina roubada pela dor de perder um amigo, quem tanto amou, para o ódio, viu sua vila ser destruída, viu-se incapaz de salvar seus amigos da mutilação e da morte trazidas pela Quarta Grande Guerra... Seria ingênuo quem ousasse dizer que ela não aprendeu nada com tudo isso. Entretanto não se podia esperar que essas experiências sortissem o mesmo efeito em todos. A mudança vem embalada de um jeito diferente para cada um, segundo sua capacidade para absorver e organizar os resultados de cada provação e segundo a ajuda que lhe ofereçam seus amigos para enfrentar suas consequências. A Sakura que eu conhecia antes da mudança já poucas vezes aparece; a de depois dos câmbios era bem mais fechada, mais difícil de entender, pelo que frequentemente eu acreditava não conhecê-la como talvez devesse.

Quiçá nossas vivências tenham nos levados por caminhos diferentes e seja esse o motivo de, por estarmos finalmente nos deixando conhecer mais a fundo, nossas discordâncias estarem aumentando quase que exponencialmente. Minha amiga de cabelos cor-de-rosa me trouxe bastante orgulho, não a culpo por ter me presenteado com algumas decepções ultimamente. Sei que é uma menina boa, doce. Apenas está sendo enganada, como tantos outros. Confesso que não fiz minha parte ao deixá-la à sorte das manipulações da Hokage, mesmo sabendo o quão próximas são mestre e aluna. Eu com certeza deveria tê-la incluído no círculo da Organização desde o princípio, não para dizer a ela o que pensar, mas para que tivesse as informações necessárias para pensar por si própria. Agora tenho medo que seja tarde; deixei que suas desconfianças para comigo aumentassem demais, ao não explicar-lhe tudo como deveria, e o resultado disso é que ela já não pode mais acreditar em minhas palavras.

Pelo contrário, minha companheira de equipe parecia muito decidida – além de presunçosa, infelizmente – quando disse de que lado estava. "Estou do lado certo."... Será que eu não poderia fazer nada a respeito? Talvez ainda conseguisse desfazer a maldição que Tsunade e os grandes líderes de Konoha implantaram em sua cabeça. Não, eu tenho certeza de que consigo. Ela é inteligente, se eu me esforçar para explicar-lhe e mostrar-lhe tudo pelo quê e contra quê eu e meu grupo lutamos, ela compreenderá qual é realmente o lado certo! E, se eu não for confiável o suficiente, trarei mais testemunhas. Após isso, será apenas questão de tempo até que ela passe a se fiar de mim novamente.

Assim que me decido, como se fosse já premonição do meu sucesso em convencer minha amiga, avisto os portões da vila. Sakura me convenceu de que já estava bem e que era melhor nos apressarmos, de modo que levantamos acampamento antes mesmo do amanhecer e nos pusemos a seguir viagem. Acabou demorando um pouco mais do que o previsto, pois a tala que tivemos que improvisar para seu pé com gravetos, lascas de casca de árvore e faixas curativas era muito precária e atrapalhava bastante seu caminhar. Resistiu bravamente, mas, nos últimos quilômetros, teve de abandonar seu orgulho e deixar que eu carregasse seu corpo, cansado de mancar e sentir dor.

Estava tão exausta que dormiu no meu colo, permitindo-me o deleite de vigiar-lhe outra vez o sono, como fiz durante aqueles dois dias no hospital. Era para lá que eu me dirigia novamente com ela, mas agora sabia que não ficaria muito tempo incapacitada. Seu rosto, apoiado no meu peito, tinha a feição calma e terna que um sono merecido proporciona e, mesmo sob a luz amarela do meio dia, sua pele rosada mantinha uma cor impecável, que tanto contrastava com seus olhos, agora fechados, e tanto harmonizava com suas peculiares madeixas cor de rosa. Eu andava devagar, porque já fazia quase duas horas que carregava todo o peso da soma daquele corpo esguio que eu protegia e das nossas mochilas. Porém, em meu doce devaneio, não fazia questão nenhuma de chegar tão depressa à aldeia e, na verdade, até gostaria de ter que suportar aquele peso por mais algum tempo, se isso significasse a continuidade daquele momento.

