03 – Fogo
- Senhorita Gina! Abra a porta por favor! – Gritava a elfa, batendo na madeira.
Ginevra estava sentada no chão ao lado do armário, decidida a ficar lá até poder ir para casa. Se era uma atitude infantil? Talvez. Mas ela não sabia o que mais podia fazer naquela situação.
Aquela situação. Trancada numa casa que não conhecia e nem sabia onde ficava. Sem a mínima noção do que acontecia lá fora. Sem varinha. Com fome. Mais uma vez o estomago de Gina se manifestou, o que a fez se amaldiçoar por não ter pegado alguma comida antes de sair da sala de jantar, e se amaldiçoar mais uma vez por ter essa idéia.
O som incessante de Coisa do lado de fora já estava a irritando, e tão subitamente como começou, parou. Sem que tivesse percebido, Gina tinha tampado os ouvidos e agora ela tirava as mãos, tentando entender o motivo da pausa.
- Senhorita Gina... Vou deixar a comida aqui fora, tudo bem? E Coisa também vai sair daqui, então não precisa ficar com medo de Coisa... Tchau!
A ruiva ficou por um tempo encarando a porta, numa batalha interna sobre se abria a porta ou não. Ela começou a engatinhar e ir se levantando no meio do caminho, quando chegou à porta e abriu o mínimo possível.
Ela olhou para os dois lados do corredor antes de puxar o prato e trancar a porta novamente.
Gina não estava morrendo de fome, mas fazia tempo que não se alimentava e ficar nervosa a deixava com mais fome ainda. Ela sentou no mesmo cantinho que usava como refúgio e começou a comer o maravilhoso prato que os elfos tinham preparado. Não podia negar que era bom.
Ginevra não sabia ao certo em que ponto começou a dormir, mas quando acordou já era manhã e ela se encontrava deitada na cama, onde ela não se lembrava de ter ido.
- Bom dia, senhorita Gina!
Ela se assustou. Não esperava que a pequena elfa estivesse em seu quarto quando acordasse... Será que teria que se acostumar com isso?
Mal Gina abriu os olhos teve que fechar de novo, já que a luz que vinha da janela que Coisa abriu era forte demais para uma pessoa que acabara de acordar.
- Como entrou aqui? A porta está trancada... – Coisa ficou corada (se é que elfos podiam fazer isso)
- Bem... A verdade é que Coisa pode aparatar, mas achou mais educado bater na porta... Sinto muito senhorita Gina, se quiser eu saio agora! – Falou a pequenina, se preparando para desaparecer.
- Não, espere! Tá tudo bem, Coisa... Obrigada por não ter entrado ontem. – A escrava sorriu.
- Não há de que!
- Ah... E você pode me dizer como foi que eu acordei na minha cama hoje?
- É que Coisa não ouviu mais sons vindo do quarto e preferi entrar para checar. Vi a senhorita dormindo e Coisa e Trapo a colocaram na cama.
- Ah. – Respondeu ela. Agora fazia sentido.
- O café está na mesa, Trapo está lá esperando! – A mesa. Gina sentiu um calafrio e se lembrou dos olhos de Draco na noite passada. Ela se sentou na cama e tentou não demonstrar a falta de vontade de encarar o loiro que ela sentia.
- Sabe Coisa... É que eu não estou me sentindo muito bem, tem como eu comer aqui...?
- Não está se sentindo bem? Ó meu Merlin, temos que chamar um médico! Vou falar com o mestre... Não, o Trapo! Ele sabe dessas coisas... – Berrava a pequenina, andando por todos os lados, nervosa.
- N-não precisa! – Dizia Gina, tentando acalmar a elfa ou pelo menos fazê-la ficar parada. – Eu estou bem, sério! Só preciso descansar...
- Tem certeza? – Perguntou Coisa, preocupada.
- Tenho... – Coisa sorriu.
- Tudo bem! Então vou trazer o café... – A escrava foi dançando até a porta e virou para Gina antes de sair. – Ah, e o mestre não estará aqui por agora. Ele nunca fica aqui pela manhã de qualquer jeito... – Ela sorriu e foi embora, fazendo com que uma Gina mais tranqüila a seguisse.
O que é isso? Gina Weasley estava com medo de Draco Malfoy? Claro que não. Ela sabia disso, mas não se impedia de sentir um arrepio quando lembrava-se da ira que viu em seus olhos. Por que diabretes ela estava ali de qualquer jeito?
Gina tomou o seu café da manhã na companhia de Coisa, que dançava enquanto servia a comida e de Trapo, que ficava sério num canto, mas de vez em quando era utilizado como parceiro de dança da elfa-doméstica. De certa forma ela se divertiu durante a manhã.
O clima alegre durou apenas pela manhã. Depois de passar alguns momentos conversando com Coisa e ter ido almoçar, ela ficou um tempo sozinha com Trapo enquanto Coisa teve que sair por algum motivo desconhecido. E o elfo era tão chato e entediante quando parecia.
