DOIS
Quando acordei era fim de dia, quase pôr do sol e nem sinal do Dimitri no quarto, tentei afastar Dimitri dos meus pensamentos, sentia-me menos enjoada provavelmente por não comer à uma data de tempo. Sentei-me na beira da cama e levantei-me muito devagar para ver até que ponto eu consegui ir e movi-me até ao espelho da casa de banho. A boa notícia é que eu não estava tão fraca como pensava, a má notícia é que eu estava com um péssimo aspeto e necessitava mesmo de um banho.
Abri a água da banheira e deixei-a encher, enquanto tirava a roupa em frente ao espelho lembrei-me e olhei, para ver se dava para se notar mas não, a minha barriga continuava ligeiramente definida pelos abdominais que eu adquiri devido aos treinos que tive para ser guardiã, mas era estranho, eu sentia-me estranha e provavelmente até era psicológico mas eu sentia que havia algo a crescer dentro de mim.
Movi-me para dentro da banheira a pensar naquilo, eu percebi que não odiava o que estava a crescer dentro de mim, apenas não estava à espera e é normal, eu acho normal não estar de acordo com isto, caramba sempre fiz as minhas escolhas nunca deixei que ninguém escolhesse por mim em relação a nada e isto só me deixava irritada por não ter escolhido isto para mim. E dei por mim a pensar nele.
Eu não o odiava, apesar de ele me ter magoado da última vez que falamos eu não odiava o Adrian, e ele tinha tido motivos para me falar daquela maneira porque eu sim tinha o magoado, sem intensão mas tinha o feito. Como será que ele reagiria se soubesse disto? Provavelmente tentaria chegar a um acordo comigo de maneira a deixar-me a mim e à criança bem de vida sem ter de assumir nada. Ele não era irresponsável, não comigo mas eu sabia que ele não queria ser pai, simplesmente não estava nos planos dele, nem nos meus. Mas eu nunca o forçaria a nada, aliás pode não ser muito correto mas se eu pudesse nem lhe contaria nada. Eu sei que não era o que ele queria eu sei que lhe traria problemas então para quê contar-lhe e expolo a isto? Eu já lhe fiz mal que chegue, já lhe estraguei a vida que chegue.
Pode parecer egoísta da minha parte, pode até parecer que quero este bebé só para mim mas não e sinceramente não me interessa o que possa parecer aos outros porque no que depender de mim, ele nunca vai saber deste bebé.
E era assim que ia ser. Acabei o meu banho, vesti uma roupa confortável e saí para a rua sem fazer barulho. Estava com fome e já sentia alguma fraqueza mas eu precisava de apanhar ar e a luz do sol de certeza que me ia fazer bastante bem.
Não estava ninguém nos jardins, procurei uma árvore que estivesse coberta pela pouca luz do sol que ainda havia e sentei-me, era tão bom voltar a sentir o calor na minha pele mesmo estando quase a pôr-se era maravilhosa a sua força, já não sentia esta sensação à tanto tempo, ultimamente não tenho tido tempo para fazer coisas simples como estas. E de repente ouvi algo que atrás de mim que me alertou e me fez levantar e pôr em posição defensiva, virei-me e vi o.
Ao ver que era o Dimitri descontrai, ele estava com um pequeno sorriso na cara.
"Estava enganado ao pensar que te podia surpreender mais uma vez" ele sorriu mais e aproximou-se de mim deixando-me ansiosa.
"Eu disse-te, não me podes apanhar sempre de surpresa." E a lembrança da noite passada voltou a mim, o momento em que ele me apanhou de surpresa ao dizer-me que eu estava grávida. Ele aproximou-se mais de mim e agarrou na minha mão.
"Só gostava que visses as coisas boas de quando eu te apanho de surpresa." Ele puxou-me devagar e gentilmente para junto do corpo dele.
"Coisas boas?" eu perguntei sentindo-me familiarizada com o cheiro e a presença dele.
"Minha Rosa, nem tudo o que parece mau é realmente mau, nem tudo o que nós não estamos à espera é indesejado Rosa." Ele caminhava à minha volta sem nunca se afastar o seu corpo do meu, beijava-me o pescoço acariciava-me os braços e as costas e sussurrou ao meu ouvido "Há coisas que por muito más que pareçam não as devemos recusar porque elas vem por um motivo."
Eu sabia do que é que ele estava a falar, ele estava a falar do bebé que estava dentro de mim, mas porque é que ele insistia? Como é que ele podia insistir sabendo que era impossível isto estar-nos a acontecer?
