CAPÍTULO 5

Finalmente o jantar acabou. Eu estava prestes a correr para o "meu" quarto para me encolher em posição fetal na cama e sentir pena de mim mesma, mas uma das alunas perguntou se eu ia me juntar à caminhada noturna.

Minha expressão deve ter revelado minha falta de entusiasmo, porque ela riu enquanto vestia um colete e enrolava um cachecol de lã em torno do pescoço.

— Saímos para caminhar quase toda noite depois do jantar — disse Sulpicia com aquele tom de voz lindamente modulado. Ela colocou uma boina vermelha sobre o cabelo prateado e sorriu para mim. — Faz parte da atividade de prestar atenção ao mundo... observamos as estrelas, a Lua, a sombra das árvores.

— Tem pássaros diferentes à noite — disse um dos alunos, o italiano atraente. Afton? — Aprendemos sobre seu canto e hábitos distintos.

Concordei com veemência, pensando: você deve estar brincando.

— Nessa época do ano, quase todas as árvores já perderam as folhas — disse Tanya; ela estava linda e pronta para o passeio usando um trench coat da Burberry. — Você vai aprender os padrões: qual delas perde as folhas primeiro e se isso acontece rápido ou devagar.

Só se for por cima do meu cadáver, pensei. Sim, até os imortais usam essa expressão. Tem um quê a mais para nós.

— Quando a Lua está cheia, lá fora fica tão iluminado como se fosse dia — disse Volturi. Seus olhos castanhos pareciam me observar atentamente, como se ele estivesse tentando descobrir por que afinal eu estava ali. — Hoje a Lua está crescente, e isso tem sua beleza própria.

Aceito a palavra dele sobre isso.

— Você quer pegar um casaco e vir conosco? — perguntou Sulpicia. Os olhos dela brilhavam de expectativa. Ela estava se divertindo com a situação. Será que era um teste? Se fosse, eu ficaria feliz em ser reprovada.

— Não, obrigada — falei com polidez.

— Ah, que bom — disse Sulpicia, parecendo aliviada. — Quem ficar em casa vai ajudar na limpeza. A cozinha fica bem ali — apontou.

Olhei para ela.

Ela estava praticamente rindo quando saíram pela porta larga pintada de verde.

Placar? Sulpicia 1, Bella 0.

Dada a minha idade avançada, é mais do que natural que eu tenha parado de tentar agradar as pessoas há uns 440 anos. Eu não teria problema algum em simplesmente ir para o andar de cima, me deitar em posição fetal na cama conforme planejado e deixar o que tivesse que acontecer, acontecer.

Mas...

Parecia mesmo que Sulpicia tinha marcado um ponto contra mim. Aposto que ela tinha certeza de que eu não iria fazer a caminhada noturna com eles. Ela sabia que eu pularia fora e que deveres de cozinha me aguardariam quando eu fizesse isso. Que irritante. Agora Sulpicia estava, sem dúvida, esperando que eu simplesmente fosse para o andar de cima e deitasse em posição fetal na cama — como se ela me conhecesse profundamente. Era muito irritante.

Trinquei os dentes e andei até a cozinha. Estou aqui porque quero, falei para mim mesma. Estou aqui porque não consigo suportar mais estar em outro lugar. Estou aqui porque não consigo diferenciar o certo do errado, o claro do escuro. Estou aqui porque não consigo suportar ser eu. Estou aqui porque não quero que ninguém saiba onde estou.

A cozinha era grande e mal iluminada. Devia ter sido muito eficiente por volta de 1935. Não havia uma lavadora de louças industrial fazendo jorrar água na louça suja a cada dois minutos, nem bancadas de granito ou portas de vidro nos armários. Havia prateleiras altas de madeira cheias da louça pesada e branca que usamos no jantar. Vidros de massa, arroz, grãos, feijões e cereais estavam alinhados em outra prateleira. Grandes janelas mostravam a escuridão lá fora e refletiam a luz inadequada do teto.

E a melhor parte? Meu amigo Ed, parado na pia de pedra-sabão, olhando para mim. Ele literalmente suspirou e olhou para o teto, depois ergueu um prato ensaboado.

— Você enxágua — disse ele, apontado para a outra pia cheia de água limpa.

Para provar que a maturidade não necessariamente acompanha a idade, bati continência e marchei até a pia.

— Sim, Herr Kommandant! — Joguei a ponta do cachecol por cima do ombro, arregacei as mangas, enfiei o prato na água limpa e depois o coloquei no escorredor.

Ele me passou outro. Enxaguar, sacudir, empilhar.

Eu estava fazendo o melhor possível para parecer indiferente, superior a ele e para ignorar completamente sua existência. Como se ele fosse uma máquina alta e proibitiva a me entregar pratos ensaboados. A verdade humilhante da situação era que esse cara era deslumbrante, e eu estava quase hiperventilando só por estar perto dele, algo nada característico da minha personalidade.

