CAPÍTULO 2
Depois de alguns dos eventos que testemunhei, a noite com Jake/motorista/magick/nuca devia ter se parecido com uma festa. Já corri na noite, agarrada à crina de um cavalo, com nada além das roupas do corpo, enquanto uma cidade atrás de mim ardia em chamas. Já vi corpos cobertos com as feridas purulentas da peste bubônica, em pilhas enormes nas ruas da cidade, como troncos, porque não havia gente viva o suficiente para enterrá-los. Eu estava em Paris no dia 14 de julho de 1789. Não se esquece a imagem de uma cabeça humana enfiada numa estaca.
Mas não estávamos em guerra agora. Vivíamos uma vida normal, ou tão normal quanto um imortal pode ter. Quero dizer, sempre tem um pouquinho de surrealismo. Se você vive tempo o bastante, passando por guerras, invasões e ataques de inimigos do Norte, você acaba se defendendo, às vezes a um ponto extremo. Se alguém vai para cima de você com uma espada e você tem uma adaga escondida na parte de trás da saia, bem...
Mas isso era diferente. Não importava que o agressor provavelmente não fosse matar você — com que frequência alguém decapita a gente? —, ainda parecia uma situação de vida ou morte, e você reagia como se fosse. Mas a noite anterior tinha sido... apenas uma noite normal. Nada de guerra, nada de guerreiro nórdico, nada de vida ou morte. Só um motorista puto da vida.
Onde Jake tinha aprendido aquele feitiço? Sim, somos imortais, temos magia correndo nas nossas veias, mas é preciso aprender como usar. Ao longo dos anos, conheci pessoas que se dedicavam arduamente a estudar magick, a aprender feitiços, a aprender o que fosse preciso para fazer uso dela. Mas concluí, muito tempo antes, que eu não queria. Já tinha visto a morte e a destruição que a magia podia causar, já tinha visto o que as pessoas estavam dispostas a fazer por causa dela, e não queria envolvimento algum com isso. Queria fingir que ela não existia. E encontrei alguns Aefrelyffen (uma antiga palavra para imortais) com pensamento similar, e ficávamos juntos.
Certo, talvez eu usasse magia para conseguir um táxi quando estava chovendo e não tinha nenhum por perto. Para fazer a pessoa na minha frente não querer o último pain au chocolat. Esse tipo de coisa. Mas para partir a coluna de alguém, por diversão?
Eu já tinha visto Jake usar as pessoas, partir o coração de moças e rapazes, roubar, ser insensível — e isso tudo era parte do seu charme. Ele era impulsivo e egoísta e aproveitador — mas não comigo. Comigo ele era doce e generoso e engraçado e divertido, disposto a ir a qualquer lugar, fazer qualquer coisa. Era ele quem me chamava para ir ao Marrocos de uma hora para outra. Era para ele que eu ligava para me tirar de uma situação complicada. Se algum cara não aceitava não como resposta, Jake aparecia, com seu sorriso cruel. Se alguma mulher fizesse um comentário maldoso, a resposta de Jake a deixava constrangida na frente de todo mundo. Ele me ajudava a escolher o que vestir, comprava para mim coisas fabulosas em todos os lugares para onde ia, nunca me criticava, nunca me fazia me sentir mal.
E eu fizera o mesmo por ele — até quebrando uma garrafa na cabeça de uma mulher uma vez quando ela foi atrás de Jake com uma lixa de unha de metal. Subornei porteiros, menti para guardas e policiais e fingi ser sua mulher ou irmã — até mesmo sua amante enfurecida —, dependendo do que a situação exigisse. Ríamos disso tudo depois, até as lágrimas rolarem. O fato de que nunca tínhamos sido amantes, de que nunca houve aquele constrangimento entre nós, só tornava tudo mais perfeito.
Ele era meu melhor amigo — o melhor amigo que eu já tivera. Vivíamos grudados havia quase um século, então era incrível que ele tivesse conseguido me chocar na noite de ontem. E incrível que nossos outros amigos não tivessem ficado chocados. E incrível, até mesmo para mim, que eu tenha conseguido chegar a um nível ainda mais baixo. O baixo nível da indiferença. O baixo nível da covardia. E, para completar, Jake tinha visto minha nuca. Não podia ficar melhor.