Eu virei-me para o encarar "Qual é o motivo? Qual é o motivo para isto nos estar a acontecer?" vi a dúvida aparecer na cara dele então soube que tinha de continuar. "Se estamos bem agora como nunca antes estivemos qual é o motivo para isto estar a acontecer? Provavelmente Deus não nos queira juntos ou outra entidade qualquer mas o que não está certo é isto acontecer independentemente do motivo." Ele parecia em choque.
"Rosa porque estás a ser assim não negativa?" Ele agarrava-me pelos ombros e quase berrava comigo. "Porque estás a renegar o fruto do nosso amor, do amor pelo qual tanto lutamos?"
"Porque não é o fruto do nosso amor!" Eu não me consegui impedir de gritar e me soltar enquanto lhe dizia aquilo. Ele parou e continuou a olhar para mim, baixou os braços no que parecia desistência e eu afastei-me, virei-lhe costas a chorar comecei a andar lentamente sem ver para onde ia até que comecei mesmo a correr o mais rápido que consegui, eu não vi para onde estava a ir eu só precisava de sair dali.
Ouvi outros guardas a gritarem e ouvi o Dimitri berrar o meu nome mas eu não ia parar não ia voltar para atrás, eu não podia nem conseguia, alcancei o portão e saí a correr sem olhar para trás e sem me aperceber o que se estava a passar. Já um bocado longe dos portões eu senti uma pontada de náusea o que me fez parar de repente. Já estava quase de noite e o sol já não brilhava apesar de ainda haver claridade no céu. E a náusea aumentou e eu esforcei a vista e os sentidos para ver o que se estava a passar e fiquei pasma com o que vi. Era o Nathan.
Não podia ser verdade não podia ser ele, enquanto eu me debatia para perceber o que se estava a passar à minha frente eu senti uma dor aguda e caí redonda no chão, ele tinha-me soqueado na barriga e eu não tinha força para ripostar, então ele veio para cima de mim e cravou os dentes dele no meu pescoço causando-me uma dor infernal, até que de repente senti os dentes dele sair bruscamente de dentro de mim o que doeu ainda mais e me deixou a sangrar bastante.
Mal conseguia ver bem e quando finalmente consegui ver alguma coisa foi o rosto do Dimitri que apareceu no meu campo de visão, a cara dele mostrava pânico e raiva ao mesmo tempo ouvi alguém berrar
"Leva a para dentro e mantem a segura, nós tratamos deles." Aquela voz era da minha mãe.
"Não, não me leves eu não posso deixar a minha mãe aqui sozinha, eu tenho de a ajudar." Implorei tentando debater-me fracamente contra ele.
"Ela não está sozinha e não há nada de útil que possas fazer aqui, tu estas a esvaziar-te em sangue! Eu tenho de te levar para dentro para seres vista." Ele já me carregava e levava de volta quando enquanto eu gritava.
"Não eu não quero deixar a minha mãe ali! Eu não posso! Eu tenho medo de perde-la, eu não posso perde-la! Eu preciso dela." Eu estava a chorar que nem uma criança e ele parou e olhou para mim.
"Leva a para a enfermaria e não a deixes sair de lá até eu voltar, nem que tenhas de a amarrar à maca." Eu não sei para quem é que ele falou, só sei que me passou para o colo de outro guardião.
"Dimitri espera." Eu gritei para ele com a voz fraca o que fez ele virar-se e vir ter comigo e encarar-me.
"Por favor trás a minha mãe, eu preciso de vocês. Volta para mim por favor" Eu estava a chorar agarrada à mão dele "Volta porque eu preciso de ti, nós precisamos de ti. Eu não consigo fazer isto sem ti."
Ele encarou-me e eu vi esperança e amor nos olhos dele.
"Eu volto eu prometo que volto." Agarrou-me no rosto e encostou a testa dele na minha e disse.
"Eu amo-te e prometo voltar para cuidar de vocês."
Beijou-me e saiu a correr e eu, bem eu perdi os sentidos.
Escuridão e sangue ao meu redor, eram as únicas coisas que eu conseguia identificar, não sei onde estava nem com quem estava só sei que estava com medo como nunca tinha estado antes. Ouvia a voz da minha mãe que me dizia "calma vai ficar tudo bem" e a de Dimitri "eu volto eu prometo que volto" até que de repente vi o Nathan com as presas de fora e aqueles olhos horrivelmente vermelhos a olhar para mim, com o rosto e as mãos manchadas de sangue. A voz da minha mãe era agora agoniante e desaprovadora "Como pudeste ser tão burra! Podias ter dito não!" aquilo doía mas o Dimitri foi quem me magoou mais "o amor acaba e o meu acabou".