Passei pelos enormes portões, quase sucumbindo à ideia de voltar, demorar mais um pouquinho, e os ninjas que os guardavam vieram imediatamente ao nosso encontro, bastante preocupados ao verem Sakura desacordada em meus braços. Quando lhes expliquei o que havia acontecido, aliviaram um pouco seu semblante, mas insistiram em ajudar-me a carregá-la até o hospital para que os médicos dessem uma olhada mais atenta a seu tornozelo machucado, que ainda persistia no inchaço. Ela me havia dito algo sobre uma cirurgia, mas eu esperava que isso não fosse necessário. Teimei com os homens que eu poderia levá-la sozinho e com a conversa toda, Sakura acabou acordando e me convencendo de que eu deveria ir para casa e descansar. Deixando-a como ela queria, fiz o que sugeriu.

A primeira coisa que fiz, ao chegar em casa, foi tomar um banho, para aliviar a tensão dos músculos doloridos pela exigência da volta. Depois comi alguma coisa, enquanto folheava o jornal da cidade, sem surpreender-me com o vazio tão grande do que realmente interessava e o transbordar de notícias fúteis e falaciosas. Acabei por aborrecer-me, em vez de relaxar, pelo que joguei o folheto de lado, perguntando-me pelo motivo de tê-lo um dia assinado. Sem nada para fazer e lembrando-me do que ouvira da conversa entre os ninjas da grama, penso em procurar Iruka para que discutíssemos as novidades e decidíssemos um horário para a próxima reunião da Aliança. Contudo duvido que ele queira me ouvir, agora que acha que eu sou um traidor ou coisa do tipo. Não podia deixar meu amigo pensando algo assim de mim, precisava esclarecer as coisas e inclusive entender a razão pela qual ele me fizera tal acusação, tendo eu sempre estado ao seu lado.

Mas eu não sou muito bom com palavras sentimentais, ainda que consiga manter longos discursos, pelo que precisaria pensar muito bem no que dizer ao meu amigo, ou ele poderia acabar com mais raiva ainda de mim. Decidi, por fim, continuar pensando nas informações que consegui durante essa missão frustrada e deixar para conversar com Iruka mais tarde, quem sabe ao final da reunião. Saí de casa na intenção de procurar Akira, ao invés, já que ele era a pessoa mais indicada para me ajudar a interpretar os fatos. O relatório da missão tinha ficado por conta de Sakura, que insitiu em fazê-lo, já que tinha alguns assuntos a tratar com Tsunade. Desconfiei disso, é claro, mas não quis me intrometer em seus assuntos; afinal, como ela mesma disse, tinha escolhido um lado e, até que eu pudesse conversar com ela sobre o que sei a cerca dos dois lados dessa moeda, era melhor que a deixasse ver as coisas como ela queria.

Quando contei a Akira o que tinha ocorrido na missão, ele logo viu a relação que aquilo tinha com a conversa que ouvi entre Tsunade e Shikamaru. Não era uma pista muito sólida, mas com certeza era a melhor que tínhamos em muito tempo e isso o deixou quase eufórico. Incumbiu-me da tarefa de contatar a todos os membros e iniciados no Grou para uma reunião imediata. Era preciso toda a nossa força pensante para interpretar as novas informações que eu trazia, pois a possibilidade de que tirássemos algo muito importante delas era relativamente grande, se comparássemos à nossa pequena atuação até agora. Em obediência, fiz o que me pediu e, não mais caiu a noite, nos encontramos novamente no chão frio daquela casa abandonada na periferia da cidade para, como dizem, conspirar contra a Hokage.

Percebi que hoje nem sequer a vela das noites anteriores nos iluminava e a atenção à janela parecia ser redobrada. Estranhei o excesso de preocupação, afinal nunca ninguém nos havia encontrado ali ou mesmo suspeitado do local de nossos encontros até o presente momento, porém preferi não falar nada, frente ao receio de que agora todo aquele medo fosse realmente justificado. A despeito dessa minha infeliz constatação, também pude notar que nosso número aumentara – e bastante – desde a última reunião da qual tomei parte. Com efeito, agora já éramos vinte, ao todo; não pude deixar de sorrir, em satisfação, pela adesão e proporção que de repente estávamos conquistando, principalmente entre os jovens, que agora deixavam o cômodo, antes vazio, pequeno de tão cheio.