Quando cheguei ao meu apartamento de Londres, tomei um banho sentada no chão de mármore, deixando a água quente cair na minha cabeça por muito tempo, tentando tirar o álcool e o cheiro do armazém da pele. Eu nem conseguia dar nome ao que estava sentindo. Medo? Vergonha? Era como se eu tivesse acordado em uma vida diferente da de ontem de manhã e fosse outra pessoa. E essa vida e eu, de repente, éramos muito mais sombrios e repugnantes e perigosos do que eu tinha percebido.
Passei sabonete no corpo todo, praticamente sentindo o álcool escorrer pelos meus poros. Lavei meu cabelo, automaticamente evitando tocar em minha... não é uma tatuagem. Imortais fazem tatuagens, é claro, e elas duram muito tempo, talvez uns noventa anos. Outras cicatrizes se curam, vão clareando e desaparecem com muito mais rapidez e mais completamente do que nas pessoas comuns. Depois de uns dois anos, não dá mais para saber onde você se machucou ou se queimou.
Menos eu. A marca na minha nuca foi de uma queimadura, e eu a tinha desde os 10 anos. Nunca clareou, nunca se alterou, e a pele era meio deformada, em alto relevo. Era redonda, com uns 5 centímetros de diâmetro. Tinha sido provocada por um amuleto quente prensado contra minha pele 449 anos atrás. Claro, apesar da minha paranoia, uma pessoa ou outra a viu, em mais de uma ocasião, ao longo desses quatro séculos e meio. Mas, pelo que eu sabia, ninguém que ainda estivesse vivo a tinha visto. Exceto Jake na noite de ontem.
Por fim, saí do banho, enrugada como uma ameixa seca. Vesti o roupão grosso que roubei de algum hotel, evitando me olhar no espelho. Eu me sentia como um fantasma, um espectro. Andei até a sala e vi o London Times no chão em frente à porta, para onde eu o tinha chutado. Levei-o até a cozinha, onde só encontrei um pacote velho de bolacha e uma garrafa de vodca no freezer. Então me sentei no sofá e comi as bolachas velhas, passando os olhos pelo Times. Estava escondido no fim, antes dos óbitos, mas depois de coisas como os anúncios das bandeirantes. Dizia: Trevor Hollis, 48, motorista de táxi autônomo, foi atacado na noite de ontem por um dos passageiros e teve a coluna quebrada. Está na UTI do Hospital St. James, sendo submetido a exames. Os médicos disseram que o paciente provavelmente ficará paralisado dos ombros para baixo. Trevor não conseguiu dizer o nome e nem descrever seu agressor. A esposa e seus filhos o estão acompanhando.
Paralisado dos ombros para baixo. Se eu tivesse chamado uma ambulância, se tivesse conseguido ajuda antes, teria feito diferença? Quanto tempo ele tinha ficado caído, rígido de dor, sem conseguir gritar?
Por que não liguei para a emergência? O que havia de errado comigo? Ele podia ter morrido. Talvez ele tivesse preferido. Não poderia mais dirigir o táxi. Tinha esposa e filhos. Que tipo de marido ele poderia ser agora? Que tipo de pai? Meus olhos ficaram embaçados, e as bolachas velhas viraram poeira na minha garganta.
Eu tinha sido parte daquilo. Não ajudei. Provavelmente piorei a situação.
Que tipo de pessoa eu tinha me tornado? O que Jake tinha se tornado?
O telefone tocou e eu o ignorei. Meu interfone tocou três vezes, mas deixei que o porteiro resolvesse. Tinha perdido meu celular uns dias antes e não comprei outro, então não precisei me preocupar com isso. Finalmente, por volta das 8 horas da noite, me levantei, fui até meu quarto e peguei minha maior mala, a que podia carregar até um pônei morto. (Antes que você pergunte, quero esclarecer que isso nunca aconteceu.)
Rapidamente, com uma repentina sensação de urgência, peguei várias roupas de uma vez e tudo o que vi pela frente e enfiei lá dentro. Quando estava cheia, fechei o zíper, peguei uma jaqueta e saí. Santana, o porteiro, chamou um táxi para mim.
— O Sr. Damitrio e o Sr. Jacobo estavam procurando por você, Srta. Isobel — falou ele. Sempre achei engraçado o modo como ele assassinava nossos nomes. Obviamente, ele estava se saindo muito melhor do que eu conseguiria se tivesse sido arrancada de Bangalore e precisasse ter um emprego.