"Não! Isto não é real não pode ser!" Eu berrava com todas as minhas forças enquanto Nathan ria. Eu tentei chegar a ele, tentei alcança lo mas não conseguia. Então algo me puxou de volta para longe daquele sonho horrível.
Abri os olhos e vi a Lisa com aquela cara compreensiva e por sinal cheia de perguntas para me fazer. Eu não me sentia muito mal apenas ou bocado tonta e cheia cheia de fome.
"Como te sentes? Tens dores? Estás indisposta? Precisas de algo..." Levantei a mão para que ela parasse, ela parou a olhar para mim expectante.
"Fome. Tenho muita fome, não como desde a última vez que me lembro, que já foi à algum tempo, e neste momento estou completamente faminta!" Havia qualquer coisa ali que me estava a deixar o apatite no auge, havia um cheiro ali super apetitoso, não como uma pizza ou um hambúrguer, mas havia algo ali que cheirava mesmo bem e me estava a deixar quase com água na boca.
"Pois se ela antes já comia como uma esfomeada então agora ainda vai comer muito mais, não é que ela tenha culpa, mas é uma boa desculpa." Virei-me e vi Christian com aquele sorriso provocador de quem estava à espera de uma resposta à altura, bem se fosse noutro momento eu até me incomodava a responder-lhe mas eu estava bastante ocupada a olhar à volta para perceber de onde vinha aquele cheiro tão apetitoso. Mesmo assim cumprimentei o.
"Hei Christian, é bom ver-te!" E continuei a olhar à volta que nem uma tolinha e eles os dois continuaram a encarar-me com ar confuso então eu perguntei.
"Malta há aqui alguma cozinha ou algo do género? É que está aqui um cheiro ótimo! Está mesmo a deixar-me com água na boca!" O Christian erguei uma sobrancelha e respondeu-me.
"Hm Rose, tu sabes onde estas?" Ele parecia cuidadoso com as palavras.
"Estou na enfermaria." Apesar de nunca ter estado na enfermaria da corte (que me lembre) eu consegui identificar os materiais e aquelas coisas todas que existem nas enfermarias.
"E sabes que para alem dos medicamentos e produtos de desinfecção e isso não há aqui mais nenhum cheiro certo?" Ele estava a olhar para mim como se eu fosse tolinha! mas que raio.
"Mas o cheiro não é de nenhuma dessas coisas, a não ser que agora hajam medicamentos com cheiro a comida ou algo delicioso como isso..." Eu continuei a olhar à volta à procura mas não encontrei nada, a enfermaria estava quase vazia só consegui ver um Mori que parecia estar à espera de algo ou alguém ao pé de um espaço tapado com uma cortina, havia também uma enfermeira que estava sempre a entrar e a sair desse espaço. E o cheiro parecia vir de lá, eu sentia o! É como se o cheiro deixa-se um rasto colorido no ar que me levava a olhar e aproximar do espaço tapado com a cortina.
Eu estava deitada na maca e estava presa, é isso eu estava presa! Eu queria lembrar-me porque é que eu estava presa mas eu não conseguia! Aquele cheiro não me deixava pensar não me deixava raciocinar! Eu precisava daquilo, seja o que fosse o meu corpo precisava daquilo!
"O que estas a fazer?" O Christian chegou-se para perto de mim para me impedir de me tentar soltar.
"Eu preciso soltar-me! Eu preciso de descobrir o que é aquele cheiro eu preciso dele!" A minha voz mostrava a necessidade do meu corpo, eu não estava em mim eu sabia que não estava, mas também sabia que não podia lutar contra isso, era o instinto. "Vem dali! Eu só preciso de ir ali eu só preciso de ver o que é!" E apontei para o espaço tapado.
Eles olharam-me em choque.
"O que é? O que foi?" Eles estavam a irritar-me e aquele cheiro estava a chamar-me e eu queria ir até ele!
"Esse 'cheiro' de que tu tanto falas vem, dali? Daquele espaço tapado?" A voz dele era lenta e cuidada, como se não soubesse o que dizer.
"Sim é! E está a chamar-me!" Olhei para a lisa e ela estava de olhos arregalados a olhar para mim com as duas mãos na boca e o Christian olhos para ela numa tentativa de pedido de ajuda para algo. E foi aí que eu me forcei a pensar, e só Deus sabe o quanto me estava a custar mas eu tinha de saber porque havia algo que não estava a bater certo e a cara dos meus amigos a olharem para mim como se eu fosse um bicho era a prova viva disso.