Era bem entrada a noite e, confesso, ficava difícil distinguir os diferentes rostos que se espalhavam pelo recinto, e ninguém parecia estar disposto a apresentações, pelo que eu teria de conhecer meus novos companheiros de luta mais tarde. Com a chegada de todos, começamos; Akira me pedindo que contasse a todos sobre o que eu tinha ouvido em minha missão, ao que atendi prontamente:

_ Primeiramente – decidi que a ordem cronológica dos fatos seria a melhor –, preciso dizer que minha missão não pôde ser finalizada, em razão da objeção que o próprio Raikage-sama fez à minha entrada e de minha companheira de equipe à Aldeia da Nuvem. Não nos permitiram sequer chegar perto de suas fronteiras.

Observei a expressão pensativa, preocupada e até um tanto assustada daqueles mais próximos de mim, esperando que algum deles dissesse alguma coisa ou fizesse alguma pergunta. Como isso não ocorresse, abaixei os olhos para o bolso de minha calça e tirei dali um pedaço de papel amassado e mal dobrado, no qual eu tinha escrito exatamente a mesma coisa que dizia a mensagem do líder de Kumogakure. Desdobrei-a, percebendo a atenção, tão urgente quanto silenciosa, de todos os meus ouvintes sobre o pequeno objeto que eu segurava.

_ Esta é uma cópia da mensagem de A, que nos foi entregue por um ninja da vila – levanto-a para que todos a vejam –. Infelizmente tivemos que deixar o original com a Hokage, mas posso afirmar que o copiei com precisão com o meu Sharingan – faço uma pausa e então leio, em voz alta, o pedaço de papel em minha mão. Quando termino não sei ao certo o que dizer, de modo que me deixo calar, esperando que alguém tenha algo a ponderar.

_ Você tem certeza de que foi o Raikage quem escreveu isso? – pergunta, receoso e levemente desconfiado, um homem membro da ANBU.

_ Tinha seu selo e sua assinatura – confirmo, ainda sabendo que isso não era prova suficiente, uma vez que alguém poderia muito bem ter falsificado o documento e as firmas.

_ É nitidamente uma declaração desesperada – comentou um jovem novato.

_ Sim – confirmou um membro antigo, inciando uma conversa que preferi escutar calado, a exemplo do velho Akira, que mantinha os olhos fixos no chão de madeira –, e seus motivos devem ser muito claros para que eles se atrevam a dizer algo que pudesse questionar seu poderio dessa maneira.

_ Mas uma coisa é certa – pronuncia-se Anko –, a Nuvem repudia qualquer tipo de associação com a Folha e isso pode abalar perigosamente o acordo que estamos tentando estabelecer, pois o País do Trovão era uma das mais fortes nações entre as signatárias e quem sustentava em grande parte a aliança com as outras.

_ Tem razão, isso pode significar a perda do tratado e até mesmo a colocação dessas vilas como nossas inimigas diretas. Pelo que Kakashi disse, ele cortou todos os laços conosco.

_ Mas proibir as pessoas comuns de entrarem parece exagero – comenta um inciante.

_ Na verdade – diz uma voz mais velha, mas diferente daquelas com as quais eu já estava acostumada entre os veteranos. Percebo, alegrando-me, tratar-se de Tenzo, que muitos conhecem como Capitão Yamato –, fechar as fronteiras é comum quando uma nação sente sua soberania ameaçada. Talvez esse seja o maior indício que temos de que a Aldeia da Nuvem já nos vê como inimigos.

Uma pausa se segue à hipótese de Yamato, enquanto todos a digerem. Percebendo aquele assunto esgotado por enquanto, aclaro a garganta, visando a chamar os olhares de todos e informo a segunda parte da notícia.

_ Na volta, Sakura e eu paramos em uma casa de chá, numa pequena vila no meio do caminho, para tomarmos café e nos deparamos com dois ninjas da Aldeia da Grama.