— Volto logo — falei para Santana enquanto o motorista colocava minha bagagem no porta-malas.
— Ah, vai visitar seus pais, Srta. Isobel?
Como sempre, eu havia inventado pais falsos para mim, para explicar por que uma adolescente morava sozinha com uma renda ilimitada.
— Ah, não, eles ainda estão... — Pensei rapidamente. — Na Tasmânia. Só vou a Paris fazer compras. — Talvez eu estivesse sofrendo um colapso nervoso. Sentia medo, ansiedade, vergonha e cautela, como se todo motorista de táxi em Londres agora tivesse uma foto minha no painel, com a palavra procurada em vermelho sobre meu rosto. Sentia como se Jacob fosse pular de trás de algum vaso de plantas de repente, e não sabia o que faria se isso acontecesse. Lembrei-me da expressão dele quando olhou para mim da ponta do sofá. Ele parecia... intrigado. Especulativo? Mesmo que ele não tivesse ideia do significado da minha cicatriz, eu odiava o fato de que ele sabia sobre ela. Eu sentia como se jamais pudesse suportar vê-lo novamente, e ele era meu melhor amigo. Meu melhor amigo que tinha aleijado alguém na noite de ontem, de quem eu agora tinha... medo? Essa era minha vida. Essa era a situação que eu tinha criado para mim mesma.
Sentei-me no banco de trás do táxi e dei a Santana uma boa gorjeta.
— Só vou até Paris. Volto logo!
Santana sorriu e acenou positivamente, encostando a nota de dinheiro no quepe de porteiro.
— Quer ir para St. Pancras? — perguntou o motorista, anotando em um bloco. — Para pegar o trem pelo túnel sob o canal?
— Não — falei enquanto afundava no banco de trás. — Me leve para Heathrow.
Na manhã seguinte eu estava em Boston, nos Estados Unidos, alugando um carro em uma empresa desconhecida que aceitava negociar com menores de 25 anos.
— Aqui está, Srta. Douglas — disse a atendente, me entregando um chaveiro. — E como se pronuncia seu nome?
— Phillipa — respondi.
Como todo imortal, tenho vários passaportes, identidades e carteiras de habilitação diferentes. Alguém sempre tem um amigo que conhece alguém que pode conseguir o que precisamos. Por anos usei os serviços de um homenzinho em Frankfurt. Ele era um gênio, tinha falsificado mil documentos de identificação diferentes durante a Segunda Guerra Mundial. Meus passaportes contêm nomes, idades (no meu caso, indo de 18 a 21 anos) e locais de origem diferentes. Era tão mais fácil antes de os governos começarem a registrar as pessoas. Quero dizer, certidões de nascimento? Números de seguro social? Que dor de cabeça maldita.
— Phil-ip-pah.
— Que nome bonito — disse a atendente, me dando um sorriso de animadora de torcida.
— Aham. O carro está ali?
Assim que saí de Boston, encostei o carro e abri meu mapa de Massachusetts. O pessoal da locadora de carros podia ter feito o planejamento de percurso até West Lowing para mim, mas aí eles podiam se lembrar de ter feito isso caso alguém perguntasse depois. E nesse momento eu queria desaparecer. Parecia que o demônio estava atrás de mim. Como se estivesse sendo engolida por algum desastre ou algo do tipo e tivesse que... ir para muito longe.
Eu tivera sete horas para pensar no voo de Londres a Boston. Sete horas não é o bastante para se contemplar inteiramente quatrocentos anos de trevas e burrice acumuladas, mas é bastante tempo para lembrar coisas ruins o bastante a ponto de fazer você se sentir uma lesma debaixo de uma pedra. Pior do que uma lesma. Um limo mofado.
Encontrei West Lowing. Ficava bem no meio de Massachusetts, perto do lago Lowing e junto ao rio Lowing. Suponho que alguém chamado Lowing era um figurão importante há uns duzentos anos e sentiu necessidade de espalhar seu nome por todo canto.