Não tem exatamente um tipo de cara que eu ache atraente — eles não precisam ser altos, nem baixos, nem musculosos, nem magros, nem grandes; as cores do cabelo e da pele não importam. Não me interesso por homens com muita frequência. Para mim, ficar com alguém é algo conveniente, para matar o tempo, como o Paul do armazém, como coçar por coçar e não porque realmente está coçando. Na última vez que me apaixonei, ele acabou morrendo na Índia quando os ingleses finalmente conseguiram anexar o território Maratha. Acho que foi em 1818. Foi nessa época que o governo inglês começou a governar um país enorme não falante de língua inglesa e foi a última vez que me permiti me apaixonar por humanos. Eu não tinha me apaixonado verdadeiramente desde então, nem por imortais. Se apaixonar por um imortal tinha uma terrível aura de permanência com a qual eu não conseguia lidar. Pense em terminar o relacionamento com alguém e depois correr o risco de vê-lo, talvez feliz com outra pessoa, por centenas de anos. Não, obrigada.

Mas ficar ali ao lado de Edward, sentir o calor do corpo dele, sentir o cheiro das roupas recém lavadas, ele parecia... único, e aparentemente capaz de lidar com qualquer coisa, sabe? Uma parte de mim queria passar os braços ao redor da cintura dele e apoiar a bochecha contra o seu peito, bem acima do coração. Meu rosto ficou vermelho com o pensamento. Mas não consegui frear a sensação de que independentemente do que pudesse acontecer naquele momento — um meteoro, crise no governo, estouro de boiada —, Edward tomaria a frente e lidaria com tudo, e protegeria... a pessoa com quem ele estivesse. Com toda a reserva dele, até antipatia, ele ainda dava a sensação de... segurança. Como se fosse sempre fazer a escolha certa, fazer a coisa certa, mesmo se não quisesse.

Ele parecia ser o oposto de Jake, cujas habilidades se restringiam a conseguir o que queria, encantar as pessoas, se desviar das regras, leis e costumes sociais.

Edward, sobre quem eu não sabia absolutamente nada, dava uma impressão de solidez, de força e resolução, e me dei conta de que não conhecia mais ninguém assim. Não na minha vida.

É claro que ele também dava a impressão de ser esnobe, arrogante e cheio de desdém, então acho que é verdade o que dizem: ninguém é perfeito! Apenas sacuda e enxágue, falei para mim mesma. Encare a verdade, ele é um idiota irresistível que não liga se é gostoso ou não, e que não liga se você é gostosa ou não, e que tem interesse zero em ir atrás de você porque a cabeça dele está em coisas mais sublimes e mais importantes.

Odeio caras assim. Houve um padre lindo em Malta nos anos 1930 — mas essa é outra história.

Agora minhas bochechas estavam quentes e tive que desacelerar a respiração. Enxaguar, sacudir e empilhar. Quando tinha formado uma pilha de bom tamanho, o Sr. Personalidade me passou um pano de prato limpo. Comecei a secar, fazendo outra pilha. Estava ansiosa de novo, sentindo um nervosismo agitado que não era familiar e nem bem-vindo. Meu grupo estava acostumado comigo; me aceitavam como sou, sem comentários ou perguntas. No meio do meu grupo, eu ficava ótima. Aqui, eu era tão diferente; estava me dando conta de que tinha me afastado tanto das normas da sociedade comum que eu parecia quase uma aberração perto dessas pessoas. Era estranho e desequilibrado, e aumentava meu desejo de fugir. E é claro que meu nervosismo aumentava meu quociente de insolência.

— Acho que isso é o tipo de atividade zen e tal... — falei, meu tom insinuando que eu queria ser zen tanto quanto queria pegar peste bubônica.

Ed olhou para mim por um segundo, mas não respondeu.

Tenho mais de 1,60m de altura, e era considerada muito alta na minha época. Era uma amazona em comparação com as outras mulheres, até mesmo na Islândia, com nossa população forte de saqueadores nórdicos. Há apenas uns cem anos, eu tinha uma boa altura para uma mulher em praticamente qualquer país menos na Holanda, onde elas são absurdamente altas. Agora, considerando uma melhor alimentação e melhores cuidados pré-natais, todo mundo está ficando mais alto do que eu, e nem tenho mais uma altura média. É tão incrivelmente injusto, porque é claro que parei de crescer. Há muito tempo.

Então era enfurecedor que Ed fosse tão alto. Era enfurecedor que ele fosse alto, dourado e a pessoa mais bonita que já vi, tanto entre homens quanto mulheres, e que a presença dele devesse sequer me incomodar, ainda mais de forma tão intensa, inesperada e indesejada.

— Aqui.

Pisquei no meio do meu desvario interno e vi Edward segurando um prato na minha frente, como aparentemente já estava fazendo havia algum tempo sem que eu percebesse.

Peguei o prato e o sacudi, desejando ser uma condessa e ele um cocheiro camponês, e que eu pudesse fazer o que quisesse com ele sem grandes consequências. Ah, os bons e velhos tempos.

Não que eu já tivesse sido condessa.

