(Sakura)

Acordar mais cedo do que eu normalmente faço não é algo que eu aprecie, mas eu apreciaria menos ainda ter uma discussão de manhã cedo com o Uchiha antes de sairmos para trabalhar.

Eu sei que ele não engoliu bem essa de eu voltar para a empresa pouco depois de sair do hospital. Na verdade, ele não concordou nem que o médico me desse alta com menos de uma semana internada. Provavelmente ele tentou fazer com que eu ficasse mais tempo, mas pra minha sorte o doutor não pareceu ser do tipo manejável. Eu também não tenho certeza se não terei problemas em voltar a trabalhar agora, no entanto, posso prever que a situação não será nada agradável se eu ficar presa nessa casa.

Por sorte, eu tenho um pouco de dinheiro na carteira e não precisarei pedir carona ao Uchiha. Até porquê tenho certeza de que ele negaria.

O caminho de táxi é feito em vinte minutos, uma vez que o apartamento não fica longe da empresa.

Tudo por aqui parece igual, não que eu esperasse uma grande mudança em poucos dias. Mas é bom estar de volta a um lugar a qual eu conheça quase com as palmas das minhas mãos.

O conforto que sinto ao sentar na minha mesa, vendo as minhas coisas do mesmo modo que deixei ao sair, fazem com que eu me sinta quase em casa. O fato de nada estar revirado, significa que Gaara não pôs ninguém no meu lugar. Ao mesmo tempo em que me sinto honrada, pois faz-me sentir importante uma vez que o cargo de secretária é facilmente substituível, mas ele não o fez. Também me sinto chateada, porque sei o quão importante é que o ruivo tenha alguém para cuidar da sua agenda.

Pelo silencio posso supor que não há ninguém além de mim aqui. Coloco o computador para iniciar os trabalhos e antes que eu possa continuá-los de onde havia parado, decido ir até a cafeteria ao lado e comprar o meu café da manhã, preferi não correr o risco de tomá-lo na casa do Uchiha e acabar dando de cara com ele quando acordasse. Quem sabe eu não traga o cappuccino preferido do chefinho? Depois de faltar sem avisá-lo é bom fazer uma média, até porque não sei como estará o seu humor por hoje.

Hum…

Com tudo o que aconteceu me dei o luxo de esquecer o que aconteceu na última vez em que estive na presença de Gaara e do seu primo, Sasori. Oh, Kami! Que ele já tenha voltado para a sua terra e que a próxima vez que nos virmos ele não fique com medo de que algo ruim aconteça. Como se não bastasse o mico de vomitar no chefe do meu chefe, é claro que tinha que deixar a minha marca no primo dele também. Porque, claro, eu não poderia passar despercebida. Eu tenho que fazer as pessoas lembrarem de mim e nem sempre é de uma boa forma.

Como é a primeira vez que venho ao café tão cedo, me surpreende que o lugar esteja vazio. Seu eu quisesse poderia tomar o meu café da manhã aqui mesmo sem ninguém para me incomodar. Nenhuma velha ranzinza ou gorda folgada furona de fila. Embora agora eu tenha direito a fila preferencial. Será que eu vou ter que andar por aí com uma ultrasom ou exame de sangue na bolsa antes que a barriga cresça? Ou só posso exigir passar na frente dos outros quando estiver com um barrigão? Melhor eu procurar saber disso.

Quando volto para a empresa a situação é a mesma. Encontro apenas os seguranças no saguão e a recepcionista da manhã. No elevador, com a típica música de sala de espera de dentista, tenho que ter cuidado para não dormir encostada no espelho.

Após deixar o café do Gaara na sua mesa, volto para a minha e continuo as minhas tarefas que forçadamente tiveram uma pausa enquanto eu estive fora. O tempo passa rápido enquanto vou atualizando as pastas e documentos que serão necessários para essa semana. Espero que nos dias em que não estive por aqui não tenha aparecido mais trabalho.

Ouço o som das portas do elevador se abrindo e, pelo perfume que toma conta do lugar, sei que é Gaara que acaba de chegar, mas no compasso dos seus passos ouço um par a mais. Tenho medo de olhar pra cima e encontrar um par de olhos castanhos junto aos verdes do meu chefe.

