Chapter six
Alive and Dead
Ginevra´s POV
Abri os olhos, um pouco confusa.
Levei alguns segundos para perceber que ainda não havia amanhecido. Ao meu lado, Scorpius ressonava calmamente.
Eu me sentia melhor, fora um leve desconforto abaixo do umbigo. Procurei à minha volta, tentando identificar o que havia me acordado. Em pé, escondido atrás da cortina e permitindo que apenas um filete de luz entrasse no quarto, pude distinguir o contorno de Draco.
Imediatamente me senti alerta, meus músculos tencionando dolorosamente.
Tentei me sentar, sem acordar Scorpius. A cama ao meu lado estava quente, e imaginei se Draco não haveria adormecido ali.
-Draco? – chamei, assustada.
-Volte a dormir, Ginevra.
Um calafrio percorreu minha espinha. Alguma coisa em seu tom de voz me assustou.
Ele se virou para mim, seu perfil iluminado pelo luar, deixando seus músculos tensos à mostra. Seu maxilar estava tenso, seus olhos pareciam arder na noite – um farol na escuridão, guiando os navios direto para a escarpa.
-Por favor? – pedi.
Ele pareceu refletir um momento, e eu me retraí, esperando por sua decisão. Um minuto depois ele suspirou, e eu soube que ele diria a verdade.
-Estamos sendo vigiados. – não havia entonação, sua voz era mecânica.
-Quantos?
-Dois.
Lágrimas que eu não sabia que estava segurando escorreram pelo meu rosto.
-Estamos mortos. – exalei, desesperada.
Para minha surpresa, ele veio se sentar ao meu lado.
-Ainda temos esperança... se tivessem certeza de que estamos aqui haveriam mais comensais. Já teriam invadido.
-Você pode ter esperança... –suspirei – eu não posso levantar daqui.
Ele não respondeu. Senti o peso da tragédia iminente sobre os meus ombros.
-Estou morta... – suspirei.
De novo.
Harry´s POV
Suspirei, tirando os óculos e fechando os olhos por um minuto.
Manter Voldemort ocupado e longe dos assuntos relacionados às buscas por Ginny estava se tornando uma tarefa árdua. Cada vez mais eu tinha a sensação de que havia algo errado. Muito errado.
O ministério ia bem. Havia paz, e um princípio de homogenia social. Em breve, Londres seria um exemplo de justiça e igualdade. Mas eu tinha a impressão de que algo vinha sendo feito às minhas costas.
Voldemort se satisfaria com o poder secundário que tinha? Com o que ele mesmo havia pedido?
Estava perdido em pensamentos, quando Blaise Zabini entrou às pressas no meu gabinete.
-O que foi, Zabini? – perguntei.
Ele pareceu confuso.
-Desculpe, Senhor Ministro. Estou procurando lord Vol...
-É, eu sei – interrompi. Aquilo me irritou. Com certeza ele estava escondendo algo. – E ele não está aqui, como pode ver. Então porque não diz logo o que veio dizer. São cinco da manhã, e eu estou cansado.
Zabini pensou por um segundo. Mas ele sabia que não poderia me negligenciar informações. Eu sabia disso.
Ele suspirou, derrotado.
-É Ginny Weasley, Senhor. Acho que a encontramos.
Ginevra´s POV
Ao invés do que imaginei que sentiria, eu estava incrivelmente calma.
A presença quente e viva de Draco, e a tranqüilidade de Scorpius, me fizeram bem; me fizeram ver as coisas com a clareza peculiar que envolve nossos olhos apenas nos momentos decisivos de vida ou morte.
Vida E morte.
Minha mente parecia flutuar entre as lembranças do passado, e as dúvidas que me inundaram por tanto tempo sem que eu desse vazão a elas. Senti que esse era o momento para perguntar tudo aquilo que eu havia trancafiado dentro de mim por tanto tempo.
-Porque não me matou – perguntei. – quando teve a chance?
Draco foi pego desprevenido, é claro. Seus olhos ergueram de suas mãos e encontraram meus olhos, assombrados.
-O que?
-Nas primeiras horas que passei com você, pensei que me mataria sem que eu nem mesmo notasse – expliquei. – Porque não me matou?
Ele pensou por um segundo, e aquela blindagem que ele sempre usava cobriu seu rosto como uma nuvem escura.
