(SAKURA)
Na noite em que sai desesperada para dar fim a tudo o que estava acontecendo, não pensei nas consequencias do meu ato. A ideia surgiu e eu a pus em prática.
Enquanto fervia a água e andava de um lado a outro da pequena cozinha, não pensei na dor na barriga que sentiria de madrugada enquanto estivesse enrolada em meu edredom me contorcendo. Não pensei em uma Ino desesperada quando eu chamasse por seu socorro e ela percebesse o sangue manchando a minha roupa. Também não pensei em toda a correria e semáforos vermelhos que atravessaríamos enquanto a minha melhor amiga lutava para chegarmos a tempo no hospital.
Eu não posso dizer que torcia para que conseguisse, porque ela já imaginava o que estava acontecendo e eu sei que não era apenas a mim que ela estava tentando salvar. No entanto, também não posso lhes dizer que torcia internamente para que não conseguisse. Eu não torcia para nada. Não conseguia pensar em nada. Minha mente estava mais vazia do que um dia esteve. Não sentia culpa, nem desespero e muito menos alívio. Que ironico, não? Não é este o sentimento que deveria estar sentindo? O alívio? Enfim estava tudo chegando ao seu fim. Sem minha mãe para tentar convencer-me de algo que não quero. Sem um Uchiha para me ameaçar. Sem Ino lançando-me olhares decepcionados. Nada mais disso.
Não percebi o momento exato em que chegamos ao hospital. Ou quando me tiraram do carro e me colocaram em uma maca levando-me por um corredor branco, com pessoas de branco em todas as direções. Não vi quando Ino deixou de estar ao meu lado. De repente, a única coisa que percebi é que tudo já não estava lá. Eu também não. Tudo ficou escuro.
Quando acordei, minha amiga loira e sempre exuberante, não aparentava mais seu rosto bonito e perfeito sem maquiagem. Suas olheiras estavam evidentes, seu olhar continha preocupação e, ainda assim, um pouco de alívio quando abri meus olhos. Novamente tudo era branco ao meu redor, dessa vez pude perceber o baralho de aparelhos também.
Quando Ino me explica tudo o que aconteceu e como vim parar aqui, me recordo de quase tudo. Estive tão entorpecida dentro de mim mesma que mal sei como consegui chegar aqui. É tudo um vulto em minha memória.
Quando as explicações de Ino encerram é a minha vez de contar a minha melhor amiga o que aconteceu. Ela sabe, eu sei que sim. Mas quer ouvir de mim. Quando as palavras saem da minha boca é difícil de acreditar que fui capaz de fazer o que fiz.
A porta do quarto se abre em um rompante com um Sasuke Uchiha muito furioso passando por ela. Quando menos espero, o homem está ao meu lado segurando-me pelos ombros enquanto me chacoalha. A raiva em seus olhos e mãos tremulas me transmitem um medo que eu nunca senti. É como se ele estivesse pronto para me matar a qualquer momento sem se importar com quem está por perto. Minha mãe chora com soluços desesperados escapando por seus finos lábios. Uma mistura de raiva e decepção em seu olhar me atingem e eu me sinto sem chão. Ao que parece alguem estava ouvindo atrás da porta.
- Você vai pagar por isso Sakura Haruno! - Só agora percebo o que o Uchiha está gritando com o rosto próximo ao meu.
Eu sei que ele está falando sério. Sua postura não nega o que ele quis dizer. Será que deu certo então? Não há mais um bebê?
- Ah, é? E o que vai fazer, Uchiha? - desafio-o quando minha mente volta para o lugar. - Vai mandar prender-me porquê eu não quis o seu filho? Porque o abortei? Pois bem, faça! Uma hora eu sairei e viverei minha vida. - Não posso mostrar a ele que estou com medo de que cumpra a sua ameaça de fazer-me uma prisioneira.
Sua risada estridente chama a atenção de todos no quarto, talvez até dos que estão fora. Seu aperto em meus ombros fica mais forte e eu sei que deixarão marcas.
- Mandar prender você? Não agora, querida. Farei pior. Você irá desejar ter ido para prisão. - sua voz torna-se baixa e ameaçadora. - Você será presa sim, mas a mim. Enquanto essa criança não vier ao mundo, você não sairá de perto de mim, Sakura Haruno. Eu saberei de todos os seus passos. Terei olhos sobre você em todos os momentos.
Eu ainda não entendo por que ele iria querer manter olhos sobre mim. Não há mais nada que nos ligue um ao outro.
A não ser!
"enquanto essa criança não vier ao mundo"?
Será que...
- Do que você está falando? É impossivel. - minha cabeça agita-se em negação tanto quanto meus pensamentos passam por minha mente como se fossem um vulto.
- Você não sabe o prazer que me dar ao ver a sua cara agora. - Sasuke me solta e vai ao lado da minha mãe. - Seu plano não deu certo, Haruno. Você ainda carrega o meu filho e eu não estou te dando a chance de fazer outra besteira dessa.
Não!
Meu corpo não reage e em minha mente passam tantas coisas que eu não consigo me concentrar em apenas uma delas. Tudo foi em vão! Será que isso é a vida me mostrando que não há solução para mim? Que essa criança realmente tem que vir ao mundo?
Não, talvez o chá que eu comprei não fosse forte o suficiente. Ou talvez eu não tenha tomado a quantidade necessária.