Ao mesmo tempo em que mencionava esse nome, vaguei o olhar por todo o local, a procura de Iruka, que certamente se abalava cada vez que esse assunto era posto em mesa. Entretanto não fui capaz de encontrá-lo e fiquei preocupado com a possibilidade de que ele tivesse faltado ao que tinha se tornado a coisa mais importante de sua vida. Concentrando-me novamente, continuei:

_ Eles conversavam muito baixo, dificilmente alguém, que não eu, ouviria. Diziam que uma pessoa muito importante, talvez um general, mas não tenho certeza, foi sequestrada durante a última batalha que travaram conosco – então vejo Akira, a minha frente, levantar finalmente os olhos como se só me esperasse terminar para falar. Quase pude ouvir o grito de Eureka de seus pensamentos –. Eles estavam muito preocupados, temendo inclusive pela segurança do próprio país, se alguém descobrisse de quem se tratava.

_ Então existe mesmo um prisioneiro? – apressa-se uma mulher do Clã Inuzuka, também recém-integrada ao grupo.

_ Os homens da Aldeia da Areia que vimos aqui, durante a luta – começa Akira, bem devagar, recebendo o respeitoso silêncio de todos em atenção –, provavelmente foram os responsáveis pelo sequestro. Por isso nossos inimigos recuaram e por isso nós permitimos que fossem embora.

_ Por isso você acha que foi tudo premeditado, senhor? – pronuncia-se Neji.

_ Sim. Acho que nosso objetivo foi, desde o início, o sequestro dessa pessoa – droga, onde está Iruka? Essa conversa certamente seria de grande interesse para ele!

_ Então ela dever ser muitíssimo importante para a Grama.

_ E para nós também – pondera Yamato, recebendo um aceno de cabeça por parte de Akira –. Se tanto risco e sacrifício nosso valeu a pena, então o desaparecimento dessa pessoa pode representar sim um enorme perigo para Kusagakure e uma boa vantagem para Konohagakure.

Outra pausa se segue até que Akira se manifesta novamente, com uma proposta inusitada, que deixa todos atônitos, mas também determinados:

_ Está na hora de agir! – passa o velho os olhos por cada um de nós – Precisamos saber quem é esse prisioneiro e para isso teremos de quebrar mais algumas regras.

_ O que faremos? – apresenta-se Anko, pronta para finalmente inciar a Revolução.

_ Kakashi – ele me chama –, quero que você, Yamato e Anko montem um grupo para penetrar a fortaleza das prisões de Konoha à procura do desaparecido. Levem Neji, seu Byakugan será de grande valia, tanto para encontrá-lo quanto para evitar os guardas.

Nós assentimos, ao mesmo tempo em que tentamos assimilar o fato de que agora sim passaríamos à conspiração deliberada. Quem não tivesse o interesse de levantar e lutar, o melhor seria que se levantasse agora e fosse embora, pois essa é a hora em que nós começamos a fazer nossa Revolução. Akira se vira para os demais:

– Nós nos concentraremos em continuar atentos a qualquer informação e planejar uma boa estratégia para adentrar as masmorras. Precisaremos de mapas e chaves.

E dizendo isso, deliberou outro grupo para que conseguissem os objetos citados. Seria necessária muita discrição, mas nada disso era problema para aqueles paladinos da ANBU. Assim que todos confirmaram suas tarefas, um murmurinho de excitação começou a ressoar pelas paredes da casa, cada um mais animado que o outro com as atitudes que finalmente tomavam forma dentro de nossa aliança. Porém, entendendo que seria bastante perigoso se aquele cochichar começasse aumentar de volume, Akira chamou a atenção de todos nós mais uma vez, embora se dirigisse somente a mim, o único a não saber do que ele contaria:

_ A propósito, Kakashi. Tome cuidado ao andar por aí durante as noites, pois foi instituído um toque de recolher por toda a cidade - aquelas palavras me tomaram de surpresa, abalando toda a minha empolgação. Mais uma medida repressiva sendo tomada para restringir a liberdade dos cidadãos. Espero que nossas ações a partir de agora sejam eficientes em mudar isso.

De repente, como se a desgraça só estivesse esperando esse momento para fazer sua entrada triunfal, os novatos que tinham sido incumbidos de vigiar a janela se agitam num grande alvoroço, quase gritando para que todos nós nos dispersássemos rapidamente, pois alguém – alguém não, uma verdadeira força policial ninja – estava se aproximando da casa, na clara intenção de parar nossa reunião, já provavelmente sabida.