-Porque eu precisava de você...para fugir.
-É mentira – retruquei.
Seu cenho se franziu, e eu suspirei.
-Eu quero a verdade, Draco! Não sei qual é a verdade, mas posso ver quando mente como se fosse o meu próprio rosto mentindo para o espelho.
-Não sei porque, está bem?
-Sim, você sabe. E eu também quero saber.
-Porque? Porque isso pode ser importante?
-Porque eu quero conhecer Draco Malfoy. Quero saber quem esteve ao meu lado todos estes meses.
Eu não disse verdadeiramente o que estava na minha mente: que eu iria morrer antes que o sol pudesse brilhar hoje. Mas, de alguma forma, senti que ele entendeu.
Que estava sendo complacente comigo porque eu não viveria mais um dia.
-Porque... – começou, mas se interrompeu de imediato. Lancei a ele um olhar instigante.– Acho que não te matei porque tive medo de ficar completamente sozinho. De uma forma estranha, foi bom ter ao meu lado alguém que sabia o que era estar tão sozinho quanto eu estava.
-Duas pessoas completamente sós se fazem melhor companhia do que pessoas que não compreendem o que é a solidão absoluta – disse, mais para mim mesma. Para me certificar de que tinha entendido o que ele dissera.
-Exato.
-E o que fez durante os três dias que ficou desaparecido? – continuei, antes que ele parasse de falar.
-Vaguei pela cidade.
-Porque?
-Porque não suportava a idéia de meu pai ter traído minha mãe com uma trouxa ruiva?
Aqui toda a mágoa que ele sentia transbordou pelos seus olhos. Pude sentir seu ódio como algo concreto, na forma com que ele pronunciou as duas últimas palavras.
-Não entendo o que nós, ruivos, fizemos de tão mal assim para o mundo!
Dei uma risadinha, para que ele percebesse que era só uma brincadeira, e que eu não queria discutir. Draco tinha um temperamento mais mutável que qualquer bipolar que eu conhecesse.
Ao contrário do que eu esperava, entretanto, ele sorriu.
-Bem, a princípio, a culpa é sua mesmo.
-Minha?
-Sim.
-Certo. E a culpa é minha porque...
-Sempre te achei atraente. Bem, quase sempre, pelo menos.
Não consegui acreditar. Aquilo era estranho demais.
-Não quer mesmo que eu acredite nisso, quer?
Ele se limitou a dar de ombros. – É a verdade.
-Vamos fingir que seja verdade – eu disse – então porque implicava tanto comigo?
Esperei que ele não respondesse. Mas o Draco sério e ameaçador de sempre parecia estar de folga essa madrugada. Ele passou a mão pelo cabelo, um pouco contrariado, e depois respondeu:
-Porque eu não queria que ninguém percebesse que eu tinha uma quedinha por você!
Comecei a rir, até que percebi que tudo o que ele estava dizendo era realmente a verdade, embora não fizesse sentido.
Enrubesci, e desviei os olhos para Scorpius. Ele estava com ambas as mãos embaixo da bochecha, e parecia um anjinho adormecido.
-Prometa que vai cuidar dele. Cuidar de verdade.
-Eu prometo. – Draco respondeu, e pela primeira vez notei que havia algum carinho da parte dele para com o irmão. – Mas agora é a minha vez de perguntar – disse.
-Não sabia que estávamos revezando – respondi, mas ele não demonstrou o menor traço de humor ao meu comentário.
-Porque se importa tanto com Scorpius? – sua pergunta trazia uma dúvida genuína.
Por um momento, a resposta que me veio era aquela que eu me dizia todos os dias, tentando inutilmente me convencer. Mas eu sabia que não era a verdade, e depois de tudo o que havia me dito, Draco merecia a verdade.
As lágrimas voltaram a correr pelo meu rosto sem que eu pudesse impedir.
-Tenho medo... – comecei, mas um soluço irrompeu pelo meu peito, e não consegui terminar.
Draco colocou a mão na minha bochecha. O calor de sua mão foi um carinho inesperado, depois de tanto medo, perda e dor.
-De que? – perguntou.
