N/A: Eu sei que eu havia prometido postar até a quarta-feira. E não cumpri.

Me desculpem. Eu levo realemente a sério isso aqui. Juro que eu tentei. Mas em minha defesa, gostaria de dizer que não foi porque eu não quis, ou porque fui fazer outra coisa.

Eu tive tantos problemas essa semana, que juro que eu acreditei que não iria sobreviver. Todo mundo tem uma vida real ali fora que fica te chamando e te enchendo o saco, e a minha reclamou minha atenção em tempo integral.

Eu não acho que vocês devam me ouvir reclamar da vida. Até mesmo porque, tirando uma coisinha ou dez, minha vida é muito boa mesmo. Só estou dizendo isso porque vocês sabem que, às vezes, você simplesmente faz o que tem de fazer e todo o resto acaba ficando para trás...incluisive o que você gosta e o que QUER fazer. Pessoas da minha família(isso, no plural) estão gravemente doentes. E, para ajudar, uma família de roedores (para mim eram gatos supercrecidos, mas todo mundo insiste em dizer que eram SÓ ratos) invadiram a minha casa. E como eu moro sozinha...É claro que eu saí.

E eles destruíram tudo.

Esses são os primeiros minutinhos que estou tendo. E eu vim correndo postar o capítulo, porque eu havia prometido. E também porque a sua opinião e as suas reviews são importantes para mim. São uma gota de alegria quando todo o resto está uma M*&¨$#!$!

Hope you like it!


Chapter 4

My worse

" Life has taught us that love does not consist in gazing at each other but in looking outward in the same direction!"

Antoine de Saint-Exupery


Ginevra´s POV

Creio tê-la visto ao mesmo tempo em que Malfoy.

Sua mão, que se apoiava nas minhas costas, me apertou com força, e eu senti um suor gélido descendo pela minha espinha. Eu não sabia se era meu suor, ou o suor dele.

As irmãs Lefroy também notaram a mudança no ar. Elas me olharam, preocupadas, mas eu estava focada demais tentando imaginar como seria a minha morte, e não lhes dei atenção.

À minha frente, Pansy Parkinson nutria uma expressão inidentificável.

Continuamos caminhando lenta e dolorosamente em direção ao portão grande margeado pelos dois guardas. As grandes portas de vidro pareciam exibir um céu que eu não teria outra oportunidade de ver. Azul cerúleo. Parkinson, entretanto, fez um sinal para nós dois.

-Me sigam.

Sem outra alternativa, Malfoy e eu caminhamos juntos ao que parecia uma sala adjacente. Era um local claustrofóbico, de paredes salmão, sem janelas e com apenas uma porta. Malfoy parecia uma rocha, sua presença a meu lado era sólida como uma estátua. Sua mão parecia uma pedra de gelo, e eu sentia o local em que ele me tocava todo dolorido. Não que eu me importasse com mais um hematoma nesse momento.

Entramos na saleta, e Parkinson fechou a porta, virando-se imediatamente para nós com a varinha apontada e parecendo mais ameaçadora do que somente sua cara de buldogue poderia fazer.

-Porra, Malfoy, o que está fazendo? – ela explodiu.

-Pansy...

-E com a Weasley? –ela pareceu incrédula. – quer foder com a minha vida?

-Pansy, por favor...Nos deixe passar...

-Tá me zuando, né ? O Ministro colocou a cabeça dela valendo mais que pó de veneno de basilisco! E a sua situação também não está nada boa.

Ela me lançou um olhar tão cheio de maldade que eu estremeci. Me senti nua e vulnerável diante de um trasgo faminto. Não havia dúvidas de que ela faria o que pudesse de pior contra mim. O que não me surpreendia – não éramos propriamente amigas.

-Eu sei. Você pode me ajudar. Pelos velhos tempos.

-Que mania que vocês tem de se meter em perigo e depois invocar os velhos tempos!

-Você sabe o que vai acontecer se o Lorde me alcançar – e nesse momento, senti uma mudança, embora ínfima e indefinida, na postura dela. –eu preciso sair do país.

-Para onde está indo?

-Rússia.

-Tudo bem. Eu deixo você ir. – senti como se eu respirasse pela primeira vez na vida. Malfoy também pareceu inacreditavelmente aliviado. Em compensação, Parkinson me olhou cruelmente. – Mas a Weasley fica.

Foi como se tivessem me mandado para o paraíso e me deixado olhar tudo só para me dizer que eu não poderia ficar lá. Senti o chão desaparecer sob meus pés, e o terror se apoderou de mim com tamanha intensidade, que eu duvidava que sairia dali viva, de qualquer forma. Eu não sabia se meu coração agüentaria.

Parkinson se postou do meu lado e agarrou meu braço de forma rude.

-Pode ir. Te dou um tempo até denunciá-la.

Malfoy pareceu não se importar com o fato de eu ficar. Não que eu pensasse que ele se importaria – eu havia percebido que para ele eu era algo que oferecia vantagens momentâneas. – Mas eu...acho que tinha...esperança. Ou vontade, vontade de que ele se interpusesse.

O que era ridículo.


Malfoy´s POV

Por alguns segundos, eu realmente considerei sair correndo dali, pegar as passagens e entrar no avião.

Mas, quando considerei seriamente o assunto, tive de voltar. Como eu conseguiria não atrair atenção sobre mim, se as tais irmãs Lefroy adoraram Ginevra? Como eu faria para me estabelecer na Espanha? Sem contar que fora ela quem comprara as passagens e negociara os termos. Ela havia combinado com as irmãs Leroy de ficarmos na casa delas até a tal de escala sair...

