[Sasuke]

Ser expulso da casa da rosada com certeza não estava nos meus planos. Talvez a mãe da mesma não tenha sido de tanta ajuda quanto pensei que seria. A garota deve ter uma pedra no lugar do coração. Nem mesmo o discurso encorajador da mãe foi capaz de fazê-la mudar de ideia, pelo contrário. Parece ter feito a mulher perceber que não leva jeito mesmo para a coisa materna. E talvez realmente não leve. Enquanto alguns dizem que tenho um iceberg no lugar do coração e que esse bombeia gelo pelas minhas veias, pelo menos não estou tentando me desfazer de um filho. Não que eu esteja dizendo que já amo a criança.

Não fui criado em um ambiente com muita demonstração de amor e carinho por parte do meu pai. Fuguku sempre foi um homem concentrado em dinheiro e sucesso. O crescimento do banco sempre foi seu maior objetivo de vida. Ele nunca se mostrou capaz de demonstrar grande afeto por sua famíiia, exceto por minha mãe, a única pessoa que conheço capaz de dobrar o velho, na maioria das vezes pelo menos. Mesmo que não fosse um homem muito presente na criação dos filhos, Fuguku Uchiha nos ensinou, nos poucos momentos em que esteve junto à familia, que um homem de verdade assume as consequencias de seus atos.

- Eu realmente não sei o que está acontecendo com a minha filhinha – a voz de Mebuki chama a minha atenção. Tinha esquecido que a mulher ainda estava ao meu lado. - Ela não foi criada assim. A criamos com todo amor que uma familia poderia ter. Acho que até exageramos as vezes. - a voz da mulher fazia-se mais dificil de ouvir a cada palavra deferida. - Não sei o que fazer para fazê-la mudar de ideia. - Um soluço escapa por seus lábios. Não! Por favor, não chore! - Ensinamos ela a assumir a responsabilidade por seus atos. Que o caminho mais fácil nem sempre é o correto. - seus soluços se tornam desesperados e acho que a qualquer momento a mulher irá parar de respirar.

- Não se preocupe. Eu não irei deixar sua filha ir longe com essa ideia. Como eu disse, ela não pode fazer o que está planejando. - digo enquanto destravo a porta do carro.

- Oh, Kami! - sou surpreendido pelo grito da mulher - Você vai mesmo mandar prender minha filhinha! Não pode mandar prender a mãe do seu filho. Que tipo de homem faria isso? Oh, Kami! - pessoas que passavam pela rua param para assistir aos gritos e soluços de Mebuki.

- Agora essa! - suspiro passando as mãos pelo rosto, o que provavelmente me deixou vermelho. - Por favor, pare de chorar! Eu já expliquei toda a situação para a senhora. Só irei mandar prender sua filha se ela insistir em tirar o meu filho. O que ela não pode fazer se não tiver sua autorização e eu tenho certeza que você não a considerá. Não é mesmo? - tento acalmá-la lembrando-a das condições. - E não acho que sua filha vá se arriscar. Ela é uma garota inteligente. - Que maneira melhor de acalmar uma mãe sobre um filho do que elogiando-o? Embora eu realmente acredite que Sakura não vai querer correr o risco de ser presa.

- Você tem razão, minha filha é esperta o suficiente para não fazer uma besteira dessa. - a mulher passa seus dedos finos pelos cabelos arrumando os fios arrepiados enquanto solta um longo suspiro. Seus olhos verdes encaram os meus ônix, pelo o que me parece longos minutos. Pode ter sido apenas por uns segundos. E novamente vejo finas lágrimas escaparem de seus olhos deixando rastros por onde passavam – Mas e se ela surtar e fizer alguma besteira? Quando ela se sente muito pressionada age como uma adolescente rebelde e acaba fazendo alguma merda. Oh, Kami! A minha filha vai ser presa pelo pai do meu neto! - seus gritos voltam a tomar conta do ambiente e a mulher a minha frente desaba em chorar cada vez mais.

Começo a andar de um lado a outro da calçada onde meu carro está estacionado em frente ao pequeno prédio do apartamento da rosada. Que diga-se de passagem não é um local adequado para criar uma criança. Principalmente quando essa é uma Uchiha. Essa história de filho está tirando cada vez mais a minha sanidade. Sinto que a qualquer momento posso sequestrar Sakura e mantê-la por perto até que a criança nasça e eu não tenha que ter mais contato com a garota. Para uma pessoa que ao que parece foi criada em um ambiente cheio de demonstrações de carinho e amor, a garota não aprendeu a assumir suas responsabilidades.

Talvez mantê-la por perto enquanto a gravidez avança não seja uma ideia ruim, assim poderei manter os dois olhos na Haruno e ter certeza de que a mesma não tentará fazer nada idiota. Mas também não tenho certeza de que posso tê-la tanto tempo por perto sem tentar matá-la ou levá-la para a minha cama.