Ela estava perdendo do escravo numa partida de xadrez quando Coisa voltou e convidou-a para uma apresentação oficial da casa.
Gina conheceu o primeiro andar, onde ficava o hall de entrada, a sala de estar, a de refeições (que ela já conhecia bem o suficiente), sala de música (na qual ela não teve permissão para entrar), biblioteca e cozinha (onde os elfos não a deixaram entrar, por ser "área dos servos"). No segundo andar estava o seu quarto, outros dois quartos de hóspedes, o quarto que ela disse ser o de Draco Malfoy, um banheiro e uma porta um tanto quanto familiar.
- E lá em cima está o observatório e sótão... Ainda tem o porão, mas a área é restrita para a família além de não ser muito agradável...
- Coisa? – Disse Gina, parando no corredor e apontando para a porta que ela tinha visto na noite passada, a mesma em que ela ouviu Trapo conversando com alguém que não respondia. – o que tem nesse cômodo?
- Esse é o escritório do mestre Malfoy – A pequena serva ficou séria. – Você não deve nunca entrar ai. É ai dentro que o mestre passa suas tardes, trabalhando e outras coisas.
Tudo bem, recado recebido. O problema é que isso só fez Gina ficar cada vez mais curiosa sobre a sala.
A noite se aproximava e Gina ficava cada vez com mais receio de encontrar Malfoy de novo. Não queria se desculpar pela noite passada, mas apesar de tudo, os seus elfos a estavam tratando bem e ela não poderia sair de lá a qualquer momento, sem ajuda nem varinha. Precisava descobrir o que Draco queria dela nem que para isso precisasse... Pedir desculpas.
A garota pensava sobre tudo isso e saiu distraída do chuveiro, secando o seu cabelo. Na frente da porta do quarto ela viu um pequeno pedaço de pergaminho e se abaixou para pegá-lo.
Me encontre na sala de estar.
D.M.
Ele só podia estar brincando. Gina se reteve a respirar fundo e penteou os cabelos. Depois de apresentável, desceu as escadas em direção a Draco Malfoy.
Draco estava andando de um lado para o outro na sala.
Odiava aquela Weasley. Claro que não pediria desculpas! Mas não podia deixar as coisas como estavam...
Suspirou e ouviu um som de passos. Parou de andar no mesmo momento e ficou de frente para a porta, ainda sem saber o que fazer.
Gina também parou de frente para ele, a certa distância. Ela estava bonita, como sempre. Claro que esse fato não alterava nada quanto ao desprezo que ele sentia por ela ou muito menos deixava seus cabelos ruivos demais inferiormente irritantes, mas não era idiota a ponto de ficar mentindo para si mesmo negando a beleza da Weasley.
Talvez ela tenha percebido os olhares de Malfoy, ou apenas tenha se sentido incomodada com o silêncio, mas Ginevra limpou a garganta e chamou-o pelo sobrenome.
- Então, por que me chamou? – Perguntou séria e sem emoção na voz. Mas apesar disso os seus olhos brilhavam como uma bomba prestes a explodir, mostrando tudo que ela sentia. Ódio, expectativa, nojo, nervosismo... Draco piscou duas vezes, tentando voltar o rumo dos seus pensamentos. Como dizer o que queria sem começar com um pedido de desculpas?
- Precisamos conversar. – Ele sentou-se na poltrona e fez sinal para que ela se sentasse no sofá a sua frente. Ela hesitou por um momento, mas se sentou. – Por onde devo começar... Ah, sim. Não ande pela minha mansão sem supervisão. O jantar será servido sempre as oito e acontecerá na minha companhia, você querendo ou não. As lareiras estão fechadas e a passagem por lá é impossível. Você não pode sair daqui, e qualquer coisa que precise, é só pedir para um dos elfos. Alguma pergunta?
Gina olhava para ele incrédula. Como podia sair por ai dando ordens? Quem ele achava que era?
- Sim Malfoy, e por sinal são muitas. – Falou, tentando conter a raiva.
- Responderei o que for possível.
- Por que estou aqui?
- Para me fazer companhia. – Ele não sabia qual o melhor modo de responder, mas não revelaria sua maldição para ela. Não podia deixá-la saber que tinha algum tipo de poder.
- Hãn? Isso não faz sentido. Se quer companhia, porque me seqüestrou? Não tem amigos Sonserinos para isso? Ou um bichinho de estimação, talvez? - Draco revirou os olhos. Merlin, como ela falava!
- Não posso falar Weasley. Assuntos pessoais. – Ela ficou calada por alguns segundos, apenas o encarando, raivosa. Desistiu ao perceber que ele não iria contar e passou para a próxima pergunta.
- Onde está minha varinha?
- Num lugar seguro.
- E quando poderei tê-la de volta?
- Quando eu puder confiar que você não vai fugir. – "Como se isso algum dia fosse acontecer", pensou Gina.
- Hum... O que você ficou fazendo durante o dia?