Eu precisava de Ginevra. Ainda.

Eu não havia deixado de todo a sala. Me voltei. Pansy me olhou, contrariada.

-De jeito nenhum, Draco.

-Eu preciso dela.

-Não.

-Eu posso trocá-la. O que quer, Pansy?

-Nada que você tenha para oferecer.

-Por favor.

-Não.

-Sabe que se eu for pego, vou ser torturado. E talvez eu revele umas coisinhas...

-Você é um cafajeste.

-Fazer o que! Você me conhece.

-Ela é o meu passaporte para ganhar um novo posto. Vou estar entre os dez melhores comensais.

-Não vai adiantar nada. Você sabe...

-Não, Malfoy.

-Tudo bem. Mas, se eu for pego, sabe o que revelarei primeiro.

Saí da sala. Não havia mais nada que eu pudesse fazer pela Weasley. Eu havia até mesmo ameaçado Pansy, que era minha amiga, para conseguir libertá-la. Ela deveria ficar grata.

Segui para a grande porta, onde os dois trouxas grandes olhavam documentos. Depois caminhei pela pista, uma grande área aberta com linhas gravadas no chão, até uma coisa grande e deformada, uma imagem de pássaro feita de lata, onde me mandaram sentar e onde eu permaneci.

Dentro do tal avião havia muitas poltronas, todas numeradas e, embora eu quisesse me sentar ao fundo, minha poltrona ficava perto demais das irmãs velhotas. Havia mais pessoas do que eu gostaria ali, e me senti sem ar ao perceber que eu estava cercado por trouxas de todos os lados, sem um único bruxo com quem conversar – ou bruxa.

Evitei pensar na Weasley, ou na sua sorte, propositalmente. Tentei olhar para os bancos, ligeiramente desconfortáveis e próximos demais uns dos outros, ou ainda notar quem estava sentado próximo de mim, ver se não havia um outro comensal ali que me passara despercebido. Mas eu sabia que não haveria – o Lord confiava em Pansy.

Sorte minha.

As irmãs Lefroy me encaravam, com um olhar quase horrorizado. Tentei pensar em uma desculpa, uma boa desculpa, mas todas me pareceram patéticas. Elas estavam sentadas em um par de poltronas ao lado de onde eu estava, e pensei em fingir que não as via, mesmo tão próximas. Fechei os olhos, para evitar por alguns segundos a conversa indesejada. Pensei em dizer a elas que Weasley estava no banheiro, e depois fingir que eu dormira. Ou, talvez, eu dissesse que ela morrera de uma convulsão misteriosa a poucos segundos atrás, eu não sabia.

Minha cabeça estava fervendo, quando uma voz de mulher anunciou:

-Senhores passageiros, apertem os cintos e já vamos decolar.


-Então, Sr. Cherbátsky... – começou uma das irmãs, criando coragem. – Onde está sua esposa? O avião já vai decolar.

-Ela...- comecei a enrolar, tentando decidir qual mentira me daria mais possibilidades. Tudo que eu não queria era que uma das velhas desconfiasse agora, e chamasse a polícia trouxa.

As duas me olhavam com os grandes olhos azuis brilhando de preocupação. E curiosidade.

-Um... Ginevra, ela...bem, ela...

-Me desculpe pela demora, querido.

Me virei instantaneamente. A minha frente, Weasley estava de pé, pálida como um fantasma e com as mãos tremendo. Pela manga de sua roupa, havia um grande vermelhão onde Pansy a havia segurado.

Mas ela sorria.

Eu não esperava, de forma alguma, por aquilo. Cedi o meu lugar para que ela ficasse perto das duas senhoras – e para que eu pudesse ficar ainda mais longe. Me senti aliviado. Enquanto se sentava, e colocava o tal de cinto (uma coisa inútil, que eu não sei porque os trouxas insistiam tanto naquilo), ela permaneceu de olhos baixos, sem olhar para lado algum. As irmãs pareciam mais tranqüilas agora, e me lançavam olhares enervantes, ora de pena, ora de...cobiça, acho.

Solteironas. Tanto faz se eram trouxas ou bruxas. São todas iguais.

Todas me querem.

Recostei a cabeça no banco e fechei os olhos. Eu ainda estava aflito, com medo de que Pansy nos denunciasse. Afinal, eu a havia ameaçado. Havia feito com que ela libertasse a Weasley – e eu sabia o que a prisão da Weasley significaria. Mas eu não via como um comensal poderia viajar de avião.

Não, me parecia impossível que, com tantos recursos mágicos disponíveis, algum deles entrasse nessa coisa de lata que não garantia segurança alguma. Eu era mesmo um imbecil por confiar neste plano!

Ao meu lado, a voz da Weasley parecia muito cansada.

-Eu não me senti bem. Estou um pouco...enjoada, ainda.

-Suas mãos estão frias! – uma das velhas disse. Não sei qual.

-Eu não sei – ela parou por alguns segundos. – Acho que estamos muito cansados. Draco e eu.

-Pobre coitado! Deve ter ficado preocupado enquanto você estava lá fora.

-Com certeza. Tenho pena dele. Está esgotado, com olheiras.

-Ah, mas a Espanha vai lhes fazer bem, querida. Vamos para lá uma vez ao ano, por isso somos tão saudáveis.

-E tão jovens!– acrescentou a Weasley, com um galanteio.

As duas velhas riram como adolescentes.

-Ah, obrigada, querida. Tenho certeza de que, quando tiverem o descanso apropriado, Você e seu marido vão voltar a ter a aparência esplêndida que eu sei que tem. Só estão cansados.