-De não amar meu próprio filho...como amo Scorpius. De olhar para ele todos os dias e ver em seu rosto a cópia do pai dele...e o que Harry me fez...De não conseguir ser uma boa mãe – as palavras iam saindo de mim como se uma força misteriosa as arrancasse à força.
-Você vai ser uma boa mãe. – respondeu, com a mesma convicção com que ele dava suas ordens: indubitável.
-Você...não tem como saber.
-Sim, eu sei. E você também deveria saber.
Sem saber como, nem porque, eu o abracei. Na verdade, eu nem mesmo sabia explicar como aquilo havia acontecido: em um momento eu estava falando com ele, e no próximo eu estava abraçando-o.
Não pensei em quanto tempo fiquei assim, até que uma leve pontada na minha barriga fez com que nos separássemos.
-Você...sentiu? – perguntei, diante da expressão assustada de Draco.
-Sim. – assentiu.
Olhei em seus olhos e notei, pela primeira vez, que a claridade aumentava. Estava amanhecendo, e os minutos que me restavam estavam diminuindo como grãos de areia em uma ampulheta.
-Você precisa ir – eu disse, e notei que era esse o pensamento que ele tinha em mente.
Draco colocou a mão sobre a minha barriga, e senti aquela forma de carinho tão especial, de dentro para fora, de uma maneira que eu jamais conseguiria explicar.
-Eu a salvaria, se pudesse – ele disse.
Eu não sabia se ele se referia a mim ou ao bebê, mas me senti feliz da mesma forma.
-Eu sei – disse, para confortá-lo. – Agora vá.
Ele pareceu confuso a princípio, mas seus instintos de comensal prevaleceram. Ele se levantou rapidamente, recompondo a expressão fria de seu rosto, e chamou a elfo, dando ordens apressadas.
Enrolei Scorpius na manta que o protegia, enquanto Draco vestia uma camisa e um terno.
-Há uma mala na segunda porta do guarda-roupas – eu disse. – Tem roupas para você e para Scorpius aí.
Ele pegou a mala, e me olhou de esguelha. Fingi não ver.
Tirei do meu pulso um pingente escuro que eu sempre trazia comigo. Amarrei-o ao pulso de Scorpius.
-Meu pai me deu essa pedra. Não há tempo para explicar, mas ela confunde o rastro deixado pela magia. Vai manter vocês fora de confusão por uns tempos.
-Acha que... – ele começou.
-Sim. Acho que foi por isso que conseguimos ficar tanto tempo longe dos radares do ministério. Sempre achei que não funcionava...até agora.
Assim que terminei de amarrar a corrente, Draco pegou o menino no colo, ainda adormecido. A elfo doméstico que havia me feito tanta companhia estava com os olhos cheios de água. Sorri para ela.
-Agora – eu disse – isso é muito importante. Não aparate! Deixe que Pandora os leve até um local seguro. Vão rastreá-lo e chegarão antes de você se aparatar.
Draco assentiu. Dei uma última olhada para Scorpius, adormecido, e então suspirei.
-Vá, Pandora.
Harry´s POV
Meus passos ecoavam pelos corredores vazios de um sobrado qualquer na Espanha.
Eu não podia acreditar que finalmente veria Ginny outra vez.
Minha pulsação estava acelerada e, atrás de mim, eu podia sentir a presença dos outros comensais.
Entrei na segunda porta à esquerda. O sol começava a iluminar o quarto, mobiliado em tons pastéis e sem personalidade.
Seus cabelos foram a primeira coisa que eu avistei. Caindo como ondas flamejantes sobre os travesseiros, nos quais ela se recostava. Seu cheiro doce e quente parecia tomar conta do cômodo, mas sua respiração era um pouco pesada.
Subitamente ela abriu os olhos castanhos, tão profundos como eu me lembrava de terem sido.
Mas havia algo errado.
Não havia o calor e a receptividade que eu esperava encontrar. Das quais eu sentira tanta falta.
Ao invés disso, estavam uma frialdade e um ódio que eu não esperava ver.
Ela se descobriu, deixando à mostra seu corpo.
E, pela primeira vez, percebi que os motivos que a levaram a fugir de mim eram maiores do que eu poderia supor.
Draco´s POV
Senti a falta de Ginevra como jamais pensei que sentiria.
A princípio, eram as decisões cotidianas e as centenas de pequenas coisas que tinham de ser feitas para tornar a pequena casa no sul da Itália onde nos alojamos um local habitável.
