CAPÍTULO 3
Observei-o pelo retrovisor enquanto ele caminhava pela estrada. Era alto e tinha ombros largos, e o modo como o jeans se agarrava à sua bunda era uma visão e tanto. Enquanto eu olhava para as costas dele, a sensação de reconhecimento permaneceu, e franzi a testa, vasculhando minha memória. Então me vi no espelho e gemi alto — minha pele tinha uma palidez de boate nada saudável, os lábios estavam praticamente tão pálidos quanto a pele, meus olhos pareciam estranhos por causa das lentes de contato azuis, meu cabelo preto espetado estava desarrumado e duro. Eu era a antítese dele: ele era o homem perfeito, enquanto eu era a menos perfeita das mulheres. Desgrenhada, doentia. Bem, por que eu me importaria? Eu não me importava.
Quatro minutos de estrada acidentada depois, finalmente cheguei a uma casa longa de dois andares que parecia mais uma escola ou um alojamento do que o lar de alguém. Era grande e retangular, pintada de um branco puro e impecável, com persianas verde-escuras em cada uma das janelas. Havia pelo menos três outras construções por perto e uma cerca de pedra que devia proteger um grande jardim.
Estacionei o carro na grama seca de outono ao lado de uma velha picape vermelha. Parecia que os minutos seguintes seriam monumentais, como se eles fossem decidir todo meu futuro. Sair desse carro seria admitir que minha vida era um desperdício. Que eu era um desperdício. Seria admitir que eu tinha medo dos meus amigos, medo de mim mesma, da minha própria escuridão, da minha história. Tudo em mim queria ficar no carro com as janelas fechadas e as portas trancadas, para sempre. Se eu fosse humana e para sempre significasse só mais sessenta anos, eu talvez tivesse realmente ficado. No entanto, no meu caso, para sempre realmente teria sido tempo demais para suportar. Não tinha outro jeito.
Eu tinha ido lá por um motivo. Tinha deixado meus amigos e desaparecido em um continente diferente. No avião, durante a viagem, percebi que, além de Jake ter aleijado o motorista, apesar da minha repulsa por minha falta de ação, apesar da minha paranoia por Jake ter visto minha cicatriz, tinham sido centenas, milhares de outras coisas que me levaram a esse ponto, desbastando meu interior até eu me sentir como uma concha sem nada vivo dentro de mim. Eu não tinha andado por aí matando pessoas e tacando fogo em vilarejos, mas seguira um caminho destrutivo por toda minha existência, e havia percebido com uma honestidade nauseante que tudo o que eu havia tocado tinha sofrido algum dano. Pessoas se feriam, lares eram desfeitos, carros eram destruídos, carreiras eram arruinadas — as lembranças não paravam de correr como um riacho de ácido fresco pingando no meu cérebro até eu querer gritar.
Estava no meu sangue. Eu sabia. Uma escuridão. A escuridão. Eu a tinha herdado, assim como a imortalidade e os olhos negros. Eu tinha resistido quando era mais jovem. Tinha fingido que não estava lá. Mas em algum momento no caminho, parei de lutar, cedi a ela. Por muito tempo, corri com ela ao lado. Mas naquela noite, a escuridão que me seguia havia mais de quatrocentos anos despencava sobre mim com um peso sufocante, e agora eu odiava a coisa horrível em que tinha me transformado.
Se eu fosse uma pessoa normal, ficaria tentada a me matar. Sendo quem sou, quase tive um ataque histérico de riso quando me dei conta de que, mesmo se conseguisse cortar minha própria cabeça, não teria como fazer com que ela ficasse longe o suficiente do corpo para que eu realmente morresse. E qual era minha outra opção? Pular de cabeça em um cortador de madeira? E se ele travasse quando só metade da cabeça tivesse entrado? Dá para imaginar o processo de regeneração disso? Jesus.
De repente, minha vida dava a sensação de que eu tinha caído de um penhasco em uma queda contínua em direção ao desespero crescente, jamais podendo ser feliz de novo. Não consegui me lembrar da última vez que me senti verdadeiramente feliz. Entretida? Sim. Animada? Sim. Feliz? Nem tanto. Não conseguia nem lembrar como era.
A única pessoa que tinha me oferecido ajuda, que parecera entender, tinha sido Sulpicia. Ela havia me convidado para esse lugar décadas atrás. E ali estava eu.
Olhei em volta de novo, e dessa vez a vi, parada nos degraus largos de madeira que levavam à casa. Ela estava exatamente como eu me lembrava, o que era incomum. Nós tendemos a alterar nossa aparência com frequência, drasticamente. Eu tinha feito isso, provavelmente vinte vezes desde que a conhecera. Não vi como ela poderia me reconhecer. Mas ela estava me observando, e estava claro que tinha a intenção de esperar que eu desse o primeiro passo.