- Ok! Acho que já tivemos emoções o suficiente para um dia. - digo parando em frente a mulher que tenta manter controle de suas lágrimas - Vou lavá-la para um hotel para que possa descansar e voltar a ter controle de suas emoções. - Seguro seus ombros de maneira firme para que a mesma possa olhar em meus olhos. - Mebuki, você é a minha maior aliada nessa história. Apenas com a sua ajuda poderei resolver essa situação. Preciso saber que você estará ao meu lado.

A loira leva seu tempo para responder enquanto mantem seu olhar no meu. A cada segundo que aguardo, minha ansiedade se aflora. Não é possivel que ela ainda esteja pensando em dar razão à desnaturada da filha. Impossivel eu ter me enganado em relação a essa pessoa. Assim que entrei em contato com ela para falar sobre a gravidez e o fato de a Haruno mais nova estar pensando em fazer um aborto, a mulher a minha frente mostrou-se ser de fibra e caráter e que não admitiria que a filha seguisse adiante.

- Não posso te garantir que estarei cem por cento ao seu lado, menino Sasuke. Afinal, você ainda está pensando em mandar prender a minha menina. - suas mãos seguram cada lada do meu rosto e os seus dedos polegares acariciam as minhas bochechas. - Mas eu sei que você é um bom menino e que só está tentando salvar o seu filho. Ou filha – uma pequena risada lhe escapa e um pequeno sorriso mostra-se em seus lábios. - Enquanto não fizer mal a minha filha, você terá o meu apoio.

Sua resposta não é bem o que eu queria ouvir, mas é o suficiente por agora. O fato de não a ter totalmente contra mim é o suficiente para me deixar mais tranquilo de que ela não irá atrapalhar meus movimentos em relação a Sakura. Eu só tenho que tomar cuidado com o que falo na frente da senhora de cabelos loiros.

Dou-lhe um sorriso sem mostrar os dentes e a encaminho até o lado do passageiro do meu carro. Durante o caminho até o hotel palavras não são ditas. Os únicos sons a ser ouvidos são os da cidade em movimento do lado de fora do carro e a respiração pesada de Mebuki, que ainda tenta controlar suas lágrimas, que agora são menos do que quando estávamos conversando no estacionamento. Deixo-a no hotel, desejando-lhe uma boa noite de sono, se for possível.

Não sou a pessoa mais sensível do mundo, mas também tenho uma mãe e se tive alguma demonstração de afeto na minha vida, foi graças a ela que buscava ocupar o vazio que meu pai deixava durante suas viagens à trabalho e suas noites trabalhadas até depois do horário. Eu seria um verdadeiro monstro se não me compadecesse com o semblante triste e decepcionado que Mebuki está. Sinto pela mulher que nesse momento deve estar pensando o que fez de errado na criação da filha desnaturada. Mas ela precisa saber que não fez nada de errado. Que a filha agora é uma adulta, que embora tenha sido muito bem-educada, está agindo como uma pirralha birrenta.

Sigo com o carro em direção ao escritório. Se tem algo que consegue me acalmar depois de um dia de merda, é o meu trabalho. A maioria das pessoas saem com os amigos para beber e se divertir quando estão estressadas ou algo não está indo bem na vida delas. Mas isso não funciona bem para mim. Para começar eu odeio barulho. Segundo, só de imaginar a ressaca que terei no dia seguinte à uma bebedeira me desanimo a ter qualquer pensamento sobre bebida alcóolica. E terceiro, trabalhar me obriga a manter meus pensamentos concentrados e sobre controle.

O som do telefone que fica na mesa da minha assistente tocando desperta o meu foco dos papéis a minha frente e espero o mesmo parar de tocar para que eu possa voltar a me concentrar em lê-los. O aparelho para, mas volta a tocar quase que instantaneamente. Na terceira vez, transfiro a ligação para o telefone da minha mesa e decido atender apenas para despachar a pessoa.

- Sasuke Uchiha, o horário de funcionamento da sociedade vai até as seis, entre em contato amanhã a partir das nove. Tenha uma boa noite. - digo tentando ser o mais educado possivel. Afinal, nãos se pode dispensar um cliente independentemente do quão ruim o seu dia está sendo.

- Uchiha, aqui é Ino Yamanaka. Precisa vir para o Hospital Senju agora. - não reconheço a voz histérica da mulher do outro lado da linha.

- Desculpe Senhora, mas não lembro de nenhuma mulher com este nome. E não acho que eu teria o que fazer em um hospital. Agora, se me der licença... - sou interrompido antes que possa encerrar a ligação.

- Dou licença uma ova! - a mulher grita do outro lado – Sakura está internada aqui. Acho que está perdendo o bebê. Você é parte da responsabilidade. Agora levante esse traseiro branquelo dessa cadeira e venha até aqui. AGORA! - a voz da mulher some e tudo o que ouço é o som do fim da ligação. Minha mente sabe que eu tenho que levantar e ir o mais rápido possivel para o hospital, mas meu corpo não se move. A única coisa que consigo fazer, é pensar que nesse momento, eu posso não mais ser pai.