Duas att. em uma semana.
Estou me surpreendendo.
Bem, espero que gostem...
Chapter One:
The Fairy Tale is Over
Eu estava pensando em como havia sido. Não o começo, mas o fim. Quando você espera viver um conto de fadas é comum se decepcionar, mas como chamar algo além de toda desilusão? Como qualificar algo muito mais terrível que a realidade fatídica e decepcionante?
Eu estava me lembrando vagamente do dia em que eu finalmente entendera como a vida era um quebra cabeças bizarro feito por algum luxuoso gênio do sadismo. Eu iria completar catorze anos, e já havia me despedido dos romances ingênuos e baratos que havia criado quando o conhecera. Enquanto admirava furtivamente meus pais tomando o café da manhã, o carinho e a dedicação que tinham um para com o outro apesar de todas as adversidades, eu concluía que era aquilo que eu queria para mim. Alguém em quem pudesse confiar em um momento de confusão. Alguém que me deixasse segura só por segurar a minha mão – não porque fosse extraordinário, mas apenas porque eu saberia que ele faria todo o seu possível para manter o equilíbrio, para que as coisas se resolvessem da maneira adequada. Alguém para me acordar quando eu tivesse um pesadelo.
Eu realmente achava que ele seria essa pessoa. Eu o admirava porque achava que ele era excepcional na firmeza de caráter e na simplicidade das suas ambições.
Incrível como nos deixamos ser enganados.
Meu pensamento vagava livre e indistinto por várias memórias ao mesmo tempo. Todas as pequenas decepções, todas as pequenas mágoas, todos os mal-entendidos que me esforcei ao máximo para reprimir. E quando, no ápice da minha cegueira, veio a derradeira decepção; quando finalmente tudo que havia de mal, mesmo pequeno, culminou num ato de cruel monstruosidade...já não havia muito o que pudesse ser retirado. Mas ele destruiu tudo, sugou até a última gota do meu sangue e das minhas esperanças.
Eu não sabia se estava consciente ou não, mas nesse ponto meus pensamentos foram bloqueados.
Lentamente comecei a perceber minha respiração, uma dor no meu abdômen, o corte na minha mão. A medida que me tornava mais ciente, mais eu queria regressar ao meu estado anterior. Não deveria haver dor na morte. Logo, se eu estava viva... eu não queria estar. As dores foram crescendo, e não demorou muito para que se tornassem insuportáveis. Eu só conseguia pensar que não queria estar viva.
Quando a dor se tornou a única coisa que havia em minha cabeça, tive que admitir que estava plenamente acordada e que minha consciência estava intacta. Abri os olhos devagar, com medo do que encontraria, me deparando com a luz azulada de uma noite de lua cheia.
Havia uma janela imensa a minha frente, e tateei cegamente ao meu lado sem, entretanto, encontrar minha varinha. Me sentar foi um trabalho hercúleo. Tudo em mim doía, e pensar era a última coisa que eu tinha a intenção de fazer. Encarei a janela durante algum tempo, até que me dei conta de que a mesma estava intocada. Não era possível. Eu tinha certeza de que havia batido em algo. Me levantei, apenas porque a curiosidade e a dor dispersavam qualquer pensamento fúnebre, e procurei descobrir onde eu estava e o que havia acontecido. Eu não estava segura.
Aos poucos meus olhos passaram a se acostumar com a luminosidade que vinha da lua, e divisei os contornos do que eu acreditava ser uma sala. Eu sabia que, além da janela, havia algo grande e escuro perto de mim e um tapete no chão onde até pouco tempo eu não conseguia ver nada mais.
Fiquei parada, incapaz de qualquer movimento que pudesse me delatar. Eu precisava pensar em algo, mas a minha cabeça estava cheia de tudo o que eu havia presenciado e ausente de pensamentos coerentes. Eu queria voltar à inconsciência.
Estava prestes a voltar a me deitar no chão e me manter naquela posição até morrer ou até que o sono viesse, mas algo me chamou atenção. Uma luz brilhou às minhas costas e iluminou toda a sala. Me virei instintivamente, chocada com o que via, incapaz de pensamento ou palavra.
Sentado à minha frente em uma cadeira de espaldar, coberto de sangue e com um olhar ímpio, Draco Malfoy mantinha a varinha apontada para o meu peito.
Meu pai lacrou a porta.
A Ordem da Fênix estava caindo. Minha mãe estava morta. Os Comensais da Morte estavam atrás de nós.
Quando ele se virou para mim, me surpreendi pela primeira vez. Seus pensamentos eram sempre tão claros, mesmo quando não deveriam ser, que agora, olhando-o nos olhos e sabendo o que se passava com ele, posso dizer que me assustei.