-E – começou a outra irmã – vocês formam um casal tão belo. Minha irmã e eu temos experiência, depois de tantos anos, em ver se um casal combina ou não. Vocês tem algo nos olhos...a mesma luz.

-É sim. – Falou a outra irmã.

-Draco é muito educado, um cavalheiro de verdade. Sinto, entretanto, que ele permanece ausente grande parte do tempo.

Eu quase ri. Se eu não soubesse da verdade, também cairia na lábia da Weasley. Eu sentia o corpo dela ter tremores esporádicos, e ainda sim, ela parecia compenetrada em seu papel de jovem esposa preocupada. Eu, no entanto, permaneci de olhos fechados, fingindo que dormia.

-Você sabe – disse uma das irmãs – se não quiserem ficar no hotel, podem ficar em nossa casa. Vai ser um prazer recebê-los. E lá, vocês poderão descansar melhor do que num hotel.

-Claro – completou a outra. – Vamos adorar poder passar mais tempo com um casal tão simpático.

-Eu adoraria – disse a Weasley, e eu endureci no banco. Não queria passar mais tempo com aquelas duas loucas, mesmo que durante as poucas horas que teríamos de esperar pela escala... Mas um belo casal? Weasley e eu? Pffff! – Embora precise consultar Draco, primeiramente. Ele se sente...desconfortável, em abusar da hospitalidade das pessoas. Principalmente de duas jovens senhoras tão adoráveis.

Gostei da resposta. As duas velhas também, pois as ouvi rindo de novo, aquela risadinha afetada que irrita qualquer um.

Depois disso, o avião começou a chacoalhar e senti uma ligeira vertigem quando decolou. Mas eu estava cansado, e adormeci logo.


Ginevra´s POV

Acordei me sentindo tão mal, que comecei a acreditar que estava realmente doente. Eu havia dormido quinze minutos durante toda a viagem de duas horas. Meu estômago parecia ser o cenário de uma luta monstruosa entre trolls e trasgos. Não havia a menor chance do território permanecer intacto.

Malfoy também parecia não se sentir muito bem. Mas, tão logo abriu os olhos, pareceu desperto, e com aquela luz desconfiada que seus olhos produziam incessantemente.

Quando o avião aterrissou, tive a impressão de que meu estômago e meu cérebro haviam trocado seus lugares. Tentei me levantar para desembarcar, mas ao invés de sair do avião, corri até o banheiro. E vomitei uma grande quantidade de bílis malcheirosa e amarela, já que meu estômago estava completamente vazio.

Saí zonza do banheiro, para encontrar Malfoy contrariado ao lado das duas senhoras. Elas pareciam preocupadas.

-Você está verde, querida. Como se sente?

-Um pouco cansada, apenas.

Mas titubeei, e Malfoy segurou meu braço.

As duas sorriram uma para a outra. Fingi não ver.

-O Senhor Cherbátsky concordou em passarem a noite em casa.

-Ah, que maravilha! – Exclamei. Eu realmente preferia passar a noite na casa das irmãs Lefroy do que em um hotel desconhecido, com medo de que Pansy Parkinson, ou outro comensal qualquer, aparecesse no meio da noite.


Havíamos sido informados de que o vôo de escala estava temporariamente cancelado devido ao mau tempo da Espanha. O que, além de nos atrasar, poderia por nossas vidas em risco. Inclusive a de nossas anfitriãs.

-De forma alguma, Senhora Lefroy – respondeu Malfoy. – Não queremos incomodá-las.

-E quem disse que é incomodo? – respondeu Aurora Lefroy.

Desci do carro me sentindo terrivelmente péssima. Não tinha dor física, mas eu estava, inegavelmente, ficando doente.

Malfoy ficou para trás, para ajudar a pegar as bagagens, enquanto nós entrávamos rápido, para não ficarmos expostas à tempestade.

Fomos recebidas na casa por uma terceira senhora, Gilmore, que Augusta Lefroy me apresentou como sendo governanta da casa. Pelo que eu entendi, uma governanta era o mesmo que um elfo doméstico. Sem os castigos físicos.

A Senhora Gilmore foi extremamente gentil. Disse que prepararia uma sopa quente para todos nós, e aparentemente se sentiu atraída por Draco Malfoy, a julgar pelo modo como ela o olhava.

A casa das Lefroy era grande e confortável, embora em tons alegres e exagerados de vermelho, amarelo e cor de rosa. Eu jamais vira algo assim. Em todos os cantos haviam pequenos caminhos de mesa coloridos e pequenas imagens de anjos e animais – que me lembravam, desagradavelmente, de Dolores Umbridge.

A Senhora Gilmore nos mostrou o quarto onde deveríamos ficar. Era grande e, ironia do destino, verde Sonserina. É claro que o quarto possuía apenas uma cama de casal, e me senti constrangida de ter de dormir ao lado de Malfoy. Eu não acreditava que ele tentasse algo, mas me sentia insegura. E a minha presença parecia incomodá-lo.

Havia ainda uma grande janela, cuja vista deveria ser muito agradável sem aquela chuva toda, e um guarda-roupas de carvalho, com um grande espelho na lateral. Uma pequena porta à direita da cama de postes dava a um banheiro de ladrilhos claros, com uma banheira de louça branca e várias garrafas em miniatura, feitas de vidros coloridos que davam uma sensação engraçada, embora eu não pudesse adivinhar qual era o conteúdo das mesmas. Talvez alguma poção de banho trouxa.

Tomei um banho quente, e coloquei um vestido branco e um sobretudo por cima. Começava a esfriar, e a chuva fustigava as janelas com fúria. Quando saí do banheiro, me sentindo melhor e mais cansada, foi a vez de Malfoy. Esperei que ele estivesse pronto, para que pudéssemos descer juntos.

