(Sakura)
As vezez, quando somos apenas garotinhas, pensamos que nao ha nada mais importante do que os nossos pais. Eles sao o nosso mundo. Nao conseguimos fazer nada sem eles. Se algo der errado, sabemos que eles estarao la para nos nós crescemos, nos tornamos adolescentes e achamos que somos invencíveis. Nada nos atinge e se cairmos somos capazes de nos reeguermos sozinhos. Não precisamos da ajuda de ninguém. Nossos amigos se tornam a base em que nos sustentamos.
Acreditamos que aquelas pessoas de fora serao o suficiente para nos apoiar. Passamos a querer a agradar a todos, exceto aqueles que sempre estiveram conosco. Os que se mantinham acordados ate tarde quando saíamos para a festinha na casa daquele garoto popular do colégio. Ou que ficavam acordados ao nosso lado na cama quando passávamos a madrugada inteira com febre.
Então a maturidade chega. Nos tornamos adultos e percebemos que apenas os amigos não são o suficiente. Passamos a rever tudo que um dia, na adolescência, adotamos como o certo. Quando saímos da casa dos nossos pais e assumimos a tão sonhada independência, percebemos que ser adulto não é a perfeição que imaginávamos quando mais novos.
Quando temos as nossas primeiras decepções da vida adulta, seja por aquele grande amor que não era tão grande, ou pelo primeiro emprego a sermos demitidos. São eles que estão conosco. Nossos pais. Nos mostrando que aquilo é só o começo e que muito mais estar por vir. Então você percebe que faria tudo ao seu alcance para faze-los felizes e compensa-los por tudo que fizeram por você.
O único motivo que me faria aceitar a intimação do Uchiha é que meus pais são o que eu mais amo na vida. São o bem mais precioso que eu poderia ter. Ainda mais do que os meus planos para o futuro. Se fosse qualquer outra pessoa. Outra situação. Eu, com certeza, não cairia de primeira na chantagem do Sasuke. Mas eu sei do que ele é capaz. Estou ciente de quanto poder o homem detém em suas mãos. Apenas o pensamento de bater de frente com ele arriscando a vida dos meus pais e ter tudo indo por água abaixo, me causa arrepios na espinha. Mesmo que eu queira mais pra mim do que meus pais conquistaram para si, não sou capaz de desvalorizar o que eles conseguiram em suas vidas. Eu sei que mesmo que eles pudessem mudar qualquer coisa, não o fariam.
Ter-me sozinha em um quarto de hospital nunca me pareceu tão agradável. Até porquê se Ino ou minha mãe estivesse aqui eu não poderia pensar de forma tranquila nas consequências que eu assumiria se largasse tudo de mão e não me deixasse guiar pelas palavras duras do Uchiha.
Mesmo que tenha me dado tempo para pensar, ele sabe que eu não serei estupida para negar a sua "proposta", se é que pode se chamar assim. Não vou correr o risco de ter os meus pais sofrendo pelas minhas atitudes impensadas. Com toda a aproximação que tem acontecido entre o Uchiha e a dona Mikoto, não passou pela minha mente em momento algum que ele poderia ameaçar meus pais.
Talvez eu tenha abaixado a guarda. Talvez ele esteja tão desesperado por essa criança que vá jogar com todas a armas que estão a sua disposição. A final, não seria por isso que ele é um dos melhores advogados do país?
- Por pouco não conseguiria ouvir os seus pensamentos. - a voz de Hinata tira-me do meu devaneio.
- Amiga, não sabia que estava vindo. - dou-lhe um meio sorriso.
- A Ino me ligou há algumas horas. - um momento de silêncio percorre entre nós antes que ela prossiga - Nunca achei que você fosse levar a frente isso, Sakura. Realmente não achei que fosse ter coragem. - seu olhar decepcionado aperta meu coração em tristeza ao mesmo tempo que uma pequena chama de raiva tenta aquece-lo.
- Não posso dizer que sinto muito, Hina. Mas também não vou falar que estou orgulhosa do que fiz. - suspiro e decido que descontar a minha raiva em cima de uma das minhas melhores amigas não é o certo a fazer. - Eu estava desesperada e sendo precionada a fazer algo que eu não quero. Você sabe como me sinto em relação a fazer as coisas contra a minha vontade.
- Eu meio que entendo o seu desespero. - suas mãos fecham-se em conchas segurando as minhas e mais um vez não consigo impedir que as lágrimas deslizem por meu rosto após suas seguintes palavras. - Mas é uma vida, Sakura. Uma que mesmo sem querer, você concebeu. Eu sei que não quer ser mãe e entendo todos os seus motivos. Eu não te julgo, querida. Saiba que eu estou do seu lado. Mas eu conheço-te bem o suficiente para saber que você não ficaria bem se conseguisse realizar o que tentou fazer. Eu não sei se você se arrependeria, mas acho que nós duas sabemos que isso seria algo que te marcaria para o resto de sua vida.