Inspirei profundamente, esperando que a casa estivesse quente, que eu pudesse tomar um chá ou um drinque ou mesmo um banho quente de banheira. Será que ela se lembraria de mim? A oferta ainda estaria valendo? Eu sabia o quanto era ridículo cobrar dela uma coisa que dissera há mais de oitenta anos. Mas o que mais eu podia fazer?
Bem, eu já tinha feito coisas mais patéticas. Saí do carro e vesti minha jaqueta de couro — a velha, não a que perdi duas noites atrás. Andei pelas folhas caídas no chão, já planejando o que fazer quando ela me mandasse embora. Ir me esconder em algum lugar quente, com certeza. Fiji ou algum outro lugar parecido. Ficar lá até me sentir melhor, me sentir menos inútil. Ia acabar acontecendo alguma hora. Jake acabaria parecendo menos assustador em algum momento. Eu acabaria esquecendo sobre o motorista, como tinha esquecido sobre Maria até ontem.
— Oi — disse ela quando cheguei perto o bastante. Estava usando uma saia longa estampada e um xale de lã sobre os ombros. O cabelo grisalho estava solto, as laterais presas por uma fivela. — Bem-vinda.
— Oi — falei. — Sulpicia?
— Sim. — Ela avaliou o meu rosto para tentar se lembrar. — Qual é o seu nome, criança?
Dei uma risada curta por ser chamada de criança na minha idade.
— Isabella. Atualmente.
— Já nos encontramos. — Era uma afirmação, não uma pergunta.
Concordei, amassando folhas com as botas.
— Há muito tempo. Você disse que, se eu quisesse fazer algo mais, para vir até West Lowing.
— Olhei casualmente ao longe e vi nuvens vindo do Sudoeste.
— Isabella — repetiu ela.
Olhou para meu cabelo preto desgrenhado, para as lentes que faziam meus olhos ficarem do jeito que meu passaporte americano me descrevia. Tentei me lembrar qual era minha aparência quando nos conhecemos, mas não consegui.
— Irina — falei, lembrando-a. Um de uma longa linhagem de nomes. Não aquele que me foi dado ao nascer. — Meu nome era Irina naquela época. Nos conhecemos na França, depois de um acidente de carro. Por volta do fim dos anos 1920. Lembra?
— Ah, sim — disse ela depois de um tempo, relembrando. — Foi uma noite ruim. Mas foi bom ter conhecido você. E estou feliz por você estar aqui.
— Bem — falei constrangida, olhando para qualquer lugar menos para o rosto dela. — Sei que faz muito tempo, mas pensei, sabe...
— Estou feliz por você estar aqui, Iri- Isabella — repetiu ela. — Você é bem-vinda. Trouxe alguma bagagem?
Fiz que sim, pensando na minha mala enorme. E, é claro, em toda a minha bagagem emocional.
— Ótimo. Vou levar você até seu quarto, e então poderá se instalar.
Eu tenho um quarto?
— Aqui é algum tipo de hotel? — perguntei, seguindo-a pela porta até um saguão. Em cima de uma mesa redonda havia um vaso cheio de galhos secos de bordo. Uma escadaria bela e curva levava ao segundo andar. Tudo era branco, simples e elegante. Era estranho, mas assim que cruzei a soleira da porta, me senti... com menos medo? Menos, sei lá... vulnerável? Talvez estivesse imaginando.
— Costumava ser uma casa de orações Quaker — explicou Sulpicia, subindo. Eu podia sentir que havia outras pessoas na casa, mas o clima era de calma e paz. — No século XIX, por volta de vinte Amigos moravam aqui, cuidando da fazenda. Sou dona da casa, usando a sob vários pretextos, desde 1904.
Os vários pretextos significavam que ela, como todos nós, tinha assumido diferentes identidades para explicar sua contínua existência. Começou como uma pessoa, depois fingiu morrer, depois apareceu de novo como a filha afastada daquela pessoa que herdou a casa, e assim por diante. Acho que teve um episódio de Jornada nas Estrelas que falava sobre isso.
— O que a casa é agora?
Sulpicia me levou por um corredor largo, depois virou à direita, o que levou a outro corredor comprido com janelas de um lado e portas espaçadas a distâncias regulares do outro. Ela deu um leve sorriso que a fez parecer mais jovem.
— É um lar para imortais rebeldes, é claro.
— O que os moradores da cidade pensam que é? — perguntei.
— Uma pequena fazenda orgânica familiar, para onde as pessoas vêm para aprender técnicas de cultivo orgânico. O que também é verdade. — Ela parou ao lado de uma porta que ficava bem em frente a uma janela. A luz âmbar do sol de outono caía sobre a porta, e Sulpicia a abriu.
