CAP X – Ameaças

(SAKURA)

Estou começando a ouvir mal ou esse cara realmente disse que iria mandar prender-me?

Não é todo dia que você tem um cara que mal conhece na sua casa, que por acaso é o pai do filho inesperado que voce espera – sintam a ironia - dizendo que vai mandar prendê-la.

- Você está de brincadeira comigo? – minha voz sai esganiçada quando trinco os dentes com força. Afinal, que tipo de reação eu deveria ter se não a raiva? Se ele continuar a me causar tanto nervoso não precisarei nem de um açougueiro pra fazer um aborto.

- Na verdade, eu estou falando muito sério. – sua pose impassiva continua. – Eu não sei se é do seu conhecimento, mas há condições especificas para que possa fazer um aborto nesse país. E acredite, você não tem o que é necessário. – o sorriso de lado que surge no canto de seus lábios deixa óbvio que ele pensa que ganhou essa discussão.

- Meu querido, ao que parece você ainda não percebeu, mas vou te explicar com calma e bem lentamente. – me aproximo dele em passos lentos enquanto digo o que parece ter lhe fugido da vista. – O corpo é meu e eu sou a única que toma decisões sobre ele. E sou eu também quem decide se essa gravidez continua ou não.

Seu perfume invade minhas narinas e percebo que talvez tenha me aproximado demais. Não é como se sentir o calor do corpo dele de perto me fizesse pensar na noite que tivemos. Ou que talvez ver sua boca tão próxima, de repente me faça ter vontade de prová-la novamente e relembrar seu gosto. Ou que seu cabelo pareça tão suave que meus dedos cocem para tocá-los. Sem falar em seus olhos frios e inexpressivos que me prendem em uma imensa escuridão puxando-me cada vez mais para perto.

- Acontece "querida", que nesse caso você não tem poder algum. – a inexpressividade que há pouco estava em suas íris agora é substituída por uma pequena chama de satisfação e desafio – Ao que parece você não conhece muito sobre a lei, então vou ser uma boa pessoa e te explicar exatamente qual é a situação.

Ouço uma lufada de ar sair da minha mãe e é quando, pela primeira vez depois que essa reunião começou que paro para pensar que talvez minha mãe, dona Mebuki, saiba de mais coisas do que deixou transparecer.

- Mãe, você sabe do que ele está falando? – olho-a, mas a mesma desvia o olhar. Ao que parece estou sozinha nessa decisão.

Nem mesmo Ino e muito menos Hinata me apóiam. Será que é tão difícil assim aceitar o que eu decidi para o meu futuro? Mas que droga! É a porra da minha vida. É fácil você criticar alguem por isso quando não é sua vida que vai virar de cabeça para baixo. Mesmo que digam que irão me ajudar, não será delas que essa criança será dependente.

- Apenas escute o que ele dirá Sakura. Quem sabe assim você não coloque um pouco de juízo nessa cabeça? - ela só pode estar de brincadeira.

- Vocês conversaram antes de vir até aqui não é? Como você encontrou minha mãe? Por que a meteu nessa conversa? – minha raiva apenas ferve cada vez mais quando penso que ele colocou-a em toda essa história que não dizia respeito a mais ninguem.

- Eu sempre descubro o que quero Haruno. Você deveria saber. – um suspiro resignado escapa por seus deliciosos lábios – Sua mãe é uma peça importante nessa história. Uma das condições para que você possa, pela lei abortar, é ter a permissão de alguém da familia e bem, sua familia se resume a seus pais e você. Eu precisava ter certeza que eles não compactuariam com essa decisão estúpida.

Quando eu penso que a situação não poderia piorar o destino só me mostra o quão errada estou. Essa palhaçada de condições para retirar o bebê é serio?! O que aconteceu com os direitos de livre expressão e fazer o que quiser com o meu corpo? Meu corpo, minhas regras certo?