Ela está certa em tudo o que disse. Eu provavelmente repassaria esse dia em minha mente pelo resto dos meus dias. Não que isso não vá acontecer, pois obviamente uma tentativa de aborto não é algo que você simplesmente apague da sua memória. Mas talvez fosse muito pior se eu realmente tivesse matado o bebê.
- Não precisamos mais nos preocupar com isso. - digo-lhe colocando minha cabeça em seu ombro direito.
Conto-lhe toda a conversa com Sasuke e a decisão que tomei. Mesmo que não concorde com os métodos dele, Hinata me apoia. Peço-lhe para que mantenha segredo, principalmente de Ino, pois sei que se a loira ficar ciente disso, a situação ficará mais complicada. Ela não deixará que o moreno passe ileso por isso. E eu não quero ver minha amiga presa por tentativa de homicídio.
O dia passou mais rápido do que eu precisava e após mais uma longa e difícil conversa com a minha mãe e alguns escândalos de Ino depois de eu lhes dizer que irei morar com Sasuke, a manhã do dia seguinte nasce ao tempo em que o belo homem, vestido com seu terno preto e cabelo bem penteado, cruza a porta do quarto onde estou com toda sua imponência e arrogância enquanto digo-lhe que aceito o acordo.
Ele não estava blefando quando disse que estaria de olho em mim a todo momento. Enquanto arrumava as minhas coisas nas bolsas, no mais simples dos gestos, seus olhos me seguiam. À porta do hospital, enquanto despedia-me das minhas amigas e da minha mãe, nossas lágrimas desciam por nossos rostos, e suas negras orbes não desviavam de mim.
O caminho para o apartamento de Sasuke é rápido e silencioso. Ele não olha em minha direção e não ouço som algum de sua parte. Se não visse seu peito movimentando-se, talvez duvidasse que o homem ainda respira. Nenhuma palavra é dita a mim para o começo de uma conversa e eu não faço questão de desfazer o momento de falsa paz que tenho. Não sei quando virá o próximo.
Descemos do carro pouco depois de estaciona-lo na garagem do prédio e pegamos o elevador até o último andar. Parece que alguém mora na cobertura, não é mesmo?
Mantenho a minha cabeça baixa pelo percurso. Poucas vezes na vida eu senti vergonha em estar perto de alguém. Não é igual aqueles casos em que a garota é tão apaixonada pelo mocinho que mal consegue olha-lo nos olhos. Ou que têm as suas mãos trêmulas e suadas apenas por estar na presença do seu grande amor. Não é vergonha por tudo o que aconteceu também. Eu só sei que seu olhar está cravado em mim. Mesmo que eu não esteja o olhando. Sei que ele está observando qualquer movimento meu. Até mesmo o arfar da minha respiração. Não estou acostumada a ter tanta atenção, pelo menos não quando sóbria, e isso deixa-me apreensiva.
Não me sinto capaz de ergue-la e encara-lo. Não agora. Não quando não é preciso. Ouço o som do elevador quando chegamos em seu andar e as portas se abrem. Aguardo ate que ele saia primeiro que eu e sigo seus passos até uma grande porta. Quando a utrapassamos, vejo que seu apartamento não é nada do que eu imaginava. Talvez por toda a imponência que o homem tem, eu tenha pensado que seu apartamento seria maior ou tão grande quanto o castelo de Windsor. Posso ter exagerado um pouco, mas com certeza não esperava me surpreender ao encontrar um apartamento normal.
Em sua sala não há nada mais que dois sofás de couro preto com uma pequena mesa de centro de vidro negro a sua frente. Uma estante cinza com alguns poucos porta-retratos fazem parte da decoração junto a uma gigante televisão presa à parede - aí está o exagero que eu esperava. Enquanto vistorio sua sala, percebo a escada branca com poucos degraus que provavelmente levam aos quartos. Ao seu lado encontra-se um estreito corredor que eu imagino ir até cozinha. A casa de Sasuke Uchiha não reflete em nada o seu dono. Tão previsível que mesmo sem eu conhecer nada consigo prever onde fica cada cômodo.
Sasuke move-se em direção às escadas e eu o sigo observando suas costas. Nenhuma palavra ainda foi dita por algum de nós, embora eu ainda consiga sentir a tensão que vem do moreno. No estreito corredor que encontro ao final dos degraus há três portas. Duas do lado esquerdo, uma delas no começo do corredor e a outra bem mais distante, quase escondida, no final. E uma terceira, ao lado direito, em frente a primeira da esquerda.