Oh, Sakura! Bom dia! - ouço Gaara me comprimentar enquanto para em frenta a minha mesa. Penso duas vezes se devo levantar a cabeça para responder-lhe, mas decidi que sim, pois tenho explicações a lhe dar e se seu primo tem algum problema comigo após o que ocorreu, bem, podemos nos resolver depois.

Bom dia, Gaara - digo levantando meu olhar em sua direção e ignorando os olhos do outro ruivo ao seu lado. - Eu acho que te devo uma satisfação. Espero que possamos conversar a sós mais tarde. - desvio o meu olhar para o seu primo para que Gaara entenda que não o quero presente durante a nossa conversa.

Uma das sobrancelhas finas de Sasori se ergue e o homem me olha como se tentasse entender o porquê de eu estar ignorando a sua presença.

Bom dia, senhorita Haruno. - comprimenta-me oferecendo a sua mão direita para que eu a segure. - Espero que esteja tudo bem com você - sinto o meu rosto esquentar quando ele leva a minha mão até seus lábios e os selam nela em um discreto beijo.

Bo… bom dia, Sr Akasuna. - sua boca enruga em dos lados para esconder um pequeno sorriso que espreita por entre seus lábios. - E sim, eu estou bem. - digo arrancando minha mão de seu aperto.

Bem… - os olhos verdes de Gaara vagueiam entre mim e Sasori - Eu acho que ficarei sabendo o que aconteceu mais tarde, mas de qualquer forma espero que esteja tudo bem com você, Sakura. - confirmo com um pequeno maneio de cabeça e volto minha atenção para o computador.

Vejo os dois belos homenzarrões se afastando em direção à sala do Sabaku. Me distraio por alguns segundos enquanto admiro suas belas bundas em calças sociais feitas sob medida para cada um deles. Enquanto estou avaliando a de Sasori, percebo que os passos do ruivo pararam e quando olho para cima vejo-o encarando-me. Se meu rosto esquentou antes por apenas um beijo na mão, imagine com ele me pegando no flagra enquanto admiro suas partes traseiras. Com uma curta risada o homem volta a fazer o seu caminho e antes que feche a porta da sala, manda-me uma piscada com o olho direito.

O que é mais uma vergonha para quem parece estar fazendo um álbum delas, não é mesmo?

Com muito trabalho a fazer e os dois homens ainda trancados dentro da sala, o dia passa de forma rápida e não é até que ouço meu estômago protestar que percebo que hora do almoço passou. Nem eu ou qualquer um dos caras nos alimentamos de qualquer coisa desde o café. Estou com o telefone nas mãos para encomendar algo quando vejo Gaara vir em minha direção.

Sakura, encomende para nós algo para almoçarmos. Nada muito pesado, por favor. - o homem em nada parece com aquele que eu vi mais cedo. Seus cabelos estão arrepiados, seus olhos com sinais de cansaço e sua roupa amarrotada. Parece que o jogaram em um triturador de lixo e o largaram na rua para que um carro passasse por cima.

Pode deixar! - faço-lhe um jóinha com o dedão - Sem querer ofender, chefinho, mas você está bem?- pergunto-lhe discando os números para fazer os nossos pedidos.

O homem suspira e passa as mãos pelos cabelos pelo o que parece ser a quinquagésima vez no dia. - Sim, estou bem. Não se preocupe. Apenas cansado. Quando a comida chegar, traga-nos por favor. - diz retirando-se de volta ao seu martírio.

O homem deve estar com a cabeça bem longe mesmo para não ter lembrado que bastava ligar para o telefone na minha mesa para pedir o que queria. Ou talvez ele só precisasse de algum motivo para sair de dentro da sala. Deve ser um projeto muito importante para eles estarem quebrando tanto a cabeça.

Quando a comida chega, dou a gorjeta para o entregador e levo-a para os rapazes. Entrando na sala vejo vários documentos espalhados sobre a mesa e Gaara com a cabeça entre as mãos. Sasori está esparramado na cadeira em frente ao ruivo e tem um olhar de pena para o primo que parece desesperado.

Com licença. Trouxe o almoço. - anuncio deixando as sacolas no pouco espaço livre de papéis na mesa.

Graças a Kami uma boa notícia - Sasori brinca tentando aliviar o clima enquanto abre as sacolas e escolhe a que mais lhe agrada.