Eu nunca havia pensado em como aquilo era trabalhoso. Nunca antes eu tivera de me preocupar com isso; e eu havia pensado que ter um elfo resolveria a questão.
Mas Pandora nunca fazia nada sem que eu ordenasse, de forma que, grande parte do tempo, a casa era uma bagunça.
Passei muito tempo criando feitiços de proteção ao redor da casa, evitando a percepção de que a ausência de Ginevra era como uma presença sólida meu lado o tempo todo.
Scorpius também sentia falta dela. Nos primeiros dias, seu choro podia ser ouvido metros e metros fora de casa. Ele se tornara uma criança irritadiça. E o fato de Pandora afirmar que " a Senhora não fazia isso" ou "a Senhora não gostava daquilo" não contribuía em nada na minha resolução de esquecê-la.
O fato era que, dia após dia, eu descobria as coisas que Ginevra fazia e das quais eu não tinha sequer noção. Sentia falta de sua presença silenciosa ao meu lado, quando eu lia o jornal ou estava bravo demais para fazer qualquer coisa que não fosse encarar a parede. Normalmente, nesses momentos, ela me oferecia um copo de firewhiskey que eu não a notava preparar e se sentava ao meu lado, sem dizer uma palavra, até que eu esquecia o que quer que fosse que havia me enfurecido e voltasse a me comportar como um homem civilizado.
Eu nunca havia sequer parado para pensar, mas ela preparava o meu banho, e separava as roupas que eu usaria. Eu, que sempre me orgulhara de ser tão independente, subitamente me vi amarrado à vida de uma garota simples e delicada, aparentemente sem valor, como uma porcelana que fora quebrada.
A medida em que os dias passavam, eu me sentia mais e mais preocupado com a falta de notícias. Passei a me arriscar a encontrar bruxos em lugares obscuros em busca de informações que me dissessem o que havia sido feito de Ginevra – se estava viva ou morta.
Mas, ao contrário do que eu esperava, a passagem do tempo não fazia com que sua imagem se borrasse em minha memória. Ao contrário, ela parecia se tornar mais viva, ressaltada, como se tivesse sido gravada em minha carne com sangue e ferro quente.
E eu empurrava para o fundo da mente a consciência de minha covardia em deixá-la, e do sentimento que me apunhalava.
N/A: Tcharammmmm!
O capítulo finalmente saiu. E eu adorei escrevê-lo. Sério.
Sei que eu demorei, mas também me esforcei bastante para que ficasse bem feito. E Draco e Ginny começaram a aparar as arestas, as coisas estão esquentando. Espero que gostem!
Kisses, Angel.
KAit Weasley: Muito obrigada por todas as reviews. Seu entusiasmo me contagiou, e fui obrigada a me sentar (mesmo quase sem tempo para nada ) e fazer sair alguma coisa. Bem, foi isso que saiu. Espero que não se decepcione. E é claro...sua opinião se tornou muito importante para mim. Espero pela sua review e, claro, espero que goste. XOXOX
Gaia-sama: Sim...Draco não queria se envolver com ninguém...entretanto, o sofrimento de Ginny, a proximidade entre eles e, claro, a solidão os aproximou. E o bebe de Ginny também é um pouco órfão...Draco sente isso, por isso se aproxima do bebe! As crianças é que estão ajudando os dois a não se perderem de si mesmos. Espero que o capítulo tenha valido a pena. Bjuxx
WeasleyBR: Muito obrigada pela review...espero que tenha gostado. Kisses
Biela Bells: Obrigada por puxar meu saco...isso com certeza me judou bastante. Nada como um ego inflado pra fazer a gente escrever mais e mais rápido. Acho que Deus tocou mesmo meu coração. Beijosss e espero que goste.
Bia Malfoy-84: Muito obrigada...os dias de sol estão chegando. Devagar, e um de cada vez. Mas já é alguma coisa. Espero que tenha gostado do capítulo. As vezes, quando escrevo, tenho uma noção tão exata do que deve acontecer, que acho que alguma coisa acaba sendo esquecida na emoção de escrever. É ótimo ter a opinião de outra pessoa - principalmente quando a opinião é positiva - pra gente poder se localizar. Bjinhuxx de luz pra vc também.