O Uchiha para com a mão na maçaneta, em frente a primeira porta ao lado esquerdo. O homem leva seu tempo até abri-la e entrar no cômodo. Assim como na sala, o quarto é simples e não possue mais do que o necessário. Dessa vez não estou surpresa.
- Esse vai ser o seu quarto. O meu fica ao lado, se precisar de alguma coisa, me avise. Tenho uma pessoa que vem duas vezes por semana para limpar o apartamento, mas ela não cozinha. Se quiser comer alguma coisa, há uma agenda com telefones no balcão da cozinha. - seus olhos encontram os meus pelo o que parece ser a primeira vez no dia. Ele aguarda uma resposta minha, mas não tenho nada a dizer e se for dizer sei que não acabará bem, então apenas aceno uma vez com a cabeça.
Sasuke deixa o quarto e pela primeira vez, desde que cheguei, me sinto solitária. Realmente solitária. Eu poderia ligar para a Ino ou a Hinata, mas não vai mudar a sensação de que agora estou realmente por minha conta e não há nada que eu possa fazer.
Guardo minhas coisas no armário e sento-me na cama enquanto olho para a parede branca a minha frente. Suspiro mais vezes do que posso contar e vou em direção a janela, que não me mostra nada além da parede do prédio que fica a frente de onde estou. Cansada do tédio de não ter nada para fazer, além de olhar para as paredes, decido ir conhecer o pequeno apartamento onde agora irei morar.
Desço às escadas de forma barulhenta para lembrar ao Uchiha que agora não é apenas ele que está nessa bagaça e que é bom ir se acostumando a ter companhia.
Diferente das outras partes do apartamento, a cozinha não é nada do que eu esperava. Enquanto eu a imaginava como o local mais simples na casa, nada além do que um fogão e geladeira. O cômodo me surpreende com um grande balcão de granito com panelas penduradas acima dele, armários modernos e com muitas portas. As panelas que eu consigo ver, suspeito brilharem mais do que um diamante. A geladeira é quase maior do que o armário que há no meu novo quarto.
- Você poderia ser mais cuidadosa ao descer as escadas. Não queremos que aconteça um acidente, não é mesmo? - a voz de Sasuke assuta-me enquanto abro a geladeira, que está abarrotada de comida.
- Eu só queria te lembrar que estou aqui. - sorrio de forma travessa em sua direção e o vejo cerrar os olhos.
- Impossível esquecer que você está aqui. - sua boca enruga-se no canto esquerdo e sinto o meu sangue ferver, porém antes que eu posso lhe responder, ele continua - Amanhã irei pedir que a minha secretária comece a procurar alguém para que cozinhe as refeições. Você não pode ficar em casa o dia todo sem comer nada ou só comendo coisas industrializadas.
- Para começar, eu sei muito bem cozinhar, Sr Almofadinha. - coloco minhas mãos na cintura e o encaro de queixo erguido, pois sei que outra batalha esta por vir - E depois, não passarei o dia todo em casa porque irei voltar ao trabalho amanhã. - vejo o olho esquerdo de Sasuke começar a tremer e seguro a risada que tenta escapar-me.
- E eu posso saber de onde você tirou isso? - seu timbre de voz mantém-se calmo, mas sei que ele está se controlando para não perder o controle.
- Hum... Vamos ver… - coloco meu dedo indicador nos lábios enquanto olho para o teto da cozinha fingindo pensar - Ah, sim! Talvez porquê eu esteja grávida e não doente ou inválida. Nada me impede de seguir a minha vida, Uchiha.
- Eu disse que não tiraria os olhos de você, Sakura. E eu não irei. - dessa vez seu tom não é tão indiferente quanto ele gostaria de mostrar e sua mandíbula têm-se em um forte aperto.
- Bem, Sr Segurança vinte e quatro por quarenta e oito horas, eu - digo apontando meu peito - não irei ficar na sua casa, sem fazer nada, por nove meses. Eu forçadamente concordei com toda a sua ameaça, mas não fique esperando que eu me torne uma parasita. - dou a volta na bancada da cozinha e fico de frente para ele - O "acordo" - simulo o sinal de aspas com os dedos - é que eu siga com a gravidez e que ela não atrapalhe os meus planos. Pois bem, querido. Eu vou fazer o meu caminho e me tornar uma grande mulher - digo estalando os dedos em frente ao seu rosto.
Sua falta de reação diverte-me enquanto viro-lhe as costas, jogando os cabelos em seu peito, volto para o quarto enquanto mastigo uma maçã.
Se ele acha que vai mandar em cada detalhe da minha vida só porque me tem abaixo do seu teto. Bem, está na hora de mostrar a Sasuke Uchiha que Sakura Haruno não é um mascote a ser controlado.