— O tempo amanhã deve ficar frio e aberto — falou Edward, me assustando. Agora que prestei atenção, havia um leve arrastar nas consoantes que entregavam uma herança holandesa. É claro que isso era extremamente atraente. Mais um defeito dele.

— Obrigada pela informação — falei. Sequei outro prato, coloquei-o na pilha e depois carreguei todos eles até uma prateleira de madeira onde o restante dos amigos pratos estavam esperando.

— Então você não vai ter problema com a estrada quando for embora — prosseguiu ele, e houve um estalo na minha cabeça. Ah. — Está claro que aqui não é seu lugar — disse ele com solidez teutônica, me passando outro prato. — Sei que você chegou à mesma conclusão. Está óbvio que você está horrorizada com a nossa vida aqui. — Ele deu de ombros. — Ela não é para qualquer um. Na verdade, a maioria das pessoas não conseguiria tolerar. Não significa que você seja... fraca nem nada. — Ele me passou outro prato com um pouco mais de força enquanto eu fervia por dentro.

— Deixe-me adivinhar — falei, enxaguando o prato. — Você está usando psicologia inversa em mim, tentando me irritar e fazer com que eu me sinta desconfortável para que então eu queira ficar e provar que você está errado. Certo?

— Ah, não. — Os olhos dourados, um pouco puxados nos cantos de uma forma enfeitiçante, se deslocaram em minha direção. — Não, não estou mesmo — disse ele com uma segurança insultante. — Acho mesmo que você deveria ir embora. Temos uma boa vida com nossas aulas e trabalho, e não precisamos que nenhum tornado idiota passe por aqui destruindo tudo.

Meu maxilar travou e o fato de que ele estava certo até os mínimos detalhes só me deixou mais irritada.

— Todo mundo vai entender. — Ele me passou o último prato e enfiou as mãos na água limpa. — Sulpicia vai entender. Você não é a primeira alma perdida que aparece por aqui em busca de uma solução rápida e barata. Sulpicia coleciona gente assim como cachorros de rua. — Ele enrolou as mangas da camisa e deixou à mostra braços fortes cobertos de pelos louro-escuros. — Nova York, Roma ou Paris seriam lugares melhores para você. As luzes fortes da cidade grande. — Ele deu um sorriso breve e mordaz. — Não a floresta de Massachusetts, com nada a fazer exceto trabalhar e respirar e prestar atenção às estrelas da noite, à Lua crescente e ao modo como as folhas caem das árvores. Simplesmente esqueça que existimos.

Ele olhou para mim seriamente, como se estivesse literalmente desejando que eu esquecesse que eles existiam. Como se estivesse usando magick. Talvez essas pessoas usassem magick todo o tempo. Havia uma pequena planta em um vaso no parapeito acima da pia, e lancei um olhar para ver se ela estava murchando, desmoronando e morrendo enquanto ele tirava força dela. Mas a planta continuou empinada e verde e, quando olhei para Ed, ele ergueu as sobrancelhas ligeiramente.

Era um sinal de amadurecimento meu que eu não tivesse jogado um prato pesado na cabeça dele para arrancar aquele sorriso arrogante do seu rosto.

Eu estava furiosa, e era estranho, porque normalmente não consigo sentir mais do que aborrecimento ou tédio. Eu já tinha desistido há muito tempo de emoções mais radicais por gastarem muita energia. Mas Ed tinha perfurado minha carapaça com sua beleza e desdém desvelado, e por dentro eu estava gritando histericamente. Pelo menos, eu esperava que fosse só por dentro.

Respirei fundo, procurando o comentário mais certeiro para deixá-lo diminuído e derrotado naquela cozinha estúpida. E...

— Você... você nem é tão bonito — soltei por fim. Os olhos dele se arregalaram de leve. Ele provavelmente estava esperando uma resposta mais bem-elaborada. — Seu nariz é muito pontudo. — Eu me senti humilhada ao ver meu peito dar um salto quando inspirei. — Seus lábios são finos demais, você é alto demais e seu cabelo é mais castanho do que dourado. Seus olhos são pequenos demais e vesgos!

Agora ele estava me olhando como se nunca tivesse visto alguém ter um surto psicótico antes e estivesse achando fascinante.

Arremessei o pano de prato, humilhada por estar fazendo algo tão... clichê.

— Além do mais — sibilei —, você é um babaca!

Dei meia-volta e corri pela pesada porta de vaivém de madeira, seguindo para a sala de jantar. Se eu fosse Scarlett O'Hara, ele correria atrás de mim, me tomaria nos braços másculos e me levaria no colo lá para cima para me fazer mulher. Em vez disso, a porta atrás de mim permaneceu fechada, eu ainda parecia uma completa idiota e ouvi risadas e passos das pessoas felizes e bem-ajustadas que se aproximavam da porta da frente.

Subi a escada, dois degraus de cada vez, entrei em pânico por não conseguir achar meu quarto imediatamente e depois me lancei pela porta, fechando-a para me apoiar ali, ofegante, como fazem nos filmes.

É por isso que me esforço tanto para entorpecer qualquer emoção.

Porque dói.