Não provido da mesma animação, Gaara vasculha as duas sacolas restantes e quando tento tirar da sua mão a que por ele foi escolhida erroneamente, o homem lança-me um olhar quase assassino.

O que? Por que está tentando pegar o meu almoço? - pergunta enquanto abre a marmita e morde a primeira garfada.

Suspiro desanimada e penso se devo lhe contar que ele, na verdade, pegou a minha comida nada saudável com muita carne e batata frita ao invés da sua salada com arroz integral de sempre. Bem, vendo a expressão de alívio que surge em seu bonito rosto quando devora a comida como se não comesse há muito tempo, decido que ele sair da dieta por um dia não irá matá-lo. E comer salada não vai me deixar tão triste. Talvez…

Nada… - respondo-lhe pegando a sacola que contém a salada - muita salada - e sento em seu sofá branco no canto da sala.

Comemos em silencio e quando todos acabamos, recolho as coisas que ficaram jogadas. Passando por um dos documentos sobre a mesa, percebo qua él o tipo de projeto eles têm em mãos e não entendo, pois não é o tipo de coisa com a qual Gaara costuma lidar.

Você está bem Sakura? - olhos verdes encaram-me quando ergo os meus olhos do pedaço de papel, então percebo que fiquei algum tempo parada o encarando.

Oh, sim! Estou bem. - parece que eu não vou parar de passar vergonha por hoje. - É só que eu tenho percebido você meio nervoso e agora sei o porquê. - digo-lhe acanhada por confessar que estava olhando seus papéis.

Bem, ao que parece meu cargo passou de Diretor Financeiro para o responsável pelo marketing e distribuição. - Gaara solta um rosnado enquanto volta a sua atenção para o projeto.

Olhe pelo lado bom, primo. - Sasori diz de forma suave - Se te deram a responsabilidade por algo que não tem nada a ver com o que você faz é porque realmente confiam no seu trabalho. - um pequeno sorriso de apóio se forma em seus lábios. Não consigo impedir-me de fazer o mesmo.

Ele é um bom homem e parece ser alguém muito divertido. Talvez se tivéssemos maiores oportunidades para conversar, acredito que nos entenderíamos muito bem.

Gaara não o responde, apenas encara a mesa como se dela fosse sair a solução para todos os seus problemas.

Vamos, cara! Você só tem que decidir para quem quer vender e começar a partir daí. - Sasori diz como se fosse a coisa mais fácil do mundo.

Gaara não lhe respondeu.

Gostaria de saber se esses dois estão nesse impasse de não saber qual direção seguir esse tempo todo em que estavam presos nesta sala.

Posso dar uma olhada? - Gaara apenas balança a mão em desdém dando-me permissão para ir em frente.

Leio alguns do documentos que estão espalhados e vejo que tudo o que o meu chefe tem a fazer é promover um novo modelo de celular. Ele é mais simples do que os que a empresa está acostumado a produzir. Tem menos funções do que os celulares atuais, mas ainda assim tão bom quanto. Não acho que seja do tipo a ser lançado para as classes mais afortunadas. Parece ser um modelo para as pessoas mais humildes. Talvez o maior problema de Gaara não seja apenas o fato de esta tarefa não ter nada a ver com o que é responsabilidade dele, mas sim o fato de que ele não sabe lidar com as classes mais abaixo, se podemos colocar assim.

Você está se sentindo perdido porque não sabe como funcionam as classes mais pobres, não é? - tento segurar a pequena risada que se esconde por entre os meus lábios.

Ao que parece, meu querido chefe, embora seja uma ótima pessoa, nunca soube o que é ser pobre.

Sem querer ser intrometida… - começo timidamente - Eu sei que também não é a minha função, mas se quiser posso te ajudar… - minha voz sai baixa e sem confiança.

Essa pode ser a maior oportunidade que tive desde que comecei a trabalhar aqui. Mesmo que eu esteja por aqui a pouco tempo e que eu goste das minhas funções de secretária - algumas vezes - não é isso o que eu quero. Desejo evoluir mais. Quero contribuir de forma significativa para a empresa.