Augusta e Aurora Lefroy estavam sentadas no sofá conversando animadamente. Elas sorriram quando nos viram.

-Ah, a sua aparência já melhorou. Vai ver como se sentirá melhor depois de uma boa noite de sono.

-Claro.

Sorri amargamente. Há mais de dois anos eu não dormia mais que duas horas por noite. Eu duvidava que pudesse melhorar.

As Lefroy bebiam algo que identifiquei como sendo Gym tônica. Elas ofereceram a mim e a Draco também. Eu recusei, alegando que não bebia. Já Malfoy...eu havia percebido uma tendência nele.

-Draco só bebe whisky – eu disse, baixinho, a Aurora.

-Acho que tenho uma garrafa – e ela sorriu.

Aurora se levantou, e trouxe consigo uma dose de whisky que Draco aceitou de bom grado.

-Para abrir o apetite. – Augusta sorriu.

Depois, a Senhora Gilmore nos chamou para a sala de jantar, de onde vinha o cheiro extraordinário de sopa de ervilha.

Eu não me lembrava de já ter provado uma sopa de ervilha tão boa antes. Draco também parecia ter bom apetite, e comi até me sentir empanzinada.

Depois do jantar, quando retornava do banheiro – onde tive outro acesso de vômito, e quase joguei para fora toda a sopa – ouvi Malfoy discutindo com as Lefroy.

-Agradeço, mas acho mais conveniente ficarmos até que possamos encontrar alguma casa próxima, que seja alugada.

-Ora, mas a tempestade não vai passar logo. Senhora Gilmore me disse que ouviu no rádio que vai demorar pelo menos vinte dias. Nenhum avião parte da Espanha com esse tempo. Todos os vôos foram cancelados. São as normas.

-Além disso – pelo que me pareceu, era a voz de Aurora – A Senhora Cherbátsky parece muito mal. Ela está tão pálida, e esses enjôos...

-Ela sente falta de nossa casa. Ginevra adora a Rússia.

-Claro, claro...eu entendo. Mas...não haveria algo mais? – Disse Augusta.

-Não creio. Acho que a viagem a tenha exaurido. – Malfoy sentenciou.

-E se...se ela estiver grávida? – Acho que dessa vez foi Aurora quem disse. Meu coração disparou. – Explicaria os sintomas.

-Não creio que seja isso. – A voz de Malfoy parecia recoberta de ódio frio. Pensei que aquela conversa ia para caminhos muito desagradáveis, então resolvi sair de trás da parede onde me mantinha e me revelar.

Os três silenciaram imediatamente. Era óbvio, mesmo que eu não tivesse ouvido tudo, que estavam falando de mim. Me esforcei para me manter amável e fingir que não percebera nada. Depois de algum tempo, bocejei.

-Está tão tarde. Seria muita falta de educação se eu me retirasse? – perguntei.

-De forma alguma, querida. Você deve mesmo estar cansada.

-Obrigada.- eu disse. – Vamos, querido?

Draco, que tinha um outro copo de Whisky nas mãos, pousou-o sobre o aparador mais próximo.

-Boa noite – eu disse, e Malfoy ecoou minha voz, num tom baixo e zangado.

-Boa noite. – disseram as irmãs.

Malfoy tinha se mantido num silencio constrangedor desde a insinuação de Aurora. Eu notava que, de tempos em tempos, seu olhar recaía sobre mim, numa análise minuciosa que se detinha em minha barriga.

Mas evitei pensar nisso.

Entrei no quarto e, depois que ele entrou, lacrou a porta. Me perguntei se ele havia lançado um feitiço a prova de som, também, já que eu não estava com minha varinha e não podia fazer isso.

Logicamente, me mantive em silencio e não perguntei nada.

Encontrei alguma coisa confortável no bolo de roupas trouxas que trouxemos e me tranquei no banheiro da suíte, para me trocar. Eu queria evitar uma possível conversa, de forma que fiz todos os movimentos em uma lentidão exagerada e calculada.

Não pude evitar, enquanto me encontrava nua no meio do banheiro, de lançar um olhar para minha barriga. E se?

Quando saí, ele também havia trocado de roupa, e estava deitado sobre a cama, esparramado, as mãos embaixo da cabeça. Seu olhar me seguiu, enquanto eu atravessava o quarto fingindo estar imersa em meus próprios pensamentos e inconsciente dele.

Ele, então, pigarreou.

-Me diga uma coisa, Weasley... – sua voz destilava veneno – Pansy deixou você fugir?

-Sim e não – respondi, sentindo um nó na garganta.

-Sim ou não?

-Ela não me soltou, se é isso que quer dizer, embora creio que tenha me permitido fugir, pois me deixou livre o suficiente para enganá-la e sair, mesmo estando sem varinha. Sim e não, como eu disse.

Permaneci de pé, tentando parecer indiferente às perguntas que ele me fazia. Eu esperava que ele me perguntasse, mas não queria que o fizesse. Eu tinha medo, medo de verdade, do que poderia acontecer dali em diante.

Mas ele não perguntou mais nada. Com o mesmo olhar arrogante que me dispensava em Hogwarts, sua voz fria me questionou:

-Vai ficar de pé para sempre, ou só o resto da noite?

Respirei aliviada, e me deitei na cama. Ocupei um pedaço tão insignificante dela, que eu não poderia me mexer, ou cairia. Mas eu sabia que não dormiria muito, de forma que não importava.

