CAP VIII – Desventuras
(SAKURA)
Acordar com enjôos matinais está me deixando com raiva da vida. Hoje é o ultimo dia que o Uchiha tem para comprovar tudo o que eu lhe disse e então poderei dar fim a tudo isso. A minha amizade com a privada do banheiro já está passando dos limites do que pode ser considerado íntimo. Fora a fome que toma conta do meu ser. Se antes eu já comia por dois, agora é como se eu tivesse um time de futebol para alimentar. E não vamos esquecer a preguiça. Essa já se tornou uma das vértebras da minha coluna. E isso porque estou com um mês. Fico pensando nas mulheres quando chegam aos meses finais. Eu nem levantaria da cama.
Nem sei como sai de casa para trabalhar hoje. Há aqueles dias em que sua cama está especialmente confortável e quente. Tão atraente quanto uma pizza de frango catupiry abarrotada de Ketchup acompanhada de um copo de refrigerante tão gelado que o gelo deixa frescor na boca como se fosse uma bala de hortelã. Meu corpo implorava para que eu o deixasse aos cuidados da "mãe cama", no entanto minha mente lembrava-se que sou uma adulta com contas a pagar. Uma delas é o teto que cobre minha cabeça e todas as minhas coisas incluindo a cama.
A manhã já não começou bem com o mal-estar e eu tendo que levantar para ajudar outra pessoa a ganhar dinheiro enquanto o meu sai voando por ai com cada pequena bala que eu compro.
Não, esse é o lado ruim da coisa. Tente ver a parte boa Sakura. Você está ajudando outra pessoa a ganhar dinheiro, para que este veja que você é alguem valioso e que ajuda o saldo na conta bancária subir e quem sabe assim ele te contrate de vez e você deixe de ser apenas uma estagiária que vomita nos sócios e passe a ter uma conta bancária tão gorda quanto o dono da lanchonete que há do lado do prédio onde fica a empresa?
A questão é: como você fará isso se é uma estagiária com funções de secretária?
- Tenho que ter uma conversa com Gaara sobre isso. – falo baixo para que apenas eu escute; o que não funciona muito já que a senhora ao meu lado no ponto de onibus tem um olhar confuso. – Vai dizer que não conversa consigo mesma quando está sozinha? – sua sobrancelha esquerda ergue-se com a pergunta dirigida a ela.
- Mas a mocinha não está sozinha. Imagine se tem outras pessoas aqui. Pensariam que é louca. Deixe seus pensamentos para si porque ninguem precisa saber o que se passa em sua cabeça de vento. – meus olhos parecem querer fugir do meu rosto com o tanto que se abrem.
Mas que caralho!
Ela está achando que só porque é mais velha pode dizer o que quiser e sair insultando as pessoas por ai?
- Me desculpe, é que a Senhora parece estar com o pé na cova, então pensei que já poderia considerá-la como aqueles fantasmas que não passam para o outro lado e a alma fica vagando por ai. Então, seria como se eu estivesse sozinha. – seu rosto fica pálido com a surpresa por eu tê-la respondido. Te peguei velhota!
- Não deveria falar assim com os mais velhos. Onde está o respeito? Um dia você chegará a minha idade, ai eu quero ver quando encontrar com um jovem abusado igual a você. – seus lábios finos fecham-se em uma carranca que a faz parecer como se não tivesse dentes.
Não consigo evitar a gargalhada que escapa por minha garganta. – Se eu chegar à sua idade serei uma velha muito legal se quer saber. Vou sair zoando tudo por ai, caso o contrário me transformarei em uma múmia. – seco as lágrimas causadas pela risada. – E se por acaso visse alguem conversando consigo mesmo elogiaria, pois ninguem nos entende melhor do que nós mesmos.
- Se está precisando de alguem que te aconselhe vá procurar a ajuda de um profissional. Falar sozinho é sinal de que você precisa de apoio. Principalmente quando está em um local publico, onde a qualquer momento alguem pode ouvi-la. – a velha insiste em me dar lição de moral.
- Mas que caralho! – coloco as mãos na cintura e viro o corpo todo em direção a mulher – Olha só meu amor, quem está precisando de ajuda aqui é você, pois está se preocupando com a vida de alguem que nem conhece só porque a pessoa está tendo um momento com ela mesma. Vá você procurar algo para fazer e deixar de ser essa morta viva fofoqueira.
A sorte da senhora era que meu ônibus estava próximo e eu tinha que ir para o trabalho pois estava atrasada. Se eu tivesse pego os dois ônibus que passaram antes teria evitado dois problemas. O primeiro: ter me atrasado e o segundo: ter discutido com uma velha no meio da rua. É o que dá por deixar o ônibus passar apenas por estar abarrotado de gente e sem espaço para você ir sentada enquanto ouve musica e faz seu clipe particular.