Olhei para dentro.
— Tipo, cultivo orgânico para monges?
Sulpicia riu.
O quarto era pequeno, simples e praticamente vazio exceto por uma cama estreita, um pequeno armário, uma escrivaninha de madeira e uma cadeira. Na última vez que dormi fora do meu apartamento de Londres, fiquei no George V em Paris. Antes disso, no St. Regis em Nova York. Tenho a tendência a procurar o conforto extremo e exagerado.
— Não, não para monges — disse Sulpicia, entrando no quarto. — Só para pessoas, imortais, que querem se concentrar em outras coisas nesse ponto da vida. Mas você pode colocar seus pertences no quarto, para torná-lo mais aconchegante.
Pensei na decoração típica da minha casa, com roupas espalhadas, garrafas vazias, cinzeiros transbordando, livros, revistas e caixas de pizza e pensei: Talvez não.
— Então há mais de nós aqui? — perguntei, me sentando na cama para experimentá-la. O colchão não era muito macio.
— No momento temos quatro professores e oito alunos — disse Sulpicia. Ela fechou a porta e se encostou nela, o rosto sério. — Você pode passar uma semana e decidir se quer ficar, Isabella. Espero que fique. Acho que vai aproveitar a experiência e conseguirá encontrar a felicidade aqui se estiver aberta para isso. Mas só para ser clara, aqui não é um SPA nem um hotel. É uma combinação de kibutz e reabilitação. Há trabalho a ser feito, e todos nós fazemos. Há coisas difíceis e dolorosas que você vai ter que aprender. Ao longo dos anos chegamos a sistemas que funcionam para nós, e não estamos interessados em alguém que chegue aqui e insista que nossas regras não se aplicam a ele.
— Aham. — Talvez eu ficasse por alguns dias, pensasse no Plano B e fosse embora.
Sulpicia sorriu e pareceu genuinamente calorosa e receptiva, e desejei ser uma pessoa melhor por ela. Mas isso já parecia impossível.
— Se não der certo para você, ninguém vai te forçar a ficar. Ninguém vai tentar te convencer a salvar sua vida. Se você ainda não é adulta depois de... quanto? Duzentos anos?
— Quatrocentos — falei. — Quatrocentos e Quarenta e nove.
A surpresa brilhou nos olhos dela e tive a sensação desconfortável de que fora meu comportamento e não minha aparência que tinha feito que ela pensasse que eu era mais jovem.
— Certo, 449. Se você não é adulta depois disso tudo, não temos interesse em arrastar você para cá. Vamos ajudá-la o quanto pudermos, como pudermos, desde que você faça sua parte. Se você só quiser boa vida, esse lugar não é para você.
— Aham — falei.
Sulpicia riu, e depois veio até mim para me abraçar, se inclinando em minha direção na cama. Ela era quente, firme e reconfortante. Não consegui me lembrar da última vez que um abraço fez com que eu me sentisse assim. Correspondi meio sem jeito, dando tapinhas leves com uma das mãos.
— Não quero assustar você — disse ela. — Quero que fique. Mas não quero que comece com bobagem imatura aqui. Entende?
Fiz que sim.
— Aham.
Nenhuma palavra genial me surgiu no cérebro. Agora, mais do que nunca, eu não tinha ideia do que estava fazendo lá. Talvez tivesse reagido com exagero a tudo. Tinha cometido um erro risível. Pelo menos, eu tinha certeza de que riria um dia. Daqui a décadas. A época em que tentei fugir, ha ha ha. Quero dizer, talvez eu não fosse tão ruim, afinal. Então me lembrei do motorista, do rosto dele iluminado pela luz da rua e de como simplesmente eu fui embora, e alguma coisa dentro de mim se apertou.
— Quantos anos você tem? — perguntei, sem querer perguntar.
Ela fez uma pausa na porta.
— Bem, sou mais velha do que você — disse ela com melancolia, afastando alguns fios de cabelo do rosto.
— Mais velha quanto? — Não sei por que eu me importava. Talvez não quisesse alguém mais jovem que eu agindo como se tivesse tudo sob controle.
Os olhos dela se encontraram com os meus.
— Nasci em 718 em Gênova, no reino da Itália. — Ela sorriu. — Não mudou tanto assim.
— Ah — acenei com a cabeça, e ela sorriu uma última vez e saiu, fechando a porta. Fiquei feliz de não ter verbalizado minha primeira reação, que tinha sido: "Porra, você é velha."
Deitei na cama, incrivelmente cansada. Eu não tinha nada a ver com aquele lugar. Aquele lugar irradiava calma, paz, padrões de vida e mudança e uniformidade, tudo ao mesmo tempo. Eu era uma estrela ninja em pleno rodopio, voando pelo mundo. Era a personificação de problemas. Um desespero gelado pareceu dominar meu peito — esse tinha sido um plano tão comicamente ridículo, e ainda assim era a única coisa em que eu conseguia pensar. Meu Deus, eu estava tão ferrada.