Malfoy apagou a luz, e permaneci imóvel, enquanto o ouvia dar as costas a onde eu estava. Fiquei ainda muito tempo acordada, apesar da exaustão, esperando...algo. Esperando para ver se algo aconteceria. Quando finalmente pude relaxar, enquanto ouvia a respiração cadenciada de Malfoy, me dediquei a pensar naquilo.

Todo o tempo eu estivera tão focada em não morrer nas mãos de comensais, que eu não havia parado para pensar – realmente pensar – na possibilidade. E ainda agora, eu não queria pensar. E não queria porque, no fundo, eu não precisava pensar.

Eu não precisava pensar porque eu sentia. Eu sentia aquela verdade crescendo dentro de mim.

Meus olhos abertos focavam o teto, o escuro, o nada. Eu não via nada. Eu sentia aquela criança que crescia dentro de mim, e me odiava, odiava profundamente.

Me odiava porque eu não a queria. Uma mãe deveria sempre querer um filho. Mas não eu.

Tudo em que eu conseguia pensar era em tirá-la de mim. E aquilo era horrível.

Esse era o meu pior. E o meu pior, eu sentia, era pior do que Draco Malfoy. Eu me sentia pior do que Draco Malfoy. E isso era muito, muito ruim.

Tentei calcular o tempo. Eu estava perdida, não tinha noção exata de quanto tempo eu vinha fugindo. Mas, se eu não estivesse muito errada...talvez eu estivesse com dezesseis, dezessete semanas.

Era muito tarde para tirar o bebê?

Respirei fundo, um suspiro doloroso, e senti as lágrimas lavando meu rosto. Como eu ousava sequer pensar nisto? Que tipo de monstro eu era? Eu não deveria ser melhor do que Voldemort...ou até do que Harry Potter.

Harry Potter. Como eu o odiava. O odiaria eternamente.

Sorri, um sorriso amargo, de dentes expostos. Alguns anos atrás, esse era meu sonho. Me casar com Harry Potter, ter filhos com ele, e uma bela casa com um jardim colorido em frente.

Agora eu me sentia um fantasma, uma alma amaldiçoada que não merecia sequer o inferno. Que não merecia a paz da morte.

Encerrei esta linha de pensamento. Eu não devia imaginar isso. Eu não queria odiar essa criança. Eu não deveria.

Tentei me focar, então, em gerar um amor pela criança cuja existência eu vinha negando há quatro meses.


Draco´s POV

Eu não conseguia dormir.

O que aquela velha me disse ficou rodando em minha cabeça, me fazendo entrar em ciclos de ódio e pena que me irritavam. E se elas estivessem certas? E se a Weasley estivesse grávida?

Isso iria fuder com tudo. Com a nossa estadia na Espanha por tempo indeterminado graças a essa porra de tempestade, eu não poderia ficar carregando por ai uma mulher grávida. Logo ela estaria gorda demais para correr, e coisas assim. Ela precisaria de hospitais. E essa coisa de fingir ser o maridinho atencioso não era para mim.

Sem contar que, talvez, agora eu entendia porque o Potter a queria. Se o filho era dele – e só podia ser, a weasley não tinha outro namoradinho, que eu soubesse – era lógico que ele, como Ministro da Magia, a quisesse desesperadamente. Para um fim, ou outro. Eu só não entendia ainda porque ela fugia.

Weasley suspirou profundamente. Neste momento pensei em como devia ser para ela. Uma garota de...quinze? dezesseis anos?, grávida, sendo perseguida pelo Ministro e...em minha companhia. Porque eu sabia que não seria fácil para ela me acompanhar.

Nesse momento, o ciúme substituiu a pena que eu sentia. Era ridículo ter ciúmes dela, é claro, mas eu tinha.

Ela teria uma família. Quando isso terminasse, ela não estaria sozinha. Ela teria o filho dela, alguém de seu sangue. Alguém para amar...por quem viver.

E eu? O que EU teria?

Fiquei imaginando como seria para o bebê, estar dentro dela. De certa forma, acho que a via grávida, não tinha dúvidas mais de que era verdade. Imaginei se seria agradável, viver dentro do corpo da mãe. Eu não sabia muito sobre bebês – para mim, eram apenas miniatura de gente, que chorava e fazia cocô alternadamente – mas tentei pensar. Eu havia observado a barriga da Weasley a noite toda, e depois, quando ela saiu do banheiro usando uma camiseta justa. A barriga dela era reta, pequena e proporcional, e eu não via como um bebê poderia ficar confortável ali.

Aliás, ela parecia um esqueleto. Ela precisaria se alimentar melhor, se estava grávida. O bebê não comia o que a mãe comia? Então ela precisaria comer frutas e coisas assim. Bebês gostam de frutas, não?

Repudiei essa idéia. Eu não sabia porque estava pensando nestas coisas. O fato é que não havia indício algum de que a Weasley estivesse grávida. Mas ela parecia estar. Então tínhamos de sair da Espanha e chegar à Itália logo. Antes que ela ficasse barriguda, e tal.

Pronto. Decidi que não pensaria mais naquilo. Eu já havia ido longe demais.

Me preparei para dormir. Tentei esvaziar minha mente.

Mas logo eu estava olhando na direção em que Weasley estava. Sentindo aquele ciúme queimando em mim. E tentando imaginar como seria para um bebê estar ali dentro.

Inconscientemente, estiquei a mão e a coloquei delicadamente sobre a barriga da Weasley. Eu não sabia muito bem o que esperar, mas eu esperava que o bebê dissesse: "estou aqui". Esperava uma confirmação.

Sim, eu devia estar ficando louco.

Estava sentindo o calor do corpo dela, sua respiração compassada, quando algo realmente aconteceu. Uma coisa bem estranha, na verdade. Como uma espécie de onda, vinda de dentro para fora, bem suave.