"O que está atrás daquela cortina?" A minha voz era um misto de curiosidade e necessidade, eu tinha de me controlar. Lisa deu um passo na minha direção e no que me pareceu um segundo, a cara dela estava cheia de compreensão e cumplicidade. Pegou na minha mão.
"Tens a certeza que esse cheiro que tu queres vem dali? Ela parecia uma adulta a falar com uma criança, e é claro isso fazia de mim a criança.
"Sim tenho, é como se eu conseguisse ver o rastro do cheiro no ar! é um fio encarnado como névoa e vem de lá até mim!" Ela acenou.
"Esse cheiro dá-te fome?"
"Eu acho que já estava com fome, eu lembro-me de já não comer à muito tempo mas sim esta cheiro ainda me dá muito mais fome..." Eu estava a ficar confusa com tantas perguntas, preste a explodir com tanta pressão... Era aquele cheiro a chamar-me e os meus amigos a questionarem-me!
"Mas o que é que se passa caramba?! Eu só quero ir lá ver o que é! Eu só quero ver que cheiro bom é este!"
"Não queres não, acredita que não queres e que o cheiro não é bom, pelo menos para ti não é e tu sabes isso, tu odeias aquele cheiro." Ah? Eu sei isso? Eu odeio aquele cheiro? Raios! Não odeio mesmo! Como é que ele podia estar a dizer aquilo?
"Como podes dizer que eu odeio uma coisa que me está a saber tão bem? Como sabes que odeio?" Eles nada disseram só olharam um para o outro e depois para mim. Lisa respirou fundo e antes que ela pudesse dizer algo eu interrompia.
"O que é que está atrás daquela cortina Vasilisa Dragomir!" O fato de eu ter usado o nome dela fez com que ela fizesse uma careta, mas mesmo assim ela voltou a respirar fundo.
"Rose, antes de mais não te passes. Tu acabas-te de ser atacada por um Strigoi e estás grávida de uma maneira um bocado estranha e bem, nada tem sido muito normal ultimamente por isso..."
"LISA!" Eu quase gritei! Caramba mas porque é que eles nunca podem ser diretos comigo?
"Pronto ok. Atrás daquela cortina está um Mori em fase de alimentação."
"Mas o cheiro não é de Mori nem de humano." Eu estava a tentar raciocinar mas não estava a chegar a lado nenhum.
"Não, Não é de Mori nem de humano porque nem está lá nenhum humano."
"Não está lá nenhum humano? Então como é que o Mori se está a alimentar?"
"Há Moris que não gostam de se alimentar através do dador, eles preferem nem saber que é o dador, e há outros que acham que os homanos não são dignos do prazer que uma mordedela causa... Por isso no início passam por uma fase de seleção onde provam vários tipos de sangue para escolherem o que mais lhes agrada e até podem juntar alguns ingredientes como ervas, molhos e isso."
"Está a haver uma seleção dessas e estão a misturar molhos ou coisas deliciosas?" Sim era essa a explicação!
"Não, o Mori que ali está não passou por essa fase porque ele gosta do alimento bem, natural, com o seu sabor."
"Não percebo, então de onde vem o cheiro, eu podia jurar que vem dali..."
"E vem, o cheiro vem dali."
"Como? Se não está lá nenhum molho nem nenhuma comida... Se não é do Mori só pode ser..." E foi ali que eu fiquei em choque e tapei a minha boca para não deixar fugir um gemido.
"O cheiro é do sangue aquecido que o Mori está a beber Rose." Christian tinha vindo para mais perto de nós.
"Não pode ser! Como é que eu posso achar bom o cheiro de sangue? Eu nunca gostei do cheiro nem sequer de o ver! Eu nem sequer gostava de ver a Lisa alimentar-se." E calei-me pois nunca lhe tinha confessado isso mas era a verdade, aquilo deixava-me enjoada, vê-la alimentar-se de humanos...
"Eu já tinha percebido, não tem mal..." Ela sorriu-me.
"O que é que se está a passar comigo? Porque é que eu quero sangue?" Aquilo estava a deixar-me enojada. Uma coisa é beberem de ti, outra coisa é tu beberes dos outros!
"Eu não sou a melhor pessoa para te responder a isso mas estive a ler uns livros por causa do que me contas-te a mim e à tua mãe e bem acho que pode ter haver com o bebé."