Eu demoraria só umas duas horas para chegar lá. Na Irlanda, duas horas ao volante podem levar você por três quartos do país de um lado a outro, horizontalmente. Dava para cruzar Luxemburgo de um lado a outro dirigindo em cinco minutos. Os Estados Unidos são um país enorme. Grande o bastante para alguém conseguir se perder lá dentro? Eu esperava que sim. Pois então, todo esse lance de imortal. Você deve ter perguntas. Não tenho todas as respostas. Não sei quantos de nós existem. Conheci centenas ao longo dos anos, e um cálculo simples diz que a quantidade deve estar aumentando o tempo todo, certo? Bebês nascem, os velhos raramente morrem. Você provavelmente já encontrou alguns, mas não se deu conta. Basicamente, imortais são humanos que não morrem quando pessoas normais deveriam morrer.
A maioria de nós acredita que sempre existiram imortais, assim como as pessoas que acreditam em vampiros acham que sempre existiram vampiros. (Na verdade, se você olhar para velhos mitos vampiros, vai ver que alguns coincidem com o tema de "viver para sempre".) Não sei como começamos a existir, nem quando, nem por que, mas conheci imortais da maioria das raças e etnias. É preciso dois imortais para fazer novos pequenos imortais, então, quando um imortal se envolve com uma pessoa normal, os filhos não são imortais — mas, em muitos casos, essas pessoas são as que vivem vidas anormalmente longas, chegando aos 100 anos. Houve uma mulher na França — e há uma cidade na Geórgia (o país, não o Estado) onde uma proporção incomum das pessoas vive até mais de 100 anos. Eles atribuem isso à vida saudável e a uma dieta rica em iogurte. Ha! Isso só significa que houve um imortal por lá que saiu com muita gente.
Nós envelhecemos, mas num ritmo diferente dos humanos. Na maioria das vezes, até os 16 anos, um ano imortal equivale a um ano mortal. Depois disso, um ano imortal equivale a cem anos mortais. Vi imortais que envelheceram mais rápido e outros que envelheceram mais devagar, mas não tenho ideia do motivo. A pessoa mais velha que conheci tinha uns 800 anos. Ele era terrível, muito convencido, mau e cruel. O que é estranho é encontrar imortais que ainda têm 40 ou 50 anos — a realidade ainda não foi assimilada por eles, e eles se sentem como adultos, mas ainda têm aparência de adolescente. Isso os deixa em um limbo estranho, e eles não sabem o que fazer direito. Quanto a mim, nasci em 1551, um belo número simétrico. Quase 460 anos depois, ainda pedem minha identidade nos bares. Antes que você pense: Oh, que fantástico, deixe-me dizer o quanto isso é um saco. Sou adulta. Já sou adulta há séculos. Mas estou presa no eterno crepúsculo da adolescência, e não consigo ir além da minha aparência. Mas, por outro lado, muitos adolescentes parecem se sentir imortais, como se nada pudesse atingi-los. O conceito de perigo ou de morte é completamente estranho a eles, sem peso ou realidade. Então talvez eu ainda seja adolescente. Certo, eu sei: quem se importa?
Não temos câncer nem diabetes ou coisas do tipo. Pegamos resfriados, gripes e peste, mas nos recuperamos. Para sua informação, cicatrizes de varíola levam uns 15 anos para sumir. Podemos sofrer queimaduras, nossos membros podem ser cortados, podemos sofrer ferimentos terríveis — mas eles cicatrizam, como já expliquei. Leva tempo, mas tudo sara. Membros podem voltar a crescer, um processo repugnante e fascinante. Leva muitos anos. Apesar do nosso nome, podemos ser mortos. Mas é difícil, então melhor nem tentar.
O que fazemos com tanto tempo? Muitas das coisas que pessoas normais fazem. Moramos no mesmo planeta, temos os mesmos recursos disponíveis. Alguns de nós são farristas gastadores. (Não estou citando ninguém — está bem, eu.) Alguns imortais usam seu tempo de forma mais sábia: estudando, aprendendo, aprimorando talentos artísticos ou artesanais, viajando. Algumas pessoas nem farreiam nem se aprimoram. Vivem em um estado perpétuo de insatisfação, não gostando de nada, sempre achando alguma coisa do que reclamar, odiando outros imortais, odiando os humanos. Conheci pessoas assim, e sempre tive vontade de colocá-las sobre um bloco de gelo e empurrá-las para o oceano.