- Dona Mebuki e Ino, por favor, deixem-me a sós com a Sakura. - a voz grave de Sasuke me puxa de volta a realidade. O homem parece que irá explodir a qualquer momento. Seus olhos queimam de raiva, mas sua postura firme e fria me mostram que ele com certeza tem algo trabalhando em sua mente.
- Nem ferrando que eu estou deixando minha amiga sozinha com você, Uchiha! - Ino grita apontando um dos dedos para Sasuke, que a fuzila com os olhos.
- Está tudo bem, Ino. Pode ir – dou-lhe um pequeno sorriso confortante mostrando-lhe que tudo ficará bem. Talvez essa seja a conversa que resolverá tudo.
- Tudo bem. Qualquer coisa você grita. Estarei atrás da porta. - minha amiga acaricia minhas mãos antes de sair pela porta. Eu não sei o que faria nessa situação se Ino não estivesse aqui para mim. Mesmo que sejamos muito diferentes e tenhamos opiniões diferentes na maioria das vezes, a loira sempre está ao meu lado. Eu sei que se algo der errado ela vai me ajudar a superar.
- Não pense que se livrou de mim mocinha. Teremos uma conversa séria também. - minha mãe diz antes que feche a porta atrás de si.
O quarto cai em um silencio agonizante. Sasuke não esboça reação alguma. Sinto como se a sua raiva pudesse faze-lo vir para cima de mim a qualquer momento e que eu não teria tempo o suficiente para me proteger.
Minhas mãos começam a suar e tento limpá-las no lençol da cama de hospital, mas parece não estar funcionando. Seus olhos queimam em minha direção e eu não consigo sustentar seu olhar por muito mais tempo. De repente, minhas unhas passam a ser algo interessante a se admirar.
- Devo confessar que não esperava que você realmente fosse levar essa ideia a cabo. - sua voz se mantém baixa e ao invés de isso me acalmar, apenas me deixa mais nervosa. - Talvez por ter conhecido sua mãe e ela ter se mostrado com uma mulher de caráter, pensei que a filha se servisse da mesma índole. Parece que me enganei. E tenho que te dar o crédito por ter conseguido isso. Sou um ótimo observador. - suas palavras de repente fazem meu sangue ferver.
- Está insinuando que não tenho caráter ou índole? Quem você pensa que é? - não consigo impedir que minhas palavras saiam altas - Você não me conhece seu mauricinho de merda! Não sabe quem eu sou. Então não venha me criticar ou julgar por um momento de desespero a qual você tem muito a ver. - minha respiração se acelera o barulho do aparelho ao meu lado parece cada vez mais alto.
- Hum... Você sempre faz isso, não é mesmo? - ele fica em silencio olhando-me como se estivesse a espera de uma resposta, no entanto, eu sei que não. - Sempre pula fora da responsabilidade pelos seus atos. Jogando a culpa nos outros. Procurando a solução mais fácil. No final a idiota aqui acaba sendo você. Não esqueçamos covarde. Você é uma covarde, Sakura Haruno!
Suas palavras chegam onde ele queria e me acertam em cheio. Sinto o seu ódio por mim em cada palavra que sai da sua boca. Seu olhar passa de raiva para desprezo e de volta para raiva em alguns segundos.
- Pra você é fácil dizer isso. Já tem sua vida toda sobre controle e garantida. Tem sua própria sociedade e mesmo que algo aconteça a ela, você tem o suficiente para se manter pelo resto da vida. Mas e eu? Hein!? Em algum momento vocês pensam em mim? Claro que não! Você faz questão de me ver como a menininha mimada pelos pais e desmiolada que não quer ter esse filho. Você nunca para pensar em como isso pode me atingir, Uchiha Sasuke. Você é um egoísta engravatado que só quer mandar e mandar... - minhas mãos tremem e eu tento controlar minha respiração que parece fugir mais de mim fazendo meus pulmões doerem e implorar por ar.
O homem que não se moveu de frente da porta desde que Ino e minha mãe saíram, leva seu tempo observando-me. Cada parte visível do meu corpo passa por sua avaliação. Seu corpo antes imóvel, agora balança para frente e pra trás e suas sobrancelhas franzem como se ele estivesse pensando em algo que requer sua atenção. De repente sua lingua estala em sua boca e ele se aproxima da cama ficando aos meus pés.
- Eu não acho que você seja mimada. Apenas alguém que não assume seus erros e foge. Mas enfim, se todo o seu problema é de como será a sua vida depois que a criança nascer. Entregue-me. Tenha a criança e passe a guarda para mim quando ela vier ao mundo. Assim você pode fazer o que quiser e sumir. - suas palavras soam como se ter um filho e abandoná-lo fosse a coisa mais simples a se fazer.
- Merda, cara! Do que é que você está falando? Abandonar a criança? Você que isso é melhor do que tirá-la? Só pode estar brincando comigo. - digo ainda em choque com a sua proposta.
- Bem você não terá muita escolha de qualquer forma. Quando receber alta pelo médico te levarei para o meu apartamento e você ficará lá até que a criança nasça. E não tente arrumar confusão por isso, Haruno. Eu disse que não estou deixando você fazer essa porra de novo. Estou te dando a chance de fazer a coisa certa. - eu simplesmente não posso acreditar que ele acha que pode vir e mandar assim em mim. Abro a boca para responder-lhe a altura, mas sou interrompida quando ele ergue sua mão direita e começa a falar novamente. - Se não vier comigo por bem, Sakura, destruirei tudo o que os seus pais têm e acabo com a vida deles. Não deixarei lhes sobrar nada.