- Isso só pode ser sacanagem. – levo minhas mãos até o rosto esfregando-o para ter certeza de que quando abrir os olhos isso tudo não passará de um pesadelo e eu acordarei para mais um dia de estágio e estudo com Ino me enchendo o saco de manhã. Mas isso não acontece e a figura de Sasuke continua parada de frente a mim praticamente no meio da minha sala. – Quais são as outras condições? – decido perguntar apenas para ter certeza do que ele está falando e poder pensar em alguma solução.

- Em resumo: ou você consegue a autorização de um parente ou é pobre o suficiente até para não se sustentar ou uma louca que represente perigo para si e/ou a criança. E só para você saber, é necessário um laudo médico dizendo que tem problemas psicológicos. Apenas parecer doida não é o suficiente. – um sorriso cínico cruzasua face e eu tenho plena certeza de que ele me chamou de maluca.

Meu corpo está cada vez mais exausto e vejo a hora de cair dura no chão pelo cansaço e estresse. Não seria uma má ideia. A conversa acabaria e Sasuke e minha mãe iriam embora e me deixariam em paz pelo menos por hoje.

Talvez eu finja um desmaio.

- Filha, você vê? Tirar uma criança não é tão fácil quanto pensou. Envolve muitas coisas. Você está tão desesperada minha menina, que não parou para pensar direito em tudo isso. Ser mãe é algo bonito e maravilhoso. Até os momentos difíceis servem como aprendizagem. – tudo de novo não mãe, por favor.

Eu não agüento mais esses dois buzinando na minha cabeça. Ainda que eles estejam em silencio, suas vozes vagam pela minha mente e é como se houvesse um burburinho nos meus ouvidos que eu não consigo me livrar.

- Você não tem no que pensar Sakura Haruno. Mesmo que tire essa criança farei questão de mantê-la atrás das grades tempo o suficiente para que seus planos, sejam lá quais forem não se cumpram. Já que esse é seu maior obstáculo para ter o meu filho. – sua voz soa tão serena que suas palavras quase não parecem uma ameaça. Quase.

Quando se é alguem acostumado a ter controle de tudo em sua vida, e você vê esse mesmo controle fugindo por entre os seus dedos apenas pela intrusão de um desconhecido e esse ser tem o apoio da pessoa que deveria estar ao seu lado independente de qualquer merda que você tenha feito, a vontade de acabar com o invasor passa a ser tão sufocante que você começa a pensar em meios de extravasar a raiva de uma forma que não acabe tendo que fugir da policia.

Levo meu tempo jogada no sofá pensando em maneiras de me livrar do Uchiha sem que tenha que matá-lo ou se tiver que fazer que não seja descoberta. Inspiro e expiro mais vezes do que sou capaz de contar e quer saber não está funcionando. A cada momento de olhos fechados me vem as lembranças de tudo que passei nesses poucos dias que conheço esse homem. O sexo – maravilhoso – a vergonha no meio de um saguão cheio de estranhos, uma gravidez, enjôos, brigas e ameaças.

- Chega! Para fora os dois! – impulsiono meu corpo para fora do móvel e empurro o corpo grande e sarado do moreno aos gritos até a porta. – Fora! Fora!

- Não aja como uma criança Haruno. Não pense que vai se livrar de mim fazendo birra. – Sasuke impedi-me que continue empurrando-o para fora do apartamento quando faz força em seus pés e fica diante da porta.

- Filha, você não pode deixar esse assunto de lado apenas porque não quer conversar. Seja um adulto responsável que eu sei que ainda resta em você e resolva esse assunto de vez. – minha mãe tem o tom de voz que sempre usa quando dá uma bronca e não adianta eu debater, pois ela não mudará de ideia. Acontece que dessa vez ela não pode decidir por mim.

Minha cabeça já não agüenta mais a pressão de dona Mebuki, a todo momento mostrando-se a mãe responsável que é e tentando fazer-me acreditar que um dia eu poderei ser tão boa quanto ela. Acontece que eu não quero. E ainda tem esse homão da porra na minha porta me ameaçando e me dizendo para manter essa gravidez, que por dentro eu sei que ele quer tanto quanto eu.

Cheguei a um momento de estresse em que suas vozes para mim soam apenas como papagaios que aprenderam a falar apenas uma frase e não tem capacidade mental de perceber o quão irritante isso é.