Se nos casamos, temos filhos? Às vezes. Já me casei. É um impasse — se você se casa com uma pessoa normal, independentemente do quanto a ama, ela vai envelhecer e morrer, e você não. Então, em um certo ponto, é preciso contar sobre sua condição ou então deixar que a pessoa fique intrigada e assombrada. Ou um dos dois tem um segredo ou os dois têm. E se você se casa com outro imortal, bem, você vai ficar casado por muuuito tempo. Pior, se você se casa com um não Aefrelyffen e tem filhos, ver esses filhos envelhecerem e morrerem é bem pior do que ver seu cônjuge envelhecer e morrer. Mas falaremos disso depois.
Quatro horas, três expressos e um saco de Chips Ahoy! depois, cheguei a West Lowing. Atravessei a cidade dirigindo em menos de dez minutos. Não era uma grande metrópole. Fiz a volta e cruzei a cidade de novo, passeando pelos bairros, seguindo as ruas cheias de curvas nos arredores da cidade. Eu nem sabia o que estava procurando. Uma placa? Tanto uma placa literal, como Sulpicia's Edge, vire à direita, ou uma placa metafórica, como um arbusto queimado ou coisa do tipo, um raio indicando a direção certa.
Dois minutos depois, eu estava fora da cidade de novo. Parei o carro, apoiei a cabeça no volante e bati as palmas das mãos no painel.
— Isabella, você é uma idiota. É uma maldita idiota burra que merece isso. — Na verdade, eu merecia coisa muito pior, mas sou bem tolerante comigo mesma.
Depois de vários minutos pensando e refletindo, saí do carro e andei até o bosque pela lateral da estrada. Nenhum carro tinha passado por ali já havia algum tempo. Depois de ter entrado uns seis metros no bosque, sem poder ser vista da estrada, me ajoelhei no chão e encostei as mãos com as palmas abertas na terra. Falei algumas palavras, palavras tão velhas que soavam como uma série de sílabas desconexas. Palavras que já eram antigas na época em que nasci.
Palavras que revelavam coisas escondidas.
Era um dos poucos feitiços que eu conhecia. Não consegui me lembrar da última vez que o tinha usado. Talvez para encontrar minhas chaves nos anos 1990?
Fechei os olhos, e depois de um minuto, algumas imagens entraram em foco. Vi uma estrada, uma curva, o contorno de uma árvore, as folhas com as cores do outono. Sabia aonde precisava ir.
Respirei fundo e fiquei de pé. Onde minhas mãos tinham estado, as folhas e os galhos estavam cheios de pó, secos e se desintegrando. Pedaços de trevo estavam murchos e ressecados, as células sugadas de toda a vida para que eu pudesse fazer meu feitiço infantil. Duas marcas de destruição em formato de mão no local de onde eu tinha tirado meu poder. Porque é assim que os imortais fazem: para executar magia, arrancamos o poder de alguma outra coisa. A maioria de nós faz assim, pelo menos.
Entrei no carro de novo e dirigi pelas estradas serpenteantes que levavam à pequena cidade e aos arredores dela. Comecei a olhar com atenção, tentando sentir onde estava. Eu sabia que tinha passado por aquela estrada dez minutos antes, mas dessa vez examinei cada árvore, cada entrada sem asfalto.
Lá estava: uma rua sem placa, uma árvore, um bordo cheio de cores de fogo, os galhos largos em formato de V, como se tivesse sido atingido por um relâmpago anos antes. Entrei. Meu pequeno carro alugado se sacudiu na rua sem pavimentação — aposto que seria quase impossível passar ali durante uma forte nevasca. Estava começando a ficar com frio, então aumentei o aquecedor do carro. Eu estava pilhada pela cafeína e pelo açúcar e de repente me dei conta da suprema imbecilidade do que estava fazendo.
Eu estava louca. Era a coisa mais estúpida que eu já tinha pensado em fazer. Era culpa do meu pânico, do meu colapso nervoso, pensei.
Abruptamente, parei o carro e apoiei a cabeça e as mãos no volante. Eu tinha viajado aquilo tudo para procurar uma mulher chamada Sulpicia. Isso era uma imbecilidade incrível. O que tinha me passado pela cabeça? Precisava fazer a volta, devolver o carro e ir para casa. Onde quer que eu decidisse que minha casa seria dessa vez.
Quando eu a tinha conhecido, essa Sulpicia? Em 1920? 1930? Eu só me lembrava do rosto dela, macio e bronzeado, e das mãos, fortes e finas. O cabelo dela era grisalho, coisa incomum para um imortal. Jacob tinha batido seu primeiro carro — e estou falando do primeiro mesmo. No sentido de recém-inventado.
