[Sasuke]

A última vez que lembro de ter dirigido tão rápido pela cidade, foi quando meu irmão ligou dizendo que minha mãe tinha sofrido um acidente e que estava sangrando e que era para eu ir para casa porquê a mesma não queria ir para o hospital. Quando cheguei na casa do meus pais o acidente não passava de um copo de vidro que havia quebrado e quando minha mãe foi recolher os cacos acabou cortando a mão. Itachi tem uma tendência a ser dramático na maioria das vezes. Quando torci o tornozelo quando jogávamos futebol no colégio o drama foi igual. Ele chegou a criticar a diretora pela enfermaria da instituição não ter "equipamentos adequados" para a minha situação. Como eu disse, dramático.

O som das buzinas do lado de fora não é o suficiente para me fazer diminuir a velocidade do automóvel. Nem mesmo uma viatura de polícia mandando eu parar conseguiria me fazer desistir de chegar até o hospital no menor tempo possível. As ruas parecem mais longas do que são na verdade e o carro, embora esteja na maior velocidade que pode alcançar, parece não estar rápido o suficiente. O fato de não saber o que realmente aconteceu não ajuda em nada a acalmar os meus nervos. Ao tempo em que acho que Sakura pode ter levado a frente a sua ideia de abortar, também sinto a culpa pela possibilidade de um possível aborto ter sido causado por nossa discursão de mais cedo.

Quando chego ao hospital, saio do carro deixando-o de qualquer maneira sobre a calçada e atravesso as portas do hospital à procura de qualquer pessoa que possa me ajudar. Pergunto para todos que passam por mim se sabem onde Sakura Haruno poderia estar, mas todos dizem não conhecer essa pessoa e que eu deveria me acalmar e ir até a recepção. O problema é que eu não sei onde ela fica. Pelos poucos detalhes que consigo reparar do local, o hospital parecer ser grande e o atendimento ser de qualidade e rápido, uma vez que vejo poucas pessoas onde estou e escuto nomes sendo chamados sem muito tempo de intervalo entre um e outro.

De repente sinto uma pequena mão tocando-me o ombro esquerdo. Uma mulher menor que eu, de longos cabelos loiros e olhos azuis, encara-me com cara de poucos amigos.

- Sasuke Uchiha, venha comigo. - diz enquanto vira as costas e segue em direção a um elevador. Reconheço a voz da ligação que recebi no escritório.

- Você deve ser Ino Yamanaka, certo? - pergunto enquanto vejo os andares passando e o elevador parar no quinto andar. É claro que é ela. Reconheci antes pela voz, mas recordo-me agora que no dossiê que Kakashi me entregou sobre Sakura, diz que ambas dividem o apartamento.

Por um momento acho que Ino não irá me responder, pois mantem-se em silencio quando saímos da lata de alumínio e caminhamos por um corredor, provavelmente em direção ao quarto onde Sakura está.

- Devo ser – responde, em fim, quando entramos no quarto onde encontro a Haruno desacordada sobre uma cama e com intravenosa em seu braço direito. Sua pele está pálida e sua respiração não passa de um suspiro. Por um momento, o pequeno medo de não a ver acordar me atinge.

- Como ela está? - pergunto a mulher, que caminha até ficar ao lado esquerdo de Sakura e segura sua mão. Pela preocupação que posso perceber no olhar da loira e as lágrimas que começam a descer por seu rosto, elas parecem ser bastante próximas.

- Você não está vendo? - seu tom de voz deixar de ser baixo e indiferente como tem sido desde que nos encontramos. - Desculpe – solta um suspiro enquanto olha para sua amiga, que não esboça qualquer movimento. - O médico disse que ela irá ficar bem, mas que tem que tomar mais cuidado daqui pra frente e que mais algum estresse a gravidez pode passar a ser de risco. - seus olhos encontram os meus.

A culpa por ter sido a nossa briga a causar isso me atinge novamente. Seria tudo mais fácil se ela simplesmente aceitasse manter a gravidez até o final. Isso é tudo o que ela tem que fazer. Se o problema dela é ter uma responsabilidade com essa criança para o resto da vida e que ela a atrapalhe a conseguir atingir os seus objetivos, bem daremos um jeito. Tenho certeza que dona Mikoto não teria problema em ajudar seu filho mais novo a criar o neto que ela tanto quer. Embora tenho certeza que ela não queria que fosse nessas circunstancias.

- Hum - tento manter minha inexpressão, o que não é difícil para alguém que é acostumado a manter para si suas reações. - O que aconteceu? Como você a encontrou? - pergunto ainda tentando entender tudo o que está acontecendo.

Ino leva seu tempo acariciando os cabelos da amiga. Me pergunto se a garota é a favor das decisões da Haruno. A Yamanaka parece ser do tipo de amiga que está sempre ao lado de Sakura. Aquela que a acompanha até mesmo a esquina. A que te faz sopa quando você está acamado precisando que alguém cuide de você. Eu só preciso saber se ela é do tipo que passa a mão na cabeça e acata tudo que a outra quer. Não seria nada mal ter mais uma aliada ao meu lado. Mesmo que ela pareça que vai me atacar na primeira chance que tiver.

- Eu acordei com ela me chamando. - de repente Ino decide responder a pergunta que eu já havia desistido de ter uma resposta. - Quando cheguei no quarto dela, ela estava toda enrolada e segurando a barriga. Estava chorando de dor. Desenrolei o edredom que a cobria para que pudesse trazer ela ao hospital e foi quando eu vi o sangramento. Ai eu entendi que talvez ela estivesse sofrendo um aborto. Sai com ela o mais rápido possível. - suas lágrimas agora descem sem a sua permissão e Ino tenta manter seus soluços baixos, provavelmente para não acordar a amiga.