Não sei isso é uma boa ideia,Sakura. - Gaara diz suspirando, embora suas palavras tentem me convencer de que não é uma boa, seus olhos estão quase implorando-me para que eu insista. - Você é uma secretária, não quero me desfazer do seu trabalho e esforço, mas ainda assim… - sinto meu sangue ferver em minhas veias. Talvez ele não queira desvalorizar o talento de propósito mas foi o que acabara de fazer.

Ah, primo! - antes que eu possa defender-me, o Akasuna ultrapassa-me com suas palavras - A garota é esperta, com certeza, ou não estaria aqui. - termina lançando-me uma piscadela.

Fico surpresa por ele defender-me e realmente acreditar que sou capaz de fazer bem esse projeto. Sasori demonstrou mais confiança em mim do que o meu próprio chefe.

Gaara, pior não pode ficar. E também, podemos aproveitar para testar o potencial dela. Tenho certeza que ela não está aqui para ser uma secretária para sempre. - o homem sabe o que está falando. Eu não sei o que fiz para que ele pudesse ver através de mim, mas estou agradecida.

O silencio se fez no ambiente enquanto Gaara encarava-me e Sasori apenas sorria para o primo, mesmo que este não o estivesse olhando para si.

Tudo bem. Não tenho nada a perder mesmo… A não ser o meu emprego, mas quem liga para isso, não é mesmo? - sua voz saiu esganiçada e eu não sei se ele está tentando rir da situação ou chorar, talvez ambos.

Obrigada, chefinho! - prendo meus braços ao lado do meu corpo para evitar que meus pés saiam correndo em sua direção e eu o abrace tão apertado quanto um urso faria.

Passamos o resto da tarde presos em sua sala. Agora como se já não bastasse os dois homens, eu também entrei na roda. Ninguém cuidou dos telefones e os documentos a serem digitados e alguns a serem atualizados ficaram para depois.

A noite passou tão rápido quanto o dia e a tarde. Quando me dei conta já era onze horas da noite. Nos concentramos tanto que não percebemos as horas avançarem. Talvez eu tenha me distraído facilmente por não ter sentindo tonturas ou vontade de vomitar durante o dia.

Bom, acho que por hoje é só. - Gaara diz enquanto arrumamos as coisas que estão sobre a sua mesa. - Sakura, obrigada. Avançamos muito graças a você. Está tarde, vou te dar uma carona até em casa, ok?

Fico feliz pela consideração dele, mas sei que a casa de Sasuke é caminho oposto para Gaara. O moreno não vai ficar nada feliz que eu volte para casa tão tarde no primeiro dia de trabalho. Talvez se eu der sorte, ele já esteja dormindo depois de um exaustivo dia de trabalho. Ou ele ainda pode estar no seu escritório. As chances são grandes…

Pode deixar que eu a levo, primo. - Sasori se oferece - Você está cansado e isso está estampado na sua cara.

Gaara abre a boca duas vezes para responder, mas desiste na segunda e somente maneia a cabeça em concordancia.

Com nossos pertences em mãos, seguimos juntos até a garagem. O carro de Sasori não é nada despercebido. Um camaro preto que brilha quase tanto quanto as panelas que o Uchiha tem em seu apartamento. O banco também é quase tão confortável quanto o que eu tenho no meu novo quarto.

O caminho é feito em menos tempo do que eu gostaria. O silencio dentro do carro era apreciativo e eu não estava ansiosa para chegar em casa.

Desejo uma boa noite a Sasori quando abro a porta, mas antes que eu possa sair do carro, sinto dedos firmes segurando-me o pulso.

Você foi incrível hoje. - não entendo sobre o que ele está falando, e isso deve ter ficado claro em meu rosto, pois ele explica de forma mais clara - O desenvolvimento para o lançamento do celular. Você foi de grande ajuda para nós, principalmente para o meu primo. Você tem garra, Sakura. Eu consigo ver isso nos seus olhos. Não deixe essa oportunidade passar, ok? - seu rosto aproxima-se do meu e por um momento penso que ele irá beijar-me a boca. No entanto, seus lábios desviam para a minha bochecha. - Boa noite.

Antes que eu possa ficar mais vermelha do que um tomate, saio do carro e fecho a porta com mais força do que o necessário. Meu coração está palpitando tão freneticamente que penso que a qualquer momento posso ter um ataque cardíaco. O dia hoje foi quase perfeito, para ficar melhor basta que o Uchiha não esteja em casa.