-Eu sei, pai.
Seus olhos estavam maiores, cheios do brilho de um reconhecimento que eu também havia sentido alguns meses atrás. Ele então caminhou até o meio da sala, onde eu estava, e me segurou firmemente pelos ombros.
-Eu estava errado. Todos nós estávamos.
-Eu sei.
Seu olhar mudou. Me assustei mais ainda, dessa vez porque compreendi quais as suas intenções.
-Não – eu disse.
-Eu não estava errado neste ponto.
-Não vou fazer isso sozinho.
-Eu vou com você. Vamos nos salvar.
É claro que eu compreendi perfeitamente. E seria assim. De forma que, quando os feitiços começaram a atingir a porta, já estávamos em plena fuga. Mas na curva de um dos imensos corredores encontramos um campo de batalha fervilhando de cores e sons e corpos estendidos; e tivemos de reduzir a corrida. Não prestei atenção mais do que o suficiente para garantir que não seria pego desprevenido por algum feitiço. Não me importava com quem estava aqui ou não – eu iria escapar.
Continuei trilhando meu caminho para longe daquele lugar, para nunca mais, lançando escudos quando julgava que seria acertado e azarando quem tentasse barrar meu caminho. Foi quando ouvi um som que me alarmou. Foram dois segundos de uma hesitação mórbida, e o terror me inundou como o mar tempestuoso engole uma aldeia inteira quando lhe convém.
Atrás de mim, meu pai estava no chão.
-NÃO!
Meu grito encontrou um igual, e juntos elevaram a dor a algo sobre-humano.
Não soube muito bem quando tomei a decisão, mas percebi que a havia feito quando senti o chão deslocando-se rápido sob meus pés. Virei a cabeça, apenas para confirmar que todos os Comensais que estavam ali naquela noite convergiam para o corredor onde eu estava, lançando jorros de cores diferentes que eu não sabia se o escudo que eu lançara repeliria. A minha frente, uma janela imponente me daria passagem para o ar da tarde londrino e para a bolsa preta com milhares de galeões que eu havia trazido e escondido ali, mas que agora me dariam uma vida nova. Me permitiriam viver.
Mas havia um empecilho. Os cabelos ruivos e compridos da Weasley caçula esvoaçavam a minha frente. Eu não sabia qual a participação dela nisso tudo nem porque ela fugia – não exatamente – mas também não estava pensando nisto. Eu queria alcançar a bolsa, e então eu atingiria a janela e aparataria a um lugar onde jamais seria encontrado.
Doze passos antes de chegar à janela, entretanto, a idiota se enroscou na bolsa e me vi inesperadamente segurando o braço macio e ensangüentado da garota.
Ela tinha a mesma intenção que eu – atravessar a janela. Mas ela era menor, ainda não podia aparatar, de forma que aquilo era um suicídio. Não sei bem se pensei em alguma coisa, porque se tivesse pensado, eu não queria saber, mas o fato é que entrei numa das salas laterais com ela e lacrei a porta. Haviam muitos Comensais no prédio, e todos convergiam para onde estávamos; não havia muito tempo, e não havia o que fazer. Desfiz o feitiço de invisibilidade e tentei soltar minha bolsa, mas a pequena protetora de sangues-ruim estava completamente enrolada na alça – e para ajudar, estava desfalecendo. Imediatamente peguei-a no colo e, explodindo a janela com um feitiço, atravessei a tarde londrina com milhares de galeões e uma amante de trouxas no colo; e então, aparatei.
Caí com estrépido sobre o corpo desacordado de Ginny Weasley.
Eu estava um tanto desnorteado, mais pela virada nauseante dos acontecimentos recentes do que pelo impacto que sofri quando aparatei, mas o perigo tem um efeito bom sobre as pessoas: desperta o senso de autopreservação e nos torna mais racionais. Evitei pensar na minha família dizimada e me foquei no risco que eu ainda corria. Primeiro reforcei a segurança da casa com todos os tipos de feitiços escudo que haviam; em seguida, tomei a varinha da Weasley e a bolsa com o dinheiro e os escondi, depois preparei provisões de roupa, comida e galeões.
Meses antes eu havia imaginado os infortúnios pelos quais poderíamos passar devido aos ideais inocentes de meu pai, de forma que comecei a tomar precauções sem que ninguém desconfiasse. Grande parte da fortuna Malfoy havia sido desviada por mim para contas às quais só eu tinha acesso em diferentes lugares e sob diferentes nomes; inclusive bancos trouxas. E eu havia preparado esconderijos em pontos estratégicos do globo terrestre. Desta forma, eu estava agora pronto para fugir a qualquer segundo.