Não consegui deixar de sorrir.

Era claro que o bebê estava avisando que estava ali. Eu tinha razão. E a velha louca lá embaixo também – Weasley estava mesmo grávida. Enquanto o bebê produzia aquela espécie de sinal estranho, a respiração dela parou, durante alguns segundos. Me perguntei se ela havia acordado, e cogitei de retirar a mão. Mas eu queria muito sentir de novo – era muito estranho, aquela sensação, como se fosse uma lombriga gigante – então fiquei imóvel, até que a respiração dela voltou a se normalizar.

E minha mão ficou ali, no mesmo lugar, esperando o bebê ou a super lombriga se mexer de novo.

Até que eu dormi.


A luz do sol incidindo sobre o meu rosto me acordou.

Abri os olhos, só então percebendo que deviam ser sete ou oito da manhã.

Eu havia dormido praticamente uma noite inteira! Isso não acontecia desde...desde Hogwarts. Isso era incrível. Eu me sentia mais disposto, diferente, como se algo tivesse mudado.

O que quatro horas a mais de sono não faziam a uma pessoa.

Continuei deitado, pensando no que havia feito com que eu dormisse tanto – eu queria repetir a experiência – quando notei minha mão sobre a barriga da Weasley.

Nesse momento, mais uma vez, eu senti a pequena onda sob minha mão. Mais do que isso, eu pude ver um ligeiro movimento no seu abdômen. Não era como o subir e descer produzido pela respiração. Era um movimento localizado em apenas um ponto da barriga dela, à direita do umbigo.

Pelo menos o filho do Potter era educado o bastante para me dar bom dia.

Retirei minha mão da barriga dela, e resolvi tomar banho e me trocar. Estava procurando por roupas decentes na mala que a Weasley mantinha no chão, perto da porta, quando o frio chamou minha atenção à janela.

Estava nevando. Muito. Parecia que estávamos mesmo na Rússia.

O parapeito da janela estava recoberto de três palmos de neve, e tudo o que dava para ver da janela era uma árvore branca sendo dobrada pelo vento. Com certeza, sem chance de o vôo partir hoje. Tecnologia trouxa era muito frágil e inútil.

Eu não queria permanecer naquela casa. Já bastava a Weasley, agora com seu filhote, eu não queria ter de agüentar as três velhas – sim, porque a tal Senhora Gilmore também me lançava muitos olhares irritantes. Weasley e eu poderíamos viver em uma casa até os aviões voltarem a voar. Depois voaríamos para Itália. Poderíamos nos refugiar na casa das irmãs Lefroy SE tivéssemos problemas.

Mas eu gostaria realmente de poder voltar a usar magia. E essa coisa que elas chamavam de Whisky – eca- parecia mais xixi de fada mordente.

Abri o chuveiro e me larguei debaixo dele, pondo em prática minha filosofia de deixar para pensar nas coisas incômodas posteriormente.


Ginevra´s POV

Acordei com a boca amarga e a cabeça pesada, sinal claro de que havia dormido demais.

Mas, nos últimos anos, eu não me recordava de ter dormido demais. Eu sempre dormia de muito menos. Nunca mais do que três horas. E, nesses casos, eu tinha pesadelos.

Pesadelo. E era sempre o mesmo.

A claridade do quarto me fez refletir que deviam ser mais de sete horas. Eu havia dormido, no máximo, às duas da manhã. Eu devia ter dormido cinco, talvez seis horas.

O lado direito da minha barriga estava um pouco mais quente que o restante do meu corpo.

Olhei para o lado. Draco Malfoy já havia se levantado. Ouvi, então, o barulho do chuveiro. Ele devia estar tomando banho.

Permaneci deitada até que ele saiu. Só então me sentei na cama. Eu estava um pouco zonza, e muito faminta. Ele saiu com os cabelos molhados.

-Bom dia – eu disse, porque eu estava de bom humor, acho. Não esperava que ele respondesse.

-Bom dia – ele respondeu.

Talvez Draco Malfoy também tivesse bom humor.

Me levantei devagar, evitando tornar a leve vertigem em algo pior. Depois fui até a mala encontrar algo quente que eu pudesse vestir. Eu não estava preparada para o frio que fazia. Eu nem ao menos sabia que a Espanha era tão fria.

Quando terminei de me aprontar, encontrei Draco Malfoy sentado na beirada da cama, com o olhar fixo na porta. Eu não sabia se deveria chamá-lo – às vezes, eu não sabia o que esperar, ou o que pensar perto dele – então optei pelo silêncio. Esperei que ele me notasse até que ele piscou duas vezes, seus olhos prateados muito abertos, e se dirigiu a mim.

-Não vou ficar nessa casa até que possamos voar para a Itália. Detesto ter que me portar como um trouxa. Sem usar magia.

-Claro – assenti. – Vou pensar em alguma coisa.

-Ótimo.

Descemos para o café da manhã juntos, depois disso, e eu tentei sondar nossas anfitriãs para descobrir um lugar não muito longe dali onde pudéssemos ficar.


Aurora´s POV

Aquela semana foi maravilhosa.

Todos os dias, nos esforçávamos para entreter o jovem casal. A nevasca espessa e gélida não nos permitia sair de casa, ou realizar nenhum tipo de atividade que exigisse ar livre, de forma que passávamos muito tempo juntos na sala.

Depois do café da manhã, normalmente jogávamos bridge, ou qualquer outro jogo de cartas, no qual o Senhor Cherbátsky era muito bom. Isso parecia animá-lo, e era a hora do dia em que ele parecia menos introspecto. Nos sentávamos todos à sala, e eu lhe servia uma dose de Whisky que ele consumia enquanto jogávamos.