- Não te interessa. – Respondeu ele, um pouco rápido demais. Gina sorriu ao perceber que a pergunta o afetou.
- O que tem de tão secreto no seu escritório? – Ela viu o maxilar de Draco contrair. Ele se levantou e olhou-a com ódio.
- Já disse para ficar longe de lá e chega de perguntas. Durma bem, Weasley. – Ele disse. Seco e cheio de desprezo.
- Espere... – Sussurrou Gina. Draco estava quase levantando da sua poltrona quando se voltou para ela. Esta olhava para baixo e parecia triste. Ele se aproximou um pouco dela, talvez um pouco... Preocupado. Ela levantou o olhar, encarando-o cheia de determinação. Os dois estavam próximos e Draco não pôde deixar de pensar no quanto ela ainda tinha o rosto um pouco infantil para a idade. - Quando eu poderei voltar para casa?
Essa não era uma pergunta que ele estava esperando. Ele suspirou e se sentou de volta na poltrona.
- Não vai. Pelo menos não por enquanto... Você morará aqui. – Gina estava boquiaberta. Não conseguia se controlar mais ao ouvir as coisas sem sentido que o ouvira falar. Levantou-se num movimento rápido e brusco, o que não o deixou surpreso.
- O QUÊ?! Você sinceramente perdeu a cabeça Malfoy, se acha que eu viverei aqui com você! Qual é o seu problema? Nós dois não nos aturamos e você sabe disso, é masoquista por acaso?! Como você acha que eu vou aceitar viver sob o mesmo teto que você? Além do que, minha família toda está me esperando, você acha que eles vão ficar parados ao me verem desaparecida?! Ah Malfoy, espere só até meus irmãos te acharem, me certificarei de que todos escolham pelo menos uma azaração para lançar nessa pessoa mau-caráter e nojenta que você é! Você é patético. Desprezível... Seu babaca!
"Babaca?" Draco estava tentando não rir da ruiva, que estava de pé o encarando com uma raiva sobre-humana. Os seus ombros subiam e desciam enquanto ela recuperava o fôlego e o seu rosto estava mais vermelho do que ele jamais imaginara ser possível.
- Terminou? – Gina olhou-o incrédula. Aquelas ofensas não foram o suficiente para ele?
- Não... Você nunca vai ter amigos de verdade Malfoy, porque os únicos que você já teve estavam com você por dinheiro. Ninguém nunca vai gostar de um comensal esnobe como você!
Gina olhou em seus olhos, rezando para ver um pouco de dor ali. Não sabia o que tinha lido... Os olhos dele brilhavam mais do que ela já tinha visto em qualquer momento anterior. Não era a reação que ela esperava.
- Eu... Vou para o quarto. – Disse ela, de punhos serrados e virou de costas para ele, batendo os pés porta afora.
Draco seguiu a silhueta da ruiva com os olhos. Se espreguiçou e foi dormir. O monólogo da ruiva tinha o cansado como há muito tempo não acontecia, fazendo-o sentir sono durante a noite pela primeira vez em dias.
O loiro se deitou na cama com um sorriso no rosto enquanto recapitulava os acontecimentos da noite. Ele descobriu que uma ruiva irritada gerava mais entretenimento do que um elfo-doméstico de tutu fazendo malabarismo, o que era um fato curioso. Ele se lembraria disso, e era bom finalmente ter encontrado alguma fonte de distração. Talvez conviver com a Weasley não fosse tão ruim assim.
Infelizmente, ele se esqueceu de algo muito importante antes de ceder ao sono.
Do lado oposto do corredor, uma garota ruiva tinha chegado ao quarto esgotada. A raiva liberada tinha deixado-a extremamente cansada, e sem pensar em mais nada, ela deitou e dormiu.
N/A: Esse foi o tipo de capítulo que não foi planejado, fui só escrevendo... Eu não sei se está bom, acho que sim... To adorando escrever essa Gina meio bipolar, já que pela minha interpretação ela é o tipo de pessoa que sente muitas coisas ao mesmo tempo, não sei bem como explicar. E não acho que tenha deixado o Draco carinhoso demais, certo? Ele fica mais sacana com o tempo hehehe! Bem, eu queria saber o que vocês estão achando, então por favor comentem... Não estou recebendo reviews, mas estou com vontade de publicar mesmo assim... Mas se alguém estiver acompanhando essa história, não custa mandar um simples "gostei" ou algo assim...
N/B: Oi gente! Pra um capítulo não planejado, eu gostei bastante desse aqui. Caraca... Gina revoltou. Se eu tivesse no lugar de Draco, estaria com uma Poker Face maravilhosa... Enfim, ansiosos pela descoberta da maldição? EU JÁ SEI! (Desculpem, mas amo fazer isso KK). Não sei como Maria consegue ter tempo de escrever e estudar pra as provas que estamos tendo todo dia, e eu aqui. Empacada com minha fic...
O quê mais... Vejamos... Ah sim: REVIEWS (como sempre), por favor!