Mas havia algo em que eu precisava pensar. Me sentei em uma cadeira que estava ali, abri uma garrafa de firewhisky e tentei organizar meus pensamentos. Devia fazer mais de uma hora que eu havia fugido. Já havia escurecido completamente. Todos os Comensais deviam estar atrás de mim, principalmente sabendo-se que eu estava com a Weasley.
Porque eu fizera isso?
Encarei o corpo um tanto distorcido no chão, sobre o tapete. Ela estava suja de sangue, e a luminosidade azul que penetrava pela janela deixava seus cabelos, em geral flamejantes, cor de lavanda. Recordei a última vez que a havia visto, dois anos atrás, em Hogwarts. Ela estava brigando com o namorado e eu zombara dos dois. Sempre tive um prazer especial em desdenhar dela – primeiro porque ela tinha respostas originais e irônicas, e também porque eu me sentia intensamente atraído pela beleza exótica dela quando ficava irritada. Sim, ela era linda, muito embora eu negasse com freqüência e veemência.
Tentei encontrar o motivo pelo qual a havia salvo. Não era pela falta de companhia, uma vez que seria mais fácil me proteger sem a garota. Havia salvo a amante de trouxas pelo dinheiro, claro. Meus galeões, que eu nunca deixaria para trás, era isso. O que eu sabia, agora que já estava feito e eu a encarava, desacordada, é que ela me distrairia o suficiente. Tê-la por perto, toda a sua animosidade e vivacidade contra mim, além da incerteza sobre os riscos que me trariam sua presença, manteriam minha mente ocupada. Eu não podia, por mais que evitasse pensar, me ver ausente da devastação que sentia em meu peito pela morte dos meus pais, poucas horas antes.
A garota se moveu, e me mantive mais estático. Primeiro ela gemeu, ainda em sonho, e corrigiu a postura. Depois, lentamente, foi se tornando cônscia de onde estava e levantou-se: um gesto que pareceu incomodá-la. Ela girou em volta, provavelmente procurando descobrir o local onde se encontrava, tateando em busca da varinha, até que parou no meio da sala, de costas para mim, e ficou assim durante dois minutos ou mais.
Decidi me revelar. Eu queria provocá-la, queria alguma violência, algum embate, por mais ridículo ou desnecessário que fosse.
Acendi a luz com um movimento da minha varinha. Ela se virou para mim, os olhos redondos e cheios d'água, o cabelo emplastado de sangue e a camiseta branca em frangalhos. Encarei-a:
-Bom dia, Bruxa Adormecida.
Esperei que, como o usual, sua expressão se tornasse fria e ela me respondesse. Fosse por qual motivo, ela não me respondeu.
-Você dorme demais para quem corre risco de vida.
-Onde está minha varinha? – suas palavras saíram baixas, quase tímidas. Nada do que eu esperava, e nada parecido com o comportamento que eu tinha como seu característico. Isso acendeu minha raiva; eu precisava descontar minha fúria em algo.
-Sua varinha está comigo. – Minha voz transbordou, então, a raiva que eu sentia. – Nem pense em gritar, tentar fugir ou mandar qualquer tipo de recadinho ao seu namorado entendeu?
Seus olhos se arregalaram mais, e ela se manteve em silêncio no meio da sala. Eu queria que ela gritasse, me agredisse, qualquer coisa que me desse um motivo para explodir. Mas sua atitude desolada e seu silêncio me ofendiam e me transtornavam, deixando minha voz mais rude e alta.
-Responda sim ou não. Entendeu?
-Sim.
-Ótimo. Não faça perguntas, e faça tudo o que eu disser. Se me obedecer, eu te deixo em algum lugar e você foge. Se não me obedecer te mato, entendeu?
-Sim.
Ela permaneceu no mesmo lugar, com a expressão absolutamente inalterada. Eu tomei dois goles grandes do meu firewhisky, observando-a, me perguntado se ela não reagiria. Bem, que me importava? Eu pretendia passar a noite ali e depois a deixar em um lugar qualquer antes de aparatar em meu destino.
Senti algo estranho, e olhei para ela. Ela não havia se movido, mas sua expressão tinha-se modificado. Uma mudança quase imperceptível; seus olhos, embora voltados em minha direção, desviavam-se ligeiramente para a esquerda. Eu estava prestes a perguntar o que era, quando sua voz, agora mais alta e mais fria, perguntou:
-Posso me sentar?
Ela era qualquer coisa, menos idiota. Não contestaria uma ordem tão clara, com minha varinha apontada para ela, poucos segundos depois da minha ordem. Consenti.