Um tumulto começa no interior da sala, algumas pessoas começam a sair pelas janelas, outras não sabem muito bem o que fazer. Entre estes, estava eu, que ainda não havia entendido para quê tanto medo, se nós já sabíamos do conhecimento da Hokage a cerca de nossas discussões políticas. Quando decido acompanhar minha equipe de busca pelo preso político janela afora, os ninjas da força policial irrompem a sala, num estrondo soberbo que acaba por derrubar a porta de madeira que mal e mal nos protegia.

O alvoroço aumentou escandalosamente, enquanto alguns ainda tentavam fugir e os mais corajosos de nós começavam a se preparar para enfrentar os invasores. Levanto minha bandanda, expondo meu Sharingan, ao perceber o desproporcional número de shinobis com quem os seis de nós que haviam ficado teríamos de nos enfrentar, sabendo que eu precisaria de toda a atenção que pudesse reunir. Ainda dentro da casa, os dois bandos do confronto se encararam por alguns instantes, partindo depois para um confronto de kunais e shurikens, que ricocheteavam perigosamente pelas paredes da pequena sala em direção a nós. Eu conseguia desviar delas facilmente, devido às minhas habilidades oculares emprestadas, mas meus amigos não tinham o mesmo desempenho.

De soslaio, vejo um menino de aproximadamente 15 anos ser atingido na coxa esquerda por uma kunai e, depois de ter seus movimentos seriamente prejudicados por isso, cair ao chão alvejado nas costas por pequenas shurikens, que haviam sido lançadas com efeito boomerang. Alguns segundos depois e ele estava imóvel sobre uma crescente piscina de sangue. Atordoado, ao mesmo tempo em que percorria meus olhos para meus demais companheiros, que também estavam bastante encrencados, não dei atenção suficiente para uma faca que passa ao meu lado, atingindo-me de raspão no braço. Quando vou tentar um contra-ataque, sinto meu corpo totalmente paralisado.

"Chikusho!" foi o que me veio à mente. Olho para frente, apenas podendo mexer meus orber, já sabendo quem seria o oponente que me havia capturado. Shikamaru estava agachado no chão, segurando o selo de mãos que simbolizava seu Jutsu Possessão das Sombras, enquanto sustentava uma feição sombria de satisfação no rosto. Logo depois, vários outros ninjas entraram na casa abandonada e amarraram os três de nós que ainda estavam de pé, incluindo a mim, e levando-nos para fora logo em seguida. Ainda tentei me soltar, mas as ataduras também estavam sendo controladas por alguma técnica de controle de chakra que as impedia de serem rompidas e inibiam meu fluxo de energia, de modo que a ideia de um chidori também estava descartada.

Largando-me bruscamente no chão, Shikamaru se paroxima de mim, ajoelhando-se a uma pequena distância de meu rosto com uma expressão que misturava arrogância e desprezo. Se existia alguém que eu esperava que não mudasse tanto com as guerras e o poder era Shikamaru, no entanto ele tinha me surpreendido e decepcionado ao mesmo tempo. Sorriu, prepotente e desdenhoso, logo depois de suprir sua curiosidade e arrancar fora o tecido que me cobria o rosto:

_ Que decepcionante. Você está ficando velho, Kakashi – esperou que seus companheiros terminassem de rir –. Quem diria que seria tão fácil derrotar o ninja que copia.

Em um súbito acesso de raiva, cuspo em seu rosto, o que o fez ficar furioso. Contorcendo a boca ele limpa a cara com uma das mãos e desfere-me um soco poderoso com a outra, quase quebrando-me o maxilar e me fazendo sentir o gosto quente de ferro do meu próprio sangue. Depois, sinto um chute na nuca, covardia que um ninja sério nunca faria, e caio para frente, sentindo a pedra dura e gelada do chão, ouvindo um zunido agudo e já perdendo os sentidos. A última coisa de que me lembro antes de desmaiar é de ver um rosto jovial, emoldurado por cabelos cor-de-sakura e enfeitado por um par de brilhantes olhos cor-de-esmeralda olhando-me de longe com quase a mesma expressão de escárnio de meus inquisidores.