- Não vai sair? – cruzei os braços abaixo dos seios e encarei o moreno.

- Não. – curto e grosso. Acontece que dessa vez isso não vai funcionar. Ele quer manter-se o homem de poucos palavras que só abre essa maldita e gostosa boca para falar besteiras e fazer ameaças? Pois bem, mostrarei ao senhor "todo poderoso" aqui que eu sou do tipo que faz e não aquelas que ameaçam.

Volto para a sala e pego o abajur que fica do lado direito do pequeno sofá em que há pouco estava jogada. Puxo o objeto com força para que desligue seu fio da tomada e encaro o moreno – com cara de confuso – que está barrando a passagem da minha porta.

- Você não vai... – tarde demais para completar a frase. O abajur preferido de Ino por pouco não acerta o brutamonte se eu não tivesse errado a mira e jogado na parede ao lado da porta. – Você está louca? – nem mesmo o grito que o moreno dá me impede de pegar o vaso de flores que ficava em cima da mesinha de centro para jogar novamente nele.

- Eu não estou. Eu sou e vocês estão me deixando mais louca ainda. – dessa vez é a almofada que acerta em cheio seu rosto de paspalhão assassino. Pois bem, ele teve sorte que não tem muitas coisas de vidro por perto ou eu lhe cortaria esse rostinho bonito. – SAIAM! EU NÃO VOU DIZER DE NOVO! "ASSUMA A RESPONSABILIDADE, SAKURA!" "TENHA MEU FILHO OU EU MANDAREI TE PRENDER!" VÃO SE FERRAR! TODO MUNDO PARA O INFERNO.

Acho que agora ficou claro para eles que eu realmente surtei. Vejo minha mãe abrir e fechar a boca por pelo menos três vezes, mas nenhum som sai. Ela nunca tinha me visto ter uma crise tão séria assim. Afinal, eu nunca atingi nível de estresse tão alto perto dos meus pais. Até porque nunca tive por quê. Meus pais sempre me trouxeram a sensação de paz e calmaria. Quando estou com eles é como se estivesse na praia, com o clima na temperatura ideal, o vento fresco em meu rosto enquanto estou sentada na areia admirando o mar.

Nesse momento com minha mãe e Sasuke, sinto-me um furacão que passa devastando e levando para os ares tudo o que encontra no caminho. Destroçando toda uma vida e tudo o que as pessoas lutaram para conquistar.

- Sasuke querido, é melhor irmos embora e deixar que Sakura se acalme sozinha. – minha mãe tem que parar com essa mania de ser simpática com todos. Segurando o moreno pelo braço, ela o guiando para fora enquanto os olhos dele passam dela para mim analisando-me.

- Tem certeza? – ouço-o perguntando e a vejo afirmando com a cabeça.

Tento fazer com que minha respiração volte ao normal e meu coração pare de bater tão rápido. Sinto como se ele fosse sair pela boca e minha cabeça fosse explodir. Manter o controle sobre minhas emoções nesse momento não parece mais tão fácil. Tornou-se quase impossível.

Quero que eles saiam do meu pé. Que esqueçam toda essa história de bebê. Quero que minha mãe volte para casa e fique lá com meu pai. E que Sasuke volte a fingir que nunca nos conhecemos. Desejo poder voltar no tempo e nunca ter deixado meus cadernos para ir àquela boate com Ino e Hinata.

Se esse escarcéu todo é por causa dessa gravidez, só há um jeito de dar fim aos meus problemas. Se não tenho a ajuda do Uchiha com isso e nem dinheiro para pagar uma clínica que possa fazer o trabalho, então faço eu mesma a tarefa.

Com rapidez, antes que meu momento de surto passe e eu desista da ideia que me abateu, pego a minha bolsa no sofá e saio pela porta em direção a farmácia que há na rua onde moro. A mesma com a atendente "gente boa" que me atendeu quando dei início ao meu tormento. Espero que não seja ela quem esteja lá, porque hoje o bicho vai pegar.