A minha mãe, estava a começar a lembrar-me do que tinha acontecido antes de vir para a enfermaria. Voltei a olhar em volta e não havia sinal de minha mãe nem do Dimitri. Uma angustia cresceu no meu peito. Lembrei-me de Nathan e do que ele me tinha feito, passei a mão no pescoço e senti um curativo pequeno o que me fez pensar que estava bem o suficiente para sair dali.
"Ajudem-me a soltar-me." Soei quase como se lhes tivesse a dar uma ordem.
"O que é que estas a fazer? Tu não podes sair daqui." Lisa estava a tentar impedir-me mas eu tenho a certeza que mesmo com fome a fraca eu conseguia ter mas força do que ela.
"Sim sim eu sei mas eu tenho de encontrar a minha mãe e o Dimitri, e eu não me sinto mal nem enjoada nem mesmo fraca." Esperava estar a ser suficientemente convincente.
"Tu não estás bem, tu perdeste muito sangue e precisas de repousar." A voz dela era imprudente e ansiosa.
"Eu perdi o quê? Eu sinto-me como nova, não tenho dores nenhumas!"
"Não sei se te lembras mas ainda à unas horas atrás tinhas um Strigoi agarrado ao teu pescoço e que quase to rasgou quando o Dimitri o separou de ti."
Eu lembrava-me disso mas ao passar a mão em cima do curativo eu não sentia absolutamente nada, nem ardor nem dor, nada... Respirei fundo e arranquei o curativo. Lisa quase parou de respirar e depois ficou embasbacada a olhar para o meu pescoço. Pus a mão e nada, eu não tinha nada, marcas de perfuração, cicatrizes, cortes nada!
"Mas que raio! Onde é que está a marca? Não estou a perceber! Eu estava a derramar sangue e agora nem uma marca nem um aranhão tenho?" O que é que se estava a passar comigo?
"Tu, tu não tens ai nada..." Lisa estava a gaguejar e parecia confusa. "E eu não te curei... Como é possível?" Eu ia começar a protestar e serrei os dentes o o Christian berrou.
"Rose! Os teus dentes!" Ele parecia admirado a apontar para a minha boca e depois a Lisa ficou de olhos arregalados a olhar para mim.
Eu passei os meus dedos pelos meus dentes e eu própria fiquei embasbacada. Eu tinha presas! Presas bicudas como os Mori!
"Mas como é que eu tenho presas? Eu sou uma Dhampir!" Eu estava a ficar assustada e não sabia o que fazer nem o que pensar. Eu só sabia que tinha de sair dali e procurar a minha mãe e o Dimitri, não é que ele pudessem saber o que se estava a passar comigo mas eu estava seriamente preocupada com eles.
"Não interessa! Soltem-me! Eu preciso sair daqui!" Eu estava a tentar rebentar a tiras algemas que me estavam a prender à cama e eu tinha certeza que se fizesse um bocado mais de força ia rebentar aquilo.
"Pára! Eu abro as mas pára por favor, eu não quero que te magoes." Ela estava preocupada comigo mas compreendia a minha causa.
"Pois realmente mais vale solta-la e ajuda-la do que deixa-la sair daqui enraivecida e com vontade de morder a alguém" Christian até podia achar piada ao que tinha acabado de dizer mas eu não tinha achado piada nenhuma e pela careta da Lisa ela partilhava a mesma opinião que eu.
"Continua a dar-me ideias que quando acabar de me soltar ainda te vou dar uma trinca." Ele parou de rir e pareceu perder a cor. "Agora vem aqui e ajuda-me para me soltar mais depressa!" Ele veio a correr e realmente ajudou-me a soltar-me.
Agora solta eu pude ir à procura de Dimitri e da minha mãe. Já era noite, e desconfio que à já algumas horas. Tudo estava pacífico lá fora tirando alguns guardas a mais, não havia sinal de Moris cá fora e os meus amigos pareciam hesitantes em seguir-me até aos portões mas não me deixaram sozinha.
"Tu não estavas na enfermaria?" Era um guarda algo e forte e eu estava a conhecer a voz, tinha sido ele a quem o Dimitri me tinha entregue.
"Onde está o Dimitri e a Jean Hathaway?" Eu parecia um relâmpago de tão mortífera que a minha voz estava.
"Tu não devias estar aqui. Estas fraca, foste gravemente ferida!"
"Pareço-te ferida?" Inclinei o meu pescoço para que ele pudesse ver o sitio onde eu supostamente tinha sido 'gravemente ferida'. Ele ficou embasbacado a olhar para o meu pescoço, mas rapidamente voltou a focar-se.