A Senhora Cherbátsky – pobre Ginny – ainda sentia vertigens e enjôos, e cada vez mais estávamos certas, Augusta e eu, de que ela estava grávida. O Senhor Cherbátsky também deveria estar desconfiado pois, embora ele tentasse parecer indiferente e frio, algumas vezes eu o surpreendia lançando olhares de esguelha em direção da esposa, ou sugerindo que ela comesse um pouco mais, principalmente frutas.

Eles eram encantadores, e tinham um jeito bem peculiar.

A Senhora Cherbátsky, sempre gentil e silenciosa, fazia de tudo para agradar a todos nós sem, no entanto tentar merecer crédito algum por isso. Mesmo com o aspecto doentio, ressaltado agora pela gravidez aliada à sua grave enfermidade, ela levantava-se de madrugada e preparava o café da manhã, ajudava a Senhora Gilmore, e servia o esposo sem que ele percebesse ou mesmo notasse. O que, me parecia, o desagradaria muito, pois ele parecia querer demonstrar independência extremista.

Já o Senhor Cherbátsky era mais difícil de compreender, e só o entendíamos quando sua esposa nos contava sua estória. Ele parecia estar sempre atento a um perigo secreto- que eu imaginava ser a doença da esposa- e fingia que não havia nada de errado acontecendo, fingia ser frio e distante, quando sabíamos que esse comportamento se dava em razão de seu profundo sofrimento com relação à doença da querida Ginny. Entretanto, mesmo com essa aparência de insensibilidade, ele olhava às vezes de modo afetado para ela – e isso fazia com que Augusta e eu nos rejubilássemos.

Tanto Augusta quanto eu nunca nos casamos. E, agora, ter esse casal tão lindo morando conosco suprimia a carência de romance que vínhamos nutrindo há anos.

Porém, havia algo que eu achava particularmente engraçado. Tanto Ginny quanto o Senhor Cherbátsky se atrapalhavam e pareciam surpresos com as coisas mais banais – como usar o telefone ou um quebra-nozes.

Ginny me disse que eles moravam em uma região afastada, numa pequena cidade ao sul da Rússia, e que ,lá, eles não tinham acesso a muitas dessas coisas que tanto os assombrava. Ginny tinha ainda mais facilidade em aprender, mas o Senhor Cherbátsky, como notei, nutria uma certa resistência ou até mesmo preconceito com relação a esses objetos. Mais de uma vez o surpreendi usando a expressão "trouxa" quando se referia a elas.

Mas, ao cabo da primeira semana, notei que o Senhor Cherbátsky parecia irrequieto. Segundo sua esposa, ele parecia transtornado por nos incomodar, e queria alugar uma casa nas proximidades, onde poderíamos nos ver com freqüência mas onde eles não nos incomodariam. Não havia argumento que o demovesse de sua obstinada posição, de forma que Augusta e eu prometemos ajudá-los a encontrar algo assim que o tempo melhorasse o suficiente para permitir a nossa saída.

Esse dia chegou no meio da semana seguinte, em uma quarta-feira.

Fomos de carro até a imobiliária, onde pedi ao Senhor Thomas Finch-Fletchey, um antigo amigo, que nos conseguisse uma casa próxima à nossa, grande e confortável, para nosso casal amigo.

Por sorte, Tom me disse que a casa no fim da rua onde morávamos estava vaga, de forma que fiquei muito feliz. Era perto o suficiente para nos vermos todos os dias.

Quando saíamos da imobiliária, o Senhor Cherbátsky pediu que fossemos todas à frente, para ver se a casa era do gosto de sua esposa, enquanto ele tomou um taxi e iria ao banco, resolver a questão monetária. Sua esposa pareceu bastante insegura com essa pequena separação, mas garanti-me de assegurá-la que nada aconteceria neste entrementes, e ela pareceu-me um pouco mais tranqüila.

Assim que chegamos à frente da casa, notei uma mulher ruiva com uma grande capa escura parada no portão de uma casa verde, em frente à casa vitoriana de tom levemente rosado que se tornaria o lar provisório dos Cherbátsky. Eu não podia conceber com o que aquela estranha fazia parada na neve com um bebê no colo, e senti pena da criança – com uma mãe tão desnaturada.

A casa era excelente, e logo me esqueci da estranha, enquanto examinávamos tudo. Era um pouco sóbria para meu gosto, mas a Senhora Cherbátsky pareceu encantada com o lugar. Mais de uma vez ela mencionou desejar um lugar um pouco menor, mas eu disse que aquela casa era muito segura e bem próxima à nossa, e isso pareceu confortá-la.

O quarto em que o casal dormiria era amplo e bem decorado, em um tom de vermelho envelhecido com piso de madeira escura que me pareceu muito adequado. A cama era grande e confortável, havia um guarda-roupa razoável, e o banheiro também era espaçoso e muito charmoso, feito em um mármore escuro e polido, e com uma banheira de louça avermelhada.

Havia ainda um outro quarto, um pouco menor mas também muito bonito, em azul cobalto com um vaso chinês que me encantou. A sala era clara, no mesmo tom róseo da frente da casa, com um tapete felpudo e grandes cortinas marfim, e havia um escritório que também servia de biblioteca, com uma grande mesa e várias prateleiras de carvalho recobertas de livros. Como aquele lugar pareceu a todas nós ser do agrado do Senhor Cherbátsky, resolvemos que eles permaneceriam ali até a liberação do aeroporto.