Imagino o quão terrível tenha sido para ambas passar por essa situação. Agradeço por Ino estar em casa na hora que tudo aconteceu. Não quero nem pensar em como seria se a Sakura estivesse sozinha. Sem ninguém para ajudá-la e sem saber se alguém atenderia o telefone caso ela tentasse ligar. O que mais faz pensar em como a loira conseguiu o telefone da empresa.

- Como conseguiu o telefone da minha empresa? - pergunto me aproximando da mulher que seca as lágrimas com as costas das mãos tentando mantê-las sobre controle.

- Pesquisei no Google. Na verdade, já tínhamos a página salva no histórico do computador. Eu só tinha que torcer para ter alguém lá que pudesse entrar em contato com você. Não esperei falar diretamente com o "Senhor Todo Poderoso". - ouço a pitada de deboche dela, mas prefiro deixar passar. Talvez ela não seja tão passiva quanto imaginei. E não seria bom arrumar uma briga em um quarto de hospital.

Essa é a primeira vez desde que conheci Sakura que a vejo calada. Obviamente que o fato de ela estar desacordada conta para isso. Ainda assim não deixa de ser estranho. O pouco que pude ver dessa mulher é que ela sempre tem o que dizer, é escandalosa e cabeça dura. Uma mulher forte e de fibra. E tê-la deitada nessa cama de hospital com um aparelho bipando a cada batida do seu coração faz-me pensar que independente de tudo isso ela ainda é alguém que deve ser cuidada e protegida. E não há ninguém nesse mundo que preze mais por essa mulher do que seus pais. Vai ser difícil, principalmente depois da tarde que tivemos, mas tenho que ligar para Mebuki e pedi-la que venha até o hospital.

Dou uma última olhada na mulher na cama e percebo que Sakura está começando a acordar. Ser a primeira pessoa a quem ela irá ver quando abrir os olhos talvez não seja uma boa ideia, principalmente do jeito que nosso relacionamento – se podemos chamá-lo assim - está. Peço licença a Yamanaka e me retiro do quarto para ligar para a mãe da Sakura. Como eu sabia, não foi fácil dizer à mulher que a sua unica filha estava internada em um hospital por sofrer um princípio de aborto. Se dependesse da mulher eu teria contato tudo pelo telefone, mas lhe garanti apenas que Sakura e o bebê estão bem e que ela deveria se acalmar e vir fazer companhia a filha que precisaria dela quando acordasse.

Esperei Mebuke nas portas do hospital e levei um pequeno susto quando a mulher simplesmente me abraçou. Ela agia como se nos conhecessemos há séculos e fossemos íntimos. Não repeli o contato como normalmente faria, pois, as únicas pessoas que conseguiam tamanho contato comigo eram minha mãe, Naruto – que me abraçava a força - e Itachi. Naquele momento reconheci que dar conforto a alguém que estava precisando de um pouco de atenção não mudaria em nada para mim, mas poderia ser de grande diferença para aquela pessoa.

Durante o caminho de volta para o quarto contei-lhe tudo o que Ino me disse. E que suspeitava que poderia ter sido nosso desentendimento com a rosada que poderia ter causado todo esse transtorno. A mulher voltou a debulhar-se em lágrimas e a assumir a culpa por não ter sido mais compreensiva com a filha. Não lhe respondi, pois creio que só causaria discórdia entre nós dois e a última coisa da qual preciso agora é dela contra mim e a favor da filha.

Quando chegamos à porta do quarto ouvia-se vozes em uma conversa acalorada dentro do mesmo, quando ouvi a voz de Ino perguntando o que realmente tinha acontecido, impedi que Mebuki que estava com a mão na maçaneta, abrisse a porta e esperei pela resposta de Sakura.

- Minha mãe esteve lá em casa com o Uchiha. Foi horrivel Ino, ela falou um monte de coisas sobre ser mãe e Sasuke me ameaçou. Disse que iria mandar me prender se eu seguisse em frente com a ideia do aborto. - de repente o quarto fica em silencio e me vejo ansioso pela continuação da conversa. Não sou do tipo que fica ouvindo conversa alheia, mas esse é um assunto que muito me interessa. Olho para o lado e vejo Mebuki tão ou mais concentrada que eu. - Eu pirei Ino. Simplesmente cheguei ao meu limite sobre esse assunto. É tanta pressão vinda de tantos lados. - um choro é ouvido e sei que vem de Sakura. Seus gritos, tenho certeza, podem ser ouvidos pelo paciente dos quartos ao lado. Mebuki faz mensão de entrar no quarto, mas desiste quando a voz de sua filha volta a tomar conta do ambiente. - Eu corri até a fármacia da rua e comprei um chá abortivo. Eu não aguentava mais. Esse era o único jeito de tirar todos do meu pé e me deixarem em paz.

Eu não consigo entender o que acontece comigo, sinto como se meu sangue fervesse dentro do meu corpo. Minha mente parece querer perder toda a consciência. Olho para Mebuki e a vejo tão surpresa quanto eu sibilando a palavra "Kami!". Não espero mais nenhum minuto para entrar no quarto. Sakura fica mais pálida do que já estava e suas orbes parecem querer escapar do seu rosto enquanto seus olhos passeiam entre sua mãe e eu. Parece que alguém não foi avisada que tinha visitas.

- Sua maldita. - grito invadindo o quarto e me aproximando da mesma. - Você é louca? Tentou abortar meu filho? - seguro em ambos os seus ombros a balançando. Seus olhos ficam maiores e vejo medo neles. Ótimo! Ela ainda não viu nada. - Você vai pagar por isso Sakura Haruno.

Por um momento me sinto perto de esquecer que Sakura é uma mulher e que está acamada. Eu simplesmente não consigo esquecer o que ouvi.