Ela mal havia se sentado no sofá, pude ver pelo vidro da janela o que a atraíra. Havia alguém atrás de mim, iriam nos capturar. Olhei para ela, e a maneira com que suas mãos estavam dispostas davam a entender que haviam quatro. Imediata e imperceptivelmente, peguei a varinha dela que estava na manga esquerda do meu paletó e mostrei-lhe. Ela entendeu, mas não demonstrou.
Dois segundos depois estávamos de pé, dispostos lado a lado, e dois dos quatro comensais jaziam no chã a varinha para proferir o feitiço que liquidaria o terceiro, quando percebi que o jato colorido lançado por este já estava a meio caminho de me encontrar. Não pensei em nada.
Entretanto, nada aconteceu. O escudo da Weasley abarcava a nós dois, e assim pude revidar o feitiço e lançar outros mais.
A luta era difícil. Em mais de um momento o escudo da garota falhou e encontramo-nos desprevenidos, embora não mais que meros segundos. Em dado momento fui desarmado, mas ela conseguiu rebater meu oponente e o seu, de modo que um deles também perdesse a varinha; então avancei de punho aberto, irrequieto por liberar a violência de que necessitava.
Furioso, quebrei o pescoço do Comensal que me atacava – era o pai de Gregory, o Sr. Goyle. Encontrei minha varinha e me virei em tempo de ver o último dos quatro sendo derrotado. Ginny Weasley levantou a cabeça assim que o corpo do homem bateu no chão, mas sua varinha já estava em meu poder.
-Não pense que isso muda algo.
Ela assentiu com a cabeça.
Eu estava assustada. Eu não queria estar ali; não havia previsto nada, só o fim.
Draco Malfoy me lançava olhares intensos e cheios de ódio, olhares lânguidos que vinham de baixo para cima me encontrar. Eu não sabia qual era a participação dele nisto tudo, não sabia porque ele estava sendo perseguido e, claro, não tinha a menor idéia do porque eu estava ali a menos que ele tivesse me salvado – o que fazia ainda menos sentido.
Eu estava, sobretudo, cansada das coisas terem um sentido. Então me mantive quieta e esperei. Tudo o que eu queria, agora, era que ele me libertasse. Muito embora eu não tivesse a mínima noção do que fazer depois.
Permaneci sentada em um mutismo que me parecia natural. Malfoy rodeava a sala, saía às vezes, mas nunca me deixando inteiramente sozinha mais que trinta segundos. Em um determinado momento, ele apareceu e parou em minha frente, no sofá:
-Levante-se.
Fiz exatamente como ele disse. Sua voz era fria e distante, seu olhar era desconfiado mas não propriamente hostil. Ele me entregou um saco preto. Me segurava rudemente pelo cotovelo. Ele aparatou.
Estávamos então em um lugar diferente. Era muito mais escuro, o chão era desigual conforme caminhávamos, e eu não tinha como saber se Malfoy enxergava alguma coisa. Devemos ter caminhado durante dez minutos, quando ele me fez sentar no chão.
-Fique aqui e não ouse se mover.
Eu não tentaria, de qualquer forma. Não havia para onde ir e estava um breu total. Mesmo com medo do que poderia me acontecer, o medo de ser capturada pelos comensais era muito maior. E se os comensais queriam Draco Malfoy, eu sabia que ao menos ele não me entregaria; ou antes, procuraria um lugar seguro.
Eu sei, esse não era um pensamento lógico. Mas eu queria pensar assim, ou iria surtar.
Minha visão não se acostumava a escuridão, de forma que cinco minutos depois eu ainda não via nada. Mas, aos poucos, comecei a sentir muito frio. Eu não ouvia nada além da minha respiração, e não queria chamar pelo Malfoy; primeiro porque outra pessoa poderia escutar, e segundo porque eu não queria demonstrar o quão desesperada eu efetivamente estava.
Ouvi passos, e tentei controlar minha respiração. Senti algo quente em minhas mãos e iria puxá-las de volta, mas a voz de Malfoy me dissuadiu.
-Beba isso.
Eu levei o recipiente que ele havia depositado em minhas mãos aos lábios. Se fosse veneno, eu morreria. Era firewhisky. Pensei em recusar depois do primeiro gole: aquilo queimara minha garganta e deixara um gosto amargo na minha boca. Mas alguns segundos depois, quando eu comecei a sentir os efeitos da bebida em meu organismo, mudei de idéia e bebi o copo todo de uma só vez.
Eu tinha consciência dos riscos que estava assumindo, me deixando ficar ao lado do Malfoy. Mas que outra opção eu tinha?
Quando não há o que perder, a única possibilidade é arriscar o que a situação lhe oferece.
N\A: E aí, merece reviews?
Angelique.