"Tenho ordens para te manter na enfermaria e tenciono cumpri-las." Ele endureceu e fechou os punhos caminhando na minha direção.
"Podes tentar mas duvido que consigas, porque eu vou passar por esses portões quer tu queiras quer não." Já me estava a pôr em posição de ataque pronta para me atirar a ele e foi então que ouvi aquela voz que eu conhecia tão bem.
"Não vai ser necessário, podes deixa-la passar." A voz dele estava calma.
Dirigi-me a ele levando o guarda à frente, ele estava ensanguentado e tinha feridas no rosto mas estava bem, alcancei o e beijei o de leve, ele abraçou-me com força contra o seu peito.
"Não devias estar aqui, devias estar a descansar."
"Eu estou bem." Apertei o com força.
"Dizes sempre isso Rosa."
"Estou a dizer a verdade! E por muito estranho que pareça podes comprovar com os teus olhos." Inclinei o pescoço e deixei o ver, ele parecia surpreso mas mesmo assim continuou.
"Mesmo que a Lisa te tenha curado continuas a precisar de descansar." O olhar dele prendia o meu, aquela preocupação por mim que eu tanto gostava.
"Eu não a curei." A voz dela estava limpa mas havia alguma duvida.
"Tu não a curas-te? Então quem foi?" Ele estava surpreso e tinha-me dado espaço para que me pudesse virar para encarar os meus amigos.
"Ninguém, ao que parece curou-se sozinha..." A voz de Christian era quase despreocupada, ele não acreditava muito em coisas impossíveis mas vindo de mim ele nem questionava muito.
"Como é possível...?" Dimitri estava a encarar-me e a examinar o meu pescoço enquanto eu olhava para ele com alguma diversão, ele ficava sexy.
"E as surpresas não ficam por aqui..." Eu não sabia como lhe havia de contar, estava a tentar juntar palavras para conseguir explicar-lhe até que ouvi a voz da minha mãe.
"Rosemarie! Tu estas bem minha filha?" Ela veio ao meu encontro e abraçou-me, eu odiava quando ela me chamava pelo meu nome mas dadas a circunstâncias eu não liguei e abracei a de volta.
"Sim mãe estou e tu como estás?" Ela estava igualmente ensanguentada mas ao contrário de Dimitri nenhum daquele sangue era dela, havia coisas em que nem Dimitri conseguia superar a minha mãe, o fato de ela ser pequena e muitas vezes ser subestimada pelos seus adversários muitas vezes jogava a favor dela.
"Eu estou bem, nós estamos todos bem e isso é que importa." Ela parecia feliz e até sorria, coisa rara visto que tinha acabado de sair de uma batalha. Ela olhou para os meus amigos e depois olhou para mim e deve ter encarado o meu pescoço e notado falta de algo porque ela até ficou branca.
"Rose onde está a marca de ferimento no teu pescoço?" Aproximou-se de mim e começou a examinar o meu pescoço de uma maneira muito mais minuciosa que o Dimitri, o que o fez rir e me deixou bastante envergonhada. Ela parecia aquelas mães super preocupadas que estão sempre em cima das crianças, e sim la estava eu, a criança.
"Pronto mãe já viste que eu estou bem, já todos viram que eu estou bem e antes que perguntes não foi a Lisa que me curou nem ninguém, incrivelmente eu curei-me sozinha e pronto estou bem." A minha mãe estava um bocado atordoada com tanta informação mas respirou fundo.
"Eu contigo nunca sei realmente o que esperar Rose."
Dimitri deu uma pequena gargalhada. "Nem ninguém, a nossa Rosa é uma verdadeira caixinha de surpresas boas." 'Caixinha de surpresas boas' pois sim, eu não precisava de um laço mental, bastou-me olhar nos olhos da minha melhor amiga para perceber que ambas sabíamos que quando eles soubessem o resto das 'surpresas boas' ia haver muita confusão...
Christian interrompeu a minha tagarelice mental e acabou com a minha telepatia com a Lisa mas sinto que foi melhor assim. "Bem minha gente, acho melhor parar-mos de falar de como a Rose é uma caixa de surpresas" Encarou-me a mim e à Lisa e aí eu quase pensei que ele também podia ter estado envolvido na nossa telepatia! " acho melhor irmos indo para ver se ainda vamos a tempo da hora de jantar."
"Sim, Sra. Jean vá indo com o Christian e vão nos guardando lugares que eu, a Rose e o Dimitri temos de passar pela enfermaria antes." Brindou a com um sorriso e com um olhar super penetrante, a minha mãe acenou e virou costas e foi com o Christian.