Tinha sido em... 1929? Acho que sim. Jacob tinha comprado um lindo Model A, azul cinzento. Foi um dos primeiros Model A que a Ford enviou para a França. Jake o dirigia havia umas duas semanas, e então ele caiu em uma vala em uma estrada perto de Reims. Outro carro parou para nos ajudar. Era noite. Eu tinha sido lançada pelo para-brisa de vidro e caíra na vala. Meu rosto estava todo cortado — isso foi antes do vidro blindado e dos cintos de segurança. Estava muito frio.
Jacob e Lauren tinham sido jogados para fora do carro. Lauren tinha vários ossos quebrados. Ela era uma humana comum e provavelmente acabou no hospital. Maria estava morta — seu pescoço se quebrou quando ela bateu contra uma árvore. Jacob e eu estávamos machucados, mas conseguíamos andar. Tínhamos conhecido Maria e Lauren apenas um dia antes, em uma festa. Elas eram bonitas, ricas e doidas para se divertir. Infelizmente, elas nos conheceram.
Um carro parou. Uma mulher e dois homens correram para nos ajudar. Os homens colocaram Lauren com cuidado no banco de trás do carro deles e depois viram que Maria estava morta. A mulher foi ver Jacob, que já estava se levantando, lamentando a perda do belo carro. Ela o deixou, veio até mim e se ajoelhou ao meu lado, enquanto eu saía da vala cheia de água gelada. Em francês, ela me disse que tudo ficaria bem, que eu devia ficar parada, e tentou verificar minha pulsação. Tirei o cabelo encharcado dos olhos, apertei o casaco forrado com pele de raposa em volta do pescoço e perguntei a ela que horas eram — estávamos a caminho de uma festa de Ano Novo. Maria estava morta, e isso era terrível, era uma pena mesmo, mas mal registrei o fato. Indiferença cruel. Jake não a tinha matado de propósito, afinal. Os humanos pareciam... tão frágeis às vezes.
Foi nessa hora que a mulher olhou para mim. Ela segurou meu queixo nas mãos e olhou bem dentro dos meus olhos. Olhei nos dela, e nós reconhecemos uma a outra como imortais. Não há uma característica distinta. Não é como se tivéssemos um grande I pintado no fundo das nossas retinas. Mas podemos reconhecer uns aos outros.
Ela olhou para a cena: o carro destruído, a garota morta, Jacob e eu já começando a nos recuperar.
— Não precisa ser assim — disse ela em francês.
— O quê? — perguntei.
Ela balançou a cabeça, os olhos castanhos calorosos mostrando tristeza.
— Você pode ter bem mais que isso, ser bem mais que isso.
Foi quando comecei a ficar agressiva, limpando o sangue dos meus olhos e levantando.
— Meu nome é Sulpicia — disse ela, também ficando de pé. — Tenho uma casa nos Estados Unidos. Em Massachusetts, no Norte. Em uma cidade chamada West Lowing. Você devia ir para lá.
Ela gesticulou em direção ao carro destruído e fumacento, para os homens carregando o corpo de Maria até o carro deles. Lançou um olhar para Jake e pareceu avaliá-lo automaticamente como um perdulário, um boa-vida, a proverbial pedra sob a qual as sementes da sabedoria morreriam.
— Já estive em Massachusetts — falei. — Era puritano. Esnobe. E frio.
Ela deu um sorriso breve e triste.
— Não West Lowing. Você devia ir para lá... quando se cansar disso. — Mais uma vez ela olhou para o carro e para Jake. — Qual é o seu nome? — Os olhos dela eram sagazes, inteligentes. Pareciam memorizar a superfície do meu rosto, a curva da minha orelha. Apertei mais meu casaco de pele contra mim.
— Irina.
— Irina. — Ela registrou. — Quando se cansar, quando quiser ser mais, vá para West Lowing. Massachusetts. Minha casa se chama Sulpicia's Edge. Você vai conseguir encontrá-la.
A mulher chamada Sulpicia entrou no carro com os dois homens, levando Lauren e o corpo de Maria. Eles foram embora, deixando a mim e Jake e o carro azul lindo e destruído. Um tempo depois passou uma pessoa e pegamos carona, depois pegamos o trem para Paris e depois para Marselha, onde era mais quente. Foi uma bela primavera em Marselha, e tirei Sulpicia — e Maria — da minha cabeça completamente.