Achei que tinha experimentado um pouco da boa sorte quando subi no ônibus e percebi que havia espaço para sentar, no entanto senti a mesma voando janela a fora quando vi que a senhora do ponto entraria junto comigo. E as coisas foram piorando quando o cara que sentava ao meu lado soltava bomba de cinco em cinco minutos que cheirava a bacalhau com quiabo e cebola. Se já não é legal para uma pessoa em situação normal, imagine para uma grávida que se enjoa com o próprio perfume.
Nos vinte minutos que fiquei dentro do veículo o motorista parava em cada ponto fazendo-o ficar mais cheio. Com o fim da minha viagem se aproximando decidi me levantar e aguardar próxima às portas a minha vez de descer. Percebi que foi uma péssima ideia quando meu estomago começou a revirar e eu ter que forçar de volta o líquido quente que subia por minha garganta a cada chacoalhada ou curva feita.
Quando achei que estava salva de todo aquele turbilhão e que poderia começar um dia de trabalho tranqüilo, o azar batia novamente em minha porta. Ao descer os degraus da escada tropecei em meus próprios pés, tentando em vão segurar-me no corrimão da porta, minha bunda teve um encontro nada encantador com o chão. Levantei-me esfregando o bumbum que latejava com a dor que fora provocada. Quando olhei de volta para o ônibus percebi pela janela que a velhota de antes parecia se divertir com a minha situação.
- Vai se ferrar! – grito mostrando meu dedo do meio em sua direção. – Volta para o sarcógafo que é de onde você não deveria ter saído sua múmia dos infernos! Cuidado para no caminho os ossos não soltarem do corpo e você não assustar os outros por ai.
As pessoas mais velhas não deveriam ser mais legais? Quero dizer, elas já passaram por tantas coisas na vida, não? Sofreram, foram felizes, conheceram vários tipos de pessoas. Deveriam ser sábias e nos guiar quando tivéssemos duvidas sobre que caminho seguir. Ao invés de rir quando caímos de bunda no chão na frente de ônibus abarrotado de gente.
Se eu achei ruim o fato do ônibus estar lotado imaginem com que cara fiquei quando virei em direção à entrada do prédio onde trabalho e encontrei com ninguem menos que meu chefe No Sabaku acompanhado de um cara que eu não dispensaria se desse em cima de mim. Tem os cabelos vermelhos assim como meu superior, porem os seus são um pouco mais claros, seus olhos são castanhos e sem o delineado natural que Gaara possui.
- Bom dia, Haruno. Você sabe que está atrasada, certo? – seu olho esquerdo está tremendo. Esse é um tique que ele tem quando fica nervoso. A questão é: ele está nervoso comigo? Porque se a resposta for sim, isso não é nada bom. Quero dizer, nunca é bom quando seu chefe está bravo com você, certo?
- Sinto muito. Não acontecerá novamente. – meu olhar abaixa em direção ao chão. Se levar bronca já é um saco, quem dirá na frente de um gato que eu ainda nem fui apresentada. Sem contar as pessoas em volta que além de assistirem minha queda de primeira mão, verão de camarote o sermão que vou ganhar.
Que vida injusta! Nesse pouco tempo de estagio nunca cheguei atrasada ou faltei e no primeiro deslize vou ser repreendida na frente de um monte de gente que nem conheço. Dar-me um premio por tudo de bom que fiz até agora ele não quer.
- Vamos lá, primo! Você disse que ela é uma boa funcionaria. E não é como se tudo tivesse desandado por causa de um pequeno atraso. – uma voz desconhecida defende-me e eu não consigo evitar de levantar o olhar. Percebo que a defesa veio do homem que está junto ao meu chefe. – E aqui não é o melhor lugar para você falar algo. – ele olha em volta para que meu chefe perceba que há gente demais por perto.
Ouço um suspiro sair através de Gaara antes que ele possa responder. – Tudo bem. Aqui não é o local. Sakura Haruno, esse é meu primo Sasori Akasuna. Sasori, essa é Sakura Haruno, minha estagiária.
Com um sorriso que deixou todos os seus dentes perfeitos amostra, o homem estende sua mão para que eu possa cumprimentá-lo. Quando o faço percebo o quanto ela é macia e por um segundo penso seriamente em perguntar qual creme ele usa. As vezes acho que estou na profissão errada, pois minhas mãos parecem mais como as de um auxiliar de pedreiro que carrega sacos e mais sacos de cimento.
- É um prazer, Senhorita Haruno. – com delicadeza deposita um beijo em minha mão. Parece que ainda existem homens cavalheiros.
- Digo o mesmo. – retribuo o sorriso, sentindo minhas bochechas esquentarem.
- Ok, apresentações feitas. Sakura, agora que está aqui, eu tenho coisas a resolver com Sasori e gostaria que você buscasse alguma coisa para comermos. – agradeço internamento por Gaara interromper nosso momento de encarada.