"Diz-me que não acabas-te de usar compulsão na minha mãe."
"Teve de ser se não ela ia querer saber onde íamos e o que íamos fazer, desculpa."
"Mas nós não vamos à enfermaria?" Dimitri perguntou confuso.
"Vamos." Lisa disse com um sorriso torto.
"E o que vamos lá fazer?" Eu tinha quase a certeza que não queria saber a resposta a esta pergunta mas tive de perguntar, é aquela coisa do ciclo vicioso das perguntas e respostas...
"Alimentar-te."
"O quê?" Dimitri parou e ficou surpreso a olhar para nós. Eu aproximei-me dele e agarrei nas mãos dele.
"Quando eu te disse que haviam mais surpresas, esqueci-me de mencionar que não eram assim tão boas como o facto de eu me conseguir curar sozinha..." Eu não sabia como lhe havia de dizer aquilo e procurei alguma ajuda na minha melhor amiga que me socorreu logo de seguida. Aproximou-se e tocou no braço de Dimitri.
"Dimitri ela, bem olha eu não sei como te explicar mas ela está com os sintomas iniciais de Mori no que diz respeito a beber sangue pela primeira vez"
Eu não sei se ele tinha percebido o que ela disse mas se eu estivesse no lugar dele não tinha percebido nada... E a cara dele fez-me pensar que ele não tinha percebido nadinha... Suspirei e disparei.
"Quando eu acordei na enfermaria eu senti um cheiro que achava ser super delicioso, despertou-me o apetite mas não se parecia com nenhum tipo de comida que eu já tivesse comido então eu continuei a tentar ver de onde vinha e após muita luta e perguntas da caca" lancei um olhar chato à minha melhor amiga e depois encarei o outra vez "eu até via o rastro do cheiro com uma névoa encarnada! Mas depois a Lisa disse que era sangue e perdeu a piada toda mas eu continuava a ter vontade e vontade." de certa maneira sentia me envergonhada.
"Minha Rosa não tens de te sentir assim, eu sei o que é sentir vontade de sangue e só ver isso à frete." Ele sorria-me mas eu conseguia ver a tristeza no rosto dele.
"Temos de ir agora para que ninguém apareça a meio da tua refeição." Credo odeio que ela lhe dê nome de 'refeição'.
"Não me agrada nada esta ideia." Estava a sentir-me enojada psicologicamente porque todo o meu corpo vibrava quando ouvia a palavra sangue e eu não estava nada habituada a esta reação.
"Já falas-te com alguém para o preparar, hum num recipiente ou algo do género?"
"Bem eu ainda não tomei essa medida porque ela pode escolher como o quer fazer..." Ela não me ia ajudar desta vez eu sentia o, parei em frente a ele encarando o e agarrei no dedo indicador dele e levei o às minhas presas. Ele ficou de boca aberta super surpreso.
"Como é que isto pode estar a acontecer? Desde quando é que tu tens presas?" Ele não parecia muito animado, era mais assustado e impressionado que outra coisa qualquer o que me fez começar a sentir-me um bocado mal. Saí da frente dele e continuei a andar, a Lisa reparou em como eu me sentia e continuou a falar por mim. Há coisas que não são precisas ter-se um laço mental e ler os pensamentos e sentimentos uma da outra, há coisas que se sente e se sabem porque se é melhor amiga.
"Nós ainda não sabemos bem, só sabemos que pode ter haver com o bebé."
Chegamos ao nosso destino, a Enfermaria estava deserta mas ainda havia um Mori que estava a acabar de se alimentar com um humano.
"Vamos esperar que o Mori acabe e vais ter de te alimentar dele." 'DELE' ela referia-se ao humano?
"Eu não sei se sou capaz Lisa! Quer dizer é um humano! E eu sou uma Dhampir ou era..." Eu estava a ficar aterrorizada com a ideia de ter de morder alguém, eu nunca o tinha feito.
"Vai correr bem, só tens de te controlar e beber apenas o quanto bastar, é simples vais ver." Ela brindava-me com um sorriso e satisfação assustadores, credo.
"Eu vou estar lá para te apoiar." ele sorriu-me e puxou-me para ele.
"Ai não vais não!" Eu nunca deixaria que ele me visse a beber sangue de alguém!
"Porquê? É uma coisa natura Rose." Lisa não estava a ajudar caramba.
"Natural para ti que és Mori! Eu neste momento nem sei o que sou!" A frustração estava a atingir-me.