Até dois dias atrás. Agora, oitenta anos depois, eu estava decidindo aceitar a oferta dela. Oitenta loucos anos depois, como se ela ainda fosse estar lá e o convite ainda valendo. Como você pode imaginar, os imortais se mudam muito. Morar na mesma cidadezinha por cinquenta anos, sem a aparência mudar... bem, isso despertaria suspeitas. Então raramente ficamos no mesmo lugar por tanto tempo. Por que eu suporia que Sulpicia ainda estaria lá? Era só que... ela tinha parecido ser tão eterna. Um clichê sem sentido para um imortal, eu sei. Mas ela parecera sólida como uma pedra, de uma maneira incomum. Como se, por ela ter dito que estaria lá, que eu podia ir quando quisesse, bem, por Deus, então ela estaria lá e eu podia ir quando quisesse mesmo.
O expresso e o açúcar deixaram minhas mãos trêmulas e meu estômago era um nó. O que fazer, o que fazer?
Houve uma batidinha na janela do carro e dei um salto, mal conseguindo sufocar um grito.
Meus olhos frenéticos mal conseguiam focalizar, e o homem se inclinou para olhar para mim.
Uma risada quase histérica coçava na minha garganta, e tive que a engolir. Um deus viking tinha batido na minha janela e estava olhando para mim com preocupação — ou desconfiança. Sua beleza dourada era de tirar o fôlego, como se uma figura mítica ganhasse vida e tivesse sangue quente correndo nas veias.
No momento seguinte, apertei os olhos para examiná-lo melhor — seu rosto era familiar. Seria ele modelo? Eu o teria visto em uma propaganda de cueca de 12 metros de largura na Times Square? Seria ele ator? De alguma novela? Não consegui identificá-lo enquanto abria a janela. Por favor, por favor, seja um louco faminto por sexo que quer me sequestrar e me fazer escrava sexual, implorei em silêncio.
— Pois não? — Minha voz soou seca, rouca.
— Essa estrada é particular — falou o deus, olhando para mim com reprovação. Teria ele uns 22 anos? Menos? Será que gostava de adolescentes? Pisquei para ele, sentindo de novo, na beirada da minha consciência, que já o tinha visto antes.
— Ah... Hum, eu estava procurando por Sulpicia. Sulpicia's Edge?
Os olhos da cor de topázios brilharam de surpresa. Ocorreu-me que ela podia ter ocultado a casa dos vizinhos. Caso ainda estivesse lá.
— Você conhece alguém com esse nome? — insisti.
— Você conhece Sulpicia? — perguntou ele lentamente. — Onde a conheceu?
Quem era ele, segurança pessoal dela?
— Eu a conheci há muito tempo. Ela disse que eu podia vir visitá-la — falei com firmeza. — Você sabe se a casa dela, Sulpicia's Edge, fica por aqui?
Rápido demais para que eu reagisse, uma mão forte entrou pela janela do carro e tocou minha bochecha. A mão dele era quente, firme e gentil ao mesmo tempo, e eu sabia que minha pele estava gelada sob seu toque.
Ele era imortal e reconheceu que eu era também.
Inclinei a cabeça para o lado.
— Conheço você? Já nos encontramos em algum lugar?
Se já o tivesse encontrado, certamente me lembraria com mais clareza, mais intensidade. Ninguém se esqueceria daquele rosto, daquela voz. Ainda assim, eu já tinha cruzado todos os continentes, vezes demais para contar. Talvez ele não fosse tão velho. Ou...
Ele era um deles, do outro tipo de imortais. Do tipo com quem eu não tinha nada a ver, nada em comum, evitava como a peste, fazia piada com meus amigos. O tipo que eu desdenhava quase tanto quanto eles me desdenhavam.
Do tipo que eu esperava que fosse... me salvar. Me proteger. Os Tähti.
— Não — disse ele, afastando a mão. Tremi, sentindo mais frio do que nunca. — É no final dessa estrada — disse ele, parecendo relutante. — É só ir em frente. Tem uma curva para a esquerda. Pegue a esquerda na primeira bifurcação. Você vai chegar a ela.
— Então Sulpicia ainda está aqui?
Não consegui ler nada na expressão dele. O rosto estava impenetrável.
— Está.