Estando este ponto resolvido, era preciso tomar outras providências, como fazer compras. Como o Senhor Cherbátsky ainda não havia voltado, nos pusemos todas em frente à grande janela da sala e nos quedamos a olhar à rua, à espera do carro de aluguel que o traria de volta a casa.

-Draco está demorando muito. Já faz uma hora e meia que ele saiu. – disse Ginny. Ela parecia ainda mais adoentada, com o vinco de preocupação que lhe apareceu no meio da testa.

-Não se preocupe – tranqüilizou-a Augusta – Você sabe como são essas coisas burocráticas. Só Deus sabe como eu detesto a burocracia! Demoram uma vida para resolver algo simples.

-Sim. Ele logo estará aqui – completei.

Ginny Cherbátsky suspirou profundamente, mas resignou-se a esperar. Seus olhos ficaram perdidos na paisagem alva a sua frente, e o vinco de preocupação não desapareceu de sua testa.

Augusta e eu passamos a tagarelar sobre várias coisas, tentando demovê-la de sua preocupação, mas ela parecia muito ensimesmada, e permaneceu com o olhar longe, preso a algo além da janela, além de si mesma.

Até que a ouvimos suspirar.

Olhei para ela, um pouco mais atenta agora, e ela me olhou de volta, parecendo-me irrequieta e horrorizada.

- Quem é esta mulher? – ela perguntou.

Me aproximei da janela, e notei que era a mesma estranha que eu havia visto quando aqui havíamos chego. Seu cabelo ruivo e solto estava sendo fustigado pela neve, e seu olhar permanecia rigidamente focado dentro da casa. Nos seus braços, o pequeno embrulho que só poderia ser um bebê, repousava horizontalmente.

-Eu não a conheço – proclamou Augusta.

-Nem eu –concordei.

Eu não a conhecia porque não conhecia ninguém que fosse ruivo. Mas era impossível visualizar seu rosto com clareza por causa da neve. De repente, a estranha abriu o portão e deu um passo a frente. Aquilo era muito estranho, então pensei em chamar a polícia.

Ginny, ao mesmo tempo, começou a andar para trás. Notei que ela parecia terrivelmente amedrontada, e senti pena dela. Abri a boca, para pedir a Augusta que encontrasse um telefone e discasse para a polícia, quando uma voz nos sobressaltou a todas.

-O que estão fazendo? – perguntou o Senhor Cherbátsky.

Todas parecemos aliviadas. Notei que Ginny titubeou, e só manteve o equilíbrio graças a um aparador.

- Por onde entrou? – perguntou, por sua vez a senhora Cherbátsky. Ela parecia desconfiada, além de mortalmente assustada, e me perguntei porque ela era tão assustadiça. Com a presença de um homem aqui, eu já me sentia tranqüila.

-Pela porta lateral, da garagem. – e os dois se olharam de uma certa forma que pareceu a mim que eles estavam se comunicando, se analisando, e não apenas trocando um olhar.

Nesse momento, Augusta chamou nossa atenção.

-Quem essa mulher pensa que é? Ela está parada na porta!

-Mulher? – perguntou o Senhor Cherbátsky.

-Tem uma mulher parada na frente da casa desde que chegamos.. –comecei a dizer.

O Senhor Cherbátsky assumiu uma fisionomia que me assustou. Sua seriedade parecia fatal a quem quer que o encontrasse. Por um minuto, o temi como se ele fosse me matar – o que era irracional. Um jovem tão bom e querido como ele era...jamais faria mal a quem quer que fosse.

A campainha soou uma vez, e notei que a postura dos dois se endurecera. Senhor Cherbátsky segurou com força a manga do terno escuro que vestia, e se colocou atrás da porta.

-O que você quer? – perguntou com uma voz fria e cortante que me surpreendeu.

-Falar com Draco Malfoy – veio a resposta. Pensei que a moça estava enganada. Não havia nenhum Malfoy ali. O sobrenome deles era Cherbátsky.

-Quem é você? – retrucou ele.

-Sou Astoria Greengrass. Eu conheci seu pai, Lucio Malfoy.

O Senhor Cherbátsky abriu a porta de um só golpe. Eu, particularmente, não estava entendendo nada. Ele não via nos noticiários que não era aconselhável abrir a porta a estranhos?

A estranha entrou, e então pude vê-la. Ela tinha cabelos longos e ruivos, e olhos esverdeados. Em seu colo, uma criança loira dormia, com os lábios arroxeados pelo frio. Aquela mulher era insana.

Ela deu dois passos a frente, e o Senhor Cherbátsky fechou a porta. Me aproximei para ver e notei que a criança era a cara dele, e senti pena da pobre Ginny – com certeza aquela criança era filha bastarda do Senhor Cherbástky. Uma traição – e ele parecia ser um homem tão correto...

Todos esperamos um segundo dolorosamente longo. Até que a jovem ruiva decidiu se pronunciar.

-Este é seu irmão, Senhor Malfoy.


n/A: Eu realmente quis fazer com que este capítulo valesse a pena...que a espera de vocês fosse recompensada.

Espero que eu tenha conseguido. Esse capítulo é realmente especial para mim.

Eu gostaria de agradecer muuuuuuito à RhyeLi, fofíssima como sempre, que me anima e me motiva a querer escrever mais e mais. À Bruna, a Vivi Malfoy ( a fic dela é muito legal, leiam. E deixem reviews para ver se ela continua escrevendo), a Jackziita, a Lyla e a Li. Sério, obrigada.

E obrigada a você, que lê mas não deixa review. Por favor, pare um minutinho só e me diga o que está achando. Eu realmente gosto de saber.É importante.

Kissesssss

Angelique.