Meu quarto estava quente. Havia um pequeno aquecedor de metal perto de uma parede, e estava funcionando. Tirei minha jaqueta de couro surrada e as botas pesadas de motoqueiro, e me senti livre, leve e muito confortável. Eu estava usando um pulôver aveludado masculino, e o apertei em volta do pescoço, agindo por reflexo para garantir que meu pescoço estivesse coberto e confortável.
Meus olhos estavam se fechando de sono quando ouvi uma batida na porta.
— Está aberta — falei, desejando serviço de quarto. Já tinha reparado que nenhuma das portas tinha tranca. Que curioso.
A porta se abriu e lá estava o deus viking parado. Olhei para o rosto dele por entre cílios semifechados, procurando, mais uma vez perturbada por um leve reconhecimento que fugiu assim que tentei identificá-lo. Em uma das mãos ele trazia minha mala, que pesava facilmente mais do que eu. Ele a colocou no chão do quarto.
— Aqui está.
— Eu ia pegá-la daqui a pouco.
Sentei-me, meio constrangida, sabendo como estava minha aparência. Houve ocasiões na minha vida em que fui verdadeiramente bela. Tenho feições simétricas, olhos bonitos, boca carnuda, maçãs proeminentes, e assim por diante. Nas ocasiões em que cuido bem de mim mesma, sei que posso ficar linda. Mas eu não cuidava bem de mim mesma havia uns quarenta anos. Por aí. Agora eu estava profunda e dolorosamente ciente de que estava magrela como uma viciada, com cabelo de ninho de rato pintado de um preto falso e espalhafatoso. Eu provavelmente parecia que fora embalsamada ou que tinha acabado de me recuperar de cólera. Minhas roupas eram o que eu conseguisse encontrar que não tivesse comida grudada.
Em resumo, eu não podia ter uma aparência pior.
O Deus Viking Encarnado era tão impressionante, com pele dourada e brilhante, cabelo curto louro-escuro perfeitamente modelado e olhos dourados da cor de um xerez que provei uma vez na Geórgia (mais uma vez o país, não o Estado). Ele era alto, mas não demais, forte e musculoso, mas sem parecer que estava querendo compensar outra coisa, com feições masculinas nem grosseiras demais e nem delicadas demais. O nariz dele tinha um pequeno calombo e era um pouco torto, como se tivesse sido quebrado uma vez, e é claro que isso completava a perfeição dele, na visão wabi sabi japonesa de perfeição, a beleza das coisas não convencionais. Onde eu tinha visto o rosto dele antes? Mas não importava, ele me deixava sem fôlego.
Ele parecia não se incomodar com o trabalho de me ajudar, o que, infelizmente, só aumentava seu charme.
— Qual é o seu nome? — perguntei, tentando parecer imperturbável.
— Ed.
Edmund? Edwin? Edgar?
— Sou Isabella.
— Eu sei.
Ele era antipático, nada receptivo. Tentei imaginar por que estava lá. Será que todo mundo era uma causa perdida, como eu? Será que alguém mais estava se escondendo? Eu queria saber a história desse cara. Com sorte, seria pior do que a minha.
— Certo, obrigada — falei rapidamente, irritada pela atitude dele.
— Sulpicia me pediu para te avisar que o jantar é às 19h.
Ele deu um passo para trás e fechou minha porta quase silenciosamente. Eu queria perguntar onde se jantava, mas achei que ele provavelmente diria que eu seguisse meu olfato.
Deitei na cama de novo, completamente desperta. Meu coração se apertou quando aceitei que aquilo não daria certo. Se eu precisava de mais alguma prova, o que não era o caso, esse tal de Ed a tinha fornecido. Aquelas pessoas provavelmente viviam fazendo bons trabalhos e tornando a vida eterna delas mais útil. Eu só estava tentando escapar da escuridão que caía sobre tudo o que eu tocava. Estava tentando me esconder — de Jake, de mim mesma, do meu passado, do meu presente e até mesmo do meu futuro.
Jake. Tremi de novo e esfreguei meus braços sobre as mangas macias. Naquele momento ele já estaria se perguntando onde eu estava. Nós raramente passávamos um dia sem nos ver, sem nos falarmos. Estaria ele preocupado? O que todo mundo estaria pensando? Será que tentariam me encontrar?
Eu não podia voltar. Disso eu tinha certeza. E não podia ficar ali. Certo. Algumas refeições, algumas noites de sono, e eu daria no pé. Não havia muito de mim para salvar, de qualquer modo.