- É claro! Pode ser na lanchonete aqui do lado mesmo? – direciono minha atenção para o ruivo de olhos verdes.
- Pode sim, assim será mais rápido. Você sabe do que eu gosto. E você Sasori, algo em especial? – só me faltava essa, virar garçonete.
- Não, para mim qualquer coisa está bom. Não é obrigação dela essa tarefa. – pelo menos o bonitão admite isso.
- Eu sei disso. – Gaara ralhou com o outro. – Sakura, não pense que estou te diminuindo é só que qualquer coisa que puder fazer por mim hoje será de grande auxilio.
Vendo-o com o olhar de quem realmente precisa de ajuda lembrei-me de que hoje sua agenda está lotada e que tem muita coisa para resolver. Agora entendi o porquê de ele estar tão nervoso com meu atraso.
- Tudo bem. Pode deixar comigo, chefinho. – dou-lhe meu melhor sorriso e sigo em direção à lanchonete.
Eu não sei por que, mas ainda me surpreendo pelo local está abarrotado de gente. Será que ninguem toma café em casa hoje em dia? Nem sempre o mais rápido é o melhor meu povo. É impressão minha ou está tudo do contra hoje? Quis vir aqui justamente por ser mais perto e não ter risco de demorar mais do que o necessário e olha só o com o que me deparo.
A fila para fazer os pedidos está quase chegando à porta e a de entrega é quase tão grande quanto. Sinto que minha cabeça vai explodir a qualquer momento. E olha que estamos apenas começando o dia.
Depois de quase vinte minutos esperando finalmente chega a minha vez, no entanto, antes que possa falar com o atendente sinto o meu corpo ser empurrado por uma mulher que aparenta ter 150 quilos, pelo menos. Não que eu seja alguma expert ou uma balança, mas está óbvio que ela ingeriu bastante lanches.
- Você passou na minha frente, magrela. Volte para o seu lugar e espere a sua vez. Eu vou querer dois x-... – interrompo seu pedido antes que possa começá-lo.
- Olha só o barril de gordura, magrela é a senhora sua avó. Eu estou em pé nessa fila ha exatos vinte minutos, e se acha que pode chegar agora e furar fila na minha vez nunca esteve tão enganada na sua vida. – passo para o seu lado e tento empurrá-la para longe do balcão.
- Eu já disse que é a minha vez. – sinto seu pé por cima do meu e uma dor latente toma conta do meu dedão do pé esquerdo.
- Puta que te pariu! Caralho! – xingo do fundo da alma enquanto pulo em um pé tentando fazer massagem no outro. A gorda pisou no meu pé de boneca! – Vai se fuder! Que dor da porra!
- Você não tem vergonha de passar na frente das pessoas? – seu tom de repreensão faz com que meu sangue ferva.
- Que? Eu não to passando na frente de ninguem! Você que deveria ter vergonha na cara. Olha o seu tamanho, filhona! Está parecendo uma das baleias figurantes do filme Free Willy. Está tentando roubar o papel principal né, espertona? – coloco a mão na boca para impedir que uma risada passe por ela. – Aqui não tem preferencial não. E você com certeza não estaria nela por estar grávida. Há não ser que agora seja possível parir de volta todos os salgados, refrigerantes e hambúrgueres que você engoliu.
- Ora sua! – vejo a mulher vir em minha direção, mas um homem com crachá de gerente fica entre nós a impedindo de se aproximar.
- Desculpe, mas eu vi que a Senhora chegou há pouco tempo então, por favor, ou entre na fila ou se retire. Não queremos confusão. – o cara diz para a prima da Peppa. A mulher suspira, mas desiste de discutir e segue para fora da lanchonete. – Sinto muito senhora. Pode fazer seu pedido e eu mesmo cuidarei para que ele seja servido o mais rápido possível.
- Obrigada! – sorrio em agradecimento e aliviada de que não terei que ficar na fila esperando o pedido.
Depois de tudo ficar pronto segui o mais depressa possível para o trabalho. É claro que tive que ficar esperando o elevador porque hoje está tudo cooperando para que tudo dê errado e não seria diferente agora né?
- Achei que tivesse ido aqui do lado – Gaara diz assim que atravesso por sua porta.
- Desculpe, estava lotado e eu tive um pequeno empecilho. – é melhor deixar de fora a parte em que discuti com uma integrante do Fat Family.
Por que não pensei nesses apelidos no calor da briga? Que droga!
- Então o que trouxe de bom para mim? – Sasori pergunta enquanto tiro as coisas da sacola.
- Para você eu trouxe... – minha frase é interrompida quando tropeço nos pés do visitante derramando todo o conteúdo do copo de cappuccino em sua roupa.
- Sakura! – ouço o grito de Gaara do outro lado da mesa.
Agora fudeu! Vou ser demitida.