"Tu és a mulher que eu amo e sabes disso e isso basta-me. Se isto vai fazer parte da tua vida eu quero e devo estar presente." Beijou-me de leve "não importa o que tu faças ou digas, eu vou estar aqui para ti, agora e para sempre minha Rosa.
Ele conseguia sempre fazer-me sentir tão bem, tão única... Ele era perfeito para mim e eu só me sentia perfeita com ele e ele tinha razão, aquilo ia fazer parte da minha vida tal como ele por isso eu podia nem devia fazer separações.
"Está na hora." Lisa disse caminhando para dentro do espaço tapado pela cortina e nós segui-mo la. Ela olhou penetrantemente para o enfermeiro que levava o humano e disse. "Vais deixar esse humano aqui e vais dormir uma cesta para a sala do material médico e só voltas daqui a uma hora para vir buscar o humano. Nunca comentarás nada com ninguém e nunca nos viste aqui certo?" o enfermeiro acenou. "Agora vai." Ele virou costas e foi fazer o que lhe tinham ordenado.
"Credo tu pareces mesmo mandona quando usas compulsão."
"Acabei de te fornecer jantar e tu agradeces chamando-me mandona? Onde estão as boas maneiras da minha melhor amiga?" Ela parecia cansada mas a hora de alimentação dela estava quase a chegar e ela ia conseguir aguentar até lá.
"Onde sempre estiveram acho eu." Respondi-lhe e encarei o humano alimentador de estava diante de nós, era um senhor nos seus 40 e poucos anos.
Dimitri veio até mim e acariciou-me no braço.
"Tu és capaz, e alem disso tu sabes que precisas disto e sabes que não estas a fazer nada de mal, é a lei da vida."
"Não da minha, esta vida não é a minha, nada disto é a minha vida."
"Tudo isto é a tua vida, podes não ter sido tu a escolher mas é a tua vida e como te disse antes, não é por isso que vais deixar de a viver." Encostou a testa dele à minha. "E eu vou estar ao teu lado para viver-mos e desfrutar-mos esta vida juntos."
Eu não sabia o que pensar nem o que dizer, naquele momento eu só tinha certeza de uma coisa.
"Amo-te Dimitri Belikov."
Ele sorriu.
"Amo-te Rosemarie Hathaway." E beijou-me.
"Desculpem interromper mas temos de ser rápidos." Ela parecia constrangida por nos ter interrompido mas tinha razão.
Eu aproximei-me do humano, sentei-me na cadeira e agarrei no braço dele, respirei fundo e cuidadosamente aproximei o braço dele da minha boca.
"Lembra-te, bebe só o quanto baste." A voz dela era calma mas fez-me lembrar de algo que me causou arrepios e larguei o braço do humano.
"Eu não consigo, não sou capaz! E se eu beber todo o sangue dele e me transformar num Strigoi?!" O medo estava a apoderar-se de mim e eu estava a entrar em pânico.
"Calma Rosa isso não vai acontecer, é preciso tu quereres isso para isso acontecer." Ele tinha-se ajoelhado ao meu lado.
"Quando tu estas a beber o teu corpo continua atento ao que se passa à tua volta e quando o teu organismo percebe que bebeste sangue suficiente avisa-te e meio que começa a dizer-te que não quer mais, é uma sensação parecida a quando estamos cheios." Ela aproximou-se e finalizou. "Não precisas de te preocupar e faz apenas o que te disse, bebe só o quanto baste." E sorriu.
Eu voltei a agarrar no braço do humano respirei fundo, encostei o braço à minha boca e mordi o, e aquela era uma das melhores sensações que tinha tido até hoje. O Sangue a inundar a minha boca cheio de vida e de sabor, tão doce que era, tão ofegante e desejosa que me deixava... Bebi e bebi e continuava a saber tão bem... Até que senti uma estranha sensação de enjoou, não sei se era aquilo que a Lisa estava a falar mas realmente era a minha deixa para parar.
Larguei o braço do humano e fiquei surpresa quando o enjoou continuou e desta vez ainda mais forte. Levantei-me e corri para o balde do lixo e vomitei.
"Não sabia que era normal vomitar-se da primeira vez que se bebe." Credo que nojeira eu tinha feiro no balde do lixo.
"E não é, quer dizer eu não vomitei... Há pois espera, é normal para ti."
"Porquê?" Ótimo, sempre a fazerem-se sentir especial/anormal.
"Estás grávida." E lá estava o sorriso parvo na cara deles.
